Sete a cada dez gestantes diagnosticadas com sífilis congênita tarde demais são negras

20 de novembro de 2025

Dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação do Ministério da Saúde (Sinan) levantados pela Gênero e Número revelaram uma forma de racismo médico recorrente no pré-natal das mulheres negras. Mesmo fazendo o acompanhamento regular da gestação, as gestantes com sífilis dificilmente são diagnosticadas durante as consultas e tratadas adequadamente antes do parto.

A sífilis, uma infecção sexualmente transmissível, pode ser detectada na primeira consulta por testes simples e é chamada, nas gestantes, de sífilis congênita, por poder ser transmitida ao bebê. Se diagnosticada e tratada de forma apropriada, contudo, as chances de a mulher passar a doença para seu filho durante a gravidez ou o parto são quase nulas.

Uma informação animadora, não fosse o fato de que 76% das gestantes brasileiras que fazem o pré-natal e só são diagnosticadas após o nascimento do bebê são negras – assim como sete a cada dez mulheres que recebem diagnóstico de sífilis congênita e não têm tratamento adequado.

Ou seja: além de não receberem o tratamento de que precisam para garantir sua saúde, essas mulheres perdem a chance de praticamente zerar a possibilidade de transmissão para seus filhos, perpetuando a sífilis congênita como uma questão de saúde atravessada por raça.

Em uma entrevista que aprofunda os dados aqui apresentados, a ginecologista e obstetra Larissa Cassiano, mestra pela USP em gestação de alto risco, ressalta: “Acredito que o diagnóstico não é feito nessas mulheres pelo racismo. Não vejo outro motivo. O teste é simples, faz parte da rotina de qualquer pré-natal”.

A falta de diagnóstico e tratamento adequado para a sífilis congênita é, portanto, uma faceta ainda pouco discutida do chamado racismo obstétrico – termo cunhado pela antropóloga Dána-Ain Davis para descrever como o racismo se manifesta de forma específica na assistência à gestação e ao parto de mulheres negras, como mostra esta outra reportagem.

O especial sobre racismo obstétrico, a entrevista com a obstetra Larissa Cassiano e esta reportagem visual são parte de nossa série Juntas pelo Bem Viver, uma iniciativa da Coalizão de Mídias Negras e Feministas. Fique por dentro dos demais conteúdos da série.

Prevalência de casos de sífilis congênita por raça

68%

dos casos

Mulheres negras representam 63% das gestantes, mas 68% dos casos de sífilis congênita, o que indica uma sobrerrepresentação do grupo.

63%

das gestantes

33%

Entre brancas, há uma

sub-representação dos casos

23%

8%

2%

brancas

raça ignorada

negras

O pré-natal das mulheres negras tem mais erros de condução e de diagnóstico. É um reflexo do racismo que estrutura o cuidado e define quem é prioridade.”

 

Larissa Cassiano

ginecologista e obstetra, mestra pela USP em gestação de alto risco

82%

das gestantes realizaram pré-natal

Apesar de 82% das gestantes realizarem o pré-natal, o diagnóstico da sífilis congênita nem sempre é realizado antes do parto

Prevalência de casos de sífilis congênita por raça

68%

dos casos

Mulheres negras representam 63% das gestantes, mas 68% dos casos de sífilis congênita, o que indica uma sobrerrepresentação do grupo.

63%

das gestantes

33%

Entre brancas, há uma

sub-representação dos casos

23%

8%

2%

negras

brancas

raça ignorada

O pré-natal das mulheres negras tem mais erros de condução e de diagnóstico. É um reflexo do racismo que estrutura o cuidado e define quem é prioridade.”

 

Larissa Cassiano

ginecologista e obstetra, mestra pela USP em gestação de alto risco

82%

das gestantes realizaram pré-natal

Apesar de 82% das gestantes realizarem o pré-natal, o diagnóstico da sífilis congênita nem sempre é realizado antes do parto

Prevalência de casos de sífilis congênita por raça

Mulheres negras representam 63% das gestantes, mas 68% dos casos de sífilis congênita, o que indica uma sobrerrepresentação do grupo.

63%

das gestantes

negras

68%

dos casos

33%

brancas

23%

Entre brancas, há uma

sub-representação dos casos

raça ignorada

2%

8%

O pré-natal das mulheres negras tem mais erros de condução e de diagnóstico. É um reflexo do racismo que estrutura o cuidado e define quem é prioridade.”

 

Larissa Cassiano

ginecologista e obstetra, mestra pela USP em gestação de alto risco

82%

das gestantes realizaram pré-natal

Apesar de 82% das gestantes realizarem o pré-natal, o diagnóstico da sífilis congênita nem sempre é realizado antes do parto

Momento do diagnóstico da sífilis congênita

1

2

3

durante

o pré-natal

No momento do

parto/curetagem

após

o parto

+10p.p.

[pontos percentuais]

73%

76%

66%

-10p.p.

-1p.p.

27%

7%

6%

6%

20%

17%

1

2

3

1

2

3

1

2

3

brancas

negras

raça ignorada

Entre mulheres negras, há um aumento de 10 pontos percentuais entre o diagnóstico feito durante o pré-natal (momento ideal) e após o parto (pior momento). Entre brancas, há um descréscimo de 10 p.p.

