Dinheiro, perseguição e desinformação: as armas de Bolsonaro pelo voto das evangélicas

Entre 2018 e 2022, Bolsonaro recuou  nas intenções de voto feminino, mas cresceu entre público evangélico

por Gênero e Número

Por Jamile Santana

O combo “investimento financeiro, perseguição interna nas igrejas e desinformação massiva” tem colaborado com o crescimento de Jair Bolsonaro (PL) no 2º turno entre o público evangélico de maneira geral, mas não emplacou entre mulheres. A mudança de intenções de votos é expressiva na comparação com as eleições de 2018, quando comparados os números do Datafolha na reta final das eleições. 

A última pesquisa Datafolha para o 2º turno realizada antes das eleições de 2018 mostrava que 51% das intenções de voto das eleitoras ouvidas eram para Jair Bolsonaro, que na época disputava a presidência com Fernando Haddad (PT). Já nas pesquisas de outubro deste ano (a mais recente divulgada dia 19), antes do 2º turno, a intenção de voto entre o eleitorado feminino se manteve em 45%.

Intenção de voto em Bolsonaro entre

mulheres, evangélicos e católicos

Após quatro anos, eleitorado evangélico se manteve fiel ao presidente e reforçou seu apoio em 2022

mulheres

2018

2022

De 2018 pra cá, houve queda nas intenções de votos válidos para Bolsonaro entre o público feminino

51%

45%

intenção de votos válidos

evangélicos

2018

2022

Votariam

com certeza

Ele manteve a rejeição, mas cresceu no eleitorado evangélico de forma geral

63%

57%

32%

31%

Não votariam

de jeito nenhum

católicos

2018

2022

Não votariam

de jeito nenhum

Apesar de ser católico, Bolsonaro perdeu apoio deste segmento entre 2018 e 2022

58%

48%

42%

35%

Votariam

com certeza

fonte DataFolha

Intenção de voto em Bolsonaro entre mulheres, evangélicos e católicos

Após quatro anos, eleitorado evangélico se manteve fiel ao presidente e reforçou seu apoio em 2022

mulheres

2018

2022

intenção de

votos válidos

De 2018 pra cá, houve queda nas intenções de votos válidos para Bolsonaro entre o público feminino

51%

45%

evangélicos

2018

2022

Votariam

com certeza

63%

Ele manteve a rejeição, mas cresceu no eleitorado evangélico de forma geral

57%

32%

31%

Não votariam

de jeito nenhum

católicos

2022

2018

Não votariam

de jeito nenhum

58%

Apesar de ser católico, Bolsonaro perdeu apoio deste segmento entre 2018 e 2022

48%

42%

35%

Votariam

com certeza

fonte DataFolha

Mas no voto evangélico, no entanto, o cenário foi positivo para Jair Bolsonaro. Nas eleições passadas,  57% dos eleitores evangélicos ouvidos pelo Datafolha disseram que votariam em Bolsonaro no segundo turno com certeza. Neste ano, o índice subiu para 63%. 

Entre as duas eleições, Bolsonaro manteve sua rejeição de 31% entre os evangélicos que declararam não votar nele de jeito nenhum.

Por que Bolsonaro?

A pesquisa “Mulheres evangélicas, política e cotidiano”, realizada pelo Instituto de Estudos da Religião (ISER), busca entender como mulheres evangélicas e suas intersecções sociais, como raça e condição socioeconômica, se relacionam com a política e como isso influencia o voto. Foram ouvidas 45 mulheres de todas as regiões do país. Do total de entrevistadas, 51,1% declararam ter votado em Jair Bolsonaro em 2018. Outras 23,3% declararam ter votado em Fernando Haddad. O voto no petista só foi declarado pela maioria das entrevistadas no estado da Bahia, onde Haddad também conseguiu 72,7% dos votos válidos em 2018.

Entre os motivos apontados pelas mulheres evangélicas que escolheram Bolsonaro em 2018, está a “aposta que o perfil do líder político deva ser semelhante ao perfil de um líder cristão – guiados por valores cristãos”. O slogan “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, repetido com frequência pelo presidente e seus apoiadores, é uma forma de reforçar o que consideram esses “valores”.

A influência das igrejas no voto evangélico e feminino

A pesquisa ouviu

45 mulheres

de todas as regiões do país

51% delas

votaram em Jair

Bolsonaro em 2018

Por que Jair Bolsonaro?

Os motivos mais apontados foram:

Mulheres 30+ têm mais afinidade ou justificativa de voto em Bolsonaro

“Ele é um homem sincero, que não esconde quem é, e, portanto, imperfeito.”

