Foto em uma sala de cinema mostra assentos cobertos por um lenço verde, símbolo da luta pela legalização do aborto na América Latina Foto em uma sala de cinema mostra assentos cobertos por um lenço verde, símbolo da luta pela legalização do aborto na América Latina
Foto: Estreia filme Verde-Esperanza/ Gabrielle Abreu

Filmes brasileiros trazem diversidade ao debate sobre aborto

Enquanto Hollywood ainda conta com maioria de personagens brancas e diretores homens cis, cinema sobre direitos reprodutivos tem mudado na última década

Agnes Sofia Guimarães Cruz

  • Homens cis falam de aborto

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  • Diversidade em filmes sobre aborto

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Uma jogadora de vôlei de 17 anos de idade, negra, periférica, com um futuro promissor no esporte, está prestes a ganhar uma bolsa de estudos no exterior, mas às vésperas da final do campeonato e da mudança de vida, descobre que está grávida. Uma mulher branca, de classe média, cineasta renomada, vive as expectativas da primeira gravidez quando, durante a pandemia, descobre que está gerando um feto que não tem chance de sobreviver.

Ficção, realidade, faixa etária, cor e idade são aspectos diferentes entre as duas mulheres, mas as levam para uma luta em comum: a busca por um aborto seguro, retratado em filmes nacionais premiados recentemente em festivais e que já começam a circular entre o público.

Dirigido por Lillah Halla, Levante estreou na última quinta-feira (22) nos cinemas brasileiros. A ficção, estrelada pela atriz Domênica Dias, já conquistou diversos prêmios, entre eles o da Crítica Internacional, como melhor obra das seções paralelas do Festival de Cannes, e o Troféu Redentor de melhor montagem e melhor direção no Festival do Rio.

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Incompatível com a Vida é um documentário que se baseia na experiência pessoal da diretora Eliza Capai. Grávida durante a pandemia da Covid-19, ela resolve documentar a gestação, mas acaba descobrindo a condição que a leva a buscar um aborto. O filme acaba se tornando um registro dessa jornada, enquanto apresenta histórias de mulheres que receberam o mesmo diagnóstico durante a gravidez.

O filme de Eliza esteve qualificado para ser indicado ao Oscar e também foi reconhecido com o prêmio de melhor documentário pela Academia Paulista de Críticos de Arte e o de Melhor Filme e Melhor Montagem na última edição do Festival É Tudo Verdade.

Produções nacionais, encabeçadas por mulheres e pessoas LGBTQIA+, ajudam a trazer  um olhar renovado sobre o aborto – um resultado de décadas de luta por um cinema mais diversificado, sobretudo para cobrir temas sensíveis para o mesmo público.

ler Saiba onde ver filmes recentes sobre aborto no Brasil e no mundo

Homens cis falam de aborto

No circuito da terceira maior e ainda considerada a mais influente indústria cinematográfica do mundo, Hollywood, o aborto é um tema que está presente desde os primórdios da própria história do cinema, mas que foi narrado majoritariamente por homens cis até a segunda década do século XXI.

É o que indica o banco de dados sobre a representação do aborto na TV e no cinema hollywoodiano, Abortion on screen, do grupo Advancing New Standards in Reproductive Health (ANSIRH), da Universidade da Califórnia. Desde 2016, a pesquisa, encabeçada por Gretchen Sisson, Steph Herold e Katrina Kimport, busca entender de que forma as atrações televisivas americanas retratam o aborto, assim como as obras que são produzidas ou chegam a Hollywood.

