Design de capa: Meyrele Torres | Foto: Foto: Eline Luz

Solitárias: Mulheres negras avançam nas urnas, mas seguem com a menor chance de chegar ao poder

Mesmo com avanços tímidos, dados revelam a exclusão estrutural e o alto custo de ocupar o poder — da violência política ao adoecimento psíquico.

  • O avanço que ainda é exceção

    ver mais
  • O custo de permanecer no poder

    ver mais
  • A melancolia do não pertencimento

    ver mais
  • Quando elas chegam, a política muda

    ver mais
  • Sem pluralidade, sem democracia

    ver mais

As mulheres negras são as pessoas com menor chance de transformar uma candidatura em mandato no Congresso Nacional. Embora representem cerca de 28% da população brasileira, apenas 29 conquistaram cadeiras na Câmara dos Deputados e no Senado nas eleições de 2022. A taxa de sucesso eleitoral desse grupo foi de apenas 1,5% – menos da metade da registrada entre mulheres brancas (3,5%) e quase seis vezes menor que a dos homens brancos (8,8%).

ler Receba nossos conteúdos no WhatsApp

O contraste é o principal diagnóstico do capítulo sobre participação política do estudo Da Marcha ao Bem Viver: uma década de avanços, desafios e disputas pelos Direitos das Mulheres Negras no Brasil, realizado pela Gênero e Número, pela Oxfam Brasil e pelo Observatório da Branquitude, em parceria com a Marcha das Mulheres Negras. 

Lançado em 14 de julho, o estudo mostra que houve avanços concretos na representação institucional, impulsionados por anos de mobilização do movimento negro e por mudanças nas regras de financiamento eleitoral. Contudo, eles não foram suficientes para romper as estruturas que mantêm as mulheres negras à margem dos espaços de decisão. 

O crescimento existe. O poder, porém, continua distribuído de forma profundamente desigual.

ler Assine nossa newsletter semanal

Prova disso é que a presença de mulheres negras no Congresso Nacional em 2022 mais do que dobrou em relação a 2018, passando de 14 para 29 parlamentares e de 17% para 31% entre as mulheres eleitas. Ainda assim, o dado está longe de indicar que o país tenha superado as barreiras históricas enfrentadas por esse grupo, como demonstra sua baixíssima taxa de sucesso eleitoral. 

Em 2018, o STF e o TSE determinaram que ao menos 30% dos recursos do Fundo Partidário e do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) sejam destinados às candidaturas de mulheres. Em 2020, o TSE estendeu o entendimento para garantir a aplicação proporcional desses recursos e do tempo de propaganda eleitoral às candidaturas de pessoas negras.

Já a Emenda Constitucional nº 111/2021 determina que os votos recebidos por candidatas mulheres e candidatos negros para a Câmara dos Deputados sejam contabilizados em dobro no cálculo da distribuição dos fundos partidário e eleitoral para a eleição seguinte.

ler Apoie a Gênero e Número

A efetividade dessas medidas depende do cumprimento das regras pelos partidos. Entre os desafios apontados está a persistência de fraudes, como as chamadas candidaturas laranjas. 

“Quando se mexe no dinheiro dos partidos, mais mulheres conseguem disputar eleições. Mas a legislação ainda é muito burlada. Muitas vezes, os recursos não chegam às candidatas ou precisam ser devolvidos internamente”, avalia a especialista em opinião pública Cila Schulman, à frente do Instituto de Pesquisa Ideia.

Em 2024, o TSE aprovou a Súmula nº 73, que estabelece critérios para identificar esse tipo de irregularidade, como votação zerada ou ínfima, ausência de movimentação financeira real e inexistência de atos efetivos de campanha. O reconhecimento da fraude pode levar à cassação de toda a chapa do partido.

Mesmo com os desafios, Schulman se mantém otimista. Ela acredita que as novas regras eleitorais podem ampliar a presença feminina nas eleições de 2026 – especialmente porque partidos com maior acesso ao fundo eleitoral passaram a recrutar mais mulheres no geral, e também mais mulheres negras.

Tainah Pereira, coordenadora política do Mulheres Negras Decidem, concorda que o próximo ciclo eleitoral pode representar um novo avanço para a representação de mulheres negras, especialmente no Senado.

