Nos últimos anos, um número expressivo de pessoas LGBTQIA+ tem envelhecido com visibilidade no Brasil. A geração que lutou nas primeiras Paradas, que viu nascer o SUS e o casamento igualitário, agora vive a velhice. Mas, ao contrário do que se poderia imaginar, essa trajetória não garante um fim de vida mais digno: para muitos, a chegada à terceira idade pode significar um retorno forçado ao armário, seja em casas de acolhimento, no convívio familiar ou até mesmo no sistema de saúde. Este ano, a 29ª Parada do Orgulho LGBTQIA+ de São Paulo, considerada a maior do mundo, evidenciou em 22 de junho justamente esse debate ao trazer como tema: “Envelhecer LGBT+: Memória, Resistência e Futuro”.
“Você se afirma a vida inteira, mas, quando envelhece, precisa esconder de novo quem é para ser cuidado”, resume Dora Cudignola, 72 anos, presidente da Eternamente Sou, associação dedicada ao atendimento da população LGBTQIA+ idosa. Viúva, ex-professora e ativista, ela fala com a lucidez de quem aprendeu a se reconhecer e se aceitar com o tempo.
Lésbica, Dora relembra com carinho a relação de 13 anos com sua companheira Sílvia Regina Fracasso, coordenadora pedagógica com quem dividia casa, afetos e sonhos. Apesar da convivência estável, o medo do julgamento as impedia de viver o amor livremente. “Eu me arrependo de não termos andado de mãos dadas na rua. Amávamos tanto, por que a gente se escondia?”, questiona. “Quem perdeu fui eu, deixando de viver pelo medo do que os outros pensariam.”
Na associação, Dora acompanha de perto os desafios enfrentados por pessoas idosas LGBTQIA+ em situação de vulnerabilidade.
Muita gente volta para o armário na velhice. Tem medo de ir para uma casa de acolhimento e ter que se separar do parceiro, da companheira ou de não ser aceito na própria família.”
Seu sonho é criar uma instituição de longa permanência (ILPI) voltada à população LGBTQIA+, mas com uma proposta diferente da lógica tradicional: “Não é só juntar todo mundo. Tem que ter estudo, escuta, preparo. Não queremos repetir a lógica das instituições tradicionais, que separam casais e invisibilizam as identidades.”
O armário também se reinstala nos lares familiares. Pessoas que dependem de cuidados de filhos, sobrinhos ou irmãos LGBTfóbicos muitas vezes omitem sua orientação sexual ou identidade de gênero para manter o mínimo de apoio material e emocional. Segundo Dora, esse medo de rejeição ou abandono é comum entre os idosos LGBTQIA+ que procuram apoio na Eternamente Sou.
Apesar de existirem diversas iniciativas de acolhimento para idosos, poucas contemplam políticas específicas para a população LGBTQIA+. No artigo Reflexões sobre velhices LGBTQIA+ em Instituições de Longa Permanência para Idosos” (Sesc-SP, 2023), os pesquisadores Bibiana Graeff, Thaíssa Araujo de Bessa e Wellington R. N. Toprelli destacam que o Brasil tem cerca de 5 mil ILPIs cadastradas, mas nenhuma voltada exclusivamente a pessoas LGBTQIA+.
Muitas instituições, influenciadas por valores religiosos e conservadores, silenciam identidades não normativas e empurram seus residentes à clandestinidade, com impactos como depressão, solidão e abandono. A falta de políticas públicas inclusivas e a invisibilidade nos dados reforçam esse apagamento.
E, muitas vezes, o silêncio é o próprio dado. Em sua pesquisa de doutorado ainda em desenvolvimento, o gerontologista Diego Félix Miguel tentou mapear a presença de pessoas LGBTQIA+ em ILPIs de diferentes regiões do Brasil, com predominância no Sudeste. Dados preliminares mostram que, das 77 unidades consultadas, apenas 13 afirmaram acolher pessoas LGBTQIA+, somando 16 residentes – seis homens gays, cinco pessoas bissexuais, quatro lésbicas e uma pessoa trans.
Mas o dado mais revelador não estava na planilha, e sim nas respostas evasivas: “Quase nenhuma instituição autorizou o contato. Diziam que a família não permitia, ou então alegavam que a pessoa estava com demência repentina. Só uma deixou a entrevista acontecer”, relata. Para Diego, isso evidencia o quanto o armário ainda é uma imposição institucional.
