Não basta abrir a porta: o mercado formal e a exclusão contínua de pessoas trans

29 de janeiro de 2026

Caê Vatiero, Sanara Santos, Victória Sacagami, Carlos Carneiro e Diego Nunes da Rocha

Em colaboração com a Transmídia

Quantas pessoas trans acessam o mercado de trabalho formal no Brasil? Há diferenças de renda entre pessoas trans e o restante da população? Perguntas como essas passam a ter respostas mais concretas a partir dos achados da pesquisa recém-lançada do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), intitulada “A inserção e as características das pessoas trans no assalariamento formal”.

O estudo aponta que apenas 25% das pessoas trans estão inseridas no mercado de trabalho formal. Entre aquelas que conseguem acessar esse tipo de vínculo empregatício, a renda média é de R$ 2.707, valor 32% inferior à média dos trabalhadores assalariados formais identificados na Relação Anual de Informações Sociais (Rais) de 2023, que é de R$ 3.987.

Os dados também evidenciam desigualdades atravessadas por gênero e raça, indicando que a exclusão no mercado de trabalho não ocorre de forma homogênea dentro da própria comunidade trans.

É importante destacar que a pesquisa não compreende o total de pessoas trans no Brasil. Foram levadas em conta apenas aquelas que oficializaram sua mudança de gênero por meio da alteração formal de nome e/ou sexo/gênero.

Contudo, os números indicam iniquidades a que jornalistas, ativistas e responsáveis pela formulação de políticas públicas devem se atentar para que o acesso e a permanência de pessoas trans no mercado de trabalho formal evoluam nos próximos anos.

A seguir, você encontra os principais dados da pesquisa traduzidos em visualizações acessíveis, além de uma entrevista com dois especialistas ao final. Boa leitura!

no brasil,

38,8 mil

pessoas trans alteraram o nome e/ou sexo/gênero. O uso do nome social é um direito garantido por lei e deve ser respeitado em órgãos públicos, em documentos oficiais e estabelecimentos privados.

gênero

faixa etária

14 a 17

anos

11%

38%

HOMENS trans

18 a 29

60%

88%

51%

17%

30 a 39

da população trans com alteração no CPF tem entre 14 e 39 anos.

mulheres trans

40 a 49

7%

não binários

3%

não informados

8%

50 a 59

3%

60 a 64

1%

Metade das pessoas trans com alteração no CPF são mulheres

mercado de trabalho

Dentro das pessoas trans com alteração no CPF, 1 a cada 4 delas está empregadas formalmente no mercado de trabalho.

9.702

pessoas trans

no mercado formal

de trabalho

38.758

pessoas trans

no brasil,

38,8 mil

pessoas trans alteraram o nome e/ou sexo/gênero. O uso do nome social é um direito garantido por lei e deve ser respeitado em órgãos públicos, em documentos oficiais e estabelecimentos privados.

gênero

38%

HOMENS trans

51%

mulheres trans

3% não binários

8% não informados

Metade das pessoas trans com alteração no CPF são mulheres

faixa etária

14 a 17

anos

11%

18 a 29

60%

88%

17%

30 a 39

da população trans com alteração no CPF tem entre 14 e 39 anos.

40 a 49

7%

50 a 59

3%

60 a 64

1%

mercado de trabalho

Dentro das pessoas trans com alteração no CPF, 1 a cada 4 delas está empregadas formalmente no mercado de trabalho.

9.702

pessoas trans

no mercado formal

de trabalho

38.758

pessoas trans

no brasil,

38,8 mil

pessoas trans alteraram o nome e/ou sexo/gênero. O uso do nome social é um direito garantido por lei e deve ser respeitado em órgãos públicos, em documentos oficiais e estabelecimentos privados.

gênero

38%

HOMENS trans

51%

mulheres trans

3% não binários

8% não informados

Metade das pessoas trans com alteração no CPF são mulheres

faixa etária

14 a 17

anos

11%

18 a 29

60%

30 a 39

17%

88%

7%

40 a 49

da população trans com alteração no CPF tem entre 14 e 39 anos.

