“A gente tem [comida] hoje, amanhã não sabe se vai ter. A gente vive o dia de hoje.”
A frase resume como a pescadora Quesia Martins, de 49 anos, passou a viver após o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho (MG), em 25 de janeiro de 2019. Na comunidade rural de São Marcos, onde mora com a família, ela viu a renda mensal de R$ 4 mil da venda de peixes e derivados cair pela metade. A mudança chegou ao prato. As refeições, que contavam com opções de peixes como curimatã, tilápia, piau e piranha, ficaram reduzidas a ovo, mortadela e salsicha.
Às margens do rio Paraopeba, a pouco mais de 200 metros da sua casa, ela plantava mandioca, milho, feijão, mamão, alface, couve, cebolinha, manga, limão e laranja. Quando os mais de 12 milhões de metros cúbicos de lama com metais pesados contaminaram esse curso hídrico, a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais (SEMAD) orientou a população a não utilizar a água bruta do Rio Paraopeba para qualquer finalidade. Quesia relata que colocaram “uma cerca, ninguém mais tem acesso ao rio”. Mesmo no entorno da casa, a terra deixou de responder.
Brumadinho: Mulheres negras são maioria entre os atingidos e ainda vivem em insegurança alimentar sete anos após rompimento de barragem
Proibidas de pescar e plantar às margens do rio contaminado, mulheres negras que tinham soberania alimentar passaram a depender de supermercados distantes e renda insuficiente.
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O solo está contaminado, virou aquele solo arenoso, sabe? A gente não consegue mais cultivar nada ali”, reforça.
Sete anos após o rompimento da barragem, o desastre consolidou um cenário de vulnerabilidade permanente para os atingidos. Além da destruição ambiental e das 272 mortes, o rompimento aprofundou desigualdades históricas nos territórios impactados ao longo da bacia do rio Paraopeba, onde vivem comunidades rurais e ribeirinhas formadas majoritariamente por trabalhadores da agricultura familiar, criadores de animais e pescadores.
A crise também não se distribuiu de forma igual. O agravamento das desigualdades pré-existentes transfere às mulheres o maior peso na reconstrução. Segundo registros familiares da Associação Estadual de Defesa Ambiental e Social (AEDAS), elas lideram 73% dos núcleos familiares, sendo, portanto, as principais responsáveis pela manutenção das condições de vida de suas famílias. Entre essas mulheres, 64% se declararam negras.
Paula Constante, assessora e advogada do Instituto Guaicuy, explica: “O rompimento atinge de forma particular as mulheres negras, porque ele não incide sobre um ponto neutro. Ele incide sobre corpos e territórios que já estavam marcados por desigualdades históricas. Então, o que acontece é um efeito multiplicador das vulnerabilidades”.
Ela também pontua que a desproporção não é apenas numérica, mas qualitativa. “Elas são atingidas de forma mais intensa e com consequências mais duradouras”, afirma.
Antes do desastre, muitas dessas mulheres contavam com a pesca e os alimentos da pequena agricultura para as refeições. Ao perderem acesso ao rio, passaram a depender da renda e do transporte para adquirir alimentos no supermercado.
Quesia é uma das muitas mulheres negras atingidas, que lembra vividamente das consequências do desastre sempre que a barriga dá sinais de fome. Na casa, vivem ela, o marido, três filhos de 28, 21 e 18 anos, a nora e dois netos, um de 8 anos e outro de 5 meses. Quando a comida é pouca, os pequenos têm prioridade. “A gente levanta e toma só um café. Às vezes, a gente não janta para deixar a comida para os menores”, afirma.
As mulheres também estão na linha de frente do processo reparatório. Dados registrados pela AEDAS apontam que, em espaços participativos realizados no biênio 2024–2025, a participação feminina superou 70%. Esse cenário é visível na rotina de Lázara Juliana Carvalho, líder comunitária na Comissão Baixo Paraopeba. Moradora da comunidade rural de La Poveda, Lázara é uma mulher negra e mãe de um menino de oito anos. “Nós temos 14 mulheres e só dois homens na comissão”, exemplifica.
