Ilustração: Victória Sacagami/ Gênero e Número

Como um casal de mulheres divide o trabalho doméstico e de cuidados

Carolina conta como ela e Luciana, sua esposa, se organizam para cuidar da casa e do filho, uma criança de 10 anos

Aline Gatto Boueri

Diego Nunes da Rocha

Thays Monticelli

Eu moro com a Luciana, com quem sou casada há 17 anos, e com Benjamin, que tem 10 anos de idade. Eu e Luciana casamos depois que ele nasceu, por questão de registro, para facilitar. Então, casada mesmo, oficialmente no papel, são 10 anos.

Eu sou a principal responsável pelas tarefas cotidianas da casa, não por uma divisão desigual do trabalho, mas por tempo mesmo. A Lu tem uma rotina com muito mais demanda de trabalho. O meu trabalho é mais remoto, escrever, fazer pesquisa. Também é uma demanda, mas eu tenho um horário mais flexível, o que é ruim também, porque as urgências da casa se sobrepõem à pesquisa em si. Então eu acabo fazendo mais coisas que ela, mas a gente tenta dividir o máximo.

É muito comum as pessoas falarem que o Benjamin tem sorte por ter duas mães, mas por que sorte? São duas pessoas que cuidam dele, como qualquer família. Ele tem duas pessoas responsáveis por ele, poderia ser um pai e uma mãe, dois pais, duas mães, a madrinha e a avó ou o avô.

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Eu e Lu conversamos muito sobre sermos um casal de duas mulheres e, ainda assim, esse modelo patriarcal resvalar também em uma relação homoafetiva.

A gente entende que não é por conta exatamente de ser um homem ou uma mulher. Eu não vou falar por um casal hétero, porque eu não tive essa vivência na prática. Mas quem escuta, às vezes, fala: “é que eu de fato, quando chego em casa, vejo que ele não faz nada para casa, nem para os filhos”.

No nosso caso, o que acontece é que a Lu tem uma rotina de trabalho com hora, com compromisso de sair de casa e voltar para casa, ela fica mais fora de casa, mas não porque eu não quis trabalhar, larguei a minha vida profissional para cuidar da casa da criança, não é nada disso. É uma questão circunstancial, quando eu dava aula eu também estava na rua. Se segunda-feira eu dava aula, a Lu não podia sair, desmarcava reuniões. A gente sentou e organizou isso juntas.

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Uma coisa que a gente pensa muito é em relação a Benjamin. Ele tem duas mulheres que servem ele o tempo todo. No almoço, no jantar e no café da manhã a mesa está posta, a comida está pronta. Como fazer com que ele entenda que esse trabalho não é nosso, das mulheres, que ele também tem que cuidar desse setor da casa, da alimentação, da limpeza.

A gente às vezes pega um pouquinho no pé dele para ele tirar a mesa, botar a mesa e arrumar a cama dele, limpar o quarto, lavar a louça, fazer o prato dele. A preocupação é de não criar nenhum modelo de homem que ache que a mulher deve servir.

Rotina

A minha rotina muda a cada dia. Hoje, por exemplo, eu acordei, preparei café da manhã, trabalhei, escrevi um artigo, li um artigo para avaliar para uma revista, esquentei almoço, dei almoço para o Benjamin. A Lu saiu cedo, almoçou na rua, eu lavei a louça. Tive duas reuniões de trabalho e Benjamin ficou na tela o dia inteiro, como tem ficado nos últimos dois meses, porque o colégio dele está em greve. Depois, eu o levei no curso de inglês e passeei com a cachorra. Daqui a pouco eu tenho que preparar a comida, porque a Lu vai buscá-lo no Inglês e eles chegam para o jantar.

A gente vai limpando a casa conforme vai ficando nojenta. Tem uma hora que a gente pensa “nossa, não estou mais aguentando o banheiro sujo, tem que lavar”. Quem estiver em casa lava. Ou “não tem mais um copo para beber água, vou ter que lavar a louça”. Meio que assim, no sufoco. Na nossa casa não tem uma divisão do tipo “você faz isso, eu faço aquilo”. Quem está disponível ali na hora faz. Mas como a Lu fica mais tempo fora de casa, acaba sobrecarregando mais o meu lado mesmo.