3%

50 a 59

1%

60 a 64

mercado de trabalho

Dentro das pessoas trans com alteração no CPF, 1 a cada 4 delas está empregadas formalmente no mercado de trabalho.

pessoas trans

no mercado formal

de trabalho

9.702

38.758

pessoas trans

Em comparação com a população geral entre 14 e 64 anos dentro do mercado formal, mulheres trans que alteraram o CPF apresentam a maior sub-representação

não binário

homens

mulheres

31%

35%

28%

23%

21%

trans

cis

trans

cis

trans

Apenas 21% das mulheres trans com alteração no CPF estão empregadas no mercado formal. Entre todas as mulheres, essa proporção é de 28%, mostrando a sub-representação no grupo.

*Gênero não informado: 24% entre pessoas trans; 25% população de 14 a 64 anos com CPF.

Por faixa etária, pessoas trans com alteração no CPF de 30 a 39 anos apresentam a maior taxa de empregabilidade, com 31% em trabalho formal.

população geral

pessoas TRANS

40%

38%

34%

31%

27%

28%

28%

22%

16%

13%

4%

3%

18 a 29

14 a 17

anos

30 a 39

40 a 49

50 a 59

60 a 64

31% das pessoas trans com alteração no CPF de 30 a 39 anos estão empregadas no mercado formal. Entre todas as pessoas, essa proporção é de 40%.

Em comparação com a população geral entre 14 e 64 anos dentro do mercado formal, mulheres trans que alteraram o CPF apresentam a maior sub-representação

não binário

homens

mulheres

35%

31%

28%

23%

21%

popULAÇÃO

mascULINA geral

popULAÇÃO

FEMININA geral

trans

trans

trans

Apenas 21% das mulheres trans com alteração no CPF estão empregadas no mercado formal. Entre todas as mulheres, essa proporção é de 28%, mostrando a sub-representação no grupo.

*Gênero não informado: 24% entre pessoas trans; 25% população de 14 a 64 anos com CPF.

Por faixa etária, pessoas trans com alteração no CPF de 30 a 39 anos apresentam a maior taxa de empregabilidade, com 31% em trabalho formal.

população geral

pessoas TRANS

40%

38%

34%

31%

27%

28%

28%

22%

16%

13%

4%

3%

14 a 17

anos

18 a 29

30 a 39

40 a 49

50 a 59

60 a 64

31% das pessoas trans com alteração no CPF de 30 a 39 anos estão empregadas no mercado formal. Entre todas as pessoas, essa proporção é de 40%.

Em comparação com a população geral entre 14 e 64 anos dentro do mercado formal, mulheres trans que alteraram o CPF apresentam a maior sub-representação

homens

35%

31%

popULAÇÃO

mascULINA geral

trans

mulheres

28%

21%

popULAÇÃO

FEMININA geral

trans

Apenas 21% das mulheres trans com alteração no CPF estão empregadas no mercado formal. Entre todas as mulheres, essa proporção é de 28%, mostrando a sub-representação no grupo.

não binário

*Gênero não informado: 24% entre pessoas trans; 25% população de 14 a 64 anos com CPF.

23%

trans

Por faixa etária, pessoas trans com alteração no CPF de 30 a 39 anos apresentam a maior taxa de empregabilidade, com 31% em trabalho formal.

população geral

pessoas TRANS

4%

14 a 17

anos

3%

27%

18 a 29

34%

31%

30 a 39

40%

31% das pessoas trans com alteração no CPF de 30 a 39 anos estão empregadas no mercado formal. Entre todas as pessoas, essa proporção é de 40%.

28%

40 a 49

38%

22%

50 a 59

28%

13%

60 a 64

16%

renda média

Pessoas trans com alteração no CPF apresentam a renda média menor que a população geral em todas as categorias analisadas.

escolaridade

população geral

pessoas TRANS

renda média

R$ 2mil

R$ 3mil

R$ 4mil

R$ 5mil

R$ 6mil

R$ 7mil

R$ 8mil

R$ 9mil

R$ 6.224,00

R$ 8.599,00

ensino superior

completo

28%

Pessoas trans com alteração no CPF com ensino superior completo ganham 28% a menos do que a população geral com a mesma escolaridade.

