Sobrecarga e autonomia: mulheres que sustentam a casa, o cuidado e a militância

Nova edição da pesquisa Sem Parar mostra mulheres com mais dores, mais cansaço e mais tarefas de cuidado.

Schirlei Alves

  • O sustento da militância

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  • Cansaço físico e emocional

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  • A desigualdade no cuidado

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A vida de Patrícia Santos da Silva, de 46 anos, é um retrato da jornada contínua enfrentada por milhões de brasileiras: mãe solo de três filhos e avó, ela lida com o trauma das enchentes anuais, a luta pelo sustento da casa e a sobrecarga invisível do trabalho doméstico e do cuidado

Sua história, porém, é também um exemplo de como a economia solidária e o ativismo coletivo têm sido a chave para que mulheres não apenas sobrevivam, mas floresçam, conquistando independência financeira. “Eu sou mulher, sou mãe, sou avó e sou uma mulher empoderada, lutando pelos meus direitos”, descreve. 

No Brasil, quase metade das mulheres que participam de iniciativas de economia solidária responde por mais de 80% da renda familiar, de acordo com a pesquisa Sem Parar 2025, realizada pela SOF Sempreviva Organização Feminista e pela Gênero e Número, com apoio do Ministério das Mulheres.

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Patrícia, que mora em União de Vila Nova, na zona Leste de São Paulo, foi atingida pelas enchentes algumas vezes – a mais grave, no início deste ano. Ela perdeu todos os móveis e eletrodomésticos e encontrou no Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) uma nova forma de vida e renda. 

Antes de se juntar ao MAB, ela perdeu o emprego na Feirinha do Brás, onde vendia roupas. A feira foi reestruturada pela prefeitura e incorporada ao projeto do Circuito das Compras, removendo pontos de rua para muitos vendedores ambulantes.

Desempregada, ela passou a fazer bicos de faxineira em casas de família. A perda do emprego ocorreu um ano antes do fim de seu casamento, marcado por violência e irresponsabilidade financeira do ex-marido.

“Eu vivia em um relacionamento abusivo, muito conturbado. Ele era viciado no baralho. Nunca ajudava dentro de casa porque perdia o dinheiro todo no baralho “, contou.

O ponto final na relação veio com a escalada da violência. “Quando o meu ex-marido começou a vir para cima de mim, era uma briga constante. O meu filho maior foi para cima dele, aí eu achei melhor me separar.”

Patrícia não solicitou pensão pelas vias judiciais, porque a sogra permitiu que ela e as crianças continuassem na casa onde moravam – e também por receio, já que o ex-companheiro passou a usar entorpecentes.

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O sustento da militância

Patrícia, que já estava em uma situação de vulnerabilidade, foi apresentada ao MAB. Após participar da primeira reunião, sua vida mudou. “Comecei participando como família atingida, participando das reuniões. Eu acho que, com o meu desenvolvimento, eles pegaram e me colocaram na coordenação de grupo.”

Bem articulada e engajada, ela logo alcançou o posto de coordenadora estadual, o que possibilitou que ela recebesse uma ajuda de custo de um salário mínimo, sua única renda atualmente. Mais do que sustento, a integração no movimento abriu portas para o ativismo internacional.

Ela já viajou a Barcelona, na Espanha, para participar de um documentário sobre pobreza energética, um projeto que lhe proporcionou “os melhores 21 dias da sua vida”. Para Patrícia, essas experiências não representam apenas reuniões, mas um desenvolvimento pessoal profundo e a conquista de seu lugar como mulher empoderada no mundo.

Apesar de ser a única responsável pelo sustento (100% da renda familiar), Patrícia ainda não conseguiu acesso a benefícios sociais para complementar a renda de um salário mínimo. Ela se cadastrou para receber o Bolsa Família, mas ainda não foi contemplada, pois precisou desfazer o MEI que possuía por conta do trabalho no Brás.

“Aqui onde eu moro, é tipo assim, a minha sala com a cozinha junto e um banheiro. Há três anos, eu já estava no MAB, e eles me ajudaram a construir um quarto em cima, por causa da enchente, onde eu durmo com os meninos”, contou.

