Dorinha Pankará

Adriana Amâncio

A história de aldeias indígenas chefiadas por mulheres, em Pernambuco, começa em 2003. Naquele ano ano, Maria das Dores Limeira, 59 anos, conhecida como Dorinha Pankará, se tornou a primeira cacique indígena do território Pankará, formado por 52 aldeias, localizadas na Serra do Arapuá, em Carnaubeira da Penha.

“O meu nome foi oficializado pelos encantados na gentil [oca sagrada] do terreiro da Cacaria [uma das aldeias do território], onde o meu nome foi abençoado. Eles disseram ‘você vai receber uma missão’. No dia seguinte, eu soube que seria cacique”.

Dorinha diz que não houve muito tempo de comemoração. Logo de início, ela assumiu a batalha para transformar a escola local em uma escola indígena, que deixaria de pertencer à rede pública municipal e passaria à esfera estadual. Após alguns diálogos com o gestor local, sem sucesso, Dorinha seguiu para Brasília, em busca de apoio.

De volta à cidade, travou um novo diálogo com o prefeito da época. “Ele disse: ‘eu não tenho que dar satisfação a você, porque você não é nada e eu sou o prefeito’. Eu disse ‘eu compreendo, mas assim como o senhor é prefeito, eu sou a autoridade maior do Povo Pankará’”.

Segundo a cacique, o prefeito se manteve irredutível, porque não queria “abrir mão da verba e do poder político que a escola lhe dava”. Ela, então, percorreu as 52 aldeias em uma moto e organizou uma grande mobilização com as demais lideranças da aldeia. “Nós fechamos as três entradas da aldeia. No dia seguinte, só entrava no território com a autorização da gente”.

O povo Pankará venceu a disputa e o ensino no território se tornou indígena, passando a integrar a rede estadual. “Hoje, nós temos 23 escolas e mais três anexos. Nossa educação, hoje, prepara guerreiros para continuar a luta no território”.

As 52 aldeias que formam o território Pankará, em Carnaubeira da Penha, reúnem cerca de 5 mil pessoas. Dorinha afirma que para dar conta de acompanhar todo povo, além da orientação dos encantados, conta com uma organização de representações na aldeia.

“Temos as lideranças em cada aldeia e o Conselho Triba, que se reúne com os encantados, tem acesso às orientações e me auxilia a tomar decisões importantes”.

Em 2012, Dorinha se lançou a outro desafio: ocupar um posto no Legislativo municipal. Foi eleita a primeira mulher indígena vereadora de Carnaubeira da Penha. Na segunda metade do mandato, Dorinha assumiu a presidência da Câmara de Vereadores.

“A dinâmica de uma Câmara de Vereadores é muito diferente da aldeia indígena, mas a nossa etnia fez história na política municipal”. A cacique decidiu não continuar na política institucional, mas segue como liderança da aldeia.

Dorinha acredita que sua missão de defesa dos interesses da comunidade lhe custou o casamento de 25 anos. Quando as viagens e os compromissos públicos se intensificaram, o convívio foi ficando mais difícil.

“A minha vida passou a ser viajando, dentro de um carro, aí o marido não entendeu. Ele disse ‘ou eu ou a luta’. Eu disse: ‘fico com o povo’”. Ela está divorciada, há 10 anos.

A experiência como cacique rendeu à Dorinha um olhar diferente para as mulheres do território. Ela conta que estimulou a criação da Associação de Mulheres Artesãs Pankará, que produz e comercializa artesanato, além de alimentos livres de defensivos químicos. Dentre as peças de artesanato, há bolsas, colares, pulseiras, instrumentos musicais e indumentárias feitas com sementes, folhas, fibras e troncos colhidos na própria Caatinga ao redor da aldeia.

Da roça, saem frutas, legumes e verduras, que são comercializados em programas institucionais, a exemplo do Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) e do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). A renda gerada por essas vendas é partilhada entre as mulheres, que assumem parte das despesas da casa.

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Adriana Amâncio

Jornalista formada pela Universidade Joaquim Nabuco (PE) com 25 anos de experiência em assessoria de comunicação e reportagem nas áreas de direitos humanos, gênero e meio ambiente. É da equipe Inclusão e Diversidade do Colabora – jornalismo sustentável, e já assinou matérias em veículos como o O Joio e o Trigo, Gênero e Número, Marco Zero Conteúdo, ((o)) Eco e Saiba Mais e assinou reportagens para o The Brazilian Report nas eleições 2022. Venceu o edital “Primeira Infância e a cobertura das eleições”, realizado pelos veículos Nós, Mulheres da Periferia, Alma Preta Jornalismo, Amazônia Real e Marco Zero Conteúdo, com o apoio da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal. Já recebeu o Prêmio Sassá de Direitos Humanos, além de ser premiada por As Amazonas, Abraji e pela Embaixada dos Estados Unidos com o podcast “Cidadãs das Águas”, no curso Podcast: o seu conteúdo para o mundo.

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