Em contextos de escassez, são as mulheres que reorganizam as refeições e fazem escolhas difíceis sobre o que será servido. “É uma ansiedade muito grande sobre o que vamos ter para comer. É o pensamento maior, o que vamos ter para comer”, afirma Lázara.
Assim como acontece na casa de Quesia, a prioridade é das crianças. “Quando a gente é mãe, o nosso pensamento se volta para o nosso filho. A gente come o que tiver, uma criança não come o que tiver”, conclui.
O cenário de vulnerabilidade é agravado por barreiras burocráticas que excluem famílias do acesso ao Programa de Transferência de Renda (PTR), criado a partir do Acordo Judicial de Reparação Integral firmado entre o Estado de Minas Gerais, as instituições de justiça e a Vale. Lázara não conseguiu o auxílio, porque não possui nenhuma conta em seu nome. “La Poveda é formado por comunidades onde tem chácaras. Essas chácaras foram divididas em lotes, mas a conta [de energia] dá-se em nome de uma pessoa só”.
Quesia enfrentou o mesmo problema. “A gente é [de] uma comunidade ribeirinha, a gente não tem conta de luz, não tem conta de água. A gente tem o contrato de compra e venda do lote. Eles não aceitaram isso como documentação”, afirma.
A professora e pesquisadora do Departamento de Nutrição da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Aline Cristina Souza Lopes, responsável pelos estudos “Consumo alimentar em participantes do Projeto Saúde Brumadinho” e “Projeto Saúde Brumadinho: insegurança alimentar e nutricional versus condições socioeconômicas e dimensões do sistema alimentar após desastre”, explica que a região sofreu “uma mudança drástica no sistema alimentar”.
Ela detalha que, em municípios agrícolas, como era o caso dos atingidos, a impossibilidade do cultivo por conta do desastre força as pessoas a comprarem a comida que irão consumir. Então, passa a existir um fator limitante: a renda, que determina que tipo de alimento você pode ou não comprar.
“Tem uma mudança na percepção do sabor do alimento, que antes era sem agrotóxico, e agora é com agrotóxico, tem o sabor realçado. Tudo isso impacta no sistema alimentar”, explica.
Quando famílias passam a depender mais do supermercado em contextos de restrição financeira, isso frequentemente resulta em uma dieta mais barata e de pior qualidade, com aumento do consumo de ultraprocessados, em detrimento de alimentos in natura.
Os estudos da pesquisadora registraram baixo consumo de frutas e hortaliças entre pessoas residentes na região diretamente atingida pelo rompimento da barragem. Nesse grupo, apenas 15% das pessoas consomem a quantidade recomendada. Também foi identificado consumo frequente de refrigerante e suco artificial por 20% dos entrevistados, o dobro das demais regiões.
A pesquisa revelou um dado alarmante:
35% das famílias atingidas pelo desastre estão em insegurança alimentar.
Isto é, mais de um terço dos domicílios enfrenta dificuldades de acesso regular a alimentos em quantidade e qualidade adequadas.
Entre essas famílias, 33% relataram redução da renda após o rompimento da barragem e 92% relataram aumento das despesas com alimentação.
Os estudos também apontam que os domicílios em insegurança alimentar apresentam maior número de moradores e maior dependência de programas de transferência de renda, como o Bolsa Família.
Esse cenário é consequência de múltiplas perdas: perda de renda e de postos de trabalho formais e informais, desestruturação de atividades como agricultura familiar, pesca, criação de animais, comércio local e turismo, aumento do custo de vida e deterioração de condições que antes garantiam autonomia, como quintais produtivos, trocas comunitárias e práticas tradicionais de subsistência.
Agricultores e pescadores encontram, ainda, dificuldade em escoar produtos que antes sustentavam a economia local, porque compradores passaram a evitar itens associados ao território atingido. É o que explica Karina Morais, gerente geral do Projeto Paraopeba, da AEDAS: “Quem antes comprava hortaliças, ovos, leite, galinhas e peixes dessas comunidades, hoje não quer comprar, porque sabe que a contaminação está presente em tudo isso. Inclusive de metais pesados”.
