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Respeito à memória e luta por espaço marcam início de mandato das primeiras vereadoras pretas no Rio após assassinato de Marielle Franco7 min read

Mulheres, pretas e de esquerda, elas comentam rotina na Câmara Municipal do Rio | Ilustração: Victoria Sacagami

Tainá de Paula (PT) e Thais Ferreira (PSOL) foram as únicas mulheres pretas de esquerda eleitas na primeira eleição após a morte da vereadora do Rio e falam à Gênero e Número sobre os primeiros meses de mandatos e suas principais pautas

Por Lola Ferreira*

Há três anos a única vereadora preta da cidade do Rio de Janeiro, Marielle Franco, foi assassinada em um crime ainda sem respostas. Na primeira eleição municipal após aquele 14 de março de 2018, apenas duas mulheres pretas foram eleitas para a Câmara do Rio de Janeiro. Um número muito abaixo do esperado pelos movimentos sociais, devido à enorme mobilização dos anos anteriores e ao feito inédito conquistado nas eleições gerais de 2018, quando foram eleitas três pretas como deputadas estaduais e uma como deputada federal. 

Naquele ano, cinco meses após a morte de Marielle, cinco projetos de lei de sua autoria foram aprovados, sempre com foco nos direitos das mulheres, pessoas negras e faveladas. Hoje, Tainá de Paula (PT) e Thais Ferreira (PSOL) dividem suas primeiras impressões sobre o início de seus mandatos, que não têm somente a missão de criar políticas públicas para a capital fluminense, mas também serem força para milhares de mulheres negras que, há três anos, sentem que sua representação política foi maculada. 

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E ainda serem tão poucas faz Tainá classificar os resultados da eleição como uma “decepção eleitoral”. A vereadora cita como um sopro de esperança a decisão para que haja tempo de TV e recursos financeiros proporcionais para candidatos negros, uma vitória obtida após movimentação inicial da deputada federal Benedita da Silva (PT), mas lamenta esse fato não ter sido revertido em votos. Ela avalia que há quem jogue contra as mulheres negras ainda dentro dos partidos.

“Para mim fica claro que dirigentes de partidos ainda estão distantes de entenderem a importância da representação de pessoas negras porque estão distantes da realidade da população. E fundamentalmente mulheres negras, que estão em vulnerabilidade, na base da pirâmide social e têm trajetórias como a minha.”

[+] Leia mais: “Quando o Estado não resolve o caso Marielle, está dizendo: ‘podem matar mulheres políticas, que nós não vamos investigar'”

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Thais analisa um outro efeito desse distanciamento. Para a vereadora, estar na Câmara Municipal depois da passagem de Marielle por ali faz com que o racismo de seus pares seja exposto: há uma confusão entre as duas vereadoras pretas de esquerda e um movimento constante de associarem ambas à Marielle. 

O problema, claro, não é ser associada à Marielle de uma forma positiva, mas sim a lógica racista de que “todas as pretinhas são iguais”. A palavra de ordem, portanto, é responsabilidade.

“Aumentou a minha noção de responsabilidade, justamente por esse compromisso que temos com a verdade e o respeito pela memória de Marielle. Não vamos usá-la para nenhum ganho político nem capitalizar em cima dessa questão. A responsabilidade é saber que vão fazer essa associação, estarmos conscientes disso, e também criar estratégias para chamar a atenção para o caso, que continua sem respostas. Ao mesmo tempo, saber que este lugar que ocupamos não pode ser reafirmado de maneira leviana”.

Compromissos

Tainá de Paula classifica como “dificílimo” este cenário de dupla responsabilidade: com o trabalho e com a representação. Nesses meses de mandato, diz, tenta articular ambas as frentes, para jamais se afastar da base de eleitores, principalmente nas zonas oeste e norte, onde teve votação mais expressiva.

“Nossa tarefa nesses locais é focada na responsabilidade social de fazer a devolutiva para essa população. Então falamos de água, damos um suporte de assistência social, vamos de bairro em bairro construindo as políticas. E isso a partir do diálogo que já temos com essas áreas, fiscalizando equipamentos públicos, vendo quais são as demandas. Um trabalho de fiscalização direta e de acompanhamento direto do nosso povo”, define a vereadora.

Thais concorda. “Eu acho que é um desafio da gente conseguir construir a nossa identidade mas também dar conta desse anseio de representação, dar conta desse lugar de legado que também é uma responsabilidade. Minha trajetória é de respeito e continuidade, e quando atrelada à Marielle, eu tenho cuidado, porque não é só ser semente, mas também cultivadora saudável daquela terra”.

A vereadora pontua, também, que não sente medo de morrer por ocupar uma cadeira na Câmara Municipal (“mas eu confesso que deveria!”). O medo, diz, é anterior à decisão de ter um cargo político. 

“Eu tenho medo como mulher preta, pobre, periférica e mãe. Como minha mãe, avó e bisavó tiveram, porque a gente já nasce no risco, a gente já nasce com a marca que vai colocar à margem de tudo. Lógico que existe um agravamento, mas o medo primário é esse medo de ser mulher preta. Estou vereadora, mas não sou vista como vereadora quando transitando no meu bairro: sou vista como frágil e que pode ser morta por um motivo que não é nem político”.

Políticas públicas

Tainá de Paula é presidente da Comissão de Assuntos Urbanos e vice-presidente da Comissão de Representação para Estudos e Avaliação do Vigente Plano Diretor Urbano Sustentável do Município do Rio de Janeiro. Revisado a cada 10 anos, o plano diretor interfere diretamente em uma de suas principais bandeiras: o acesso à cidade. “Este instrumento – se construído democraticamente – vai auxiliar a reduzir as desigualdades e garantir direitos como moradia mais digna, acesso a saneamento básico e a mobilidade urbana mais adequada para todas e todos”, defendeu em publicação em sua rede social.

Sem esmorecer, ela destaca como ainda sente falta desse olhar para o racismo e exclusão nos projetos apresentados na casa pela maioria dos seus colegas de Casa. “É uma pauta muito sub-representada. Os projetos de lei não saem com referências a essas questões sociais e são todos datados, isentos dos marcos regulatórios que falam dessa discussão. Existe, para além da sub-representação, uma incapacidade dessas figuras eleitas, em sendo a maioria homens brancos de classe média alta, compreenderem que não estão dando conta de pautas importantes para nós”, avalia. 

A mesma percepção é compartilhada por Thais. Presidente da Comissão da Criança e do Adolescente do Município do Rio de Janeiro, ela reafirma seu compromisso com a pauta de infância e adolescência, além da luta para que não seja mais desconhecida e elitizada. “Nosso papel é fazer educação política para tratar os problemas sociais desde a infância. Hoje há um desinteresse, porque só se ganha voto quando se fala de creche. Mas é além disso: precisamos dar suporte para quem está de fato responsável pela infância nas favelas.. E política pública só se faz com participação popular, e esse é o grande temor de quem não se interessa por esse assunto. A nossa grande missão é criar políticas intersetoriais, não só de educação”. 

*Lola Ferreira é repórter da Gênero e Número

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