197 meninas sofrem violência doméstica por dia, e abuso cria “curto-circuito” na saúde física e mental por décadas
Enquanto o Brasil registra alta na mortalidade por abuso infantil, relatos de sobreviventes e especialistas revelam como a violência se converte em doenças crônicas e silenciamento institucional.
Mila* escrevia cartas para endereços inventados quando criança. Copiava números de casas, criava nomes de ruas e colava o selo. Fingia surpresa ao recebê-las. Na sequência, as lia e respondia para si mesma. Embora vivesse com outras seis pessoas num mesmo cômodo, sentia-se sozinha.
Vítima de violência doméstica praticada pelo próprio pai — e da negligência dos adultos que nada faziam —, Mila recorria às cartas e ao faz de conta para suportar o insuportável. “Eu te bato muito, mas eu te amo. Esse foi o modelo que aprendi”, ouvia dele, que tentava justificar as agressões. A infância, para ela, é uma lembrança nítida de dor e sobrevivência.
Mas não só para ela. Em 2024, dos 294.393 casos de violência doméstica sofrida por mulheres, 85.858 (29%) tiveram como alvo meninas de até 15 anos e 11.142 (4%) meninas de 16 a 17 anos. Isso significa que crianças e adolescentes foram mais de um quarto das vítimas de violência doméstica e sexual no Brasil naquele ano. Os dados são do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde.
Quando falamos de vítimas adultas, um discurso recorrente — e cruel — sugere que elas “poderiam sair daquela situação se quisessem”. Mas o que dizer quando os alvos são crianças e adolescentes, sob a res as ponsabilidade direta de pais, avós, médicos e professores?
Este é o terceiro capítulo de uma investigação sobre como a violência doméstica se inscreve no corpo das mulheres. A série “Quando o corpo guarda a violência”, da Gênero e Número, já mapeou os efeitos no climatério e as falhas no atendimento às vítimas no sistema de saúde. Agora, recuamos no tempo para compreender como meninas e adolescentes carregam marcas que não ficam apenas na pele.
Para as especialistas ouvidas, o trauma que começa na infância não termina nela: ele se inscreve no sistema nervoso, no sistema imunológico e na capacidade de imaginar o futuro.
Duas décadas após a Lei Maria da Penha, o desafio é fazer com que as instituições aprendam a ler o que o corpo manifesta quando a palavra, nessa idade, ainda não consegue verbalizar.
A violência sexual
Aos 15 anos, Mila teve o primeiro namorado, que na época tinha 19. Para a família dela, ele era a personificação da estabilidade: trabalhador, prestativo com a sogra, alguém que presenteava a todos. Ele chegou a comprar uma beliche para os irmãos dela, que dormiam no chão. Era tamanha a simpatia que ninguém perguntava o que acontecia entre quatro paredes, mesmo quando Mila chegava em casa machucada.
Pela legislação brasileira, os pais são civilmente responsáveis por menores de 18 anos. O Código Civil determina que respondam por danos causados aos filhos, enquanto o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) define o dever de sustento, guarda e educação. É deles a responsabilidade de zelo com a saúde sexual, física e psicológica.
Contrariando as normas, na casa de Mila não existia proteção. Durante o relacionamento, ela foi isolada dos amigos, sofreu xingamentos, humilhações e agressões físicas. Sua primeira relação sexual foi um estupro.
O Sinan reforça que a casa das vítimas de até 17 anos anos (65%), seguida de via pública (7%) e escola (6%), são os principais lugares onde a violência acontece.
Lerner explica:
A violência intrafamiliar não é um fenômeno que envolve apenas uma vítima e um agressor. Todos os membros da família participam de forma direta ou indireta, em uma dinâmica complexa e com repercussões para todos os envolvidos."
É por isso que a Lei Maria da Penha também se aplica a crianças e adolescentes do gênero feminino.
Ana*, uma mulher negra, cresceu numa cidade pequena do interior da Bahia. A mãe foi presa por tráfico de drogas quando ainda era criança, e o pai se limitava a pagar uma pensão modesta e aparecer somente nas férias escolares. Tudo o que Ana tinha era a avó, que não vivia sozinha.
Desde que chegou à casa, aos 10 anos, o companheiro dela cercava Ana. Um homem muito mais velho controlava com violência com quem a menina falava, xingava quem se aproximasse, comentava sobre o corpo da criança sem cerimônia e cavava oportunidades de encostar lascivamente na menina, o que, pela legislação brasileira, é considerado estupro.
