ERRAMOS: Esta reportagem foi atualizada às 16:50h do dia 11/06/2024 para corrigir um erro de cálculo que apontava que o crescimento de partos entre mulheres de 40 anos ou mais era de 45% quando o correto é 83%.
Entre 2003 e 2022, o número de partos entre mulheres de 40 anos ou mais cresceu 83% no Brasil – de 57.983 para 106.263 -, o maior aumento registrado entre todas as faixas etárias. Enquanto isso, houve queda em todas as faixas etárias de mulheres de 29 anos ou menos que deram à luz no país. Os dados são da pesquisa Estatísticas do Registro Civil, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Um dos fatores que influenciam a decisão de adiar a maternidade é o impacto da chegada de um filho na trajetória profissional das mulheres, que são as principais responsáveis pelas tarefas de cuidado não remuneradas.
Para Thays Monticelli, professora do Departamento de sociologia da UFRJ e integrante do Núcleo de Estudos de Sexualidade e Gênero (NESEG), o aumento de partos entre gestantes de 40 anos ou mais aponta para uma falha nas políticas públicas de apoio à maternidade.
As políticas atuais do Estado responsabilizam as mulheres pelos cuidados e elas não estão desatentas a isso. Quando o Estado fala que a mãe tem quatro meses de licença maternidade e o pai uma semana de licença paternidade, ele está falando que quem tem que cuidar é a mulher, que quem vai sair do mercado de trabalho ou interromper sua carreira é a mulher. Não há uma política pública igualitária de corresponsabilidade parental"
A pesquisadora integra o Grupo de pesquisa Trabalho Doméstico e de Cuidados, parceiro da Gênero e Número no espaço de divulgação científica Teias do Cuidado. Em uma série de entrevistas realizadas por extensionistas do grupo, mulheres que decidiram ter filhos depois dos 40 relatam sobrecarga, frustração e adiamento de planos de carreira com a chegada de uma criança.
“Tive que deixar de trabalhar de carteira assinada para trabalhar por conta própria, pois não foi mais possível contar com a minha mãe e pagar uma creche não compensaria. Eu tinha vontade de cursar uma faculdade, mas no momento não vejo a oportunidade de iniciar esse desejo”, conta Ana Paula Procession Costa Liborio, uma mulher parda de 44 anos, moradora do Rio de Janeiro.
Ana Paula, trabalhadora autônoma, teve o primeiro filho aos 27 anos e decidiu engravidar novamente aos 40. Sua segunda filha nasceu quando ela tinha 41 anos. “O fato de não ter o apoio para trabalhar fora me permite acompanhar bem mais o crescimento da minha filha em comparação ao meu primeiro filho, quando eu trabalhava demais. Com meu primeiro filho, eu tinha salário garantido, mas perdi muitas etapas do seu crescimento. Hoje, tenho que ter mais comprometimento para buscar a quantia necessária para as despesas, mas não estou perdendo a oportunidade de cada momento único.”
Monticelli lembra que políticas públicas de cuidado para a primeira infância, como a oferta de creches em horários estendidos, falham no Brasil, o que penaliza as mulheres, principalmente as que não contam com recursos financeiros para pagar por uma rede de cuidados privada.
Nas camadas de classe média, a delegação desses cuidados sempre foi estabelecida na contratação de babás e trabalhadoras domésticas. Enquanto isso, as mulheres das classes populares precisam de uma rede parental - deixa com a mãe, com a tia, com a cunhada. O que falha é o Estado, ao não compreender que essa escolha está pautada numa falta de infraestrutura de cuidado”
A professora aposentada Lúcia Santos, uma mulher branca de 63 anos, moradora do Rio de Janeiro, planejou a gravidez. Aos 43, teve seu único filho por inseminação artificial. Ainda que a maternidade tenha sido um projeto para o qual se preparou, a falta de rede de apoio interrompeu sua carreira e prejudicou seus planos profissionais.
“A gravidez não foi difícil, mas eu não tive muito apoio, nem do pai. Então eu abandonei o doutorado e foi um impacto muito grande, porque eu não consegui retomar depois. Em relação à minha carreira, me prejudicou bastante”, conta.
A professora universitária Laura Rebecca Murray, uma mulher branca de 45 anos, moradora do Rio de Janeiro, decidiu ter filhos aos 38 anos, depois de adiar a gravidez por alguns anos. Sem rede de apoio familiar no Brasil – Laura é estrangeira -, ela relata que os cuidados com uma criança pequena durante a pandemia provocaram muito estresse, mas o retorno das atividades deixou em evidência o peso da maternidade.
