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Para a biomédica Mellanie Dutra, o protagonismo feminino na ciência reafirma a importância das mulheres nesse espaço e inspira as próximas gerações9 min read

A pesquisadora destaca a mudança na percepção da sociedade sobre a ciência brasileira| Foto: Divulgação

Considerada uma das vozes mais ativas nas redes sociais sobre covid-19 em 2020, a biomédica destaca a importância da divulgação científica e conta como tem sido lidar com as notícias falsas e desinformação sobre coronavírus e vacinas

Por Vitória Régia da Silva*

A biomédica Mellanie Fontes Dutra foi considerada, segundo um estudo do Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados (IBPAD) e pela Science Pulse, como uma das 5 principais influenciadoras sobre covid-19 em 2020.  Aos 28 anos, a pós-doutoranda em bioquímica pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas: Bioquímica, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), é também mestre e doutora em Neurociências pela mesma universidade. Em 2020, dedicou-se a combater a desinformação e notícias falsas sobre coronavírus em suas redes sociais.

No Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência e um ano após o lançamento do projeto Open Box da Ciência, da Gênero e Número com apoio do Instituto Serrapilheira, que mapeou mulheres protagonistas da ciência brasileira, a pesquisadora fala sobre a importância do protagonismo na ciência, o papel dos divulgadores científicos e a mudança da percepção social sobre a ciência

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O divulgador científico consegue fazer a ponte entre a ciência e a sociedade tornando a informação acessível. Ser pesquisador no Brasil é um privilégio, nem todo mundo pode receber um ensino de excelência, e fazer mestrado e doutorado. É importante construir  um ambiente acolhedor para que as pessoas que não estão nesse espaço também se sintam acolhidas”, destaca. 

Confira a entrevista completa: 

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Qual a importância do protagonismo feminino e da diversidade na ciência?

Temos imensas contribuições das mulheres na ciência, sendo que muitas dessas contribuições não tiveram o devido mérito no passado. Esse protagonismo vem para mostrar que a ciência é um ambiente que meninas e mulheres podem ter o seu lugar e que podem fazer parte das cientistas do amanhã. É uma luta não só das mulheres para terem seus espaços na ciência, mas de outras minorias, como pessoas trans e negras, que também buscam conquistar seu espaço nessa área.

Na história, vemos mulheres que foram esquecidas. Gosto de exemplificar isso como o caso da cientista Grunya Sukhareva, pesquisadora que caracteriza o autismo, o transtorno do espectro autista, mas só fomos descobrir isso pouco tempo atrás porque, antes, essa descoberta era aferida aos cientistas Leo Kanner e Hans Asperger. A pesquisadora e psiquiatra descobriu o transtorno duas décadas antes, mas não foi reconhecida. Ela era uma pesquisadora russa, na antiga União Soviética, e é um exemplo de uma memória que foi resgatada recentemente e que só agora recebe o devido crédito. Isso mostra como é importante o protagonismo feminino. Não só devolve a importância da presença das mulheres nesse espaço, que em muitos momentos foi retirado delas, como inspira mulheres e meninas do amanhã a compor esse local. O gênero de uma pessoa não deve impedir que elas ocupem esse lugar. 

Como a pandemia afetou seu trabalho e objeto de pesquisa?

Eu sempre estudei os transtornos de desenvolvimento, como autismo. Meu foco de estudo era entender como o processamento das informações sensoriais acontece nesses indivíduos e o que leva à normalidade experienciada pelas pessoas com esse transtorno. Pesquiso como o sistema nervoso se forma, por exemplo. Durante a pandemia, devido à restrição da mobilidade, comecei a trabalhar em casa na elaboração de artigos e capítulos, buscando maximizar meu tempo no computador para conseguir trabalhar home office sem perder a produção. Tive que fazer adaptações e comecei a no meu tempo livre a fazer divulgação científica no contexto da covid-19. 

Isso mostra como é importante o protagonismo feminino. Não só devolve a importância da presença das mulheres nesse espaço, que em muitos momentos foi retirado delas, como inspira mulheres e meninas do amanhã a compor esse local. O gênero de uma pessoa não deve impedir que elas ocupem esse lugar. 

Além de cientistas, qual a importância de formarmos divulgadores científicos? 

O divulgador científico consegue fazer a ponte entre a ciência e a sociedade, tornando a informação acessível. Ser pesquisador no Brasil é um privilégio, nem todo mundo pode receber um ensino de excelência, fazer mestrado e doutorado. É importante construir  um ambiente acolhedor para que as pessoas que não estão nesse espaço também se sintam acolhidas. 