“Se essa pessoa LGBTQIA+ está em uma casa de acolhimento e não pode contar a própria história, será que ela ainda pode ser quem é? Ou já foi empurrada de volta para o armário?”
Na avaliação do pesquisador, o silenciamento tem raízes profundas, pois a maioria das ILPIs no Brasil nasce a partir de uma perspectiva religiosa, cujos valores fundadores ainda orientam decisões até hoje, segundo Diego. Em um dos casos que acompanhou de perto, profissionais sugeriram a compra de objetos para garantir uma masturbação segura entre os residentes, mas a direção vetou. “Disseram: ‘Isso aqui é uma casa de família.’”
A LGBTfobia, pontua o pesquisador, não parte apenas de cuidadores ou profissionais de saúde. Muitas vezes, vem de outros residentes e, de forma ainda mais perversa, dos próprios familiares de pessoas institucionalizadas.
Já ouvi casos em que um filho exigiu a retirada de uma mulher trans do quarto onde estava sua mãe, e a instituição atendeu ao pedido. Isso é uma violência.”
Além disso, protocolos e rotinas dessas casas costumam ser pensados com base em uma lógica heterossexual e cisgênera, o que silencia identidades e invisibiliza vivências diversas. Formulários e cadastros perguntam a homens “qual o nome da sua esposa?”, enquanto campanhas de Dias dos Namorados retratam apenas casais formados por homem e mulher, por exemplo. Segundo Diego, para transformar esse cenário, é necessário capacitar os profissionais para lidar com a diversidade sexual e de gênero; adequar formulários, cadastros e protocolos para contemplar diferentes configurações familiares e identidades; garantir representatividade em campanhas, atividades e ambientes internos; e respeitar nome social e identidade de gênero, inclusive na escolha de quartos e banheiros para pessoas trans, entre outras medidas.
Com passagem pela atenção primária do SUS, onde coordenou uma equipe que participou de capacitações em saúde LGBTQIA+ promovidas pela Universidade Aberta do Sistema Único de Saúde, Diego reconhece que formação técnica, sozinha, não basta. “Todos fizeram o curso, saíram com certificado, mas, na prática, não sabiam como se conectar com a pessoa. O preconceito não muda com PowerPoint. Muda com escuta e empatia.”
A prática da escuta transformadora é algo que Diego tem promovido em oficinas no Convita, centro de convivência para imigrantes italianos idosos onde atua. Em uma dessas atividades, duas mulheres lésbicas foram convidadas a compartilhar suas histórias com um grupo de mães idosas. “Uma das mães ainda resistia em aceitar o filho trans”, conta.
Mas o neto dela, de apenas 10 anos, sempre corrigia os pronomes. Um dia, ela parou, olhou para ele e disse: ‘Se meu neto consegue entender, por que eu não conseguiria?’”
Essa experiência abriu espaço para o diálogo e ajudou a desconstruir preconceitos, num processo de empatia mútua entre as participantes.
As ILPIS voltadas ao público LGBTQIA+, para além de “aceitarem” essas pessoas, segundo Diego, precisam garantir um ambiente seguro e acolhedor, com profissionais capacitados para lidar com as demandas específicas da comunidade; traçar políticas explícitas de respeito à identidade de gênero e orientação sexual, incluindo o uso correto de nome social e pronomes; se atentar à representatividade nas rotinas, materiais e atividades; e promover a liberdade na escolha dos quartos, da convivência e da expressão de afetos, sem que haja medo de retaliação ou discriminação.
Ele ressalta que o diferencial está em criar uma cultura institucional realmente inclusiva, em que não seja necessário “voltar ao armário” para ser cuidado. Mas ele também acredita que é preciso ir além da criação das ILPIs voltadas ao público LGBTQIA+: “A instituição de longa permanência deve ser o último recurso. Precisamos de moradia digna, rede de apoio, centros de convivência específicos. E um sistema de saúde que acolha e não silencie.”
Velhices trans, existências negadas
A professora e ativista Sara Wagner York, uma das fundadoras do Ambulatório de Identidade Transdiversidade da UERJ, afirma que o apagamento da velhice trans é parte de um processo de exclusão que começa na infância. Expulsa de casa aos 12 anos por “ser bicha demais”, ela foi acolhida por travestis nas ruas e submetida, ainda na adolescência, a um processo religioso de “cura gay”. “O pastor começou uma série de atos de terrorismo psicológico, que hoje a gente chama de terapia de conversão. Mas na época, era só ‘Deus contigo’”, relata.
