Imagem: ilustração com foto de Marcelo Camargo/Agência Brasil

Violência doméstica agrava adoecimento crônico e sintomas no climatério

Pesquisa do HCFMUSP mostra que mulheres vítimas de violência apresentam quadros clínicos mais complexos na menopausa, com dores crônicas, disfunções sexuais e sintomas psicossomáticos que o sistema de saúde ainda não está preparado para identificar e tratar.

Mariana Rosetti

Paola Churchill

  • Décadas de perseguição e controle

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  • Quando o trauma se manifesta no corpo

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  • Doenças crônicas

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  • 'Sua mãe já está velha, daqui a pouco ela morre'

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  • Um problema ainda presente

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  • Reconstruir para seguir

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  • Sem resposta

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Aos 59 anos, Imilda Ferreira Lima transpira ao conversar com a reportagem. As ondas de quentura vêm sem aviso, fazendo o rosto da mestre Griot – guardiã da memória e tradição oral africana – corar e o suor escorrer pela face. São os fogachos, sensações súbitas e intensas de calor no corpo que ela conhece bem: convive com eles desde os 32 anos, quando o climatério – período de transição entre a vida reprodutiva e a não reprodutiva – chegou de forma precoce.

O corpo de Imilda simplesmente desligou. Não foi ao acaso.  “Os médicos foram claros comigo: tudo isso tem a ver com o estresse que eu passei [em um relacionamento abusivo]. A violência psicológica vai minando sua força, sua resistência, vai matando aos poucos, até que seu corpo adoece de verdade”, conta enquanto enxuga o rosto.

Um estudo recente do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HCFMUSP) revelou que o que aconteceu com Imilda não é exceção: a violência doméstica afeta profundamente a saúde de mulheres no climatério. Conduzida pela psicóloga e mestranda Débora Krakauer, a pesquisa mostra como os episódios de agressão física, sexual ou psicológica por parceiros íntimos estão relacionados a doenças ginecológicas, disfunções sexuais, transtornos psicológicos e até comorbidades crônicas, como hipertensão e diabetes.

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Segundo dados do Instituto DataSenado presentes no Mapa Nacional da Violência de Gênero, em 2025, estima-se que 23.632.380 mulheres – 27% dessa parcela da população – declararam já terem sofrido violência doméstica e familiar. Em 62% dos casos, o marido ou companheiro foi o agressor. O mapa, resultado de uma parceria da Gênero e Número, do Senado Federal e do Instituto Natura, é atualizado diversas vezes ao ano, com números de diversas bases de dados.

A alta incidência da violência de gênero no Brasil, aliada às descobertas da pesquisa de Débora Krakauer, evidenciam os abusos como uma questão que não deve ser restrita ao âmbito jurídico e criminal. E sim, tratada, também como . “uma questão de saúde pública”, afirma a psicóloga.

“A violência doméstica não causa apenas um hematoma, uma fratura, um olho roxo. Ela não vai terminar no momento em que termina os maus-tratos físicos. Ela se perpetua no dia a dia com o estresse psicológico”, explica Joele Leripio, ginecologista especialista em menopausa, pós-graduada em fisiologia do envelhecimento.

Estresse esse capaz de “alterar vias metabólicas hormonais, podendo piorar a pressão arterial e desenvolver diabetes”, entre outros problemas de saúde, pontua a médica. Sem essa compreensão, o atendimento ginecológico permanece fragmentado. “O sistema tende a tratar apenas sintomas isolados, sem investigar suas causas, o que leva ao subdiagnóstico da violência”, defende Débora.

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Décadas de perseguição e controle

Imilda é a caçula de oito irmãos, filha de um pai desaparecido político e de uma mãe costureira e cozinheira que lutava sozinha para sustentar a prole. Seu adoecimento começou muito antes da menopausa precoce, quando deixou Serra de Sossela, no Sul do Brasil, e mudou-se com a família para Poá, na região metropolitana de São Paulo, aos 13 anos.