Um estudo técnico contratado pela AEDAS encontrou concentrações de antimônio acima dos limites adequados para o consumo humano no tecido muscular de peixes do rio Paraopeba. Nas águas subterrâneas, identificaram metais como alumínio, chumbo, ferro e manganês, em níveis que excedem o padrão de água potável.
“Muitas das comunidades são formadas por trabalhadores da pequena agricultura, da criação de animais e da pesca. Hoje, essas categorias ou não conseguem mais produzir ou, quando produzem, não conseguem escoar os seus alimentos devido à estigmatização do território”, acrescenta Karina.
Comida a quilômetros de distância
Além do comprometimento da renda, a aquisição dos alimentos passou a ser um problema logístico para as populações ribeirinhas. É o caso de Erica Patrícia, moradora da comunidade Cachoeira do Choro, na zona rural de Curvelo. Mãe solo de cinco filhos, Erica descreve uma rotina alimentar marcada pela escassez. O supermercado mais próximo está a 90 quilômetros de distância, trajeto que lhe custa em torno de R$ 300 para ser realizado de carro. ”É um dinheiro a mais que daria para comprar uma verdura, uma carne”, calcula.
Sem acesso regular ao supermercado, a alimentação da família precisa se adaptar ao que está disponível na mercearia local. “De semana passada para cá, que eu não fui à cidade ainda, não tem café da manhã. Às vezes, a gente vai lá [na mercearia] e compra um milho de pipoca e fica por isso o café da manhã e o lanche da tarde, porque aqui é um lugar que você não acha pão, você não acha variedade de coisas, não tem uma carne, não tem uma verdura”.
Erica conta que os poucos produtos disponíveis localmente chegam com preços muito superiores aos encontrados na zona urbana: “Um pacote de arroz hoje na cidade, que você paga nele 20 reais, aqui você está pagando 38, 40 reais”. Ela costuma fazer compras entre os dias 4 e 5 do mês, quando recebe a pensão por morte do pai de seus filhos.
Mas, em janeiro, por conta das chuvas, ficou impossibilitada de ir à cidade. “Já tem uns dias que choveu. Eu não consegui um carro para me levar até hoje na cidade para poder fazer uma compra, hoje já é dia 14”, relatou. Quando chove, explica, “quem está aqui dentro não sai, quem está lá fora não entra”. Na época de seca, a situação não melhora muito: “é só buraco e poeira”.
Antes do desastre, a rotina alimentar e a economia local estavam profundamente ligadas ao território. “Antigamente a gente buscava um pequi no cerrado, a gente se valia muito das coisas que tinha aqui”, relembra. A Cachoeira do Choro atraía visitantes e movimentava a região: “vinha muito turista, vinha muita gente de fora para visitar a área de lazer, para curtir a beirada do rio”. Hoje, a realidade é bem diferente: “a gente não consegue vender um peixe”, explica.
Já a família de Quesia, em São Marcos, ainda pesca na represa Três Marias, que fica próxima à comunidade. “A pesca lá caiu. Tem dias que a gente fica três, quatro dias lá e não pega nada”, lamenta. Além de R$ 369 da renda do Programa de Transferência de Renda (PTR), que três membros da família recebem, o marido de Quesia recebe R$ 800 do Bolsa Família. Ela conta que o PTR foi renovado temporariamente, mas a continuidade do benefício é uma preocupação. “Agora vamos ver como vai ser daqui pra frente, se vão renovar”, preocupa-se.
O acesso à comida não é a única preocupação da pescadora. Ela teme contrair doenças, decorrentes do consumo de água contaminada. “A gente usa água de poço e, quando tem enchente, cobre o poço. A gente não recebe água [potável e mineral]”, detalha.
No horizonte, ela enxerga pouca mudança: “não tenho esperança. Não houve avanço na limpeza. Tem tido muita doença, mas a gente não tem acesso à saúde. Tem o médico, tem, mas na cidade. O médico não vem à comunidade”, arremata.
Assim como Quesia, Erica avalia que os recursos do acordo de reparação são direcionados prioritariamente às cidades, enquanto as comunidades rurais ficam em situação de “abandono total”, em suas palavras. “Até hoje ninguém fala nada certo. É hoje, é amanhã… os anos vão passando e nada acontece”.