Mais tarde, engravidou uma mulher num contexto de coerção espiritual. “Meu filho foi retirado da minha presença aos cinco anos. Nunca mais o vi.” Só 15 anos depois, ela pôde reencontrar o filho.
A trajetória de Sara, como de tantas outras pessoas trans, foi atravessada por instituições que deveriam acolher, mas violentaram. “Fui parar em abrigo, fui parar em hospital psiquiátrico, fui parar em centro de atendimento religioso. E sempre com a tentativa de me anular.”
Hoje, ela enxerga que esse apagamento se reinventa na velhice, e por isso a destransição tardia precisa ser problematizada. Segundo Sara, o fenômeno ocorre quando pessoas trans, já na velhice, deixam de expressar sua identidade de gênero e acabam retomando, muitas vezes por imposição social, institucional ou por necessidade de sobrevivência, o gênero que lhes foi atribuído no nascimento.
Isso costuma acontecer em ambientes pouco acolhedores, como instituições de longa permanência ou contextos familiares, onde o respeito ao nome social e à identidade de gênero não é garantido. Para Sara, esse fenômeno não deve ser visto como uma escolha espontânea, mas como resultado de uma vida marcada por apagamentos, violências e falta de condições para viver plenamente sua transgeneridade.
Ela também alerta para a tentação de uniformizar vivências trans, ignorando que muitas trajetórias foram marcadas por institucionalização, pobreza, violência policial e rejeição familiar. “Não é todo mundo que foi trans desde criança, que enfrentou a rua, a polícia, o medo. Isso forma uma história que não pode ser ignorada.”
Uma vida no armário, um amor na velhice
Enquanto Sara traz a perspectiva de uma vivência trans marcada por exclusão desde a infância, outras pessoas só romperam o silêncio na velhice. Fernando Antônio Sandes Carvalho viveu quase sete décadas no armário. Aos 73 anos, conta com lucidez e humor a trajetória de silenciamento e repressão que o impediu de viver sua sexualidade por medo, culpa e pressão familiar. “Minha sexualidade homo ficou lá no baú, no fundo do baú”, diz, ao lembrar do casamento com uma mulher que durou quase 30 anos.
Filho de família católica conservadora, Fernando passou parte da juventude em um seminário, reprimindo seus desejos. “Às vezes, nem dormia se tivesse me masturbado. Morria de medo do inferno.” Anos depois, ao receber um convite para frequentar uma igreja presbiteriana, ele perguntou se aceitavam a homossexualidade. A resposta foi direta: “É pecado”.
Ele decidiu: “Não me interessa, pois essa experiência eu já vivi na pele”, afirmou. Hoje, Fernando busca espiritualidades acolhedoras, como o budismo, que não condenam [as vivências LGBTQIA+]. Em 2007, fez um curso de tantra, que descreve como transformador: “Uma reconexão com o corpo e o prazer, sem culpa ou julgamento.”
Foi apenas durante a pandemia que Fernando criou coragem de assumir publicamente quem era. Aos 69 anos, fez um post nas redes sociais anunciando o fim do casamento e o início de uma nova etapa. “Escrevi que estava me separando da minha esposa por um único motivo: eu realmente sou gay.” A publicação ultrapassou 30 mil visualizações.
Desde então, tem vivido a sexualidade com liberdade e afeto, inclusive em um novo relacionamento. Ainda assim, reconhece que o medo do futuro e da solidão persiste. “Fico preocupado. Quem vai estar comigo quando eu estiver mais velho? Mas meu namorado sempre me lembra que o futuro não existe.”
Depois de décadas de silenciamento, hoje Fernando se define como um homem finalmente livre e lúcido sobre os processos que o impediram de viver plenamente por tanto tempo.
Me disseram que eu não podia ser quem eu era. Levei quase 70 anos para dizer que sim, eu posso. E posso amar.”
Saúde: acesso, barreiras e resistência
A exclusão na velhice não é apenas simbólica, ela compromete a saúde física e mental, sobretudo quando somada à LGBTfobia. “A solidão pode matar”, diz Milton Crenitte, geriatra e coordenador do Ambulatório de Sexualidade da Pessoa Idosa do Hospital das Clínicas da USP. “Quando a sociedade não garante pertencimento, o envelhecimento se torna ainda mais vulnerável.”
