Ilustração: Lays Cantanhêde

“Não viemos pedir, queremos reparação”: Marcha das Mulheres Negras apresenta manifesto com 11 reivindicações

Organizadoras exigem fundo nacional, reconhecimento de dívida pelo Estado e paridade racial; evento mobiliza Brasília até o próximo dia 26.

Mariana Rosetti

Jane Fernandes

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  • A violência de gênero

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  • Carta por reparação e bem viver

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  • Semana de atividades e articulação política

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Na manhã desta terça-feira (25 de novembro de 2025), enquanto uma chuva persistente caía sobre Brasília, representantes de comitês temáticos da Marcha das Mulheres Negras se reuniram em coletiva para reafirmar o que chamaram de “a certeza de que já estamos no impossível no Brasil”. O impossível é a própria existência organizada e articulada das mulheres negras num cenário de violência extremada, segundo a historiadora e mestre em educação Valdecir Nascimento, fundadora do Odara – Instituto da Mulher Negra.

Coletiva reúne lideranças do movimento negro na Casa do Movimento Mulheres Negras Decidem. Foto: Isabel Lootens

A reunião aconteceu horas antes da marcha e reuniu organizações que abrangem desde tecnologia e saúde mental até mulheres de terreiro, evangélicas e protestantes. Ao fim, foi publicado o Manifesto das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver, com 11 pontos centrais de reivindicação.

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Múltiplas demandas

A diversidade de pautas apresentada pelos comitês explicita a interseccionalidade que marca o movimento. Durante a reunião nesta manhã, Valdecir, por exemplo, citou as mais de 100 mortes da Operação Contenção, classificada como a maior chacina policial do país. A ação foi deflagrada no dia 28 de outubro, nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, e acumula denúncias de violações.

“Estamos ainda com o coração magoado com o que aconteceu no Rio de Janeiro. Nós estamos marchando porque isso não pode continuar acontecendo”, afirmou.  O relatório Pele Alvo: crônicas de dor e luta confirma que, em 2024, 4.068 pessoas morreram em intervenções policiais, sendo 86% das vítimas negras. Os dados são de nove estados brasileiros (AM, BA, CE, MA, PA, PE, PI, RJ e SP).

Sil Bahia, codiretora executiva do Olabi, organização social focada em inovação social, tecnologia e diversidade, e idealizadora do PretaLab – que representa o Comitê de Tecnologia – reafirmou que não existe justiça racial sem justiça digital. “Se a tecnologia molda o mundo, que seja pelas mãos de quem molda a vida”, disse ela se referindo às mulheres negras – historicamente excluídas dessa discussão.

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Amanda Santos, representante da Rede Nacional de Lésbicas e Mulheres Bissexuais Negras Feministas (Candaces) trouxe a necessidade de reconhecimento das mulheres negras lésbicas, bissexuais, trans e intersexo no próprio movimento: “Existimos. Fazemos política, estamos marchando e merecemos esse reconhecimento”. A fala ecoa a declaração de Heliana Hemetério, historiadora, militante social e ativista negra e lésbica, na abertura da coletiva, quando afirmou que a marcha é um espaço para todas as mulheres.

A violência de gênero

Um dos pontos de convergência entre todas as organizações é a violência de gênero. A marcha acontece na data reconhecida pela Organização das Nações Unidas (ONU) como o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher: 25 de novembro.

Marta Silva, do Mapa do Acolhimento, e Vitória Régia, diretora da Gênero e Número, integrantes do Comitê de Enfrentamento à Violência de Gênero e Raça reforçaram que o Brasil é o quinto país que mais mata mulheres no mundo, e quando se analisa por raça, as mulheres negras lideram as estatísticas em todas as regiões.

Ativista durante Marcha das Mulheres Negras. Foto: Débora Oliveira/Alma Preta

Em nome do Comitê de Justiça Reprodutiva, Vitória ainda destacou que os dados sobre violência obstétrica, impactos ambientais nos territórios e criminalização do acesso a serviços de saúde mostram como as mulheres negras são afetadas de forma desproporcional: “Não é de hoje que as mulheres negras lutam por justiça reprodutiva. Lá na carta de 2015 já estava pautada a importância da gente falar sobre justiça reprodutiva para mulheres negras”, afirmou.

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Carta por reparação e bem viver

Após a coletiva, as organizadoras divulgaram a carta que fundamenta a mobilização. “Saímos às ruas para explicitar que sem Reparação não há possibilidade de democracia, justiça, igualdade e equidade em todos os domínios da vida humana”, afirma o texto, que convoca mulheres negras de todo o mundo para exigir reparação histórica.