“Nossa expectativa é que, a partir do ano que vem, tenhamos pelo menos três mulheres negras no Senado. Diante de uma Casa com 81 senadores, três ainda parece pouco. Mas significaria triplicar a bancada, uma vitória muito importante.”

ler Marcha das Mulheres Negras: PEC da Reparação e novas metas para 2026

O avanço que ainda é exceção

Poucas trajetórias sintetizam o paradoxo vivido pelas mulheres negras tão bem quanto a da deputada federal Carol Dartora (PT-PR). Em 2020, ela se tornou a primeira mulher negra eleita vereadora de Curitiba. 

Dois anos depois, entrou para a história novamente ao tornar-se a primeira mulher negra a representar, na Câmara dos Deputados, o Paraná – estado situado na região do Brasil que concentra um grande número de células neonazistas. Sua eleição simboliza um avanço inédito. Mas também evidencia o quanto ele ainda é exceção.

“Quando as pessoas pensam em um deputado federal, normalmente não imaginam alguém com o meu perfil”, disse à Gênero e Número. A percepção acompanha sua rotina em Brasília. Em um Congresso onde mulheres negras ainda ocupam 5% das cadeiras, Dartora relata que seu gabinete se tornou destino de demandas que raramente encontram interlocutores dentro das instituições. 

aspa

Existe um sufocamento das necessidades reais da população. Muitas vezes, acabo me tornando um canal para temas e grupos sociais que permanecem invisíveis para o Estado.”

ler Em favelas do Rio, mães sofrem com escassez de creches e pré-escolas

A experiência da parlamentar ajuda a explicar o desafio revelado pelos dados. O Brasil ampliou a presença de mulheres negras na política institucional ao longo da última década, mas continua oferecendo a elas as menores chances de eleição e um dos ambientes mais hostis para o exercício do mandato. 

Dez anos após a 1ª Marcha das Mulheres Negras levar 50 mil mulheres às ruas de Brasília, em 2015, que reivindicou a participação política dessas mulheres e a justiça racial, a democracia brasileira avançou timidamente na representação, e não conseguiu democratizar o acesso ao poder.

Nas eleições de 2022, apenas duas mulheres foram eleitas governadoras. Dessas, somente uma era negra: Fátima Bezerra (PT), reeleita no Rio Grande do Norte. Enquanto isso, homens permaneceram à frente de 25 dos 27 governos estaduais, evidenciando que os avanços registrados no Legislativo encontram limites ainda mais rígidos no Executivo.

Cila Schulman lamenta que, nas eleições de 2026, não existam mulheres negras competitivas na corrida pelos governos estaduais: “Isso revela muito sobre o funcionamento dos partidos. Eles continuam sendo hierarquias masculinas”. 

Segundo ela, esse cenário representa um retrocesso em relação a eleições anteriores, quando nomes como Marina Silva, Simone Tebet e Luiza Helena Trajano figuravam com maior protagonismo nacional. 

aspa

A gente não só patina. Em alguns aspectos, há um retrocesso.” 

ler É assim que estruturas partidárias influenciam quem consegue transformar candidatura em representação

Para a socióloga Marília Nascimento, pesquisadora do Instituto Update e especialista em gênero e participação política, esse cenário não decorre de uma ausência de interesse das mulheres negras pela política, mas do modo como o sistema distribui oportunidades.

“O fato de as mulheres serem maioria na população e minoria nos espaços de poder é reflexo de um modelo de sociedade baseado no racismo patriarcal heteronormativo, que coloca os homens brancos no centro da detenção desse poder”, afirma. 

De acordo com ela, a violência política de raça e gênero, somada às desigualdades no acesso a recursos partidários e às estruturas internas das legendas, produz um funil que dificulta a chegada de mulheres negras aos cargos de decisão.

ler Do algoritmo ao linchamento: como o discurso antigênero atinge alvos específicos no YouTube

Parte da dificuldade em compreender o comportamento eleitoral das mulheres decorre justamente da tendência de tratar esse grupo como um bloco homogêneo. Tainah Pereira, do Mulheres Negras Decidem, percebeu em seus estudos que, a cada eleição, um segmento específico passa a ocupar o centro das análises, enquanto as múltiplas identidades que atravessam o eleitorado permanecem invisibilizadas.

“Por um tempo, o grande tema das eleições foi o voto dos jovens. Depois veio o voto dos evangélicos e agora o voto das mulheres. Como se jovens mulheres evangélicas não existissem. Quando falamos de mulheres negras, precisamos olhar para essas interseccionalidades”, afirma Pereira.

ler “Nossa fé é em Jesus, e não nos líderes religiosos” diz Andressa Oliveira, membro do primeiro Comitê de Evangélicas da Marcha das Mulheres Negras

As décadas de experiência de Shulman sobre dados de reputação política apontam para a culpabilização inevitável dos partidos: para ela, uma das mudanças mais importantes seria alterar a própria estrutura interna das legendas. 

