“Tinha tanto medo da maternidade que preferia morrer a ter aquele filho”

A história de Maria*, uma jovem de 19 anos que recorreu ao mercado clandestino para abortar com Cytotec

Aos 19 anos, Maria* decidiu abortar. Descobriu o misoprostol em pesquisas feitas pela internet, lidou com maus tratos ao procurar o sistema de saúde e perdeu um emprego por se ausentar do trabalho para fazer o procedimento.

Conhecido no Brasil pelo nome comercial de Cytotec, o misoprostol é indicado para o tratamento de úlceras gástricas, mas provoca contrações uterinas e é usado como abortivo e indutor do parto. Desde 1998, a venda do remédio é restrita a estabelecimentos hospitalares cadastrados e credenciados junto à Anvisa.

Maria precisou recorrer ao mercado clandestino para comprar os comprimidos, que ela administrou de acordo com informações imprecisas, colhidas de sites pouco confiáveis, acompanhada por amigos. 17 anos depois, ela decidiu contar essa história à Gênero e Número.

ler Assine a nossa newsletter semanal

A portaria n° 344, de 12 de maio de 1998, restringe as vendas de medicamentos à base de Misoprostol a estabelecimentos hospitalares cadastrados e credenciados junto à Anvisa.

Relato

Tenho 36 anos e, em 2006, eu engravidei. Eu tinha 19 anos e não morava mais com a minha mãe, que nunca ficou sabendo. A gente tinha uma relação conturbada e, aos 18 anos, ela me expulsou de casa.

Contei da gravidez para o rapaz com quem eu me relacionava, que não era meu namorado, e aí foi todo o script. No começo, ele se isentou, falou que o filho não era dele. Depois ele retornou, porque alguns amigos em comum fizeram ele repensar essa postura. Só que aí ele estava inflexível sobre o aborto, porque decidiu que queria ser pai. Eu nem era apaixonada por ele e tinha isso muito firme em mim, que não seria mãe. Não era a minha vontade, muito pelo contrário. Eu tive uma péssima experiência com a maternidade.

Eu sou fruto de uma relação interracial. Minha mãe é uma mulher preta e meu pai é um homem branco de classe média. Quando eu nasci, ele tinha 23 anos e era usuário de drogas. Minha mãe tinha 16 anos.

Ela tentou conviver com ele na mesma casa por alguns meses para me criar, mas não deu certo. Minha mãe era adolescente e precisava cuidar de um bebê recém-nascido, além de ter responsabilidades com o restante da família, com a minha avó, minhas primas, de quem ela também cuidava. E meu pai estava sempre muito louco. A gente se via em datas específicas, meu aniversário, datas festivas. Ele não fez parte da minha criação e eu rompi definitivamente com ele quando fiz 14 anos e ele foi preso.

ler Faça como a Angélica e fale de aborto

Eu sofria muita violência por parte da minha mãe e, nessa mesma época, ela foi denunciada. Eu fui para o Conselho Tutelar e passei alguns meses em um abrigo, enquanto minha mãe se organizava. Quando eu voltei para a casa dela, as violências continuaram. Sempre foi assim, desde que eu era criança. Isso também formou minha visão do que é a maternidade.

aspa

Eu sei o que é ter uma criança que não é desejada, sem dinheiro. Sei o que é quase passar fome com essa criança, ser expulsa de casa com essa criança.

Eu me mudei mais de 20 vezes na vida, tenho um histórico de despejo na primeira infância. E lembro muito que minha mãe me dizia que a pior coisa que ela fez na vida foi ter se tornado mãe.

Hoje eu entendo melhor. Acabei me formando em Serviço Social e isso me deu ferramentas para entender minha própria história, a história do meu pai, da minha mãe e da sua família, que é também grande parte da história do Brasil. Minha mãe foi uma mãe solo preta e eu compreendo que ela também foi vítima.