Segundo ele, a falta de acolhimento afeta diretamente o modo como as pessoas acessam ou deixam de acessar o SUS.
O sistema de saúde ainda é profundamente heterocisnormativo. Há barreiras desde a organização dos serviços até a disposição da pessoa em sair de casa para procurar atendimento.”
Há cerca de dois anos, Crenitte também coordena um ambulatório de promoção à saúde, da Faculdade de Medicina da USP, voltado exclusivamente para pessoas trans com mais de 40 anos, o primeiro do tipo no país. O espaço oferece atendimento físico, psicológico e hormonização, além de atuar na formação de profissionais de saúde. “Os residentes de Geriatria passam pelo serviço e aprendem com a população trans 40+, que é a mais vulnerabilizada. Eles ensinam muito, e quem acompanha aprende na escuta”, resume.
No interior de São Paulo, um projeto similar presta assistência exclusivamente a pessoas LGBTQIA+ com mais de 60 anos. Criado em agosto de 2023, o ambulatório coordenado pelo geriatraAndré Fattori na Unicamp acolhe atualmente 28 pacientes, em sua maioria homens gays, mas também mulheres lésbicas e pessoas trans, de acordo com André. “Recebemos muitos sobreviventes da epidemia de HIV dos anos 1990, com sequelas do tratamento. Também vemos quadros de depressão, ansiedade e déficit cognitivo agravados pelo isolamento social e pela exclusão familiar”, relata.
Além das barreiras individuais, o serviço enfrenta limitações estruturais: muitos usuários moram longe e têm dificuldade de transporte, ou não retornam por medo do julgamento familiar. “Todo posto de saúde deveria atender a população LGBTQIA+ com respeito e empatia, mas como não acontece, o ambulatório é necessário”, diz.
Uma das primeiras pacientes do serviço é a aposentada Dora Ferreira da Rocha, de 83 anos. Mulher trans desde os 14, ela passou a vida dizendo que era mulher, e nunca foi questionada. “Sou Dora desde menina. Nunca me escondi, enfrentei tudo de cabeça erguida. Trabalhei como gerente geral de recursos humanos, chefiando até 16 filiais. E ouvi muita coisa só por ser quem sou.”
Apesar da longa experiência profissional, Dora diz que, mesmo com plano de saúde privado, quase nunca foi respeitada nos atendimentos. “Me trataram com frieza, me chamaram de ‘senhor’, perguntaram se eu tinha acompanhante. Era como se eu fosse invisível.” O cenário mudou quando começou a ser atendida no ambulatório da Unicamp. Lá, ela se sente acolhida.
Um dos médicos andou comigo 600 metros pelo hospital só para me animar. Eles me tratam com respeito, escutam minha história, cuidam de mim como gente.”
Hoje, Dora mora com o companheiro, com quem está há 50 anos. Recentemente, após sofrer uma queda e fraturar duas costelas e a coluna, foi forçada a se mudar para uma casa menor e mais precária por decisão de familiares. Mesmo diante da violência, ela mantém o humor afiado e a vaidade: “Não falo com ninguém sem passar batom e botar brinco. Como dizia minha mãe: quem não se enfeita, por si se enjeita.” E arremata: “Quando disserem que você não pode, é aí que você pode!”
Ausência de dados, ausência de cuidado
Relatos como esses encontram respaldo em estudos recentes, como uma pesquisa de 2023 realizada pelo Hospital Albert Einstein, pela USP e pela Universidade de São Caetano do Sul, da qual Milton Crenitte é um dos autores. O estudo Transforming the Invisible into Visible: LGBTQIA+ Aging and Health Care Needs in Brazil [Transformando o Invisível em Visível: Envelhecimento LGBTQIA+ e Demandas de Cuidado com a Saúde no Brasil, em tradução livre] revela que 53% das pessoas LGBTQIA+ com mais de 60 anos duvidam da preparação dos médicos para atender às suas necessidades específicas e 34% apontam desconhecimento sobre identidade de gênero e orientação sexual.