No mesmo período, conheceu o namorado Gilberto* que, desde o início, apresentava sinais de controle. O primeiro foi quando pediu para namorar Imilda à mãe dela, sem ouvir o que ela própria queria ou pensava. Em outro episódio, presenteou Imilda com uma saia e depois pediu à sogra que mentisse que a peça tinha manchado na lavagem. A justificativa do rapaz: “Suas pernas são muito bonitas, e todo mundo olha para você”. Quando a jovem tentava terminar, a mãe pressionava: ele era “homem para casar”. 

A situação se tornou insustentável quando Imilda o flagrou se envolvendo com sua mãe. O término definitivo, contudo, não representou paz. Ele a perseguiu durante décadas, aparecendo em lugares onde ela estava com os filhos, sempre observando. Fez isso até dias antes de morrer, há três anos.

O estresse crônico, a vigilância e a ameaça constantes fizeram o corpo de Imilda colapsar. Aos 30 anos, tinha hemorragias, dores e sintomas até então inexplicáveis.

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Percorreu diversos especialistas até chegar ao veredicto: menopausa aos 32 anos. “Mas aí já tinham passado quase 10 anos de sintomas. E eu fiquei com todas as sequelas por causa do diagnóstico tardio.” Uma delas foi a fibromialgia, uma síndrome caracterizada por dor crônica generalizada. 

Foi um reumatologista quem finalmente conectou os pontos. “Ele falou: ‘A senhora tem noção de que tudo isso tem a ver com o estresse que passou?’. A menopausa precoce, a fibromialgia, tudo tem relação com o estresse emocional crônico.”

Foi quando caiu a ficha: mesmo com a morte do agressor, a violência persistia inscrita no corpo dela.

Quando o trauma se manifesta no corpo

O que aconteceu com Imilda tem nome: psicossomática, uma ciência que estuda como fatores psicológicos (emoções, estresse, traumas) afetam a saúde física. A pesquisa do HCFMUSP, intitulada “Sexualidade e saúde mental da mulher climatérica vítima de violência doméstica”, investigou exatamente essa relação. 

O estudo avaliou 100 mulheres entre 40 e 65 anos – metade vítimas de agressões em diferentes momentos de vida, metade sem esse histórico – e revelou diferenças alarmantes.

Mulheres que sofreram violência apresentaram taxas mais altas de endometriose (28% contra 10%), infecções ginecológicas (32% contra 10%), incontinência urinária (58% contra 26%) e dor pélvica – esta última afetava 82% das vítimas, contra 26% do grupo que não sofreu abusos. 

Também foram constatadas diferenças significativas quanto às queixas de vaginismo (42% contra 6%), que é “uma alteração da musculatura do assoalho pélvico, caracterizada por contração involuntária dos músculos vaginais”, explica Joele. O mesmo acontece com a dispareunia (46% contra 22%) – dor genital persistente ou recorrente durante ou após a relação sexual – e o desconforto sexual (76% contra 46%).

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“Hoje, se sabe que há uma forte conexão entre traumas de violência doméstica e dor na relação sexual, dor e desconforto do assoalho pélvico”, afirma a ginecologista. 

“O trauma pode manter o corpo em estado constante de alerta, levando à contração involuntária da musculatura, hipersensibilidade e dor. No climatério, a queda hormonal pode intensificar esses sintomas, somando fatores físicos da falta hormonal aos emocionais.”

Doenças crônicas

A servidora pública Renata* é prova de que os impactos da violência na saúde podem ultrapassar a esfera ginecológica. À reportagem, ela enumera parte dos diagnósticos que acumulou: diabetes, hipertensão, endometriose, ovários policísticos, fibromialgia, depressão, entre outros.

Tratava cada um deles com um médico diferente. Foi já perto dos 50 anos que sua psicóloga mencionou uma possível conexão com as violências que sofreu. 