R$ 2.158,00

R$ 2.807,00

ensino superior

incompleto

23%

gênero

renda média

R$ 2mil

R$ 3mil

R$ 4mil

R$ 5mil

R$ 6mil

R$ 7mil

R$ 8mil

R$ 9mil

R$ 3.387,00

Não binário

R$ 2.725,00

R$ 3.719,00

Mulheres

27%

Homens trans com alteração no CPF ganham, em média, 39% menos do que as demais pessoas do gênero masculino.

R$ 2.578,00

R$ 4.205,00

Homens

39%

raça

renda média

R$ 2mil

R$ 3mil

R$ 4mil

R$ 5mil

R$ 6mil

R$ 7mil

R$ 8mil

R$ 9mil

R$ 3.177,00

R$ 5.198,00

Amarelas

39%

R$ 3.109,00

R$ 4.904,00

Brancas

37%

R$ 2.495,00

R$ 3.400,00

Pretas

27%

R$ 2.425,00

R$ 3.343,00

Pessoas trans indígenas com alteração no CPF que trabalham no mercado formal ganham, em média, 40% menos do que a população desse grupo racial.

Pardas

27%

R$ 2.161,00

R$ 3.588,00

Indígenas

40%

renda média

Pessoas trans com alteração no CPF apresentam a renda média menor que a população geral em todas as categorias analisadas.

escolaridade

população geral

pessoas TRANS

renda média

R$ 2mil

3

4

5

6

7

8

R$ 9mil

R$ 6.224,00

R$ 8.599,00

ensino superior

completo

28%

Pessoas trans com alteração no CPF com ensino superior completo ganham 28% a menos do que a população geral com a mesma escolaridade.

R$ 2.158,00

R$ 2.807,00

ensino superior

incompleto

23%

gênero

renda média

R$ 2mil

3

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R$ 9mil

R$ 3.387,00

Não binário

R$ 2.725,00

R$ 3.719,00

Mulheres

27%

Homens trans com alteração no CPF ganham, em média, 39% menos do que as demais pessoas do gênero masculino.

R$ 2.578,00

R$ 4.205,00

Homens

39%

raça

renda média

R$ 2mil

3

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R$ 9mil

R$ 3.177,00

R$ 5.198,00

Amarelas

39%

R$ 3.109,00

R$ 4.904,00

Brancas

37%

R$ 2.495,00

R$ 3.400,00

Pretas

27%

R$ 2.425,00

R$ 3.343,00

Pardas

27%

Pessoas trans indígenas com alteração no CPF que trabalham no mercado formal ganham, em média, 40% menos do que a população desse grupo racial.

R$ 2.161,00

R$ 3.588,00

Indígenas

40%

renda média

Pessoas trans com alteração no CPF apresentam a renda média menor que a população geral em todas as categorias analisadas.

escolaridade

população geral

pessoas TRANS

ensino superior completo

renda média

R$ 6.224,00

R$ 8.599,00

28%

ensino superior incompleto

R$ 2.158,00

R$ 2.807,00

23%

gênero

Não binário

renda média

R$ 3.387,00

Mulheres

R$ 2.725,00

R$ 3.719,00

27%

Homens

R$ 2.578,00

R$ 4.205,00

39%

raça

Amarelas

R$ 3.177,00

R$ 5.198,00

39%

Brancas

R$ 3.109,00

R$ 4.904,00

37%

Pretas

R$ 2.495,00

R$ 3.400,00

27%

Pardas

R$ 2.425,00

R$ 3.343,00

27%

Indígenas

R$ 2.161,00

R$ 3.588,00

40%

ranking de ocupações

Na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), pessoas trans com alteração no CPF concentram-se em ocupações de serviços e nível técnico e, nessas categorias, têm renda média inferior à da população geral.