Ela cita como exemplo a proposta defendida por Simone Tebet de instituir paridade nas executivas nacionais: “É ali que muitas decisões são tomadas. Enquanto essas estruturas continuarem predominantemente masculinas, o avanço das mulheres continuará encontrando limites.”

Pereira reafirma que o principal gargalo continua sendo a estrutura partidária: “Falta iniciativa dos partidos para oferecer às mulheres negras condições reais de disputar eleições. Elas já são maioria entre as filiadas em muitas legendas, mas isso não significa que recebam recursos, visibilidade ou espaço para construir suas lideranças”.

ler Trinta partidos não atingiram a cota de candidatas em todos os municípios onde disputam as eleições

O custo de permanecer no poder

Chegar ao Parlamento não encerra a disputa. Para muitas mulheres negras, é quando ela começa. Se o estudo Da Marcha ao Bem Viver revela que elas continuam sendo o grupo com menor taxa de sucesso eleitoral do país, outro dado ajuda a explicar por quê. 

Um levantamento do Instituto Marielle Franco, citado no estudo, mostra que 98,5% das candidatas negras entrevistadas nas eleições municipais de 2020 relataram ter sofrido algum tipo de violência política. 

As formas mais recorrentes foram ataques virtuais e violência institucional, mas os relatos reunidos pela Gênero e Número mostram que a intimidação também atravessa o cotidiano de quem consegue vencer as urnas.

Na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), onde apenas cinco das 94 cadeiras são ocupadas por mulheres negras, a deputada estadual Paula Nunes (PSOL-SP) afirma que a violência deixou de ser uma exceção para se tornar parte da rotina parlamentar.

“Sem exceção, todas nós já fomos vítimas de violência política de gênero e de raça. Todas sofremos ameaças.”

Segundo ela, as agressões assumem diferentes formas: ataques coordenados nas redes sociais, constrangimentos em plenário, tentativas de deslegitimar seus mandatos e ameaças enviadas diretamente aos gabinetes. O objetivo, afirma, raramente é convencer. É desgastar.

ler Violência política contra mulheres

Na Câmara dos Deputados, Carol Dartora descreve um cenário semelhante, mas afirma que, para mulheres negras, a violência frequentemente ultrapassa os limites da disputa política:

aspa

Eles ameaçam me estuprar, ameaçam tacar fogo no meu gabinete, ameaçam destruir minha família.”

As ameaças, diz a parlamentar, procuram produzir um efeito específico: expulsar mulheres negras dos espaços institucionais, ainda que elas tenham sido legitimamente eleitas.

O Instituto Marielle Franco ouviu, em 2020, 142 candidatas negras e indicou que 98,5% delas sofreram violência política de gênero, sendo a virtual (78%) e a institucional (55%) as mais recorrentes.

ler Videocast Substantivo Feminino debate desinformação e violência política de gênero

O estudo Da Marcha ao Bem Viver sustenta que ampliar a representação política exige mais do que aumentar o número de candidaturas. Exige criar condições para que essas mulheres possam disputar eleições, exercer seus mandatos e permanecer na política sem que a violência funcione como instrumento permanente de silenciamento. Enquanto isso não acontece, a democracia brasileira continua impondo às mulheres negras um custo que não é cobrado de nenhum outro grupo na mesma intensidade.

A violência política de gênero, o acúmulo de tarefas domésticas e de cuidados e a falta de apoio de colegas de partido foram apontados por Cila Schulman como impedimentos para a permanência das mulheres na política. 

Já Tainah Pereira reforça que o debate sobre violência política de gênero e raça avançou significativamente na última década, mas que é preciso um trabalho de prevenção:

“Para que a violência deixe de ser um lugar comum para mulheres na política, a política precisa se feminilizar. E, para ampliar a presença de mulheres negras, é preciso investimento.”

ler Do algoritmo ao linchamento: como o discurso antigênero atinge alvos específicos no YouTube

Para a socióloga Marília Nascimento, interpretar esses episódios como casos isolados significa ignorar a forma como o sistema político brasileiro funciona. Segundo ela, a violência política de raça e gênero constitui uma tecnologia de exclusão que começa antes mesmo da campanha eleitoral e atravessa todas as etapas da disputa.