Vítima de abuso sexual dos 7 aos 15 anos, Renata desenvolveu depressão ainda na adolescência. Entrou no climatério aos 47, durante a pandemia de covid-19, quando também foi diagnosticada com fibromialgia, “uma dor nas pernas que parece que você está pisando em brasa”, descreve. 

Toda a situação era uma bomba emocional: seu corpo passava por mudanças,  seu convívio social tinha restrições severas e, para completar, seu então marido a constrangia por ter engordado 17 kg. “A violência psicológica foi muito grande. Ele sempre foi gordofóbico”, conta. 

Com o passar dos dias, “eu ia piorando de todas essas doenças, sentia muito calor, um desânimo profundo e muita dor no baixo ventre”, o que, além de causar desconfortos intensos durante o sexo, a impedia de sentir prazer.

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O que viveu Renata apareceu no relato de várias mulheres que integraram a pesquisa conduzida por Débora: casos de diabetes foram nove vezes mais comuns entre as vítimas (18% contra 2%), e os de hipertensão arterial, quase o dobro (54% contra 32%).

“Aí entra a chave da psicossomática para explicar por que isso acontece. São mulheres que têm mais risco cardiovascular, de diabetes, de pressão alta, que tomam mais medicação psiquiátrica, mas são mulheres que têm muito mais queixas ginecológicas do que outras”, sintetiza Débora.

Tipos de violência de gênero

A Lei Maria da Penha define cinco tipos de violência contra a mulher:

Violência Física

É a mais visível, mas nem sempre a mais óbvia. Vai desde tapas, socos, empurrões e chutes até queimaduras, estrangulamento e uso de armas. Também é violência física trancar a mulher em casa ou impedi-la de sair.

Violência Psicológica

Muitas vezes invisível, é uma das mais difíceis de nomear. Inclui humilhações constantes, ameaças, chantagem emocional, ciúme controlador, isolamento de amigos e família e vigilância obsessiva sobre o que a mulher veste, onde vai ou com quem fala. O objetivo é corroer a autoestima e o direito de tomar decisões próprias.

Violência Sexual

Qualquer ato sexual sem consentimento, mesmo dentro do casamento ou de uma relação estável. Inclui pressão, intimidação e uso da força, mas também impedir o uso de anticoncepcional ou forçar uma gravidez. Não importa o vínculo afetivo: não é não.

Violência Patrimonial

Quando o dinheiro vira ferramenta de controle. Controlar o salário da parceira, impedi-la de trabalhar, destruir documentos pessoais, vender bens sem permissão ou cortar o acesso ao dinheiro da casa são formas de deixar a mulher em situação de dependência e vulnerabilidade.

Violência Moral

Acusações falsas de traição, exposição da intimidade, comentários depreciativos sobre o corpo, a vida profissional ou o comportamento. É a violência que age sobre a imagem e a reputação da mulher — muitas vezes na frente de outras pessoas, para aumentar o constrangimento.

'Sua mãe já está velha, daqui a pouco ela morre'

Aos 51 anos, durante uma conversa com a filha, Carol* soube que o ex-marido se referia a ela como “a velha”, tendo, inclusive, sentenciado: “Sua mãe já está velha, daqui a pouco ela morre”. Ela havia acabado de entrar no climatério.

O comportamento não era novidade. Durante dez anos de relacionamento, a violência patrimonial – quando o agressor controla, retém, subtrai ou destrói bens, documentos, dinheiro ou recursos econômicos da mulher, limitando sua autonomia financeira e material  –veio entrelaçada com a psicológica. Carol se ausentou da administração das duas empresas que tinha com o marido para se dedicar à gravidez. Foi o suficiente para os negócios falirem. O relacionamento terminou com Carol morando de favor e com dívidas em seu nome.

Ao mesmo tempo que sentia seu corpo mudar – desenvolveu uma condição em que a testa ficava extremamente vermelha e ardendo –, tentava reordenar a própria vida social e financeira, enquanto era vítima de violência psicológica. 