A importância de falar em divulgação científica é clara quando vemos o impacto que tem na sociedade. Levar informação acessível, de forma acolhedora, de forma com que a pessoa se sinta tocada pela informação, pode ser transformador. Um exemplo são as pessoas  hesitantes em se vacinar que, depois de uma troca com um divulgador científico, que traz as provas e informações sobre os benefícios da vacinação, pode decidir se vacinar. 

Para mim, ser divulgadora científica foi algo muito natural. Acredito que quanto mais divulgadores tivermos, melhor, mas o pesquisador tem que querer. A divulgação científica muitas vezes envolve fazer isso de forma voluntária, exige um esforço pessoal porque a pessoa fica exposta a redes de negacionismo e ódio. Esse é um outro lado que pesa muito para a saúde mental do pesquisador. Por isso, não é algo que deva ser obrigatório, deve vir da paixão e vontade de comunicar. 

A própria Academia começa a valorizar mais a divulgação científica, e acredito que no futuro vai ter uma maior valorização à medida que for reconhecida como uma atividade que faz parte da pesquisa e que pode trazer benefícios. Precisamos de mais institucionalização da divulgação científica em institutos e universidades. 

Você é uma das cientistas mais influentes nas redes sociais no combate à desinformação sobre a covid-19. Você usa seus perfis pessoais e a conta Rede Análise COVID-19, rede multidisciplinar com o objetivo de coletar, analisar, modelar e divulgar dados relativos a covid-19, no twitter. Como os cientistas podem se apropriar das redes sociais para isso?

Existem várias redes sociais à disposição, sendo que cada uma tem um padrão. É importante o pesquisador entrar em uma rede em que esteja mais familiarizado com a forma e o conteúdo, seja vídeo, texto ou imagem. É importante também levar em conta qual público quer alcançar, porque impacta na rede social e na linguagem. A minha trajetória vai muito nesse sentido, eu gosto muito de produzir textos com gifs, e o twitter é uma rede social que é feita para isso. Também comecei a explorar outras redes como o Tiktok, depois que comecei a fazer parte da Equipe Halo, iniciativa de  divulgadores científicos da ONU.  Enquanto divulgadores, vamos nos desafiando e tentando alcançar mais e mais públicos com os recursos que as redes nos oferecem. 

Quanto mais as pessoas entenderem a vivência do pesquisador, mais vão desconstruir a imagem do cientista inatingível e passarão a ver que é uma pessoa da sociedade que está contribuindo ativamente com o bem-estar, progresso e saúde dessa sociedade. Estamos construindo o início de uma melhor concepção da ciência pela sociedade, mas é um caminho.

Como tem sido lidar com as notícias falsas e desinformação sobre covid-19 e vacinas?

É desafiador porque temos muitas redes negacionistas que são financiadas. Temos um desafio imenso pela frente, principalmente nesse momento de pandemia em que as pessoas buscam informações e ficam mais vulneráveis a essa desinformação. Além disso, muitas vezes sofremos ataques e ameaças de redes de ódio. Temos construído uma rede de apoio para os pesquisadores e divulgadores, mas é importante que as redes sociais façam medidas de proteção aos usuários e busquem diminuir a distribuição dessas notícias falsas. 

A velocidade com que a desinformação circula, o fato de alcançar pessoas vulneráveis e a facilidade de tirar as coisas de contexto são um desafio. Por isso, é importante criar ferramentas e ajudar as pessoas a discernir uma informação falsa de uma informação científica, para que elas também se sintam protagonistas desse cenário de combate à desinformação. As notícias falsas ganham velocidade quando acham alguém que passe adiante; se uma pessoa questiona se é real ou não [essa notícia] e faz uma busca, ela não passa adiante essa notícia e pode ajudar a frear a desinformação. Outro ponto é que as pessoas têm a dimensão de que o cientista está perto, às vezes na distância de um tweet, para ajudar e tirar dúvidas. 

Com a pandemia, você acha que mudou a percepção da sociedade sobre a importância e a credibilidade da ciência brasileira?

Sim. Esse movimento da divulgação científica vem aproximando a ciência da sociedade e, aos poucos, vemos esse reflexo das pesquisas sobre a confiabilidade da ciência. É possível ver uma mudança e uma aceitação maior da ciência. E muito da valorização da ciência vem dessa proximidade da sociedade com os cientistas, de entender que são pessoas que se dedicam a estudar, dentro de um código de ética e de regras científicas que devem ser seguidas. Quanto mais as pessoas entenderem a vivência do pesquisador, mais vão desconstruir a imagem do cientista inatingível e passarão a ver que é uma pessoa da sociedade que está contribuindo ativamente com o bem-estar, progresso e saúde dessa sociedade. Estamos construindo o início de uma melhor concepção da ciência pela sociedade, mas é um caminho.

*Vitória Régia da Silva é repórter da Gênero e Número

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