ranking de ocupações de pessoas trans com alteração no CPF

população geral

pessoas TRANS

3.351 pessoas trans empregadas

Trabalhadores dos serviços, vendedores

do comércio em lojas e mercados

R$ 1mil

R$ 2mil

R$ 3mil

R$ 4mil

R$ 5mil

R$ 6mil

R$ 7mil

R$ 8mil

R$ 9mil

R$ 1.783,00

R$ 2.184,00

18%

2.981 pessoas trans empregadas

Trabalhadores de serviços administrativos

Trabalhadores de serviços administrativos trans ganham 34% menos do que a população geral

R$ 1.844,00

R$ 2.790,00

R$ 1mil

R$ 9mil

34%

979 pessoas trans empregadas

Técnicos de nível médio

R$ 3.190,00

R$ 4.329,00

R$ 9mil

R$ 1mil

26%

954 pessoas trans empregadas

Trabalhadores da produção de bens

e serviços industriais

R$ 1.966,00

R$ 2.640,00

Ocupação apresenta a maior renda média entre pessoas trans

R$ 1mil

R$ 9mil

26%

942 pessoas trans empregadas

Profissionais das ciências e das artes

R$ 7.425,00

R$ 5.704,00

R$ 1mil

23%

R$ 9mil

331 pessoas trans empregadas

Membros superiores do poder público, dirigentes de

organizações de interesse público e de empresas, gerentes

R$ 8.654,00

R$ 5.366,00

R$ 9mil

R$ 1mil

38%

*As 164 pessoas trans restantes estão distribuídas nas ocupações de Trabalhadores em serviços de reparação e manutenção, Trabalhadores agropecuários, florestais e da pesca, Membros das forças armadas, policiais e bombeiros militares e ocupações não identificadas.

fonte ipea - Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada

ranking de ocupações

Na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), pessoas trans com alteração no CPF concentram-se em ocupações de serviços e nível técnico e, nessas categorias, têm renda média inferior à da população geral.

ranking de ocupações de pessoas trans com alteração no CPF

população geral

pessoas TRANS

3.351 pessoas trans empregadas

Trabalhadores dos serviços, vendedores

do comércio em lojas e mercados

R$ 1mil

2

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R$ 9mil

R$ 1.783,00

R$ 2.184,00

18%

2.981 pessoas trans empregadas

Trabalhadores de serviços administrativos

Trabalhadores de serviços administrativos trans ganham 34% menos do que a população geral

R$ 1.844,00

R$ 2.790,00

R$ 1mil

R$ 9mil

34%

979 pessoas trans empregadas

Técnicos de nível médio

R$ 3.190,00

R$ 4.329,00

R$ 9mil

R$ 1mil

26%

954 pessoas trans empregadas

Trabalhadores da produção de bens

e serviços industriais

R$ 1.966,00

R$ 2.640,00

R$ 9mil

R$ 1mil

26%

942 pessoas trans empregadas

Ocupação apresenta a maior renda média entre pessoas trans

Profissionais das ciências e das artes

R$ 5.704,00

R$ 7.425,00

R$ 1mil

R$ 9mil

23%

331 pessoas trans empregadas

Membros superiores do poder público, dirigentes de

organizações de interesse público e de empresas, gerentes

R$ 5.366,00

R$ 8.654,00

R$ 9mil

R$ 1mil

38%

*As 164 pessoas trans restantes estão distribuídas nas ocupações de Trabalhadores em serviços de reparação e manutenção, Trabalhadores agropecuários, florestais e da pesca, Membros das forças armadas, policiais e bombeiros militares e ocupações não identificadas.

fonte ipea - Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada

ranking de ocupações

Na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), pessoas trans com alteração no CPF concentram-se em ocupações de serviços e nível técnico e, nessas categorias, têm renda média inferior à da população geral.

