Sofiane Boufal dança com a mãe após a classificação de Marrocos para as semifinais no Catar

Os gols contra e favor dos direitos na Copa do Catar

por Maria Martha Bruno

Se toda Copa tem muitas histórias além da Copa, porque futebol nunca é só futebol, a Copa do Mundo do Catar vai ficar marcada por debates sobre direitos humanos, gênero e raça, impulsionados pela restrições políticas no país e por tímidos avanços neste sentido dentro das quatro linhas.

Para não dizer que tudo foi derrota, separamos também vitórias significativas, sobretudo para a representatividade de mulheres e pessoas negras no futebol. Os direitos da população LGBTQIA+ pouco tiveram vez no país e o futebol masculino ainda carece de uma estrela mundial que efetivamente assuma uma orientação sexual não hétero. Lembrou de mais algum episódio que está fora da lista? Escreve pra gente no contato@generonumero.media ou manda um alô nas nossas redes sociais.

Seleção feminina de jornalistas

Um escrete de dezenas de jornalistas brasileiras foi ao Catar cobrir a competição. O número certamente é maior que nas outras edições, visto que as empresas de comunicação finalmente estão começando a compensar a discrepância de gênero e o atraso históricos. No nosso Insta, trouxemos um time com onze delas. 

Domitila Becker, do UOL/SBT, viveu uma “noite desesperadora” ao denunciar das arquibancadas as hostilidades de torcedores homens do Irã contra torcedoras do mesmo país, que assistiam ao jogo de sua seleção contra os Estados Unidos. Outro destaque foi a presença de Karine Alves e Carol Barcellos, da Globo, como setoristas da seleção brasileira, posto por décadas ocupado por homens (Mauro Naves, demitido da Globo por um episódio de conflito de interesses envolvendo o pai de Neymar, Tino Marcos e, mais recentemente, Eric Faria).  

Renata Silveira se tornou a primeira mulher a narrar um jogo de futebol na Copa na TV Globo, detentora dos direitos de transmissão do evento, e Ana Thaís Matos, a primeira a comentarista em um jogo da seleção na emissora durante a competição. Também no Grupo Globo, Formiga e Cristiane fizeram suas estreias como comentaristas. 

Técnicos africanos, Marrocos e camaroneses repatriados

Pela primeira vez, todas as seleções do continente foram ao Mundial com treinadores de seus países. Em Copas anteriores, era comum ver europeus comandando os escretes africanos. O resultado foi positivo: Marrocos e Senegal se classificaram para as oitavas de final e os marroquinos fizeram história ao chegar às semis. Apesar da  festa do jogador Sofiane Boufal com a mãe em campo, após a classificação, é importante notar que o país também é extremamente restritivo com mulheres e que era quase impossível encontrá-las no meio da torcida. 

Vale destacar ainda Camarões, que ficou na fase de grupos, mas conseguiu repatriar onze jogadores nascidos em outros países. Eles foram convencidos pelo ex-craque Samuel Eto’o, agora presidente da Federação Camaronesa de Futebol, a defenderem as cores do país.

Protesto europeu

Com a censura à faixa de capitão de Neuer em homenagem aos direitos LGBTQIA+, a seleção alemã fez um protesto antes da partida com o Japão. Os ingleses também não entraram com a faixa e, antes do jogo contra o Irã, mantiveram o tradicional gesto antirracista que realizam em todas as partidas da Premier League, em que os jogadores se ajoelham em campo. Mesmo com as iniciativas louváveis, vale lembrar que a Uefa esteve envolvida em um escândalo sobre a compra de votos pela realização do Mundial no Catar.

Arbitragem de mulheres

O jogo Alemanha x Costa Rica foi o primeiro em quase 100 anos de mundiais apitado por um trio de mulheres, que incluiu a bandeirinha brasileira Neuza Back. A seleção alemã venceu, mas foi eliminada e o jogo transcorreu sem maiores polêmicas.

Bandeira apreendida

O jornalista Victor Pereira levou a bandeira de Pernambuco para a Copa, mas ela foi violentamente tomada por um guarda catari por causa do símbolo do arco-íris. O oficial jogou a bandeira no chão e pisou, além de ter tirado o celular do jornalista e o obrigado a deletar o vídeo mostrando a situação.

Invasão de campo

O italiano Mario Ferri entrou em campo na partida entre Uruguai e Portugal com várias mensagens de protesto e — aí sim —com a bandeira que simboliza o movimento LGBTQIA+. Com uma camisa de super-homem com as mensagens “Salve a Ucrânia” na frente e “Respeito pelas mulheres iranianas” atrás, ele foi agarrado por um segurança e banido de jogos da Copa.

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Maria Martha Bruno

Jornalista multimídia, com experiência na cobertura de política e cultura, integra a equipe da Gênero e Número desde 2018. Durante três anos, foi produtora da NBC News, onde trabalhou majoritariamente para o principal noticiário da emissora, o “NBC Nightly News”. Entre 2016 e 2020, colaborou com a Al Jazeera English, como produtora de TV. Foi repórter e editora da Rádio CBN e correspondente do UOL em Buenos Aires. Jornalista pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, é mestre em Comunicação e Cultura pela mesma instituição, e atualmente cursa o programa de Doutorado em Comunicação na Texas A&M University, nos EUA.

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