Uma vez, conta à reportagem, Ana ouviu a avó repreender o companheiro: “Cuidado com o pessoal, vão te denunciar, você está muito ciumento com ela”, lembra. Para ela, foi a comprovação de que a responsável sabia o que acontecia, só escolheu não agir.
Edinete Rosa, psicóloga e professora do Departamento de Psicologia Social e Desenvolvimento da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) explica que traumas não são gerados somente pelo que falamos ou fazemos, mas também pela ausência de ação.
Edinete reforça que, quando meninas que foram vítimas de violência doméstica na infância chegam à terapia, com frequência reclamam "da falta do suporte emocional de um adulto, de uma pessoa em quem pudessem confiar e recorrer nos momentos em que precisavam".
A avó não era a única pessoa negligente. A mãe de Ana enfrentava uma dependência química grave, e o pai escolheu ser ausente.
“As pessoas acusadas de negligência são as mulheres e as mulheres negras”, aponta Bia Brambilla, psicóloga e pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Psicologia Social e Violência da PUC-SP. “O abandono paterno e as responsabilidades da sociedade e do Estado em relação ao cuidado de crianças e adolescentes” são facetas da negligência que recebem menos atenção, defende.
Atores que contribuem para a negligência
Em lares onde crianças e meninas são vítimas de violência, a omissão e a negligência dos adultos frequentemente se estendem ao cuidado com o corpo. Consultas de rotina não acontecem, sintomas não chegam ao médico e conversas sobre saúde sexual e reprodutiva raramente existem. O que essas meninas aprendem sobre seus corpos costuma chegar pela via da dor.
O problema, porém, não começa nem termina dentro de casa. “O serviço de saúde deveria se interessar mais pelas histórias de vida das crianças e das mulheres, ir além daquilo que está aparente, para ver as possíveis causas”, diz Edinete Rosa.
Muitas vezes, acrescenta, nem a própria pessoa sabe que há uma conexão e vai negar que aquilo está relacionado, porque nunca teve oportunidade de conversar sobre isso com alguém. “Ainda temos uma sociedade que silencia a criança. As suas histórias não são consideradas críveis”, acrescenta Rosa.
Mila, por exemplo, não foi levada ao médico após o estupro que sofreu e não frequentava unidades de saúde. Ainda assim, seu problema também se tornou físico: até hoje lida com crises de fibromialgia, ansiedade e depressão.
Já Ana acessou a rede pública. Vizinhos denunciaram seu abusador e ela foi levada pelo Conselho Tutelar a uma psicóloga, mas pelo medo de ser separada do irmão, negou sofrer abusos. O sistema travou ali, e ela voltou para o lar violento, de onde só saiu quando adulta.
Ainda que a maioria dos casos de violência doméstica contra meninas de até 17 anos em 2024 tenha sido de violência sexual (49%) — seguida de física (26%) e negligência/abandono (25%) — somente 34% tiveram algum procedimento médico realizado.
Foram eles coleta de sangue (12%) profilaxia contra ISTs (6%), profilaxia contra HIV (6%), profilaxia contra Hepatite B (4%), contracepção de emergência (3%), coleta de secreção vaginal (2%), coleta de sêmen (1%) e aborto previsto em lei (1%).
O sistema de saúde foca no sintoma físico e ignora a narrativa de dor", critica Bia Brambilla.
Falta a “tecnologia do olho no olho, da produção do vínculo, da construção da confiança. O cuidado deve ser a partir de quem é a pessoa, e não a partir dos recursos que eu tenho”.
Condicionar o reconhecimento de que elas são vítimas, como aconteceu com Ana, é transferir a responsabilidade que é do Estado para crianças e adolescentes. “A partir do momento em que os profissionais não se interrogam sobre os sentidos de uma narrativa contínua de dor, raramente vamos problematizar as origens sociais do sintoma”, defende Brambilla.
As mulheres, explica, às vezes narram justamente esses sintomas para conseguir algum tipo de cuidado e, mesmo assim, não são ouvidas.
Para a pesquisadora, “a escola está muito interessada em fazer com que a criança aprenda. O sistema de saúde, infelizmente, no tratamento, e não em outras formas de produção da saúde”, pontua. São instituições que “têm realizado um trabalho restritivo na maior parte das vezes”.
O corpo que fala a dor
Edinete conta à reportagem que acompanhou o caso de uma criança que não parava de chegar ao hospital com pneumonia. A pediatra se atentou à repetição e quis entender mais a fundo, quando chegou à conclusão de que ela havia sido abusada sexualmente pelo pai desde os quatro meses de vida.