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A construção do quarto no andar de cima ajudou a reduzir o sofrimento com as inundações . “Antes as camas ficavam aqui embaixo, tudo junto [em um único cômodo]. Agora não, o que eu posso levar lá para cima, eu levo [em períodos de enchete]”, completou.

Para muitas mulheres, a militância e a participação em iniciativas de economia solidária se tornam a principal ou única fonte de renda. Essa capacidade de sustento é o motor que permite a elas se tornarem donas de suas próprias vidas. Rejane Medeiros, coordenadora técnica do Centro Feminista 8 de Março, explica que a autonomia financeira está diretamente ligada a outras formas de liberdade.

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Pensar em autonomia econômica significa pensar as mulheres sendo donas da sua vida, tendo domínio sobre o que vão fazer, como vão fazer, em que vão utilizar os recursos e como vão fazer a sua produção [no caso das mulheres do campo].”

Cansaço físico e emocional

A pesquisa Sem Parar 2025 revela que o trabalho coletivo e autônomo funciona como uma âncora econômica. Esse protagonismo financeiro é o primeiro passo para que as mulheres possam fazer escolhas sobre suas próprias vidas. No entanto, esse avanço tem um custo pesado, pois ocorre em um cenário de sobrecarga contínua. 

Seis a cada dez mulheres relatam cansaço e dores físicas de modo intenso ou muito intenso, consequência de jornadas prolongadas de trabalho remunerado somadas ao trabalho doméstico e de cuidado não remunerado.

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A pandemia aprofundou esse desgaste. Patrícia sentiu o impacto não apenas no corpo, mas também na saúde mental: “De ficar assim, trancada dentro de casa com eles [filhos e marido]. Não tinha para onde sair. E o serviço também, que não tinha como ir trabalhar. As contas chegavam, e não tinha dinheiro para pagar. Eu estava vivendo de doação”.

Mesmo com o fim da pandemia, o alívio não veio. Das entrevistadas pela Sem Parar, 57% trabalham 40 ou mais horas semanais – 15,5% delas trabalham mais do que 44 horas. Ainda assim, 45% das mulheres relatam insegurança intensa em relação à estabilidade.

A coordenadora financeira da Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas (Fenatrad), Chirlene Brito, explica como o acúmulo de funções tem comprometido a saúde das mulheres.

“Após cumprirem longas jornadas de trabalho remunerado, como é o caso das trabalhadoras domésticas, que exigem alto desempenho físico e mental, elas ainda precisam cumprir outra jornada ao chegar em casa, dedicada ao trabalho doméstico e de cuidado não remunerado da própria família. O acúmulo de responsabilidades acaba comprometendo a autonomia e a saúde dessas mulheres.”

Para mulheres atingidas por desastres e expulsas de seus territórios, como Patrícia, que perdeu todos os móveis e eletrodomésticos com as enchentes, os impactos se aprofundam e se prolongam no tempo. Dalila Calisto, integrante da Coordenação Nacional do MAB, explica que as perdas materiais e o deslocamento têm efeitos duradouros na saúde mental.

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“Todas essas mudanças impactam na saúde mental. Daí vêm casos de depressão, uso de remédio controlado, até suicídio. As pessoas têm dificuldade de se adaptar ao novo local. No caso da recente enchente no Rio Grande do Sul, por exemplo, muita gente perdeu não só os móveis, mas a própria casa.”

A desigualdade no cuidado

Apesar da crescente inserção no mercado de trabalho ou em atividades de economia solidária, a divisão de tarefas em casa permanece desigual, sobrecarregando ainda mais as mulheres. A pesquisa revela que 43% delas fazem sozinhas o trabalho doméstico, enquanto 48% cuidam de alguém (filhos, netos, idosos) sem remuneração.

Patrícia é mãe solo e avó, e o cuidado com o neto também “fica nas costas dela”. Ela também percebe essa disparidade entre as colegas que atuam no MAB, onde a maioria é mulher.