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Mas, fora isso, a gente tenta dividir mesmo, fazer as coisas juntas. Nunca aconteceu de ela estar vendo televisão e eu lavando o banheiro. Eu não sei se é porque eu nunca dei esse mole ou porque ela vê o que eu estou fazendo e faz junto. Eu não sei como começou. Mas nunca houve um diálogo do tipo “pô, você está aí no celular, lendo ou vendo TV e eu estou aqui fazendo comida”. É mais mesmo por uma questão de trabalho, desse modelo de vida que a gente tem de estar o tempo todo trabalhando.

Casamentos LGBTQIA+ [2013 – 2022]

Casamentos entre mulheres cresceram 244%, enquanto entre homens o crescimento foi de 147%

total de casamentos LGBTQIA+ por ano

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como ler

Em 2013, dos 3,7 mil casamentos LGBTQIA+, 52% foram entre mulheres

3 em cada 5

casamentos entre pessoas do mesmo gênero registrados em 2022 foi entre mulheres

Fonte Registro Civil - IBGE

Casamentos LGBTQIA+ [2013 – 2022]

Casamentos entre mulheres cresceram 244%, enquanto entre homens o crescimento foi de 147%

total de casamentos LGBTQIA+ por ano

% mulheres

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como ler

Em 2013, dos 3,7 mil casamentos LGBTQIA+, 52% foram entre mulheres

3,7 mil

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3 em cada 5

casamentos entre pessoas do mesmo gênero registrados em 2022 foi entre mulheres

Fonte Registro Civil - IBGE

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Pandemia

Durante a pandemia, é claro, a gente conseguiu dividir muito mais as coisas, porque a gente ficou muito juntas e conseguiu cuidar muito da casa. Nas primeiras semanas, a gente aproveitou muito a casa, arrumamos, limpamos, mudamos os móveis de lugar.

Depois que a gente percebeu a intensificação do trabalho foi mais difícil, porque o Benjamin tinha aula on-line, uma criança de seis anos de idade, que estava sendo alfabetizado pela tela, eu e Lu dando aula na on-line também.

A gente mora numa casa pequena, eu trabalho na sala e ela às vezes também. Quando a gente dá aula, a gente fala mais alto em computador, então ela reclamava que eu estava gritando e eu respondia “você também”. Além disso, o Benjamin tendo que fazer a aula sozinho no quarto dele e chamando a gente, berrando “mãe, mãe, vem cá”.

Depois, com esse estilo remoto de trabalho, foi muito mais difícil, porque era muita demanda. Era uma reunião atrás da outra, ininterruptamente. Com o presencial, tem o deslocamento, não dá para marcar três reuniões, uma atrás da outra. Então foi uma loucura, mas hoje em dia a gente trabalha mais por conta dessa possibilidade que se abriu fazer as coisas remotamente e eu acho que a gente está trabalhando mais.

Entrevista Thays Monticelli

Edição Aline Gatto Boueri

Análise de dados Diego Nunes da Rocha

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Aline Gatto Boueri

Jornalista formada pela Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECo-UFRJ), colabora com a Gênero e Número desde 2017. Metade tijucana e metade porteña, cobre política latino-americana desde 2013, com foco em direitos humanos, feminismos, gênero e raça. Também cuida de criança todos os dias.

Diego Nunes da Rocha

Diego Nunes da Rocha é graduado e mestre em Ciências Sociais pelo PPGSA/UFRJ e doutorando em Sociologia no IESP-UERJ. Pesquisador associado do Ceres (Centro para o Estudo da Riqueza e Estratificação Social), Diego tem interesse em estratificação social, em especial no campo educacional. É analista de dados da Gênero e Número.

Thays Monticelli

Professora do Departamento de Sociologia da UFRJ e do PPGSA. Coordenadora do Neseg (Núcleo de Estudos de Sexualidade e Gênero) - https://www.nesegufrj.com.br/

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