Idosos LGBTQIA+ e profissionais de saúde
Uma pesquisa publicada em 2023 revelou o vão entre idosos LGBTQIA+ e profissionais de saúde
[pessoas lgbt+
com mais de 60 anos]
Confiança nos profissionais de saúde
47%
confiam
53%
duvidam da preparação dos médicos para atender às suas necessidades específicas
Conhecimento do médico sobre identidade de gênero e orientação sexual do paciente
34%
não informaram
66%
informaram para o médico sobre sua identidade de gênero e orientação sexual
fonte transforming the invisible into visible: lgbtqia+ aging and health care needs in brazil
Idosos LGBTQIA+ e profissionais de saúde
Uma pesquisa publicada em 2023 revelou o vão entre idosos LGBTQIA+ e profissionais de saúde
[pessoas lgbt+
com mais de 60 anos]
Confiança nos profissionais de saúde
53%
duvidam da preparação dos médicos para atender às suas necessidades específicas
47%
confiam
Conhecimento do médico sobre identidade de gênero e orientação sexual do paciente
66%
informaram para o médico sobre sua identidade de gênero e orientação sexual
34%
não informaram
fonte transforming the invisible into visible: lgbtqia+ aging and health care needs in brazil
A situação é ainda mais grave entre pessoas LGBTQIA+ negras: 41% relatam dificuldades de acesso, contra 29% entre brancos. Os exames preventivos também refletem essas disparidades: apenas 40% das mulheres LBT+ com mais de 50 anos fizeram mamografia, em comparação com 74% das cis heterossexuais. Para o Papanicolau, os índices foram de 39% e 73%, respectivamente.
A pesquisa ouviu 6.693 pessoas usuárias do sistema público e privado e revela o impacto do etarismo sobre uma população marcada pela epidemia de HIV/AIDS e por um histórico de patologização das vivências LGBTQIA+ pela própria Organização Mundial da Saúde.
“Essas pessoas se afastam do exame de Papanicolau, da mamografia, do exame de próstata… porque não se sentem bem no atendimento tradicional. São temas que os profissionais evitam tocar”, afirma o geriatra André Fattori.
Acesso à saúde na velhice LGBTQIA+ é afetado por raça
A raça das pessoas LGBTQIA+ é outro fator que determina quem tem acesso à saúde
[pessoas lgbt+
com mais de 60 anos]
negras
brancas
29%
41%
das pessoas LGBT+ negras relatam dificuldades de acesso ao sistema de saúde
fonte transforming the invisible into visible: lgbtqia+ aging and health care needs in brazil
Acesso à saúde na velhice LGBTQIA+ é afetado por raça
A raça das pessoas LGBTQIA+ é outro fator que determina quem tem acesso à saúde
[pessoas lgbt+
com mais de 60 anos]
negras
41%
das pessoas LGBT+ negras relatam dificuldades de acesso ao sistema de saúde
brancas
29%
fonte transforming the invisible into visible: lgbtqia+ aging and health care needs in brazil
Desde 2011, o Brasil conta com a Política Nacional de Saúde Integral da População LGBTQIA+, que estabelece o direito ao atendimento humanizado e ao acesso pleno a todos os serviços do SUS, com respeito ao nome social, combate à discriminação e acolhimento das demandas específicas da comunidade. Entre as diretrizes, estão a capacitação das equipes, protocolos inclusivos e ações de promoção da equidade.
Apesar do avanço no papel, o maior desafio é a implementação efetiva dessas normas no cotidiano dos serviços de saúde. Barreiras como falta de preparo das equipes, preconceito e invisibilidade ainda afastam parte da população LGBTQIA+ dos cuidados básicos e dos exames preventivos. Para garantir o direito à saúde integral, especialistas defendem que a política pública se traduza em práticas acolhedoras em todas as unidades de saúde do país.
Dora Cudignola viveu na pele a lesbofobia no atendimento de saúde. Durante um exame ginecológico de rotina, foi questionada por uma enfermeira, com deboche, por que uma idosa sem vida sexual ativa insistia em se cuidar. “Ela falou como se eu não precisasse mais de cuidado. Eu respondi: ‘Sou lésbica, sou viúva, tenho desejos. E mereço ser respeitada.’”