Em um total de 214 filmes catalogados, apenas 31 são totalmente dirigidos por mulheres cis, enquanto cinco são codirigidos com homens cis e um filme é dirigido por uma pessoa não binária. A maior parte dessas obras em que homens cis não falam sozinhos sobre aborto – 62% – foi lançada entre 2010 e 2024.

ler Maria Lutterbach, diretora de Verde-Esperanza: “A descriminalização social do aborto depende do apoio amplo da sociedade”

Filmes sobre aborto em Hollywood

[1916 - 2023]

gênero do

diretor(a)

homem cis

e mulher cis

pessoa

não-binária

homem cis

mulher cis

qnt. filmes

dirigidos

177

31

5

1

uma barra

representa 1 filme

dirigido por mais de uma mulher cis

dirigido por mais de um homem cis

12 filmes por ano

1999 foi o ano com

a maior produção, totalizando 11 filmes

sobre aborto feitos.

10

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6

4

2

1920

30

40

50

60

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80

90

2000

10

20

2013 foi o único ano em que nenhum filme sobre aborto foi dirigido por homens cis .

62%

dos filmes sobre aborto dirigidos por mulheres cis e pesoas não binárias foram lançados entre 2010 e 2024.

Fonte Abortion on screen (ANSIRH) e TMDB

Filmes sobre aborto

em Hollywood

[1916 - 2023]

gênero do

diretor(a)

homem

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dirigido por mais de um homem cis

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2013 foi o único ano em que nenhum filme sobre aborto foi dirigido por homens cis .

62%

dos filmes sobre aborto dirigidos por mulheres cis e pesoas não binárias foram lançados entre 2010 e 2024.

Fonte Abortion on screen (ANSIRH) e TMDB

ler Faça como a Angélica e fale de aborto

Ainda assim, nem sempre a direção de uma mulher cis teve como resultado um olhar mais cuidadoso ou positivo sobre a prática do aborto. No filme mais antigo do banco, Where Are My Children, a direção é de Phillips Smalley em parceria com Louis Weber, uma das pioneiras na profissão e famosa por ter realizado o primeiro nu frontal feminino.

Apesar da ousadia, para a época, de abordar o tema do aborto e o uso de contraceptivos – Weber também dirigiu outro filme citado na plataforma, The Hand That Rocks the Cradle -, Where are my children, hoje, é considerado eugenista pelo olhar implícito sobre o impacto da interrupção da gravidez na taxa de natalidade.

Ainda que filmes em língua inglesa e norte-americanos sejam maioria, o grupo de pesquisa não deixa de monitorar produções de língua não-inglesa e de outros países que também circulam entre as distribuidoras hollywoodianas.

Exemplos disso são o francês O Acontecimento, vencedor do Leão de Ouro de melhor filme no Festival de Veneza, em 2021, e Lingu – Laços Sagrados, do Chade. O mesmo vale para seriados que são de outros países, mas foram produzidos ou distribuídos por plataformas de streaming disponíveis nos EUA, como a série Bom dia Verônica, produzida no Brasil e disponível na Netflix.

ler Aborto em pílulas: série de vídeos sobre aborto com medicamentos

Nas produções coletadas, o aborto não precisa ser o principal fio norteador das histórias, mas de alguma forma resulta em um grande impacto para as trajetórias das personagens que o realizam.

Em 18% dos filmes, as personagens morrem a partir do procedimento, independentemente da sua legalidade no contexto em que a história se passa, enquanto 57% dos filmes não mostram qualquer tipo de consequência do aborto para a saúde física e mental das personagens. Nenhum deles traz uma representação positiva sobre o aborto para a saúde mental das personagens ou para sua trajetória posterior.

Por outro lado, 49% dos filmes retratam abortos legais, enquanto em 44% dos casos o procedimento é ilegal e em 7% essa informação não aparece.

Impacto e legalidade do aborto de acordo com a raça da personagem

[1916 - 2023]

cor/raça das

personagens

não-brancas

brancas

raça desconhecida

aborto

aborto

impactos do resultado do aborto

ilegal

legal

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nenhum

impacto

1

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morte

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sequelas

físicas

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3

1

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traumas

psicológicos

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sequelas físicas

e traumas

psicológicos

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impacto

desconhecido

5

4

2

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representações de abortos tiveram sua legalidade desconhecida

49%

dos filmes contam histórias de abortos legais.

