Esta reportagem foi realizada com o apoio da International Women’s Media Foundation (IWMF), como parte de sua iniciativa sobre Direitos Reprodutivos, Saúde e Justiça nas Américas.
“Saí batendo de porta em porta. Falava abertamente ‘estou desesperada’”: a experiência de abortar com misoprostol no Brasil sem informação
Depois de orçar uma viagem para a Argentina e procurar ajuda na internet, Clara conseguiu comprar misoprostol de maneira clandestina. Seu relato mostra como a criminalização e a desinformação impactam a vida de quem decide abortar no Brasil.
Clara* tinha 28 anos quando decidiu fazer um aborto no Brasil. Seu caso não se encaixava em nenhuma das três causas permitidas por lei no país – gestação resultado de estupro, risco à vida da gestante ou anencefalia –, mas a gravidez produzia nela um enorme sofrimento psíquico, além de ser incompatível com seu projeto de vida.
Depois de orçar uma viagem para a Argentina e procurar ajuda na internet, Clara conseguiu comprar misoprostol de maneira clandestina. O remédio está sob controle especial desde 1998, quando uma portaria da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) o incluiu em uma lista de substâncias controladas, da qual nunca mais saiu, apesar de todas as evidências produzidas nos últimos 30 anos sobre sua segurança e eficácia como método abortivo.
A história de Clara é mais uma, entre milhares, que mostra que a criminalização não evita o aborto, mas provoca sofrimento desnecessário para quem decide fazê-lo. Seu relato é parte da série Misoprostol: o mesmo remédio, dois destinos, que explica como a regulação do medicamento moldou o debate e a legislação sobre aborto no Brasil e na Argentina.
Leia a história de Clara:
“Eu nunca tive vontade de gestar, não era o meu desejo. Mas eu gosto de crianças. Eu acho que essa é a primeira coisa para ser desmistificada. Eu adoro criança, eu curto muito, acho muito divertido, pesquiso o tema, trabalho com isso. Eu trabalho com arte e com crianças.
Eu sou [trabalhadora] autônoma e estava trabalhando em um grande centro – eu não moro em um grande centro –, em um trabalho grande. Dentro da minha carreira, eu estava realizando coisas muito importantes, e descobrir que estava grávida me deixou em uma posição ruim, principalmente porque eu trabalho com o meu condicionamento físico.
Eu não gostava da sensação de o meu corpo mudar, de ter que interromper minha vida profissional, meu lazer, [o tempo com] meu grupo de amigos. E eu não tinha nem condições, dentro de uma vida de autônoma, em que um mês eu ganho de uma forma e outro mês de outra, em que eu viajo muito.
Eu sou casada, mas não era meu desejo gestar, e isso já era bem alinhado, com muito diálogo. Nada foi planejado para isso, nem para mim, nem para o meu companheiro. A primeira coisa que ele disse foi: “Se você quiser ter, eu não tenho grana. Como que a gente vai fazer isso?”. E eu falei: “Eu não quero”. Era incompatível com a nossa vida.
Ele me apoiou, mas eu não sei explicar, me dava uma irritabilidade toda a situação, me vinha um sentimento de muito desgosto, de muita raiva. Inclusive raiva dele. Eu sentia que o peso era maior para mim, que, mesmo me sentindo muito mal, eu ainda tinha que tomar as decisões.
Por mais que ele estivesse lá para me apoiar, era a arquitetura do meu corpo que estava gestando esse projeto de vida, o peso era para mim. Era o meu quadril que aumentava, era o meu peito que crescia, era minha a incontinência urinária, a irritabilidade. E eu tendo que disfarçar tudo isso no trabalho, não podendo falar abertamente: “Desculpa, eu tenho que sair, eu vou voltar para minha cidade de natal, eu preciso voltar para minha casa para dar um jeito de fazer um aborto”.
Eu senti muita falta da minha mãe, que tinha morrido dois anos antes. Eu pensava: “Se eu tivesse minha mãe aqui, ela me ajudaria”.