“A experiência cotidiana como crente ajuda a humanizar a figura ‘imperfeita’ de Bolsonaro. Ele também pode errar: nenhum ser humano é perfeito e nenhum outro pode julgá-lo.”

fotos skalgubbrasil, escalalatina e agência brasil

fonte pesquisa “Mulheres evangélicas, política e cotidiano”, realizada pelo Instituto de Estudos da Religião (ISER)

A influência das igrejas no voto evangélico e feminino

A pesquisa ouviu

45 mulheres

de todas as regiões do país

51% delas

votaram em Jair

Bolsonaro em 2018

Por que Jair Bolsonaro?

Os motivos mais apontados foram:

Mulheres 30+ têm mais afinidade ou justificativa de voto em Bolsonaro

“Ele é um homem sincero, que não esconde quem é, e, portanto, imperfeito.”

“A experiência cotidiana como crente ajuda a humanizar a figura ‘imperfeita’ de Bolsonaro. Ele também pode errar: nenhum ser humano é perfeito e nenhum outro pode julgá-lo.”

fotos skalgubbrasil, escalalatina e agência brasil

fonte pesquisa “Mulheres evangélicas, política e cotidiano”, realizada pelo Instituto de Estudos da Religião (ISER)

A humanização de Bolsonaro também foi apontada como um fator de escolha de voto entre as mulheres evangélicas ouvidas na pesquisa. “Espera-se que crentes não errem, sejam polidos e corretos, algo que não ocorreria com adeptos de outras religiões.  Como Bolsonaro, essas mulheres também erram e reconhecem nele essa característica tão esperada nos evangélicos. A experiência cotidiana como crente ajuda a humanizar a figura ‘imperfeita’ de Bolsonaro. Ele também pode errar: nenhum ser humano é perfeito e nenhum outro pode julgá-lo”, explica Livia Reis, uma das coordenadoras da pesquisa.

Movimento orquestrado pelo medo

Segundo ela, de 2018 até agora, a base do presidente se empenhou em recuperar votos evangélicos onde havia perdido, fazendo uso de intensa mobilização, que se pauta pela desinformação. 

“Há um elemento sendo usado que é a proteção da família. Quando uma pessoa que você confia, como um pastor, por exemplo, fala que você só pode votar em determinado candidato porque sua família está em perigo, as pessoas, sobretudo as mulheres que são mães, passam a ser motivadas pelo medo. Esse movimento vem sendo feito de maneira orquestrada, por lideranças comprometidas no dia a dia dessas mulheres”, explica.

Além disso, segundo a pesquisadora, há um investimento financeiro, perseguição interna nas igrejas e desinformação massiva, que corroboram com a aproximação de Bolsonaro com parte expressiva da comunidade evangélica. 

“Temos influenciadores digitais produzindo vídeos todos os dias, igrejas evangélicas divulgando cartas abertas de apoio a Bolsonaro, um movimento nunca visto antes nas eleições, com muito dinheiro de campanha envolvido. Bolsonaro não conseguiria recuperar os votos entre as eleitoras de uma forma geral, então tem investido muito no votos das evangélicas”, detalha.

ler Leia também: 5 ataques de Bolsonaro às mulheres

Perseguição na igreja

Há quase cinco anos, Elizabete*, de 46 anos, começou a frequentar uma Assembleia de Deus em Mogi das Cruzes, cidade da Região Metropolitana de São Paulo. Já nas eleições de 2018, a pressão para votar em Bolsonaro era grande, mas nada comparado ao assédio ao qual a fiel é exposta atualmente. 

“Na época o pastor falava vez ou outra que a gente deveria votar no Bolsonaro porque ele era um homem de família igual a gente”, contou. Nas eleições municipais de 2020, o assédio começou a ficar mais intenso. “O pastor passou nosso telefone para candidatos que ele achava que tinham que ganhar na cidade, convidava para o culto. Eu recebia mensagem de pessoas que eu nem conhecia e nem tinha autorizado”, disse. Nessas eleições, a situação é ainda mais grave.

aspa

Desde que começou a campanha, não teve um dia em que o pastor não citou o nome do Bolsonaro. E ele fala mal da esquerda, fala que o Lula vai criar banheiro unissex para as crianças.

“Um dia eu entrei no site pra ler e não achei essas informações no plano de governo, então fui perguntar para o pastor. Ele não gostou dos meus questionamentos e passou a me assediar publicamente durante os cultos. Falando que dia 30 ‘é 22’, que tem fiel que vai ter que pedir perdão, que estão orando pra esquerdista não ganhar”, contou.  Mesmo incomodada com o assédio e a agressividade, ela não pensa em se afastar. “É difícil porque a gente faz parte de uma comunidade que se apoia. Já pensei muito sobre isso, mas ainda não consegui sair”, revelou. 

 

*Nome fictício adotado para preservar a personagem

 

Jamile Santana é colaboradora da Gênero e Número

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