O diagnóstico só foi possível, porque alguém prestou atenção. De todo modo, a recorrência como alerta aponta para um cenário triste.
37% das meninas
vítimas de violência em 2024 relataram que a violência se repetiu, aponta o Sinan.
Um estudo publicado em janeiro de 2026 no periódico The Lancet revela que o Brasil segue na contramão do mundo: enquanto a taxa global de mortalidade associada ao abuso sexual infantil caiu entre 1990 e 2023, no Brasil ela subiu de 1,8 para 2 óbitos por 100 mil habitantes. Em três décadas, passamos de 744 para 1.870 mortes anuais.
O mesmo estudo documenta que, entre o total de mulheres no mundo com transtorno bipolar, 31% têm um histórico de violência sexual antes dos 18 anos. Nos casos de bulimia nervosa, 29% têm esse histórico; nos de autolesão, 24%; de diabetes tipo 2, 3% e, nos de asma, 5%. O estudo estima que, sem essa exposição à violência, esses casos não teriam ocorrido.
Mila era espancada pelo pai, sofreu violências físicas, psicológicas e sexuais do primeiro namorado, depois ficou 13 anos em um relacionamento abusivo. O ex-marido, após agredi-la, se aproximava dela ferida e dizia: “Olha o que você me fez fazer com você”, conta. O relacionamento teve fim após ele quebrar a sua coluna.
Em entrevista à Gênero e Número, Pilar Lacerda, atual Secretária Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente no Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), ressaltou:
Quando a violência acontece repetidamente, isso indica fragilidades na capacidade de interromper esse ciclo no momento adequado."
Para ela, “sem que os casos cheguem ao conhecimento do Estado, a rede de proteção não consegue atuar de forma efetiva. Por isso, canais como o Disque 100 cumprem um papel central, ao possibilitar que situações de violência sejam denunciadas e encaminhadas para atendimento”.
Ela pontua que no Brasil ainda persistem barreiras de acesso, inclusive morais, como a “dificuldade social de tratar temas como saúde sexual e reprodutiva de crianças e adolescentes”, sendo um dos principais gargalos a continuidade do cuidado.
Embora o acolhimento inicial tenha avançado, ainda há fragilidades no monitoramento de longo prazo, o que pode resultar no retorno dessas meninas ao mesmo contexto de violência", aponta a secretária.
Em maio de 2026, a Comissão Nacional de Erradicação do Trabalho Infantil (Conaeti) aprovou o Fluxo Nacional de Atendimento a Crianças e Adolescentes Vítimas de Exploração Sexual, que estabelece métodos padronizados para atuação articulada entre órgãos públicos e entidades da sociedade civil.
O fluxo determina que o atendimento seja realizado em ambientes seguros com abordagens sensíveis, evitando que a criança seja obrigada a relatar a violência repetidas vezes.
Mila sente essa carga moral na pele: até hoje, seus familiares mantêm conexão com seu agressor da adolescência nas redes sociais. “Abusadores não são pessoas que vão demonstrar um lado que te deixa incomodado. Eles se vestem bem”, diz ela. O incômodo social se limita às vítimas.
Vítimas “colaterais” da violência
Clarice* tinha três anos quando escutou os primeiros gritos. Estava na casa dos avós, vendo desenho animado, e aprendeu cedo um mecanismo de defesa: cantarolar para abafar os sons. O pai bebia e batia na mãe. A garota nunca era agredida, mas uma advertência constante da mãe permeava sua cabeça: nunca peça nada quando ele estiver “assim”.
A violência doméstica e familiar contra meninas e adolescentes não acontece somente quando elas figuram como vítimas nos dados ou nos boletins de ocorrência. Afinal, será mesmo possível que, em lares onde mulheres são violentadas, os filhos não sejam atingidos?
“Essa chamada violência indireta, o testemunho da violência, é ocultado das relações”, mas gera efeitos concretos: retraimento, reprodução de comportamento violento, desconfiança, dificuldade de formar vínculos, insegurança, explica Brambilla. “Certamente, o fato da gente testemunhar essa situação violenta, humilhante, vexatória é tão violento quanto vivenciar”.
Em uma noite que pediu sorvete, lembra Clarice, o pai jogou o alimento no rosto da mãe e passou a agredi-la. Quando Clarice gritou, ele veio em sua direção, mas a mãe conseguiu pegá-la antes e fugir. Na rua, avistaram uma viatura, mas a menina pediu para a mãe não denunciar. Tinha medo.
A pesquisa pode ser acessada por meio do Mapa Nacional da Violência de Gênero, iniciativa da Gênero e Número em parceria com o Senado e o Instituto Natura.