Cada dia era uma transformação diferente no corpo. Então, esperar aquelas semanas me preocupava. E a falta de informação também, porque, apesar de ser uma pessoa esclarecida, feminista, com amigas feministas, com nível superior em uma universidade federal, o conhecimento ainda é mínimo. E não é unificado, então era muito difícil.
Informação sobre misoprostol
Eu não sabia com quantas semanas era melhor abortar, eu não sabia se a medicação era verdadeira, eu não sabia que tipo de aborto era melhor dentro das opções. E eu sou uma pessoa de muitos privilégios, tenho casa própria, carro próprio, renda razoável, um plano de saúde. Ainda assim, eu fiquei com medo, porque ainda existem muitos estigmas.
Pensei: “Vou para uma clínica”. Mas também pensava: “E se eu morrer lá, dopada?”. Cheguei a cogitar ir para a Argentina e a orçar. Entrei em contato com o Projeto Vivas, e foi aí que eu comecei a receber informações de qualidade.
Acabei decidindo ficar no Brasil, onde eu tenho um plano de saúde, depois de conversar com amigas sobre as experiências que a gente teve. Uma delas, que passou por isso [abortou com misoprostol], falou: “Você estava lá comigo, você viu como foi tranquilo, é muito mais autonomia para você”. Outra, que estuda medicina na Argentina, contou que lá você pega os comprimidos numa unidade de saúde e vai para casa fazer [o aborto]. Mas de uma parte dos meus amigos, mesmo em um núcleo de pessoas de esquerda, esclarecidas, com ensino superior, houve julgamento.
Afinal, o que eu gastei no Brasil seria semelhante ao que eu gastaria se tivesse viajado para a Argentina, porque eu tomei o misoprostol duas vezes.
Na primeira vez, eu comprei pela internet. Meu companheiro entrou em contato com pessoas que vendem o remédio pelo TikTok. Dali, as vendedoras colocam as pessoas em grupos de WhatsApp e vão acompanhando o procedimento, o que funciona até mesmo como uma prova de que o remédio teve efeito.
Nesse grupo, eu me sentia em um navio em naufrágio, com todo mundo tentando remar. Quem conseguia escapar eram aquelas para quem dava tudo certo. No meu caso, não deu certo.
Eu tomei a medicação e não senti muita dor, mas não sangrei. Então, eu fiz uma ultrassonografia e me falaram assim: “O embrião está com um bump coriônico”. Eu não sabia o que era isso, mas eu entendi que era um hematoma.
Esperei três dias e saí batendo de porta em porta, de farmácia em farmácia da minha cidade. Falava abertamente: “Eu estou desesperada”. Minha saúde mental tinha ficado muito ruim, o cabide estava ficando tentador.
Até que, em uma das farmácias, eu encontrei uma mulher que me disse que já tinha passado por isso e me indicou um farmacêutico que poderia me ajudar. Ele já tinha alguma experiência e disse que eu podia confiar no remédio que ele estava vendendo, que tinha vindo de dentro do hospital.
O valor era muito diferente do que eu tinha pago na primeira compra, pela internet, mas os comprimidos tinham vindo soltos num saquinho. O da farmácia vinha dentro de um blister, o que também não é garantia de nada, porque pode ser falsificado.
Paguei R$ 500 em cada um dos 12 comprimidos. Eu ainda falei para o meu meu companheiro: “Vai lá e compra mais quatro, eu não quero saber, isso vai sair de mim hoje”.
Comecei a sangrar um pouco e isso me deixou mais aliviada. Voltei ao hospital e fiz uma nova ultrassonografia, pelo plano de saúde. Falei para a médica: “Eu não quero ter, eu estou ficando maluca, eu posso fazer qualquer coisa”. Ela falou que o embrião ainda estava lá, mas que a gravidez não ia se desenvolver, me deu um laudo e me orientou a ir até uma emergência para concluir o procedimento.
