Radar Antigênero revela como vídeos no YouTube alimentam discurso antigênero e ondas de ataques

Plataforma analisa mais de 5 mil vídeos publicados desde 2018 e identifica picos de produção ligados a eleições e votações no Congresso

  • Papéis de gênero e antifeminismo são os temas centrais

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  • Neoconservadorismo e a virada da década de 2010

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A reportagem a seguir trazem trechos de vídeos e falas explicitamente misóginas, transfóbicas e antigênero. Optamos por não censurá-los porque acreditamos que é fundamental mostrar de forma concreta como essas narrativas circulam, se fortalecem no YouTube e impactam a vida de mulheres e pessoas LGBTQIA+. O Radar Antigênero foi criado justamente para acompanhar, analisar e dar visibilidade a esse fenômeno.

Em 2018, uma engrenagem discursiva começou a girar com mais velocidade no YouTube brasileiro. E não parou mais. De lá até agosto de 2025, mais de 5 mil vídeos com ataques a direitos de mulheres e pessoas LGBTQIA+ foram publicados na plataforma, em ondas que acompanham eleições, votações no Congresso e grandes eventos que disputaram a opinião pública. Esses conteúdos ganharam formatos mais “palatáveis” ao algoritmo — e também passaram a dar mais lucro.

Agora, pela primeira vez, essa dinâmica pode ser acompanhada em uma série histórica, com recortes por tema, estratégia e sujeitos-alvo. É o que faz o Radar Antigênero, ferramenta criada pela Gênero e Número em parceria com a Novelo Data, que utiliza inteligência artificial para acompanhar  e classificar vídeos com discurso antigênero no YouTube. A análise começa em 2018 e, por enquanto, vai até agosto de 2025, mas a plataforma será atualizada semanalmente.

A classificação da plataforma cruza três eixos centrais: o que se fala (temas), como se fala (estratégias) e sobre quem se fala (sujeitos em destaque). Além de evidenciar os canais que mais promovem esse tipo de discurso.

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A análise mostra que os picos de produção não se distribuem de forma aleatória, mas se alinham a momentos críticos do debate político e social brasileiro. Entre fevereiro e maio de 2022, por exemplo, a publicação desses conteúdos cresceu 111%, em plena pré-campanha presidencial, com Lula e Bolsonaro como polos da disputa. Nesse contexto, temáticas como papéis de gênero, moralidade e antifeminismo foram mobilizados como marcadores identitários, reforçando ressentimentos morais trabalhados desde 2018.

Outro ciclo expressivo ocorreu entre abril e junho de 2024, com mais de 560 vídeos publicados, acompanhando as eleições municipais e os debates sobre regulação das plataformas digitais. Já em agosto de 2025, mesmo sem calendário eleitoral, a série registra mais de 165 vídeos — um pico que reforça a capilarização do discurso, agora acionado também por votações no Legislativo.

Um exemplo é a aprovação do PL 2628/2022 (chamado de “ECA Digital”), que institui regras para a proteção de crianças e adolescentes em ambientes digitais. O plenário da Câmara aprovou o texto-base em 20 de agosto de 2025, e o Senado concluiu a aprovação em 27 de agosto, ao criar mecanismos como controle parental, remoção de conteúdo impróprio e verificação universal de idade.

Papéis de gênero e antifeminismo são os temas centrais

Além da cadência temporal, o Radar mostra como os temas se organizam em camadas. De um lado, os papéis de gênero (65%) funcionam como eixo estruturante; o antifeminismo (25%) e a moralidade religiosa (20%) personalizam e dramatizam o inimigo; enquanto categorias como agenda woke (12%), educação (6%) e transfobia (5%) emergem em momentos de disputa legislativa ou controvérsias midiáticas.

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A ferramenta também mostra quais estratégias recorrentes que empacotam essas mensagens para circular e engajar. Ataques pessoais concentram 46% dos vídeos, transformando pautas estruturais em brigas entre indivíduos e reforçando a lógica de culpabilização.

O humor e a ridicularização, presentes em 41% dos conteúdos, funcionam como uma camada de suavização: ao rir do inimigo, cria-se cumplicidade com a audiência e esvazia-se a gravidade da violência.

A inversão de papéis entre vítima e opressor aparece em 29%, colocando grupos historicamente marginalizados como supostos perseguidores de valores tradicionais. O medo e a ameaça estão em 26%, dramatizando cenários de risco social e moral.

Já a desinformação (11%) e as teorias da conspiração (10%) completam o quadro, oferecendo explicações simplistas para fenômenos complexos e reforçando narrativas de perseguição.