Eu sou uma mulher preta de pele clara e o homem de quem eu engravidei é filho de uma mulher branca e de um homem indígena. Ele vinha de uma família muito pobre, estudava e trabalhava com telemarketing. Eu trabalhava como garçonete em dois lugares, numa rede de fast food e numa casa de chás. Eu pensava sobre o quanto tudo foi difícil para a gente. Naquele momento, não tínhamos nenhuma condição financeira ou emocional para ter um filho.

ler O que você precisa saber sobre a ADPF 442, que pede a descriminalização do aborto no Brasil

39%

das mulheres que afirmam ter feito um aborto no Brasil usaram medicamentos para realizar o procedimento

FONTE PNA (2021)

ler Hospitalizações por aborto no SUS caem 18% em 10 anos

Então eu fui atrás de informações sobre o aborto. Pedi a uma amiga que tinha computador com internet – lembro que era internet discada – e ela fez a pesquisa junto comigo, mas também falou “minha mãe não pode saber de mais nada e eu não posso te ajudar com mais nada.” Tinha um pouco de moralismo, mas também um pouco de medo.

aspa

Eu nunca tinha ouvido falar de Cytotec. Tudo que a gente pesquisou ficou uma coisa meio remendada, meio Frankenstein, porque era difícil encontrar todas as informações em um só lugar.

Eu não tinha certeza de quais materiais eram imprescindíveis para o procedimento. Um amigo me falou para comprar o remédio numa farmácia clandestina e era como se fosse droga mesmo. Essa era a informação, um disse-me-disse.

Esse homem com quem eu me relacionava, o genitor, não queria que eu abortasse, então ele não me acompanhou na minha decisão. Além disso, nenhum de nós dois tinha o dinheiro necessário para o procedimento e a postura dele foi “então tá bom, vou ficar aqui no meu canto”. Eu só precisava que ele fosse comprar o remédio e ele ficava me enrolando.

ler Aborto em pílulas: série de vídeos sobre aborto com medicamentos

Demorei muito para conseguir a quantia necessária para comprar o Cytotec, tive que pedir dinheiro emprestado. Um amigo me ajudou a fazer a ponte com o genitor, que acabou comprando o remédio. Era uma cartela solta, com comprimidos brancos, que vinham dentro de um saquinho de pão, sem nenhuma instrução. Tudo que eu sabia, eu tinha lido na internet, em sites aleatórios.

Naquele momento, eu já estava com quatro meses de gestação. Uma amiga passou a madrugada comigo e o amigo que fez a ponte com o genitor esteve ao meu lado durante o aborto. Tomei o remédio à noite e o nosso combinado era que tinha um horário limite: se às 6 da manhã não tivesse acontecido nada, nós iríamos até um hospital.

4 a cada 5

hospitalizações por falha de tentativa de aborto no Brasil são atendidas pelo SUS

FONTE SIH E ANS (2022)

Foi muito silencioso. Os únicos sintomas que eu tive foram calafrios. Aí chegamos ao nosso horário limite e eu decidi ir ao hospital, porque eu não sabia se estava tudo bem. Fomos até uma maternidade pública. No caminho, eu comecei a sentir dores.

Quando chegamos, eu não contei que tinha tomado Cytotec, porque eu estava com medo. No primeiro atendimento, o enfermeiro foi muito acolhedor, me disse que eu estava passando por um processo de aborto e que eu precisava falar a verdade para ele poder me ajudar.

E aí eu contei tudo, ele me deu os encaminhamentos, mas falou que eu precisava procurar outro hospital, que ali eles não poderiam fazer o atendimento. Quando eu cheguei no segundo hospital, também do sistema público, começou o show de horrores.

Lembro que a médica falou que eu ia queimar no fogo do inferno. Eu era muito menina, então não tinha noção dos meus direitos, tanto que eu deixei ela falar tudo que ela queria. E não foi algo rápido, pelo contrário. Eu fiquei deitada numa maca, que não estava em um quarto, porque não tinha espaço. Colocaram um biombo para separar.

ler SUS atende 9 de cada 10 internações por aborto no Brasil

Quando me atendia, a médica usava muito essa imagem de Deus, mas ao mesmo tempo falava que eu ia aguardar mais, que eu estava sentindo dor porque eu merecia. Eu estava descompensada, emocionalmente também, e ainda não tinha entendido que realmente estava passando pelo aborto.

aspa

A médica ameaçava chamar a polícia, dizia que eu ia me arrepender. Foi muito torturante esse atendimento e eu cheguei a pensar que eu merecia aquilo mesmo, que era o preço que eu precisava pagar por não querer ser mãe. Mas eu tinha tanto medo da maternidade, que eu preferia ser presa, eu preferia morrer a ter aquele filho.

Fui ao banheiro algumas vezes sentindo dor e aí o aborto aconteceu. Quando eu voltei para a maca, a médica fez uma cena muito cretina, que me marcou para sempre. Ela falou que eu tinha passado pelo aborto e que ela ia deixar o feto lá para eu entender que ele era uma pessoa, que ela ia deixar ali para que eu fosse punida mesmo.