Eu falei: “Eu não vou”. Eu não queria ser humilhada, nem presa, nem destratada. Comecei a procurar na internet “ginecologista” + “universidade federal”, dentro do meu território. Coloquei palavras como “mulheres”, “direitos reprodutivos”, coisas assim. E aí encontrei uma obstetra que foi empática e me orientou a esperar o aborto finalizar naturalmente.
Perguntei quanto tempo demoraria, mas ela me disse que poderia levar uma semana ou mais, que meu corpo precisava entender que eu não estava mais grávida e expulsar o embrião, mas eu não estava mais aguentando. A obstetra, então, me orientou a procurar um hospital e solicitar uma Amiu (Aspiração Manual Intrauterina).
Foi o que eu fiz. Quando cheguei ao hospital, me explicaram que era um procedimento simples, que duraria cerca de 15 minutos, e eu poderia ir para casa em seguida. Mas não foi bem assim que aconteceu.
Eu já estava com uma infecção no útero e podia entrar em um processo de sepse. Tive que ficar internada dois dias e tomei um antibiótico em casa por mais 10 dias.
Depois que isso aconteceu, eu tive que avisar ao meu pai. E ele me acolheu muito bem. Ele entende que eu não tenho uma rede de apoio, que ter um filho era incompatível com os meus sonhos, com o meu estilo de vida. E a minha tia, que é super católica, quando eu falei, também me acolheu.
Na vida profissional, acho que alguns momentos não voltam, são únicos. O trabalho no qual eu estava tinha prazo para acabar, eu não pude voltar, não continuei. Não recebi nenhum dinheiro. Foi muito ruim. E o outro compromisso que eu tinha era minha estreia na minha área profissional. E aí eu vivi ele com tristeza.
Minha cabeça não estava lá. Eu era aplaudida, as pessoas me parabenizavam pelo meu êxito, mas eu estava triste. Isso não volta. Eu guardo o momento com tristeza. Eu estava grávida e só querendo ir embora, abortar.
Depois, as coisas voltaram para o eixo. Profissionalmente, as coisas voltaram a acontecer, tudo voltou a dar certo, mas a insegurança de engravidar e de passar por isso de novo ainda existe.
Já sobre o meu relacionamento, tudo continuou bem, foi mais uma etapa que vivemos juntos. Mas eu passei a sentir culpa durante o sexo ou quando tinha um orgasmo. Isso ainda me permeia.
Posso dizer que eu fiquei mais reprimida, não pelo aborto em si, mas pela forma como eu tive que lidar com ele, a sequela emocional de todo esse estresse, que deixou marcas.
Mas também mudou muito a minha consciência política de avançar com o tema, me deixou muito comprometida, principalmente pelos relatos das mulheres no grupo de WhatsApp. Passei a fazer doações, falar do assunto abertamente.
Eu faria tudo novamente, sem dúvidas. Ainda não me sinto preparada e me sinto livre para falar que não quero gestar. Se um dia eu quiser ser mãe, vou fazer uma adoção, mas eu não quero gestar, eu não quero congelar óvulos, eu não quero nada disso. É o meu direito.
*Nome fictício
O que diz a lei sobre aborto no Brasil e onde buscar atendimento
No Brasil, o aborto é permitido em três situações:
• Quando a gravidez representa risco à vida da gestante;
• Quando a gestação é resultado de estupro;
• Quando há diagnóstico de anencefalia.
Em qualquer um desses casos, o procedimento é um direito garantido por lei e pode ser realizado gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), sem necessidade de judicialização ou apresentação de boletim de ocorrência.
Para localizar os hospitais que oferecem esse atendimento, acesse o Mapa do Aborto Legal da Artigo 19.
Mais informações:
safe2choose – aconselhamento sobre aborto seguro.
Projeto Vivas – organização que auxilia meninas, mulheres e outras pessoas com capacidade de engravidar a acessar os serviços de aborto legal e seguro.
Direção de conteúdo e vídeo Vitória Régia da SilvaReportagem Aline Gatto BoueriEdição Vitória Régia da Silva
Revisão Bruna de LaraEdição de vídeo Miriã Damasceno