Para a psicóloga Bia Brambilla, "as crianças que presenciam a violência ficam muito tensas, imaginando que alguma coisa que elas fizeram pode ter prejudicado o funcionamento dos pais." E então recuam — porque é o pai, é a mãe.
O pai de Clarice morreu quando ela completou 11 anos. A mãe, abalada por anos de violência, foi diagnosticada com transtorno de personalidade borderline e passou a bater na filha. “Meu pai batia nela e, com os anos, ela começou a bater em mim”, conta Clarice.
Clarice, Ana e Mila chegaram à ajuda por caminhos tortuosos e tardios, o que, para Edinete, é estrutural. Ela reforça que é inquestionável que o acesso à ajuda psicológica tem recorte racial e socioeconômico e que são eles que determinam não só quem são as vítimas, mas também quem acessa os espaços de discussão sobre a violência.
Os dados do Sinan indicam que meninas negras representaram 57% das vítimas de violência doméstica e sexual em 2024 no Brasil, seguidas de meninas brancas (38%), indígenas (1%) e amarelas (1%).
Sendo assim, quando uma menina negra vive uma infância forjada na violência institucional, os abusos são minimizados e normalizados, resultando em uma construção frágil de si mesma, fragilidade que agressores sexuais exploram ativamente.
É comum que abusadores oscilem: ora presentes, ora ausentes, ora carinhosos, ora violentos, enchendo a vítima de atenção e presentes para conquistar seu silêncio, explica a especialista. E, por conta da idade, as garotas ainda não têm capacidade para discernir que a relação é tóxica.
A criança está em um processo de desenvolvimento da linguagem e da própria capacidade de compreender o que é o outro”, pontua Edinete. Essa falta de ferramentas verbais e cognitivas para elaborar o abuso cria um curto-circuito que se estende por décadas.
Adultos chegam ao consultório anos depois e lamentam que “durante muito tempo da minha vida, eu só me envolvi emocionalmente com isso”. A violência não impactou somente a autoestima, mas o projeto de futuro.
Lerner confirma pelo lado pediátrico: “As experiências físicas são fundamentais para a estruturação da nossa noção de self, o desenvolvimento da individualidade e a percepção de limites. Crianças abusadas têm maior dificuldade em perceber e estabelecer limites, o que pode aumentar sua vulnerabilidade para novas violências”.
Bia Brambilla amplia essa leitura para além do indivíduo. Não é só o corpo físico que é abalado, diz ela, é o que chama de “corpo social” e “corpo psíquico”. Recorrendo à filósofa Grada Kilomba, ela propõe que a pergunta central não seja o que a vítima fez diante da violência, mas “quem você se torna a partir dessa experiência”.
A resposta, observa, inclui algo que vai além das cicatrizes visíveis: a dificuldade de imaginar. “As mulheres têm tido dificuldade de imaginar sossego, imaginar outros futuros, imaginar outras vidas. E não existe nada mais violento do que sequestrar a nossa possibilidade de imaginar a vida.”
"Será que eu ainda posso denunciar?”
Hoje, aos 28 anos, mesmo casada, Ana mal consegue dormir com o quarto totalmente escuro. Lembra-se com frequência da noite em que o companheiro da avó ficou acordado ao lado dela, se masturbando no escuro. Com o marido, ela precisa de luz acesa, e o desejo sexual quase não existe, mesmo “dentro de um casamento de duas pessoas saudáveis e jovens”, lamenta.
Ela se descreve como uma pessoa fria, com dificuldade de falar que ama, de demonstrar carinho, embora seja extremamente protetora: “Tenho ansiedade 24 horas. Estou em alerta o tempo todo”, conta.
Clarice toma antidepressivos desde os 11 anos, após o diagnóstico de depressão e transtorno de ansiedade generalizada. Tem crises de enxaqueca e dores nas costas. Quando já adulta, um ex-namorado a agrediu, e ela terminou o relacionamento. Não queria o mesmo destino da mãe. “Eu basicamente não tive infância, sobrevivi. Comecei a viver e a perceber que merecia isso com 27 anos”.
Pilar cita que algumas medidas estão em curso para ampliar a rede de apoio a crianças e adolescentes vítimas de violência, mas defende:
Uma das medidas mais efetivas é o fortalecimento da capacidade de identificação precoce e de resposta rápida da rede de proteção — investir na formação de profissionais, ampliar o acesso aos serviços e incentivar a denúncia, garantindo que os casos sejam interrompidos o mais cedo possível".