Logo depois, a enfermeira falou que ia fazer a coleta e que a médica não podia me tratar daquela forma, mas ninguém me orientou, por exemplo, a abrir uma reclamação na ouvidoria. No final das contas, essa enfermeira me ajudou e eu fui sedada.

42%

das mulheres internadas por falha de tentativa de aborto são negras

FONTE SIH-SUS (2012-2022)

Quando acordei, tinha passado pelo processo de curetagem. Esse momento de acordar foi super confuso, porque eu entendi que eu tinha tido a criança e não que eu tinha passado pelo aborto. Foi muito bagunçado psicologicamente. Eu ainda fiquei uns dois dias no hospital, para aguardar a placenta.

Nesse período de internação, eu recebi a visita do genitor e foi a última vez que nos vimos. Quando ele chegou lá, reclamou que eu estava brava com ele, que eu fui grosseira com ele todo esse tempo, que ele estava se sentindo humilhado. Enfim, homens que se comportam como meninos.

Eu lembro que eu ainda estava meio ensanguentada, muito debilitada fisicamente. E aí eu falei para ele que humilhante era o que eu vinha vivendo nos últimos meses, o que eu vivi no hospital. Eu não conseguia nem levantar sozinha, ir ao banheiro sozinha.

Eu não quis saber mais nada dele, peguei asco. Só queria esquecer aquele momento da vida e seguir em frente.

ler Brasil tem uma morte a cada 28 internações por falha na tentativa de aborto

Quando eu voltei para o meu trabalho, eu senti que era impossível contar o que tinha acontecido. Eu tinha ficado uma semana afastada e disse que estava com gastrite. Essa foi a desculpa que eu dei para um dos trabalhos, o da casa de chá. Eles pegaram o meu atestado, leram o CID [código da classificação internacional de doenças] e ligaram para o hospital, que passou as informações. Fui demitida.

Eu fiquei sem um dos trabalhos e depois vieram outras questões, emocionais, psicológicas, um processo de depressão. O aborto é muito mais traumatizante quando você não tem os recursos para fazer o procedimento no início. Eu ainda tive que correr atrás do dinheiro para comprar o remédio, depois passei por esse atendimento violento.

O tempo passou e eu consegui estudar, fui acessar meus direitos, trabalhar com as coisas que tinham me dado muito ódio na vida, tentar entender o que tinha acontecido comigo. Hoje eu concordo com a Maria dos 19 anos de idade. Eu não tinha nenhuma condição de pagar para ver.

Maria* é um nome fictício. De acordo com o Censo 2010, é o nome mais popular no Brasil.

Acesso ao aborto no Brasil

No Brasil, o aborto é legal em casos de gravidez decorrente de estupro, risco à vida da gestante ou anencefalia do feto.

De acordo com o Código Penal, qualquer ato libidinoso ou conjunção carnal com menores de 14 anos configura crime de estupro de vulnerável, o que garante o direito ao aborto a meninas que ainda não tenham completado 14 anos.

O Mapa do Aborto Legal disponibiliza a lista de hospitais que realizam o serviço em todo o Brasil.

O Projeto Vivas auxilia mulheres, meninas e pessoas gestantes a garantir o direito ao aborto em casos previstos por lei no Brasil e no exterior.

Quem leu essa Reportagem também viu:

Aline Gatto Boueri

Jornalista formada pela Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECo-UFRJ), colabora com a Gênero e Número desde 2017. Metade tijucana e metade porteña, cobre política latino-americana desde 2013, com foco em direitos humanos, feminismos, gênero e raça. Também cuida de criança todos os dias.

Se você chegou até aqui, apoie nosso trabalho.

Você é fundamental para seguirmos com o nosso trabalho, produzindo o jornalismo urgente que fazemos, que revela, com análises, dados e contexto, as questões críticas das desigualdades de raça e de gênero no país.

Somos jornalistas, designers, cientistas de dados e pesquisadoras que produzem informação de qualidade para embasar discursos de mudança. São muitos padrões e estereótipos que precisam ser desnaturalizados.

A Gênero e Número é uma empresa social sem fins lucrativos que não coleta seus dados, não vende anúncio para garantir independência editorial e não atende a interesses de grandes empresas de mídia.

Quero apoiar ver mais