população geral

pessoas TRANS

ranking de ocupações de pessoas trans com alteração no CPF

3.351 pessoas trans empregadas

Trabalhadores dos serviços, vendedores

do comércio em lojas e mercados

R$ 1.783,00

R$ 2.184,00

18%

2.981 pessoas trans empregadas

Trabalhadores de serviços administrativos

R$ 1.844,00

R$ 2.790,00

34%

979 pessoas trans empregadas

Técnicos de nível médio

R$ 3.190,00

R$ 4.329,00

26%

954 pessoas trans empregadas

Trabalhadores da produção de bens

e serviços industriais

R$ 2.640,00

R$ 1.966,00

26%

942 pessoas trans empregadas

Profissionais das ciências e das artes

R$ 5.704,00

R$ 7.425,00

23%

331 pessoas trans empregadas

Membros superiores do poder público, dirigentes de organizações de interesse público e de empresas, gerentes

R$ 5.366,00

R$ 8.654,00

38%

*As 164 pessoas trans restantes estão distribuídas nas ocupações de Trabalhadores em serviços de reparação e manutenção, Trabalhadores agropecuários, florestais e da pesca, Membros das forças armadas, policiais e bombeiros militares e ocupações não identificadas.

fonte ipea - Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada

Para aprofundar os fatores por trás dos números, a Gênero e Número, em parceria com a Transmídia, entrevistou dois profissionais trans que atuam com projetos ligados a empregabilidade e geração de renda para pessoas trans: Ravi Matos, cientista social, especialista em Diversidade & Inclusão pela Escola Aberje de Comunicação e analista de projetos do Instituto Mais Diversidade e Camilo Nunes, articulador da Casa de acolhimento Neon Cunha, historiador e Conselheiro Municipal LGBT+ de São Paulo.

As entrevistas foram feitas separadamente. Leia os principais trechos a seguir.

Quais são as principais barreiras que dificultam o acesso de pessoas trans ao mercado de trabalho formal no Brasil? Essas barreiras estão mais ligadas à entrada, à permanência ou à progressão de carreira?

Ravi Matos________ As barreiras estão colocadas principalmente na entrada e na permanência. A progressão de carreira é mais complexa, porque as pessoas trans não estão nos cargos mais altos – isso é a consequência de elas não chegarem muitas vezes no próprio mercado de trabalho formal ou de, quando chegam, não conseguirem se manter. Para refletir o porquê disso, precisamos olhar muito para trás. A partir do momento em que existe uma grande evasão escolar e expulsão familiar, isso faz com que as pessoas trans precisem buscar os trabalhos informais para sobreviver. Isso prejudica as chances de ingressar em universidades e, consequentemente, impacta a profissionalização.

Já pensando em permanência, existem dois lados. As empresas que estão muito preocupadas com os mutirões e recrutamento para trazer pessoas trans para dentro, mas não necessariamente estão olhando para o seu ambiente interno, pensando em como fazer com que elas permaneçam. E tem as empresas que estão vendo como criar um ambiente seguro e saudável para que as pessoas trans ingressem, mas não fazem um esforço intencional para que elas cheguem.

A pesquisa do Ipea mostra que pessoas trans inseridas no assalariamento formal recebem, em média, 32% a menos do que a média dos assalariados formais. O que esse dado revela sobre os tipos de vagas, cargos e oportunidades que são ofertadas às pessoas trans no mercado formal?

Camilo Nunes________ Existe uma dificuldade de entrada no próprio mercado. Quando as pessoas trans fazem entrevistas e passam para outra fase, muitas vezes acabam sofrendo violência quando esbarram na questão da documentação. O sistema em si é bem transfóbico, tanto na contratação, quanto na forma de se comunicar com a população trans.

Sempre que há um feirão de vagas para pessoas trans, o trabalho é para faxina, limpeza ou na cozinha. Ainda que sejam trabalhos muito dignos, nunca é um cargo, por exemplo, de auxiliar administrativo ou uma posição de coordenação. Para a pessoa que está há muito tempo sem trabalho, é importante ter esse primeiro contato. Mas aí, passa um tempo, a pessoa é desligada da empresa e volta para mesma situação de antes. Não há possibilidade de crescimento ou de receber uma capacitação dentro do próprio trabalho. O problema de não ter pessoas trans no mercado de trabalho é justamente esse. Quando existe a possibilidade de entrar, as vagas são para esse lugar. E muitas pessoas têm capacitação, têm cursos, mas acabam sendo cortadas. Não é um mercado humanizado.