Edinete conta que, não raro, adultos chegam ao consultório 20, 30 anos depois, ainda carregando o peso de uma violência que nunca foi nomeada. “Será que eu ainda posso denunciar?”, perguntam. Para ela, a pergunta já é uma resposta. “O que é que a sua pergunta está te dizendo? Está dizendo que você é uma vítima, que você se sente lesada até hoje — e isso é legítimo”.
A resposta jurídica é: sim, é possível. Desde 2012, a Lei Joanna Maranhão — batizada em homenagem à nadadora que denunciou o treinador que a abusou na infância — alterou o Código Penal para que o prazo de prescrição de crimes sexuais contra crianças e adolescentes comece a contar apenas a partir dos 18 anos da vítima, e não da data do abuso.
No caso de estupro, crime punido com até 15 anos de reclusão, o prazo para denúncia é de 20 anos a partir da maioridade. Isso significa que uma menina estuprada na infância ou na adolescência tem até os 38 anos de idade para denunciar.
“Vários são os obstáculos que fazem com que essa mulher não procure denunciar”, explica Renata Furbino, professora de Direito Criminal do Centro Universitário Arnaldo, de Belo Horizonte. Entre eles: a prescrição do crime, a ausência de provas materiais, o medo de revitimização, a falta de delegacias especializadas e a falta de informação. “São inúmeros obstáculos em nível material, estrutural e emocional que impedem essa mulher de acessar o sistema de justiça.”
Sobre as provas, Furbino explica que crimes sexuais são cometidos na clandestinidade e raramente há testemunhas. “A palavra da vítima tem bastante relevância e precisa ser analisada em contexto”, diz ela. Registros médicos, laudos, prontuários, anotações escolares ou do Conselho Tutelar que documentem alterações de comportamento à época também podem compor esse conjunto probatório. Daí também está a importância de uma rede atenta e integrada.
Quando o agressor é pai, padrasto ou tio, a lei prevê ainda aumento de metade da pena.
Para denunciar, não é necessário advogado. A vítima pode procurar qualquer delegacia de polícia, o Ministério Público, o Conselho Tutelar ou ligar gratuitamente para o Disque 100, com sigilo garantido sobre a identidade de quem denuncia.Mila, que hoje é médica sexóloga, diz que tem lugar de fala e a usa: “Quando eu falo que passei por isso, posso ajudar outras mulheres a identificar o que está acontecendo antes.”
Em um texto publicado em janeiro, escreveu que a Lei Maria da Penha libertou mulheres, mas que há “imensa falta de recursos para manutenção da saúde mental, dificultando os recomeços”.
Mila tem um recado para a menina que escrevia cartas para ninguém: “Tenha compaixão com a pessoa que você era. Ela fez o que ela podia fazer com o que ela tinha”.
*Nome fictício para preservar a identidade da entrevistada.
Essa reportagem faz parte da série Quando o corpo guarda a violência, produzida com apoio do Fundo ELAS+ Doar Para Transformar e da Agence française de desenvolvimento (AFD). As ideias e opiniões nela expressas são de responsabilidade dos autores e não refletem, necessariamente, o ponto de vista do ELAS+ ou da AFD.
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Direção de conteúdo e revisão Vitória Régia da Silva Reportagem Mariana Rosetti e Paola Churchill Edição Bruna de Lara Design e Infografia Carlos Carneiro Análise e checagem de dados Gabriela Costa
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Jornalista, repórter, produtora, fotógrafa e podcaster, com atuação focada em direitos humanos, meio ambiente e segurança pública, sempre pelas lentes de gênero. Investiga histórias que revelam desigualdades estruturais e amplificam vozes historicamente invisibilizadas. Já colaborou com veículos como Agência Pública, Revista AzMina, Portal Catarinas, Gênero e Número, Ecoa UOL, Mongabay Brasil e Repórter Brasil, além de sete anos trabalhados em televisão, como apuradora, produtora e chefe de reportagem. É fundadora do podcast Marias&Anas, que compartilhou vivências de mulheres diversas a partir de uma escuta sensível e crítica. Formada em Comunicação Social e Jornalismo, com pós-graduação em Direito Penal e Processo Penal.
Paola Churchill é jornalista e repórter freelancer com foco em gênero. Investiga como desigualdades estruturais afetam a vida das mulheres, seja na política, nas instituições, na cultura ou na tecnologia.
Escreve para a Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo, BBC News Brasil, Marie Claire Brasil, Universa UOL, TAB UOL, Revista AzMina e Colabora.
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