“A pandemia afetou muito e depois todo mundo voltou a publicar e a fazer pesquisa. Mas eu acho que o mais pesado é a falta de autonomia. Eu não posso convocar uma conferência semana que vem, pegar voo e viajar. Tudo tem que ser combinado. Isso resulta também em muito menos engajamento. Ano passado foi a primeira vez que eu participei de conferências desde que meu filho nasceu e agora estou fazendo mais publicações de artigos e pesquisas”, conta a professora universitária.
Enquanto o Estado falha em prover uma rede pública de cuidados, Thays Monticelli avalia que é preciso maior diálogo entre os responsáveis pela criança para estabelecer acordos mais igualitários.
“Também é importante notar que quando a gente atribui a responsabilidade somente ao Estado, minimizamos os conflitos dentro de casa. Claro que ninguém quer, em um momento como esse, de chegada de um bebê, estabelecer um conflito conjugal. Já é trabalho demais. Mas também é parte das nossas ações e do nosso projeto, em termos feministas, cobrar mais desses homens na reorganização das nossas famílias”, defende a pesquisadora.
Thays Monticelli lembra que a rede de cuidados remunerada é parte das estratégias de redução de conflitos conjugais quando é preciso debater a divisão de tarefas de cuidado.
Os homens são os que mais se beneficiam com a contratação do trabalho doméstico, sem dúvida. Mas o mais importante é entender que ninguém cuida de um filho ou de uma filha sozinha. Isso é impossível. A classe média precisa contratar e as classes populares têm outros arranjos, porque é impossível fazer isso sozinho”
A médica sanitarista Roseli Monteiro da Silva, uma mulher preta de 59 anos, moradora do Rio de Janeiro, teve sua primeira filha aos 24 anos e a segunda aos 42. Na segunda gestação, ela contava com uma trabalhadora doméstica que morava em sua casa, com quem passou a dividir os cuidados com a criança depois do nascimento.
Ambas gestações foram planejadas, mas quando foi mãe pela primeira vez Roseli vivia em situação de maior instabilidade financeira. Aos 42 anos, sua carreira já estava mais estabelecida – Roseli é funcionária pública na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
“Minha primeira filha nasceu em 1989. Eu era bolsista, pesquisadora. Só em 1996 eu tive um emprego formal, depois de ser aprovada em um concurso. Eu só consegui fazer o mestrado em 1994, mesmo com o pai da minha primeira filha ajudando. Eu atrasei o meu mestrado em um ano porque ele também estava fazendo mestrado e eu ficava cuidando da neném. O doutorado eu só fui fazer em 2016”, conta Roseli, que chegou a adoecer com a sobrecarga de trabalho remunerado e não remunerado.
“Eu sempre ralei muito, trabalhei muito, mais de 10 ou 12 horas por dia, viajava. Isso trouxe consequências para minha saúde. Tive síndrome metabólica, porque é muito estresse, muita pressão. Sempre batalhei muito para poder sustentar, pagar escola. Eu fui mãe chefe de família”, lembra a médica.
“Eu trabalhava, tocava a vida, mas preferia ter ficado mais em casa com as meninas. Durante muito tempo, eu carreguei a culpa da ausência em casa, no cuidado. Saía de manhã e chegava à noite, dava dois abraços, uma comidinha, um banho e estava exausta. Por muito tempo, eu fui mais provedora do que mãe. Ficava com a avó o tempo inteiro e depois ficava na escola, de 8h às 16h”, lamenta Roseli.
Thays Monticelli lembra que os custos vinculados à chegada de uma criança existem porque o Estado se ausenta de prover direitos fundamentais, como escola, saúde e espaços públicos de lazer.
“Enquanto o Estado não entrar com muita força na oferta de rede de cuidados, vai parecer que as mulheres que escolhem de ter filhos a partir de 40 anos fazem isso por conta do mercado de trabalho, mas elas também observam que, ao ter filhos, precisam fazer escolhas sobre em qual momento da vida elas conseguem se dedicar de fato a isso. Precisamos parar de achar que ter filhos é um projeto individual ou familiar. Ter um filho é um projeto político”, conclui a pesquisadora.
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Jornalista formada pela Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECo-UFRJ), colabora com a Gênero e Número desde 2017. Metade tijucana e metade porteña, cobre política latino-americana desde 2013, com foco em direitos humanos, feminismos, gênero e raça. Também cuida de criança todos os dias.
Diego Nunes da Rocha é graduado e mestre em Ciências Sociais pelo PPGSA/UFRJ e doutorando em Sociologia no IESP-UERJ. Pesquisador associado do Ceres (Centro para o Estudo da Riqueza e Estratificação Social), Diego tem interesse em estratificação social, em especial no campo educacional. É analista de dados da Gênero e Número.
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