“A mulher trabalha fora, chega em casa, vai fazer comida, vai dar banho em filho, se tem neto, vai cuidar de neto, entendeu? Então, é supercarregado para mulheres.”

O trabalho de cuidado não remunerado, somado à ausência de políticas públicas, impede muitas mulheres de avançarem em sua autonomia e empoderamento. Para as mulheres do campo, essa desigualdade aprofunda ainda mais a vulnerabilidade e limita a participação em atividades que poderiam gerar mais autonomia. 

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Nas áreas rurais, 49% das mulheres realizam a maior parte do trabalho doméstico não remunerado, versus 45% das residentes de áreas urbanas. Rejane Medeiros aponta a necessidade de políticas públicas para diminuir a sobrecarga do cuidado.

“No meio rural, essa realidade é ainda mais intensa, porque praticamente não existem políticas de socialização do trabalho do cuidado. Mesmo com algum avanço nas cidades, como cozinhas solidárias ou restaurantes populares, isso quase não chega à classe trabalhadora rural. A creche, por exemplo, nem aparece como alternativa para essas mulheres, porque nunca fez parte do universo delas.”

Em julho de 2025, o governo federal regulamentou o Plano Nacional de Cuidados por meio do Decreto nº 12.562/2025, consolidando diretrizes, princípios e eixos que devem organizar ações intersetoriais em saúde, assistência, educação, trabalho e outras áreas, com foco na equidade e na valorização de quem cuida. 

A implementação, no entanto, tem sido gradual, dependendo da adesão e da capacidade de execução de estados e municípios, o que ajuda a explicar por que essas políticas ainda não estão efetivamente presentes em muitas áreas, especialmente rurais, onde faltam serviços básicos de cuidado e de socialização do trabalho doméstico. 

O Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS) informou que, nesta segunda-feira (15), anunciou as ações que compõem o Plano Nacional de Cuidados, que prevê investimento de R$ 25 bilhões até 2027 e reúne 79 iniciativas, organizadas em cinco eixos:

  • A garantia de direitos e promoção de políticas para quem necessita de cuidados e para quem cuida de forma não remunerada;
  • A compatibilização entre o trabalho remunerado, a educação e as necessidades familiares de cuidados;
  • O trabalho decente para trabalhadoras domésticas e do cuidado remunerado;
  • O reconhecimento e valorização do trabalho de cuidado em suas múltiplas expressões e transformação cultural rumo a uma organização social dos cuidados mais justa;
  • A governança e gestão do Plano Nacional de Cuidados.

Entre as ações previstas estão cuidotecas, capacitação de profissionais do cuidado, lavanderias públicas e creches. Também foram publicadas portarias que estabelecem as ações do plano, sua governança e o processo de adesão de estados e municípios.

Segundo essa portaria publicada pelo MDS, o processo de adesão ao plano por parte dos municípios e estados é voluntário. Para aderir, os entes federativos precisam indicar um órgão gestor local responsável por elaborar o plano no âmbito do município ou estado, nomear um coordenador que articule o processo intersetorial, desde o diagnóstico local até a elaboração e divulgação do plano e assinar um termo de adesão.

Expediente

Direção de conteúdo Vitória Régia da Silva
Reportagem Schirlei Alves
Edição Bruna de Lara
Design e Infografia Victória Sacagami
Checagem de dados Sara Ramona

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Schirlei Alves

Atua com jornalismo investigativo orientado por dados e sob a perspectiva dos direitos humanos. Formada desde 2008 pela Univali, colaborou para o Epoch Times, no Canadá, e atuou como repórter nos principais jornais do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Seus trabalhos mais recentes foram para a Folha de S.Paulo, Abraji, Agência Lupa, O Joio e O Trigo, The Intercept Brasil e Portal Catarinas. Recebeu como reconhecimento os prêmios ABCR de Jornalismo, Unimed e RBS. Em 2022, concluiu especialização em Jornalismo de Dados, Automação e Data Storytelling pelo Insper.

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