O que Erica aguarda para ter sua vida de volta é a reparação integral assegurada pela Política Nacional de Direitos das Populações Atingidas por Barragens (PNAB), que Karina Morais avalia estar longe de acontecer: “Estamos muito aquém de ver um cenário com reparação integral”.
Karina defende que não é necessariamente um problema de recursos, mas de gestão: “Há projetos financiados com recursos da reparação que são amplamente contestados pelas comunidades atingidas por potencialmente gerarem novos danos, como é o caso do Rodoanel, da região metropolitana de Belo Horizonte, denunciado amplamente, por prever intervenções em seus territórios”.
Em recurso apresentado no processo judicial que discute a criação de um novo auxílio mensal, a defesa da Vale S.A. argumenta que instituições de justiça assumiram compromissos relativos à execução de projetos de reparação, alguns dos quais foram repassados diretamente aos municípios.
Nesse sentido, a empresa sustenta que um eventual atraso na retomada do desenvolvimento econômico das regiões atingidas não poderia ser utilizado como justificativa para a manutenção de um auxílio emergencial, uma vez que a Vale teria cumprido sua obrigação de pagamento firmada no acordo.
A professora Aline Lopes alerta que os municípios precisam reconhecer a insegurança alimentar e o avanço dos ultraprocessados como um problema a ser enfrentado. A partir de então, podem encontrar caminhos possíveis, como sacolões privados subsidiados pelo poder público “para ofertar alimentação saudável mais barata”, além de “feiras de alimentos orgânicos”, detalha.
A pesquisadora também frisa a importância de “apressar o processo de descontaminação [do rio], de investir na agricultura familiar” e apoiar agricultores na retomada da “produção de alimentos com segurança, com qualidade”. Para ela, esse é o caminho para o aumento da renda e independência financeira dos produtores.
A desestruturação econômica e social das comunidades atingidas reforçou a necessidade de programas de transferência de renda, como o Bolsa Família e o PTR. Embora não recomponha os modos de vida interrompidos pelo desastre, o auxílio tem sido fundamental para famílias que “ficaram sem renda da noite para o dia”, como explica Paula Constante, a assessora e advogada do Instituto Guaicuy. “O valor é ínfimo, mas possibilita que essas pessoas que perderam sua autonomia econômica tenham uma renda mínima, fundamental nesse momento, enquanto a reparação não chega”, avalia.
O levantamento do “Projeto Saúde Brumadinho: análise do impacto do rompimento da Barragem da Mina do Córrego do Feijão nos serviços de proteção social dos municípios afetados” mostrou que houve um aumento de mais de 200% no número de famílias acompanhadas pelo Serviço de Proteção e Atendimento Integral à Família (PAIF), oferecido nos Centros de Referência de Assistência Social (CRAS).
O estudo apontou também um aumento da demanda por benefícios eventuais, especialmente por cestas básicas de alimentos.
O futuro do acordo de reparação
Com o encerramento do Programa de Transferência de Renda (PTR), em outubro de 2025, entidades de atingidos e o município de Brumadinho entraram com uma Ação Civil Pública reivindicando a criação de um novo auxílio mensal. A Vale S.A recorreu, sustentando que o repasse de R$ 4,4 bilhões realizado pela mineradora para este fim teria representado a “quitação integral, definitiva e irrevogável da respectiva obrigação”.
O Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) emitiu parecer favorável à manutenção do auxílio. Amparado na PNAB, defendeu que os efeitos danosos do desastre persistem nas comunidades atingidas e que o auxílio deve continuar “até que sejam alcançadas as condições de vida em nível equivalente ou superior às precedentes”.
No recurso apresentado, a defesa da Vale afirma que conceitos expressos na lei, como “níveis de vida” e “condições equivalentes às precedentes”, são vagos e de “difícil e, talvez, impossível mensuração”.
O Tribunal de Justiça de Minas Gerais marcou para 5 de março o julgamento do recurso que decidirá se mantém a decisão que assegura o pagamento do novo auxílio ou se acolhe o pedido da Vale para encerrar a obrigação.
Expediente
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Reportagem Thamara Pereira e Adriana Amâncio
Edição Bruna de Lara
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