Na manhã desta terça-feira (25 de novembro de 2025), enquanto uma chuva persistente caía sobre Brasília, representantes de comitês temáticos da Marcha das Mulheres Negras se reuniram em coletiva para reafirmar o que chamaram de “a certeza de que já estamos no impossível no Brasil”. O impossível é a própria existência organizada e articulada das mulheres negras num cenário de violência extremada, segundo a historiadora e mestre em educação Valdecir Nascimento, fundadora do Odara – Instituto da Mulher Negra.
“Não viemos pedir, queremos reparação”: Marcha das Mulheres Negras apresenta manifesto com 11 reivindicações
Organizadoras exigem fundo nacional, reconhecimento de dívida pelo Estado e paridade racial; evento mobiliza Brasília até o próximo dia 26.
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Múltiplas demandas
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A violência de gênero
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Carta por reparação e bem viver
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Semana de atividades e articulação política
A reunião aconteceu horas antes da marcha e reuniu organizações que abrangem desde tecnologia e saúde mental até mulheres de terreiro, evangélicas e protestantes. Ao fim, foi publicado o Manifesto das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver, com 11 pontos centrais de reivindicação.
Múltiplas demandas
A diversidade de pautas apresentada pelos comitês explicita a interseccionalidade que marca o movimento. Durante a reunião nesta manhã, Valdecir, por exemplo, citou as mais de 100 mortes da Operação Contenção, classificada como a maior chacina policial do país. A ação foi deflagrada no dia 28 de outubro, nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, e acumula denúncias de violações.
“Estamos ainda com o coração magoado com o que aconteceu no Rio de Janeiro. Nós estamos marchando porque isso não pode continuar acontecendo”, afirmou. O relatório Pele Alvo: crônicas de dor e luta confirma que, em 2024, 4.068 pessoas morreram em intervenções policiais, sendo 86% das vítimas negras. Os dados são de nove estados brasileiros (AM, BA, CE, MA, PA, PE, PI, RJ e SP).
Sil Bahia, codiretora executiva do Olabi, organização social focada em inovação social, tecnologia e diversidade, e idealizadora do PretaLab – que representa o Comitê de Tecnologia – reafirmou que não existe justiça racial sem justiça digital. “Se a tecnologia molda o mundo, que seja pelas mãos de quem molda a vida”, disse ela se referindo às mulheres negras – historicamente excluídas dessa discussão.
Amanda Santos, representante da Rede Nacional de Lésbicas e Mulheres Bissexuais Negras Feministas (Candaces) trouxe a necessidade de reconhecimento das mulheres negras lésbicas, bissexuais, trans e intersexo no próprio movimento: “Existimos. Fazemos política, estamos marchando e merecemos esse reconhecimento”. A fala ecoa a declaração de Heliana Hemetério, historiadora, militante social e ativista negra e lésbica, na abertura da coletiva, quando afirmou que a marcha é um espaço para todas as mulheres.
A violência de gênero
Um dos pontos de convergência entre todas as organizações é a violência de gênero. A marcha acontece na data reconhecida pela Organização das Nações Unidas (ONU) como o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher: 25 de novembro.
Marta Silva, do Mapa do Acolhimento, e Vitória Régia, diretora da Gênero e Número, integrantes do Comitê de Enfrentamento à Violência de Gênero e Raça reforçaram que o Brasil é o quinto país que mais mata mulheres no mundo, e quando se analisa por raça, as mulheres negras lideram as estatísticas em todas as regiões.
Em nome do Comitê de Justiça Reprodutiva, Vitória ainda destacou que os dados sobre violência obstétrica, impactos ambientais nos territórios e criminalização do acesso a serviços de saúde mostram como as mulheres negras são afetadas de forma desproporcional: “Não é de hoje que as mulheres negras lutam por justiça reprodutiva. Lá na carta de 2015 já estava pautada a importância da gente falar sobre justiça reprodutiva para mulheres negras”, afirmou.
Carta por reparação e bem viver
Após a coletiva, as organizadoras divulgaram a carta que fundamenta a mobilização. “Saímos às ruas para explicitar que sem Reparação não há possibilidade de democracia, justiça, igualdade e equidade em todos os domínios da vida humana”, afirma o texto, que convoca mulheres negras de todo o mundo para exigir reparação histórica.
A carta apresenta 11 propostas concretas de reparação, entre elas o reconhecimento público pelo Estado brasileiro da dívida histórica por ato normativo do Presidente da República, a criação de um Fundo Nacional de Reparação de duração indeterminada até a equiparação das condições socioeconômicas entre os diferentes segmentos raciais da população brasileira, e emendas constitucionais que garantam paridade de raça e gênero em cargos eletivos e nos Tribunais Superiores.
O documento também cobra a extinção do Laudêmio para regularização fundiária de imóveis de pessoas negras, anistia de dívidas de financiamentos estudantis e de moradia da população negra, e regimes previdenciários especiais para categorias de trabalhos braçais ocupados majoritariamente por pessoas negras, como construção civil, trabalho doméstico e serviços de limpeza.
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A nossa trajetória nos autoriza a reconhecer os avanços, em virtude das lutas que travamos ao longo da história. Sabemos, no entanto, que é preciso irmos além, é preciso gestar o impossível”, conclui a carta.
Semana de atividades e articulação política
As discussões e debates que integram o evento começou em 20 de novembro, com mais de 62 atividades na programação. No dia 24, véspera da marcha, a Casa do Movimento Mulheres Negras Decidem sediou a mesa “Mulheres Negras Rumo às Eleições 2026”, com as presenças da deputada Benedita da Silva, da ministra Anielle Franco, da ministra Marina Silva, de Áurea Carolina e da deputada Erika Hilton.
Em sua fala, Anielle Franco relembrou o assassinato da irmã Marielle e enviou um recado direto: “Eles querendo ou não, permitindo ou não, nem que a gente tenha que arrumar as portas desses espaços, a gente vai chegar, mas a gente tem que permanecer vivas. Porque falar de mulher preta morta, já deu”.
A deputada federal Erika Hilton (Psol) complementou que as mulheres negras não aceitam mais apenas os piores lugares nem replicam somente discursos de dor: “Nós também estamos reescrevendo a história. Nós também estamos projetando um futuro de esperança e de possibilidades muito melhor e muito mais possível”.
Ainda hoje (25), às 19h30, representantes do Comitê Nacional terão audiência com o ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal, onde devem reforçar a pauta da nomeação de uma ministra negra para a corte.
“Num cenário de violência extremada sobre nós diretamente”, disse Valdecir.
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Nós, mulheres negras, já estamos no impossível.”
E é justamente essa condição de impossibilidade histórica transformada em força política organizada que a Marcha das Mulheres Negras faz questão de explicitar pelas ruas de Brasília neste 2025.
Esta reportagem foi originalmente publicada na AzMina como parte da série Juntas pelo Bem Viver. Essa é uma iniciativa da Coalizão de Mídias Negras e Feministas, formada por Gênero e Número, Alma Preta, AzMina, Instituto Mídia Étnica e Nós, Mulheres da Periferia. O texto foi escrito com informações de jornalistas da coalizão que estão presente na cobertura da marcha em Brasília.