O ideal é que o teste seja feito em três momentos: na primeira consulta do pré-natal, no terceiro trimestre e no parto. Quando isso não acontece, o diagnóstico só aparece durante a internação para o parto, o que reduz as chances de prevenção. Se a sífilis for diagnosticada e tratada antes, as chances de o bebê não nascer com a doença é de quase 100%. ”

 

Larissa Cassiano

ginecologista e obstetra, mestra pela USP

em gestação de alto risco

TRATAMENTOS

adequado

62% negras

30% brancas

7% raça

ignorada

Quando a gestante toma ao menos três doses de penicilina benzatina e há queda de dois a três títulos no exame VDRL

-7p.p.

+8p.p.

inadequado

70%

23%

7%

Se a mulher não completou as três doses ou ou se a última dose não teve intervalo de pelo menos um mês antes do parto

-2p.p.

+1p.p.

não realizado

8%

68%

24%

Tratamento não realizado em nenhum momento

Entre mulheres negras, há um aumento de 8 pontos percentuais quando comparamos tratamentos adequados aos inadequados. Entre brancas, há um decréscimo de 7 p.p.

Fonte Sinan - Sífilis Congênita

Momento do diagnóstico da sífilis congênita

2

1

3

durante

o pré-natal

No momento do

parto/curetagem

após

o parto

+10p.p.

[pontos percentuais]

73%

76%

66%

-10p.p.

-1p.p.

27%

7%

6%

6%

20%

17%

1

2

3

1

2

3

1

2

3

brancas

negras

raça ignorada

Entre mulheres negras, há um aumento de 10 pontos percentuais entre o diagnóstico feito durante o pré-natal (momento ideal) e após o parto (pior momento). Entre brancas, há um descréscimo de 10 p.p.

O ideal é que o teste seja feito em três momentos: na primeira consulta do pré-natal, no terceiro trimestre e no parto. Quando isso não acontece, o diagnóstico só aparece durante a internação para o parto, o que reduz as chances de prevenção. Se a sífilis for diagnosticada e tratada antes, as chances de o bebê não nascer com a doença é de quase 100%. ”

 

Larissa Cassiano

ginecologista e obstetra, mestra pela USP em gestação de alto risco

TRATAMENTOS

adequado

62% negras

30% brancas

7% raça

ignorada

Quando a gestante toma ao menos três doses de penicilina benzatina e há queda de dois a três títulos no exame VDRL

-7p.p.

+8p.p.

inadequado

70%

23%

7%

Se a mulher não completou as três doses ou ou se a última dose não teve intervalo de pelo menos um mês antes do parto

-2p.p.

+1p.p.

não realizado

8%

68%

24%

Tratamento não realizado em nenhum momento

Entre mulheres negras, há um aumento de 8 pontos percentuais quando comparamos tratamentos adequados aos inadequados. Entre brancas, há um decréscimo de 7 p.p.

Fonte Sinan - Sífilis Congênita

Momento do diagnóstico da sífilis congênita

1

2

3

durante

o pré-natal

No momento do

parto/curetagem

após

o parto

+10p.p.

[pontos percentuais]

73%

76%

66%

1

2

3

negras

Entre mulheres negras, há um aumento de 10 pontos percentuais entre o diagnóstico feito durante o pré-natal (momento ideal) e após o parto (pior momento). Entre brancas, há um descréscimo de 10 p.p.

-10p.p.

27%

20%

17%

1

2

3

brancas

-1p.p.

7%

6%

6%

1

2

3

raça ignorada

O ideal é que o teste seja feito em três momentos: na primeira consulta do pré-natal, no terceiro trimestre e no parto. Quando isso não acontece, o diagnóstico só aparece durante a internação para o parto, o que reduz as chances de prevenção. Se a sífilis for diagnosticada e tratada antes, as chances de o bebê não nascer com a doença é de quase 100%. ”

 

Larissa Cassiano

ginecologista e obstetra, mestra pela USP em gestação de alto risco

TRATAMENTOS

adequado

Quando a gestante toma ao menos três doses de penicilina benzatina e há queda de dois a três títulos no exame VDRL

62%

negras

30%

brancas

7% raça

ignorada

inadequado

Se a mulher não completou as três doses ou ou se a última dose não teve intervalo de pelo menos um mês antes do parto

70%

23%

7%

não realizado

Tratamento não realizado em nenhum momento

68%

24%

8%

Entre mulheres negras, há um aumento de 8 pontos percentuais quando comparamos tratamentos adequados aos inadequados. Entre brancas, há um decréscimo de 7 p.p.

Fonte Sinan - Sífilis Congênita

METODOLOGIA

Os dados sobre sífilis congênita fazem parte do Sistema de Informações de Agravos de Informações (Sinan) e estão disponíveis no site do datasus. A manipulação da base, que ocorreu no programa R, contou com a junção de informações dos anos de 2019 a 2023. Além disso, foram feitas alterações em algumas categorias de variáveis, como o agrupamento de pretas e pardas em negras na resposta sobre a raça da mãe. Por fim, as categorias indígenas e amarelas foram analisadas, mas excluídas das visualizações em função do número absoluto pequeno e proporções que não alcançaram 1%.

EXPEDIENTE

Design de informação e coordenação de design
Victória Sacagami

Análise de dados
Diego Nunes da Rocha

Texto e edição
Bruna de Lara

Direção de conteúdo e revisão
Vitória Régia da Silva