Ravi Matos________ No Instituto Mais Diversidade, nós tocamos um projeto chamado Pride [Ambientes de Trabalho Seguros e Inclusivos para pessoas LGBTQIA+], em parceria com a Organização Internacional do Trabalho e à Casa Neon Cunha, e o aplicamos em vários estados. Em todos eles, os resultados foram parecidos. Na hora de encaminhar as pessoas para as vagas, as empresas diziam "temos vaga, mas precisamos que a pessoa saiba inglês, espanhol e tenha uma graduação pelo menos iniciada”, sendo que eram vagas que não necessariamente precisavam desse conhecimento.

“Existe essa questão de “só vou oferecer vagas de entrada” e, ainda assim, vou exigir requisitos que muitas vezes a população trans pode não alcançar, visto toda essa questão de evasão escolar e familiar, de a pessoa precisar trabalhar para sobreviver desde muito cedo.”

RAVI MATOS

Por outro lado, também tem as pessoas trans que conseguem, apesar de toda transfobia, se escolarizar, fazer uma faculdade. Temos pessoas trans profissionalizadas, e elas também não estão acessando esses espaços, porque as vagas que são direcionadas a elas são essas de início.

Olhando para gênero e raça dentro da própria comunidade trans empregada no mercado de trabalho formal também há diferenças significativas. O estudo do Ipea revela que há mais homens trans (31%) empregados formalmente do que mulheres trans e travestis (21%) e que, em média, pessoas trans pretas e pardas recebem apenas 80% da renda de uma pessoa trans branca, além de ganharem 26,6% a menos do que pessoas pretas na população geral. Como você analisa essas disparidades?

Ravi Matos________ O acesso mais representativo de homens trans do que de mulheres trans é um reflexo do que a gente vive na sociedade. Vivemos em uma sociedade machista e racista. Isso acaba se refletindo em todas as formas de interseccionalidade, como no fato de pessoas trans negras ganharem menos do que pessoas trans brancas. Se olharmos para os números de liderança ou de quanto ganha uma mulher cis, também vemos que elas recebem menos do que um homem cis. Trazendo essa reflexão para a população trans, a gente infelizmente vive uma realidade parecida.

Por outro lado, a gente já tem uma representatividade um pouco maior de mulheres trans na política do que de homens trans, que não estão acessando esses lugares. A gente acaba sendo um pouco mais “invisível”, deixando de acessar alguns lugares, mas também acessando outros justamente por essa invisibilidade. Por exemplo, se a gente for olhar dados de violência, os dossiês da Antra [Associação Nacional de Travestis e Transexuais] mostram que os maiores números de assassinatos, de homicídio, são de mulheres trans. Já os números de suicídios, na maioria, são de homens trans. Essa invisibilização acaba trazendo essa consequência também no mercado de trabalho.

“Essa diferença [de maior empregabilidade] entre homens e mulheres trans pode estar na existência de uma falsa passabilidade que muitos homens trans acabam utilizando para acessar o mercado de trabalho formal. Isso significa as pessoas não saberem que você é um cara trans.”

CAMILO NUNES

Muitos entram no mercado de trabalho dessa forma. A única pessoa que sabe, às vezes, é o pessoal da RH, que faz algum documento ou outro, mas a supervisora, a coordenadora, acaba não sabendo. E, a partir do momento que olham a sua rede social ou as pessoas veem você defender uma causa, você já é “desmascarado” e passa a sofrer múltiplas violências. Essa é uma das diferenças na contratação de homens trans e mulheres trans.

aspas

E quando pensamos em pessoas trans racializadas é mil vezes pior. Você pode ter uma pessoa capacitada, que tenha o conhecimento necessário para a vaga, mas esbarra primeiro na questão racial e depois na transfobia.