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A pesquisadora Luciane Belin, do NetLab – laboratório de pesquisa da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO – UFRJ) , explica como esse cenário cria um círculo vicioso de engajamento e renda. 

“Os dados dialogam muito com os resultados da pesquisa sobre misoginia no YouTube que realizamos no ano passado no NetLab, em parceria com o Ministério das Mulheres. Em especial os eixos centrais de discurso — papéis de gênero, antifeminismo e moralidade religiosa — e o humor como estratégia de engajamento dos usuários.”

Segundo ela, os produtores de conteúdo se apoiam em duas alavancas: uma lacuna social, ligada à necessidade contemporânea de repensar masculinidades e o papel social das mulheres, e as características próprias das plataformas, que “facilitam a formação de comunidades e câmaras de eco, além de priorizarem conteúdo altamente compartilhável.” Quanto mais engaja, mais rentável.

A reportagem entrou em contato com o YouTube para ouvir a plataforma sobre os resultados do Radar e os questionamentos relativos à moderação de conteúdo, mas não obteve retorno até a publicação. O espaço segue aberto.

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Casos concretos ajudam a ilustrar essas estratégias. No vídeo “Homens fortes têm o vetor para o mundo”, o influenciador Orlando Costa dramatiza a chamada “crise da masculinidade” com metáforas de guerra. Ele constrói a narrativa de que homens estariam sendo enfraquecidos por um suposto “projeto social”, retratando-os como vítimas de um processo de decadência moral e convocando-os à reação. O recurso ao medo e à ameaça se combina à vitimização masculina, reforçando a ideia de que a recuperação da “força masculina” seria essencial para salvar a sociedade.

Já em “LADY GAGA, SODOMA E GOMORRA”, Raiam Santos apresenta a visibilidade LGBTQIA+ como “sinal de castigo divino”, associando-a à destruição bíblica de Sodoma e Gomorra — duas cidades mencionadas no Antigo Testamento que, segundo a narrativa religiosa, teriam sido punidas por comportamentos considerados pecaminosos. O vídeo enquadra a diversidade sexual e de gênero como parte de uma “agenda global” para corromper valores cristãos, misturando referências religiosas com elementos conspiratórios e humor depreciativo, reforçando a ideia de perseguição e vitimização de grupos conservadores, enquanto engaja e monetiza a audiência.

Neoconservadorismo e a virada da década de 2010

A cientista política Flávia Biroli, da Universidade de Brasília (UnB), explica que a década de 2010 marcou uma virada. Discursos antigênero e antifeministas ganharam mais espaço tanto nas ruas quanto nas redes. Esse período foi atravessado por disputas simbólicas em torno do Plano Nacional de Educação (2014), quando a inclusão de termos como “gênero” e “orientação sexual” mobilizou campanhas contra a chamada “ideologia de gênero”, e pelo reconhecimento da união homoafetiva pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 2011, visto por setores conservadores como uma ameaça a valores tradicionais.

Segundo Biroli, esse avanço está diretamente ligado às coalizões religiosas e à ascensão da extrema direita no país.  “Esses discursos ilustram o fenômeno do neoconservadorismo. Há articulações entre diferentes movimentos religiosos conservadores e uma recusa à própria noção de igualdade de cidadania”. Ela acrescenta que “as perspectivas antifeministas e antigênero estão no cerne da expansão da extrema direita no Brasil e no mundo”, avalia a pesquisadora.

A série histórica do Radar aponta que picos de produção se alinham a momentos de maior mobilização política e moral, como semanas de votação no Legislativo. Em vez de oscilações aleatórias, há ondas organizadas. 

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Expediente da Gênero e Número

Edição Vitória Régia da Silva
Análise de dados Leticia Sabbatini
Design e Infografia Carlos Carneiro
Checagem dos dados Diego Nunes da Rocha

Gabi Coelho

Jornalista investigativa independente, antropóloga em constante formação pela vida e criadora de conteúdo do LATINA PÉ NO CHÃO. Foi diretora da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji 2022-2025), tem passagens por veículos como Intercept Brasil, Agência Pública, Globo, Estadão, Revista Azmina, Gênero e Número, Ponte Jornalismo, Favela em Pauta, Voz das Comunidades e outros. O terceiro setor da América Latina também faz parte de sua trajetória na defesa dos direitos humanos e da justiça social através da produção de conteúdo estratégico, pesquisa, análise de dados, gestão de projetos e comunicação.

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