Fonte Abortion on screen (ANSIRH)

Impacto e legalidade do aborto de acordo com a raça da personagem

[1916 - 2023]

cor/raça das

personagens

raça

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não-brancas

brancas

impactos do resultado do aborto

nenhum impacto

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aborto

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ilegal

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representações de abortos tiveram sua legalidade desconhecida

49%

dos filmes contam histórias de abortos legais.

Fonte Abortion on screen (ANSIRH)

ler O que você precisa saber sobre a ADPF 442, que pede a descriminalização do aborto no Brasil

Diversidade em filmes sobre aborto

A maior diversidade de gênero entre diretores do circuito de Hollywood foi acompanhada por uma mudança de contextos políticos. São os anos da Onda Verde pela descriminalização do aborto na América Latina, ao mesmo tempo em que mulheres norte-americanas passaram a enfrentar uma guinada conservadora contra o aborto, consolidada em 2022 com a revogação pela Suprema Corte dos EUA da decisão do caso Roe versus Wade, de 1973, que concedia o direito ao aborto durante o período gestacional em que o feto não pudesse sobreviver fora do útero.

Ao resgatar o processo de produção de Levante, Lillah Halla conta que o roteiro começou a ser costurado nas fronteiras do Brasil com o Uruguai, há oito anos, ao lado de Maria Elena Morán.

O país vizinho havia acabado de legalizar o aborto, o que levou a dupla a conhecer de que forma o sistema de saúde estava se preparando e quais eram as possibilidades de acesso à interrupção voluntária da gestação para pessoas de outros países.

ler Portugal, Espanha e Uruguai: o que aconteceu após a legalização do aborto?

Subcoordenadora de pesquisas do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (Gemaa), Marcia Rangel Candido destaca a importância de medidas inclusivas que, para ela, são fundamentais para garantir um cinema mais acolhedor para temas como o aborto e a violência de gênero, que movimentam o debate na sociedade, mas ainda encontram resistências diversas para serem lidos como temas de políticas públicas.

“A partir do momento que os atores se pluralizam, é possível surgir novas ideias, novas perspectivas. Eu acho que isso é particularmente relevante quando a gente está tratando de um tema que é extremamente delicado para as pessoas diretamente envolvidas, mas também é conflituoso e é uma questão de saúde pública. Para além de ser um assunto que afeta diretamente os corpos de algumas pessoas, é um assunto político de extrema urgência.”, opina.

Uma diversidade não só de mulheres, como Lillah destaca, mas também de pessoas com útero e outras identidades de gênero – Levante tem um elenco LGBTQIA+ marcado pela pluralidade.

aspa

Não à toa, Sofia é uma adolescente bissexual. Esse tema [aborto] tem que sair das pautas heteropatriarcais, porque ele não pertence só esse a lugar”

ler Do medo ao alívio: acompanhantes transformam experiências de aborto na América Latina

Rangel Candido acredita que, mais do que a mudança do perfil de diretores e roteiristas, há uma circulação maior do que já vem sendo feito. A pesquisadora destaca a importância da visibilidade de festivais e de outros espaços que garantem que um filme possa ser assistido.

Uma forma de estratégia que, avalia, é cada vez mais apropriada por pessoas não-brancas e LGBTQIA+, a partir de uma série de incentivos para que consigam cotas que os levam a ter condições de pensar em todas as etapas da produção de um filme.

“Acredito que vai ter um impacto para que mulheres negras, homens negros, mulheres brancas, indígenas, consigam acessar melhores condições para produzir seus filmes e, consequentemente, ter a possibilidade de divulgá-los, já que às vezes você consegue produzir um filme com baixo custo, mas para fazer com que ele alcance o grande público é um desafio maior”, reflete.

ler Editorial: Todo mundo ama alguém que já fez um aborto

Já em Incompatível com a vida, Eliza Capai buscou trazer histórias que também atravessassem a fronteira do imaginário conservador.