Para a psicóloga Maíra Freitas Barbosa, especialista em Saúde Pública e Políticas Públicas de enfrentamento às violências de gênero, o que viveu Carol representa uma cultura misógina, em que “o valor da mulher é frequentemente reduzido à sua capacidade reprodutiva. Sob essa lógica, o climatério representa a perda do que seria o seu ‘maior valor’ social”.

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Somado a isso, uma vida marcada por traumas psíquicos é agravada pelas intensas mudanças hormonais, físicas e emocionais da maturidade. Esse cenário se torna ainda mais complexo quando cruzado com marcadores de raça e classe, além dos desafios do etarismo no mercado de trabalho", pontua.

Isso também é visto nos estudos conduzidos por Débora, em que 80% das mulheres vítimas de violência relataram ter sofrido algum episódio de agressão psicológica ao longo da vida. Além de 74% ter relatado violência física e 66% sexual, 90% dos casos foram de episódios recorrentes ao longo do tempo. Em 48% das situações, a violência foi perpetrada por um familiar.

Quando “assumimos que existem implicações físicas reais e comprováveis, retiramos da violência psicológica o caráter ’individualizante’ ou de ‘invisibilidade’. A violência de gênero não é um problema privado ou isolado; ela está enraizada nas relações sociais e comunitárias", define Maíra.

Carol resume: “Você tem um turbilhão de emoções da menopausa, com a falta de hormônio. E você tendo gatilhos da violência junto com isso. É devastador.”

Um problema ainda presente

Os casos de Imilda, Renata e Carol não estão no passado, são representações de uma violência sistemática que atinge mulheres de todas as idades. Dados do Mapa Nacional da Violência de Gênero – parceria da Gênero e Número, do Senado Federal e do Instituto Natura – mostram que, em 2025, a violência contra mulheres seguia como um problema estrutural que afeta a rotina, o trabalho e as relações sociais das vítimas.

Entre as mulheres que declaram ter sofrido violência nos últimos 12 meses, 58% afirmam que os episódios são recorrentes e acontecem há mais de um ano. Em relação à violência mais grave que sofreram, 69% das vítimas tiveram sua rotina diária afetada, 68% seu convívio com outras pessoas, 46% sua vida profissional ou trabalho remunerado e 42% seus estudos.

Esses dados, além de estarem presentes no Mapa, têm como base um levantamento do DataSenado em parceria com o Observatório da Mulher contra a Violência (OMV) que existe desde 2005. A coleta de informações foi utilizada para subsidiar a elaboração da Lei Maria da Penha, sancionada no ano seguinte, e constitui a série mais longa sobre o tema no Brasil.

Entre as mulheres que declararam ter sofrido violência nos últimos 12 meses, 58% afirmam que os episódios são recorrentes e acontecem há mais de um ano. Em relação à violência mais grave que sofreram, 69% das vítimas tiveram sua rotina diária afetada, 68% seu convívio com outras pessoas, 46% sua vida profissional ou trabalho remunerado e 42% seus estudos.

A pesquisa aponta ainda uma diferença importante entre violência declarada e violência vivenciada. A primeira refere-se às mulheres que responderam “sim” à pergunta se sofreram violência doméstica nos últimos 12 meses. A segunda refere-se às mulheres que responderam “não” à mesma pergunta, mas responderam ter vivenciado uma ou mais das 13 situações de violência da pesquisa no mesmo período.

Isso acontece, porque nem todas as situações são prontamente percebidas como violência. O levantamento mapeou que, a cada dez mulheres, três declararam ou vivenciaram situações de violência, o que representa 33% das mulheres ouvidas. Desse total, 4% sofreram violência declarada e 29% violência vivenciada.

Uma das constatações mais importantes da pesquisa de Débora é a complexidade clínica das mulheres vítimas que chegam ao atendimento ginecológico.