Jornalistas e ativistas assistem coletiva que antecede Marcha das Mulheres Negras. Foto: Isabel Lootens

A carta apresenta 11 propostas concretas de reparação, entre elas o reconhecimento público pelo Estado brasileiro da dívida histórica por ato normativo do Presidente da República, a criação de um Fundo Nacional de Reparação de duração indeterminada até a equiparação das condições socioeconômicas entre os diferentes segmentos raciais da população brasileira, e emendas constitucionais que garantam paridade de raça e gênero em cargos eletivos e nos Tribunais Superiores.

O documento também cobra a extinção do Laudêmio para regularização fundiária de imóveis de pessoas negras, anistia de dívidas de financiamentos estudantis e de moradia da população negra, e regimes previdenciários especiais para categorias de trabalhos braçais ocupados majoritariamente por pessoas negras, como construção civil, trabalho doméstico e serviços de limpeza.

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A nossa trajetória nos autoriza a reconhecer os avanços, em virtude das lutas que travamos ao longo da história. Sabemos, no entanto, que é preciso irmos além, é preciso gestar o impossível”, conclui a carta.

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Semana de atividades e articulação política

As discussões e debates que integram o evento começou em 20 de novembro, com mais de 62 atividades na programação. No dia 24, véspera da marcha, a Casa do Movimento Mulheres Negras Decidem sediou a mesa “Mulheres Negras Rumo às Eleições 2026”, com as presenças da deputada Benedita da Silva, da ministra Anielle Franco, da ministra Marina Silva, de Áurea Carolina e da deputada Erika Hilton.

Em sua fala, Anielle Franco relembrou o assassinato da irmã Marielle e enviou um recado direto: “Eles querendo ou não, permitindo ou não, nem que a gente tenha que arrumar as portas desses espaços, a gente vai chegar, mas a gente tem que permanecer vivas. Porque falar de mulher preta morta, já deu”.

A deputada federal Erika Hilton (Psol) complementou que as mulheres negras não aceitam mais apenas os piores lugares nem replicam somente discursos de dor: “Nós também estamos reescrevendo a história. Nós também estamos projetando um futuro de esperança e de possibilidades muito melhor e muito mais possível”.

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Ainda hoje (25), às 19h30, representantes do Comitê Nacional terão audiência com o ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal, onde devem reforçar a pauta da nomeação de uma ministra negra para a corte.

“Num cenário de violência extremada sobre nós diretamente”, disse Valdecir.

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Nós, mulheres negras, já estamos no impossível.”

E é justamente essa condição de impossibilidade histórica transformada em força política organizada que a Marcha das Mulheres Negras faz questão de explicitar pelas ruas de Brasília neste 2025.

Esta reportagem foi originalmente publicada na AzMina como parte da série Juntas pelo Bem Viver. Essa é uma iniciativa da Coalizão de Mídias Negras e Feministas, formada por Gênero e Número, Alma Preta, AzMina, Instituto Mídia Étnica e Nós, Mulheres da Periferia. O texto foi escrito com informações de jornalistas da coalizão que estão presente na cobertura da marcha em Brasília.

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Mariana Rosetti

Jornalista, repórter, produtora, fotógrafa e podcaster, com atuação focada em direitos humanos, meio ambiente e segurança pública, sempre pelas lentes de gênero. Investiga histórias que revelam desigualdades estruturais e amplificam vozes historicamente invisibilizadas. Já colaborou com veículos como Agência Pública, Revista AzMina, Portal Catarinas, Gênero e Número, Ecoa UOL, Mongabay Brasil e Repórter Brasil, além de sete anos trabalhados em televisão, como apuradora, produtora e chefe de reportagem. É fundadora do podcast Marias&Anas, que compartilhou vivências de mulheres diversas a partir de uma escuta sensível e crítica. Formada em Comunicação Social e Jornalismo, com pós-graduação em Direito Penal e Processo Penal.

Jane Fernandes

Editora da AzMina. Jornalista formada pela Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (Facom-UFBA), com especialização em Marketing e um passado de técnica química. Nessa trajetória de mais de duas décadas no jornalismo, trabalhou em comunicação institucional e assessoria de imprensa, principalmente na área cultural, mas a reportagem sempre foi seu lugar preferido. Ganhadora do Prêmio Tim Lopes de Jornalismo Investigativo, do Prêmio Volvo de Segurança no Trânsito e do Prêmio NHR Brasil de Jornalismo, atuou como repórter, chefe de reportagem e editora, dividindo sua trajetória entre A Tarde e Correio*.

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