“Muitas mulheres negras são preteridas dentro dos próprios partidos, recebem menos recursos, menos apoio técnico e enfrentam sucessivas barreiras para disputar eleições em condições de igualdade”, afirma.

Como Schulman resume:

aspa

Assim como o feminicídio acontece dentro de casa, a violência política também acontece dentro dos partidos.”

A melancolia do não pertencimento

Os efeitos desse processo ultrapassam a arena institucional. A psicóloga Noemi Alves do Carmo Machado, idealizadora da Casa da Mulher Preta, observa há anos o impacto dessa violência sobre lideranças negras. Em seus atendimentos, passou a nomear esse fenômeno como “melancolia do não pertencimento”.

“Ocupar um cargo não significa pertencer àquele espaço”, explica. Segundo ela, mulheres negras chegam aos espaços de poder carregando uma cobrança permanente para provar competência, legitimidade e excelência em um ambiente que continuamente questiona sua presença.

“A linha de chegada nunca chega. Toda vez que a gente se aproxima, o sistema muda essa linha de lugar.”

Para Machado, quando a política comunica diariamente a determinadas mulheres que elas não pertencem àquele espaço, toda a sociedade perde referências de representação e democracia.

O assassinato da vereadora Marielle Franco, em março de 2018, tornou-se a expressão mais extrema desse mecanismo. Mais do que interromper uma trajetória política, sua morte transformou-se em um marco para mulheres negras que passaram a enxergar a violência não apenas como risco abstrato, mas como possibilidade concreta da vida pública.

ler O legado de Marielle Franco

“Foi entender que, mesmo quando chegavam a ocupar um posto parlamentar, ainda assim a vida delas estava ameaçada”, diz Paula Nunes, deputada estadual de São Paulo.

Quando elas chegam, a política muda

Os dados do estudo Da Marcha ao Bem Viver ajudam a medir quem ocupa os espaços de poder. As entrevistas revelam outra dimensão da representação: o que acontece quando esses espaços passam, ainda que lentamente, a incorporar experiências historicamente excluídas da política institucional.

No gabinete da Assembleia Legislativa de São Paulo, essa transformação apareceu de forma silenciosa. Enquanto concedia entrevista à Gênero e Número, a deputada estadual Paula Nunes embalava no colo a filha pequena, gripada naquele dia. Entre uma conversa com assessores e outra sobre uma denúncia acompanhada pela Polícia Federal, interrompia a entrevista para cantar músicas infantis e acalmar a criança.

A cena dificilmente faria parte do cotidiano de um Parlamento pensado, durante quase dois séculos, para homens que podiam dedicar a vida exclusivamente à política. Para Paula, porém, ela não representa uma exceção. É a demonstração de que novas experiências passam a ocupar o centro das decisões quando mulheres negras chegam aos espaços de poder.

“Antes de tudo, eu sou mãe”, conta. “Ter mulheres negras na política não é um detalhe, nem uma moda. É um caminho sem volta para o exercício da democracia plena no Brasil.”

ler 99% dos projetos da bancada LBT na Câmara tratam de temas fora da pauta LGBTQIA+

Ao defender maior presença feminina na política, Cila Schulman rejeita o argumento de que a pauta se resume à proporcionalidade do eleitorado. Segundo ela, a representatividade altera diretamente quais temas chegam ao Congresso.

aspa

Não é apenas porque as mulheres são maioria do eleitorado. É porque só mulheres legislam a partir das necessidades das mulheres.”

Ela cita como exemplos políticas voltadas ao combate à pobreza menstrual, igualdade salarial e enfrentamento ao feminicídio.

Para a pesquisadora, ampliar a presença feminina significa muito mais do que corrigir uma distorção histórica de representação. “É uma condição para que problemas vividos pelas mulheres deixem de ser invisíveis na formulação das políticas públicas.”

A experiência cotidiana, afirma, altera também as prioridades da ação parlamentar. Questões como creches, transporte público, alimentação, saúde e redes de cuidado deixam de aparecer apenas como temas sociais e passam a ser compreendidas como condições concretas para que milhões de pessoas possam exercer plenamente sua cidadania.

ler “Não viemos pedir, queremos reparação”: Marcha das Mulheres Negras apresenta manifesto com 11 reivindicações

Carol Dartora identifica a mesma mudança na Câmara dos Deputados. Seu mandato concentra iniciativas ligadas à educação, à saúde, à moradia, à segurança alimentar e às comunidades quilombolas — agendas que, segundo ela, refletem demandas historicamente negligenciadas pelas instituições.