Elas não vêm apenas para exames de rotina, mas "chegam com um quadro clínico gigantesco", resume a psicóloga. Na sua percepção, o sistema de saúde brasileiro não está preparado para essa complexidade.

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O resultado é que essas mulheres são frequentemente rotuladas como “hiperqueixosas”, quando, na verdade, são mulheres traumatizadas que precisam de atenção especializada. Para Maíra, é fundamental um acompanhamento integral de saúde, com foco na saúde mental. 

“É fundamental que as mulheres recebam suporte para nomear as violências vividas — sejam elas físicas, psicológicas, mas também as violências institucionais. Muitas vezes, a “permanência” da violência no corpo ocorre, porque ela não foi devidamente acolhida por profissionais que deveriam estar aptos a identificar os sinais, mesmo os mais sutis, de abuso”, acrescenta. 

O resultado desse despreparo profissional é que muitas mulheres acabam “achando que os sintomas são ‘normais da idade’, sentem vergonha de falar sobre o que estão vivendo ou colocam o cuidado com a família sempre em primeiro lugar, deixando a própria saúde para depois”, contribui a ginecologista Joele.

Reconstruir para seguir

Entre cuidar da saúde mental da filha e a própria, Carol fez uma escolha dolorosa. “Eu sei que preciso de psicólogo, mas entre um para mim e para ela, é para ela. Você abre mão de certas coisas para que seu filho possa caminhar.” Foi o trabalho como assessora de imprensa que “me salvou: pude sustentar minha filha e encontrei aquilo que me completa. Eles detonaram minha autoestima, mas eu reconstruí.”

Nos últimos anos, Imilda descobriu uma lesão pré-cancerígena na mama e iniciou tratamento oncológico. Toma medicação que suprime hormônios para prevenir o câncer. Hoje, atua como mestre Griot, usando sua experiência “para trabalhar com mulheres, para ajudar que elas comecem a se descobrir, a se cuidar. E faço questão de que os homens também participem, porque se não educarmos os homens, não vai haver mudança”.

Quando seu agressor morreu, há cerca de três anos, a reação de Imilda não foi de alívio – foi de revolta. “Achei que ele não tinha o direito de morrer assim. Porque ele falou que, se eu não casasse com ele, eu não ia casar com ninguém. E realmente não casei. A única coisa que eu queria era que ele soubesse que eu tinha sido feliz.”

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Para Imilda, quebrar o silêncio é fundamental. “Falar sobre isso liberta. E pode ser o primeiro passo para que outras mulheres também busquem ajuda.”

Questionada sobre como espera receber as pacientes no climatério daqui a 20 ou 30 anos, Débora se mostra cautelosamente otimista. Antes, nem se falava sobre menopausa, reposição hormonal ou violência no casamento. Hoje, há questionamentos, terapias hormonais eficazes e lugares especializados para violência doméstica, mesmo que ainda escassos e falhos. “Eu espero muito que daqui a 20, 30 anos a gente esteja em outro patamar”, conclui.

Sem resposta

A reportagem perguntou ao Ministério da Saúde se existem protocolos e políticas públicas que contemplem os impactos de longo prazo da violência doméstica na saúde física de mulheres no climatério. Também se existem diretrizes específicas para profissionais de saúde identificarem esse histórico nessa fase da vida, e quais lacunas a pasta reconhece nesse atendimento. 

O órgão afirmou que a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde das Mulheres (PNAISM) orienta ações que “integram o enfrentamento à violência e o cuidado em todas as fases de vida”, com foco em “escuta qualificada, vínculo, acolhimento e abordagem ampliada da saúde mental, sexual e reprodutiva, especialmente em fases de maior vulnerabilidade”.

