Manifestação pró-Bolsonaro e antiPT em Brasília, antes das eleições | Foto José Cruz/Agência Brasil

Bolsonaro conquistou eleitorado mais masculino, mais branco e mais rico do que adversários do PT em 2010 e 2014

Pesquisas de intenção de voto realizadas antes das últimas três eleições presidenciais apontam que diferenças de gênero, raça e classe na preferência por candidatos se acentuaram em 2018; mulheres, negros e pessoas com renda mensal de até um salário mínimo aderiram menos à candidatura de Bolsonaro do que a adversários do PT em 2010 e 2014

Por Maria Martha Bruno, Flávia Bozza Martins e Marília Ferrari*

Vitória Régia da Silva

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Os 57,8 milhões de votos dados a Jair Bolsonaro no último domingo (28/10) chancelaram democraticamente discursos e políticas em ascensão no país. Triunfou a preferência de voto masculina e rica, que apostou na candidatura do PSL. Desde que demonstrou suas intenções de concorrer à Presidência, Bolsonaro já apelava a uma narrativa que fala mais aos segmentos que ajudaram a elegê-lo, segundo apontaram as pesquisas de intenção de voto ao longo da campanha. Já o candidato do PT, Fernando Haddad, manteve a retórica que ajudou o partido a manter a maioria do voto da população de baixa renda e, este ano, também teve mais apelo entre as mulheres.

A Gênero e Número analisou as pesquisas do Ibope publicadas na véspera das três últimas eleições presidenciais. As intenções de votos válidos mostram que, desde 2010, nunca houve tamanha disparidade entre homens e mulheres na preferência pelos candidatos. Se nas vitórias de Dilma Rousseff a diferença de intenção de voto entre gêneros praticamente não aparecia entre os eleitores da candidata do PT e os de José Serra (PSDB, 2010) e Aécio Neves (PSDB, 2014), desta vez o panorama foi bem diferente. A maioria das mulheres (52%) deixou clara sua inclinação por Fernando Haddad na véspera do pleito, enquanto a maior parte os homens ficou ao lado de Jair Bolsonaro (59%).

 

Visu gênero

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Para Luiz Augusto Campos, professor de Sociologia do Iesp-Uerj (Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro), o discurso do novo presidente aponta para um país que será “visto como uma grande família” a partir de 2019. “É o retorno da retórica que apela a valores patriarcais. É a noção patriarcal de família, com uma autoridade centrada em um núcleo, representada pelo homem que estará no poder do país”, analisa. Durante a campanha, o vice de Bolsonaro, General Hamilton Mourão, reforçou esse discurso, ao declarar, em evento dia 17 de setembro em São Paulo, que problemas sociais “atacam eminentemente áreas carentes, onde não há pai nem avô, apenas mãe e avó. E por isso torna-se (sic) realmente uma fábrica de elementos desajustados e que tendem a ingressar em narco-quadrilhas que afetam nosso país”.  

Campos atesta que o modelo da família formada pelo homem, a mulher e seus filhos foi “transposto para a política” por Jair Bolsonaro. “É como se a política precisasse de uma liderança que acaba sendo um homem”. O sociólogo lembra, no entanto, que o presidente eleito conseguiu reduzir sua rejeição entre as mulheres e cresceu entre elas, mesmo após o movimento #EleNão, criado por mulheres, ter levado milhares de pessoas às ruas em vários países em protestos contra Bolsonaro.

 

Visu raça

 

O sociólogo avalia que “houve uma moderação do discurso” relacionado a mulheres e aos papéis de gênero na fala do então candidato do PSL nas benevolentes entrevistas televisivas realizadas pela Band e pela Record com Bolsonaro. Nas ocasiões, ele negou reiteradamente as acusações de misoginia, motivadas por diversas declarações depreciativas em relação às mulheres em seus 27 anos de vida pública como deputado federal. Além disso, uma das primeiras peças da propaganda eleitoral gratuita do segundo turno também dava destaque à figura do candidato como “pai de família”, que inclusive se emocionava diante das câmeras ao falar da filha mais nova – aquela que, segundo ele afirmou em abril de 2017, foi fruto de uma “fraquejada”.