“Foi uma opção buscar mulheres que desejavam ou desejam a maternidade, desejavam aqueles filhos, e tiveram fetos incompatíveis com a vida. Foi uma forma de debater o aborto com uma perspectiva que talvez seja mais aceita nesse país, o da mulher de família”

Para Eliza, a oportunidade de contar sua história foi uma forma de aproximar um público – no qual ela também se inclui – sub-representado em um meio audiovisual que, ela lembra, ainda é marcado por uma hegemonia branca e masculina.

aspa

O filme é uma tentativa de que as mulheres tenham acesso ao que acontece para, caso passem por isso, tenham alguma referência. As referências, os espelhos, ajudam a nos sentir menos sozinhas e a saber o que fazer diante daquela situação”

No entanto, Eliza destaca que, apesar de ter conseguido uma diversidade regional para o filme, teve mais dificuldade para encontrar histórias de mulheres negras que passaram pela mesma situação. Foi quando se viu diante de algo que, para ela, mostra uma “faceta cruel do racismo”: mulheres negras têm mais dificuldade de acesso ao pré-natal, acompanhamento que poderia identificar se um feto tem uma condição incompatível com a vida.

Em 174 dos 214 filmes catalogados pela Abortion on Screen, as personagens que abortam são mulheres brancas, enquanto 25 obras mostram histórias de mulheres não-brancas (negras, asiáticas ou latinas) e em 15 não há informação sobre a raça das personagens.

Metodologia

Para ter acesso aos filmes sobre aborto e sintetizar os resultados da classificação proposta pelo grupo de pesquisa ANSIRH, foi realizado um trabalho de raspagem de dados no site do grupo, com as ajudas de pacotes da linguagem R. A partir de ferramentas de ciências de dados do R, também houve a organização dos filmes nas categorias “brancas”, “não-brancas” e “desconhecida”, considerando que as classificações raciais do contexto americano são diferentes da forma como a população é racializada no Brasil.

Filmes que não mencionam a raça/etnia da personagem que realiza o aborto também foram classificados como desconhecidas. Os resultados foram tabulados em tags, ou categoria de análise de estudo (idade, legalidade, consequência física do procedimento, consequência psicológica do procedimento, nenhuma consequência), a partir das informações de cada ficha de filme coletada – síntese de resultados que não é feita pelo grupo de pesquisa, que disponibiliza as categorias de cada filme, atualiza mensalmente a base de dados e realiza apenas o relatório dos programas televisivos, que também podem ser consultados no site.

Para o gênero dos diretores, foi necessário consultar o acervo de outra base de dados: a do site TMDB (The Movie Database), em que também foi realizada uma raspagem de dados. Com a base criada, houve a busca ou filtragem pelos filmes já encontrados na base de produções sobre aborto, de forma a identificar os responsáveis pela direção de cada filme. Após ser criada a lista com os nomes dos diretores, houve a análise do gênero a partir dos pronomes utilizados na biografia de cada diretor disponibilizada pelo site do TMDB. Quando a ficha técnica sobre a pessoa diretora não estava disponível no TMDB, foi realizada uma busca manual pela biografia do diretor em outras bases de cinema oficiais na internet, como fichas do IMDB ou artigos da Wikipédia.

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Agnes Sofia Guimarães Cruz

Jornalista e pesquisadora. É Mestre em Comunicação pela UNESP e atuamente está concluindo o Doutorado em Linguística Aplicada pela Unicamp, em pesquisa sobre Ativismo de Dados e Segurança Pública. Já publicou em sites como Agência Pública, Ponte Jornalismo, Gênero e Número, Porvir e UOL. Em 2015, foi uma das finalistas do Prêmio Jovem Jornalista, do Instituto Vladimir Herzog. Atua como jornalista freelancer em temas ligados a gênero, raça, tecnologia e educação, e também atua como consultora de projetos de pesquisa e orientados por dados. Gosta de praia, música e escreve poesia às vezes.

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