Mulheres LBTQIA+ têm menos acesso a exames de prevenção
Exames ginecológicos essenciais à saúde não têm abrangido mulheres LBTQIA+ como abrangem as cis e héteros
mulheres lgbt+
cis heterossexuais
mulheres com mais de
50 anos que fizeram
40%
74%
Mamografia
mulheres com mais de
50 anos que fizeram
39%
73%
Papanicolau
fonte transforming the invisible into visible: lgbtqia+ aging and health care needs in brazil
Mulheres LBTQIA+ têm menos acesso a exames de prevenção
Exames ginecológicos essenciais à saúde não têm abrangido mulheres LBTQIA+ como abrangem as cis e héteros
mulheres com mais de
50 anos que fizeram
Mamografia
mulheres lgbt+
cis heterossexuais
40%
74%
mulheres com mais de
50 anos que fizeram
Papanicolau
mulheres lgbt+
cis heterossexuais
39%
73%
fonte transforming the invisible into visible: lgbtqia+ aging and health care needs in brazil
Fernando Carvalho também relata constrangimentos e homofobia velada. Em consulta com um urologista, ao ser avisado sobre o toque retal, antecipou-se: “Sou gay, sou versátil, faço de tudo.” O médico fez o exame, sério, e concluiu: “Sua próstata está ótima.” Fernando riu por dentro: “Que bom, posso dar à vontade. Mas, claro, com critério, né?”, diverte-se.
Após um infarto em 2019, Fernando passou a consultar um cardiologista renomado. Em uma consulta, entregou o celular para o médico testar um aplicativo de glicemia. “Não tinha desativado as notificações, e devia ter alguma mensagem de amizade gay ou até nude”, conta. O médico, antes cordial, mudou o semblante. “Ficou frio, sério. Não falou nada, mas nunca mais voltei.”
O mais alarmante, segundo os entrevistados, é a ausência de dados. Diferente dos Estados Unidos, onde se estima haver mais de 3 milhões de LGBTQIA+ com mais de 50 anos, o Brasil sequer consegue dimensionar essa realidade.
Crenitte ressalta:
Só fazemos políticas públicas conhecendo a população. A recusa do IBGE em incluir perguntas sobre identidade de gênero e orientação sexual nos censos é uma forma de apagamento.
Essa omissão impede o planejamento de ações em moradia, previdência, saúde mental e trabalho. “Negar que identidade de gênero e orientação sexual sejam marcadores que impactam a expectativa de vida é mais preconceito”, conclui.
Apesar dos obstáculos, há também força e afirmação em cada uma dessas histórias. Dora, Sara, Fernando e os profissionais que aceitaram falar sabem que contar a própria trajetória é um ato de resistência. “Hoje eu falo sem medo: sou lésbica, sou idosa, e não vou mais me esconder. A vergonha era dos outros, não minha”, afirma Dora. “Estou viva para contar a minha história e ajudar outras pessoas a contarem as delas.”
Uma proposta em tramitação na Câmara dos Deputados aponta um caminho possível para reverter esse cenário. De autoria da deputada Duda Salabert (PDT-MG), o Projeto de Lei nº 2670/2025, conhecido como Lei Sissy Kelly, em homenagem à ativista travesti, propõe a criação da Política Nacional de Promoção dos Direitos e Atenção Integral às Pessoas Idosas LGBTI. O texto prevê desde a inclusão dessa população em ILPIs, com respeito à identidade de gênero, até a obrigatoriedade da capacitação das equipes de saúde e a produção de dados estatísticos com recorte LGBTQIA+.
Apresentado em 30 de maio de 2025 pela deputada Duda Salabert, o PL está em fase inicial de tramitação e atualmente passa por análise nas comissões de Saúde, Direitos da Pessoa Idosa, Direitos Humanos e Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados. Se aprovado, o projeto poderá consolidar em lei um direito há muito negado: o de envelhecer sem precisar se esconder.
Expediente da Gênero e Número
Direção de conteúdo e revisão Vitória Régia da Silva
Edição Bruna de Lara Design e Infografia Victória Sacagami Checagem dos dados Diego Nunes da Rocha
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André Tomazela é jornalista formado pela Unesp e pós-graduado em Gestão da Comunicação em Mídias Digitais pelo Senac-SP. Atua em comunicação corporativa e reportagem, com trabalhos publicados nos projetos especiais do Valor Econômico nas áreas de sustentabilidade, meio ambiente, inovação e infraestrutura. É autor do Divercidade Podcast, que dá voz a artistas independentes LGBTQIA+.
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