Bolsonaro também teve a preferência dos eleitores brancos, assim como Aécio Neves em 2014. Porém, este ano, mais brancos se inclinavam a votar no presidente eleito na véspera da eleição (65% deles, contra 55% afinados com o tucano em 2014). Entre pretos e pardos, no entanto, este ano registrou um equilíbrio maior que na eleição passada. Se, na véspera da eleição de 2014, 60% dos pretos e pardos pretendiam votar em Dilma, este ano 53% estavam dispostos a votar em Haddad, enquanto os 47% restantes demonstraram sua intenção em apoiar Bolsonaro. Vale notar ainda que quase 20 pontos percentuais separavam o índice de apoio de eleitores brancos (65%) e pretos/pardos (47%) a Bolsonaro na véspera da eleição de domingo. No entanto, Luiz Augusto Campos afirma que a questão racial é mais difícil de ser analisada pois, no Brasil, “há uma tendência de sobreposição entre classe e raça, pobreza e negritude”.

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Visu renda

 

Se Bolsonaro inverteu a paridade de gênero que se manifestou nos segundos turnos anteriores entre PT e PSDB, por outro lado o Partido dos Trabalhadores manteve uma tendência já observada em outras eleições: voto nos setores de menor renda (em 2014, 69% dos trabalhadores que ganhavam até um salário mínimo se colocavam ao lado de Dilma na véspera da eleição; este ano, 64% deles estavam com Haddad). O PSDB não esteve no páreo no segundo turno de 2018, mas Bolsonaro também herdou a preferência de voto do segmento acima de cinco salários mínimos (60% destes eleitores apoiaram Aécio Neves em 2014, enquanto 68% ficaram ao lado de Bolsonaro).  

A cientista política do Iespe Argelina Figueiredo estudou a influência da renda no voto nas últimas eleições e publicou suas conclusões no livro “25 anos de Eleições Presidenciais no Brasil”. Ela ressalta que, ao contrário do que costumeiramente boa parte da imprensa diz, no Nordeste, onde o PT venceu em todos os estados no domingo, a preferência não se dá apenas em “rincões de pobreza”. Na região, pobres (que ela coloca como aqueles que ganham menos de dois salários mínimos) e não pobres votam na legenda. “O eleitor vota retrospectivamente, pelos benefícios que teve no governo anterior. Nossa hipótese é de que o desenvolvimento tenha sido maior no Nordeste em relação a outras regiões”, analisa.

Figueiredo observa ainda que o segmento de renda alta que ajudou a eleger Jair Bolsonaro já conta com sinais claros do presidente eleito para seu governo: “O mais visível neste momento pós-eleição é que ele e sua equipe estão tentando agradar o mercado, de quem ele recebeu muito apoio durante a campanha”. No dia da eleição, o futuro ministro da Economia, Paulo Guedes, colocou a reforma da Previdência como “primeiro grande item do modelo econômico” do governo Bolsonaro. A reforma também é prioritária para grandes nomes do mercado, que se frustrou com a impossibilidade de Michel Temer realizá-la.

*Maria Martha Bruno é subeditora, Flávia Bozza Martins é analista de dados e Marília Ferrari é infografista da Gênero e Número

Vitória Régia da Silva

É jornalista formada pela ECO/UFRJ e pós graduanda em Escrita Criativa, Roteiro e Multiplataforma pela Novoeste. Além de jornalista, também atua na área de pesquisa e roteiro para podcast e documentário. É gerente de jornalismo e vice-presidente da Associação Gênero e Número, onde trabalha há mais de seis anos. Já escreveu reportagens e artigos em diversos veículos no Brasil e no exterior, como o HuffPost Brasil, I hate flash, SPEX (Alemanha) e Gucci Equilibrium. É uma das autoras do livro "Capitolina: o mundo é das garotas" [ed. Seguinte] e colaborou com o livro "Explosão Feminista" [Ed. Companhia das Letras] de Heloisa Buarque de Holanda.

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