A cor das tragédias climáticas no governo Bolsonaro

Racismo ambiental: dados mostram a raça predominante nas áreas afetadas em alguns dos principais desastres climáticos no governo Bolsonaro

por Gênero e Número

Um Brasil mais negro e indígena absorveu e sofreu com os impactos das maiores tragédias climáticas que ocorreram no governo de Jair Bolsonaro. Este ano, 238 pessoas morreram no município de Petrópolis (RJ). O epicentro da tragédia foi o Morro da Oficina, favela onde mais de 80 casas foram atingidas por um deslizamento de terra. No Nordeste, em 2019, mais de 350 mil pescadores de toda a costa foram afetados por manchas de óleo que se espalharam até o Espírito Santo, enquanto, em 2022, moradores da periferia de Recife (PE) e de cidades do Sul da Bahia foram vitimados por enchentes.

De pária a possível protagonista, o Brasil chega à COP 27, no Egito, com o desafio de discutir o racismo ambiental. Nomes como Marina Silva e Célia Xacriabá, e membros da Coalizão Negra por Direitos chamam a atenção para a cor e raça da maioria das vítimas. Dados do IBGE sobrepostos a alguns destes principais desastres mostram a cor e raça predominantes nas áreas afetadas. Não é coincidência. É racismo ambiental.

Derramamento de óleo

no Nordeste

Fogo na Amazônia

Queimadas no Pantanal

Inundações no Amazonas

Enchentes no

sul da Bahia

Enchentes no norte

de Minas Gerais

Enchentes em Petrópolis [rj]

Chuvas no Grande Recife [pe]

Rompimento de barragem

em Brumadinho [mg]

% população negra

25

50

60

70

80%

0

fonte mapbiomas / censo 2010

A cor das tragédias climáticas no governo Bolsonaro

JANEIRO | 2019
Um dos maiores desastres/crimes ambientais do Brasil, o rompimento da barragem da mina Córrego do Feijão, da Vale, em Brumadinho (MG) deixou um rastro de 270 mortes e destruiu parte remanescente da Mata Atlântica. Três anos após do rompimento da barragem, vítimas ainda cobram justiça.
51% da população da cidade é negra (8,3% pretos + 42,7% pardos).

AGOSTO | 2019
Manchas de óleo atingiram mais de mil praias na costa nordestina e chegaram até o norte do litoral do Rio de Janeiro. O desastre causou prejuízos a vida e trabalho de pelo menos 350 mil pescadores e deixou um rastro de morte e poluição no bioma do oceano. Foram mais de 5 mil toneladas de óleo retiradas pelo Ibama até fevereiro de 2020.
69% da população do Nordeste é negra.

AGOSTO | 2019
Uma série coordenada de incêndios criminosos na região de Novo Progresso (PA) provocou, em apenas um dia, um salto de 300% dos focos de queimadas, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Dias depois, a fumaça chegou à cidade de São Paulo e transformou o dia em noite, além de causar problemas respiratórios em parte da população no Acre.
Na Região Norte, onde todos os estados foram atingidos pelo fogo, pardos (67%) e pretos (7%) são 74%, e indígenas, 2%. No Mato Grosso, pretos e pardos totalizam 60%.

AGOSTO | 2020
Os incêndios consumiram, pelo menos, dez vezes mais área de vegetação que em 18 anos de devastação, segundo IBGE. O fogo devastou uma área equivalente a nove vezes a cidade do Rio e o bioma perdeu 29% de sua área, de acordo com Lasa/UFRJ. O bioma registrou naquele ano o maior número de focos de incêndio da história. Já em 2019, o fogo destruiu uma área maior que a Bélgica.
61% da população do Pantanal sul-matogrossensse é preta (6%) ou parda (55%). Índigenas são 7%.

MAIO | 2021
Enchentes em alguns dos principais rios da bacia amazônica, como o Negro e o Amazonas, afetaram mais de 400 mil pessoas em pelo menos 58 dos 62 municípios do estado, sendo que 25 deles chegaram a decretar estado de emergência. A cheia também comprometeu o fornecimento de água potável para consumo e, nas comunidades rurais, produtores contabilizam perdas de safras inteiras por conta da inundação das produções.
No Amazonas, 73% da população se autodeclara parda (69%) ou preta (4%); indígenas são 5%.

JANEIRO | 2022
Os temporais foram considerados os maiores desastres naturais já registrados no estado. As enchentes deixaram pelo menos 27 mortos e 86 mil desabrigados ou desalojados entre dezembro e início de janeiro. Foram 176 municípios afetados, sendo que 165 decretaram situação de emergência.
No Sul da Bahia, 78% da população é negra (15,7% de pretos e 62,4% de pardos).

JANEIRO | 2022
Minas foi um dos estados mais castigados pelas cheias na estação chuvosa, de acordo com o Sistema de Alerta de Eventos Críticos (Sace). Pelo menos 26 pessoas morreram no estado em decorrência das tempestades e deslizamentos de terra.
72% da população da região é negra (pretos são 8,4% e pardos, 63,2%).

FEVEREIRO | 2022
Maior tragédia da história da cidade de Petrópolis, na região serrana do Rio de Janeiro, a forte chuva que atingiu o município provocou enchentes, uma série de deslizamentos de terra e 238 mortes. Após a tragédia, mais de 8 mil famílias do município se inscreveram para recebimento do aluguel social.
A cidade tem 36,3% de pessoas negras (11% de pretos e 25,3% de pardos). Mas a área mais afetada foi o Morro da Oficina, favela no bairro Alto da Serra.

MAIO | 2022
Na maior catástrofe dos últimos 50 anos do estado, foram registradas pelo menos 126 mortes por deslizamentos de barreiras e de enxurradas provocadas pelas chuvas torrenciais. A água chegou a mais de dois metros de altura em diversos bairros da cidade e cerca de 80% do território habitado do Recife ficou debaixo d'água.
Na Região Metropolitana da capital, 61% da população é negra (pretos são 8,5% e negros, 52,6%).

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