“O nosso trabalho garante alimentação, garante escola, garante dignidade mínima, muitas vezes para quem não é visto nem pelo Estado.”

Para Marília Nascimento, essa transformação ajuda a compreender por que a representatividade não pode ser reduzida a uma questão numérica: “As mulheres negras nos espaços de poder pautam questões essenciais para garantir os direitos básicos da vida de milhares de pessoas, porque muitas delas vivenciaram essas experiências”.

Segundo a pesquisadora, trajetórias marcadas pela desigualdade produzem formas distintas de compreender o próprio papel do Estado. Não se trata de afirmar que mulheres negras legislam apenas para mulheres negras, mas de reconhecer que suas experiências ampliam o repertório de problemas considerados legítimos pela política institucional.

Sem pluralidade, sem democracia

Essa percepção também aparece na trajetória de Dany Oliveira. Aos 28 anos, a diretora do DCE (Diretório Central dos Estudantes) Livre da Universidade de São Paulo prepara sua primeira disputa por um mandato como deputada federal. Ela rejeita a ideia de que sua candidatura represente um projeto individual. Para a jovem liderança, seu nome é apenas uma expressão de uma construção coletiva iniciada muito antes dela.

“Apesar de na fotografia parecer que estou sozinha, tenho certeza absoluta de que não estou.”

A fala ecoa o próprio percurso da Marcha das Mulheres Negras. Os avanços registrados entre 2018 e 2022 — o aumento da representação no Congresso, a ampliação da presença feminina negra e a consolidação de políticas afirmativas — não surgiram espontaneamente. São resultado de décadas de organização política, mobilização social e pressão por mudanças institucionais.

ler Do campo às ruas de Brasília: a força das trabalhadoras rurais na Marcha das Mulheres Negras

Ainda assim, os dados mostram que a distância entre presença e poder permanece profunda. Mulheres negras seguem sendo o grupo com menor chance de eleger representantes e continuam enfrentando violência, subfinanciamento e barreiras partidárias para permanecer na vida pública. Dez anos depois da 1ª Marcha das Mulheres Negras, a democracia brasileira tornou-se um pouco mais diversa. Tornar-se verdadeiramente representativa, porém, continua sendo um desafio em aberto.

Na avaliação de Cila Schulman, as eleições de 2022 refletem décadas de pressão dos movimentos de mulheres, mudanças na legislação eleitoral e maior organização de candidaturas femininas, especialmente após a destinação obrigatória de recursos do fundo eleitoral. Ainda assim, os obstáculos permanecem profundos.

É por isso que, ao olhar para as eleições de 2026, as entrevistadas convergem em uma mesma conclusão: ampliar a presença de mulheres negras na política não significa apenas corrigir uma desigualdade histórica. Significa ampliar a capacidade da democracia brasileira de reconhecer a pluralidade da sociedade que pretende representar.

Expediente

Direção de conteúdo Vitória Régia da Silva
Reportagem Laila Nery
Edição Bruna de Lara
Infografia Carlos Carneiro
Capa Meyrele Torres
Checagem de dados Gabriela Costa

Quem leu essa Reportagem também viu:

Laila Nery

Repórter e pesquisadora baiana, Laila Nery escreve da fronteira entre política e afeto. Formada pela UFBA e mestranda em Ciências da Comunicação na USP, cobre política com olhar atento às desigualdades e à representatividade. Já passou pela TV Bahia, pelo UOL e pelo Grupo Estado, o que mais gosta é de ouvir histórias, especialmente as que o país insiste em calar.

Se você chegou até aqui, apoie nosso trabalho.

Você é fundamental para seguirmos com o nosso trabalho, produzindo o jornalismo urgente que fazemos, que revela, com análises, dados e contexto, as questões críticas das desigualdades de raça e de gênero no país.

Somos jornalistas, designers, cientistas de dados e pesquisadoras que produzem informação de qualidade para embasar discursos de mudança. São muitos padrões e estereótipos que precisam ser desnaturalizados.

A Gênero e Número é uma empresa social sem fins lucrativos que não coleta seus dados, não vende anúncio para garantir independência editorial e não atende a interesses de grandes empresas de mídia.

Quero apoiar ver mais