Entre as iniciativas citadas estão as Salas Lilás — espaços exclusivos e humanizados dentro das unidades de saúde para atendimento de mulheres em situação de violência, com garantia de privacidade. Com foco em climatério e menopausa, explicou que existem manuais técnicos e cursos de qualificação para profissionais da atenção primária sobre os impactos físicos e emocionais. Além da adesão ao Pacto Nacional de Prevenção e Enfrentamento ao Feminicídio, descrito como “estratégia intersetorial” de combate às violências de gênero. 

A nota menciona ainda o “Guia Prático de Cuidado à Mulher em Situação de Violência” e articulações com a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN), voltada ao enfrentamento do racismo institucional no atendimento.

O ministério, contudo, não respondeu diretamente se os protocolos atuais preveem especificamente a intersecção entre violência doméstica e climatério, nem apontou quais lacunas identifica nesse atendimento. 

Também procuramos o Ministério das Mulheres, que nos direcionou ao da Saúde.

*Nomes fictícios para preservar a identidade das vítimas.

Se você está passando por uma violência, busque ajuda! 

Ligue 180 — Central de Atendimento à Mulher 

Gratuito, sigiloso, 24 horas por dia, todos os dias. Funciona por ligação, WhatsApp (61) 9610-0180 ou e-mail (central180@mulheres.gov.br). As atendentes orientam sobre direitos e indicam serviços na sua cidade. 

Em caso de perigo imediato

Voce pode acionar a Polícia Militar pelo 190, o SAMU pelo 192 ou o Corpo de Bombeiros pelo 193.

Delegacia da Mulher (DEAM) 

Em casos de violência é muito importante registrar um boletim de ocorrência e pedir medidas protetivas de urgência. Na ausência de uma DEAM, qualquer delegacia é obrigada a atender.

CREAS 

Oferece acompanhamento psicológico e social gratuito. Pode ser acessado diretamente, sem encaminhamento prévio. Para encontrar a unidade mais próxima, acesse gov.br ou a prefeitura do seu município.

Casas-abrigo 

Para quem precisa sair de casa com segurança: a localização é sigilosa e o atendimento integral. Você pode solicitar abrigo pelo CREAS, pela delegacia ou por outros serviços de assistência social.

Essa reportagem faz parte da série Quando o corpo guarda a violência, produzida com apoio do Fundo ELAS+ Doar Para Transformar e da Agence française de desenvolvimento (AFD). As ideias e opiniões nela expressas são de responsabilidade dos autores e não refletem, necessariamente, o ponto de vista do ELAS+ ou da AFD.

Expediente

Direção de conteúdo e revisão Vitória Régia da Silva
Reportagem Mariana Rosetti e Paola Churchill
Edição Bruna de Lara
Design e Infografia Carlos Carneiro
Checagem de dados Diego Nunes da Rocha

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Mariana Rosetti

Jornalista, repórter, produtora, fotógrafa e podcaster, com atuação focada em direitos humanos, meio ambiente e segurança pública, sempre pelas lentes de gênero. Investiga histórias que revelam desigualdades estruturais e amplificam vozes historicamente invisibilizadas. Já colaborou com veículos como Agência Pública, Revista AzMina, Portal Catarinas, Gênero e Número, Ecoa UOL, Mongabay Brasil e Repórter Brasil, além de sete anos trabalhados em televisão, como apuradora, produtora e chefe de reportagem. É fundadora do podcast Marias&Anas, que compartilhou vivências de mulheres diversas a partir de uma escuta sensível e crítica. Formada em Comunicação Social e Jornalismo, com pós-graduação em Direito Penal e Processo Penal.

Paola Churchill

Paola Churchill é jornalista e repórter freelancer com foco em gênero. Investiga como desigualdades estruturais afetam a vida das mulheres, seja na política, nas instituições, na cultura ou na tecnologia. Escreve para a Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo, BBC News Brasil, Marie Claire Brasil, Universa UOL, TAB UOL, Revista AzMina e Colabora. Seu trabalho combina investigação e escuta para contar histórias que ajudam a entender onde e como o poder opera sobre os corpos e as escolhas das mulheres.

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