Se é uma mulher trans, de cara já não passa no processo seletivo ou no processo para subir de cargo. É sempre colocada para vagas de faxina ou de assistente.

Houve impactos no acesso ao mercado de trabalho por pessoas trans no Brasil, com os cortes de políticas afirmativas que ocorreram em decorrência do governo Trump nos Estados Unidos e com o avanço de políticas antigênero?

Camilo Nunes________ Estamos vendo como essa agenda antigênero é grave e tem esbarrado nas empresas, que não querem mais fazer esse tipo de contratação, não querem abrir vagas afirmativas ou até mesmo falar sobre diversidade. Vimos isso acontecer agora em janeiro, foram pouquíssimas as ações de empresas voltadas para pessoas trans.

aspas

Esse foi o mês da visibilidade trans mais fraco que eu já vi.

Ravi Matos________ Sim, temos visto muitas empresas voltando atrás em ações de políticas de diversidade. Desde 2022, aqui no instituto, nós fazemos a pesquisa Equidade BR Melhores Empresas para Pessoas LGBTQIA+ Trabalharem, e desde então o número de empresas inscritas só aumentou, com exceção do ano passado. Em 2025, houve uma diminuição no número de empresas inscritas. A gente notou que dentre elas, havia uma taxa de aprovação e certificação maior. O que mostra que as empresas que continuam realmente estão comprometidas, apesar de existirem agora em menor quantidade.

O que falta para que as empresas contratem mais pessoas trans?

Ravi Matos________ Existem empresas bem-intencionadas, só que muitas vezes elas estão lutando contra uma corrente. O que falta, com frequência, é essa visão de apoio da diversidade e inclusão de pessoas LGBT, de pessoas trans principalmente, enquanto uma estratégia que é benéfica para a própria empresa, e não como uma ação afirmativa que eu faço porque eu vou ficar “bem na fita” ou por uma estratégia de marketing.

Reconhecer que as empresas também ganham com a pluralidade de pessoas, incluindo pessoas trans, de diferentes gerações, gêneros, raças e origens, pensando ali também pessoas refugiadas, pessoas com deficiência. Elas ganham em inovação, em visões diferentes. Isso é uma coisa que em qualquer curso de gestão de negócio é dito, que a diversidade é algo positivo. As empresas ainda estão olhando enquanto algo que elas têm que fazer para cumprir uma tabela, uma obrigação do ESG, mas não é só isso. No momento em que as empresas reconhecerem que a diversidade é também benéfica para elas, não só algo que estão fazendo como um favor, vamos conseguir avançar muito mais.

Camilo Nunes________ É necessário avançar em termos de gestão. Ainda existe um grande problema do RH de grandes empresas em oferecer treinamento, letramento, e de levar pessoas para conversar com os gestores sobre questões raciais e de gênero em todos os setores. Seja no telemarketing, no escritório de advocacia ou no setor de faxina, todos esses ambientes de trabalho têm propagado a transfobia e precisam avançar [no seu combate].

METODOLOGIA

Os dados foram retirados da pesquisa “A inserção e as características das pessoas trans no assalariamento formal”, de 2025. Nela, Filipe Matheus Silva Cavalcanti, Felipe Vella Pateo e Alberto Luis Araújo Silva Filho agruparam as bases de dados de Cadastro Compartilhado (b-Cadastros) da Receita Federal e Relação Anual de Informações Sociais (Rais). Dessa forma, foi possível identificar pessoas trans pela “alteração de nome e/ou sexo/gênero no período mencionado, ou que possuem nome social no período final”. Ressalta-se que, apesar da inovação, a metodologia utilizada tem como limitação a necessidade de formalização da mudança de gênero.

EXPEDIENTE

Coordenação de design
Victória Sacagami

Design de informação
Carlos Carneiro e Victória Sacagami

Análise de dados
Diego Nunes da Rocha

Entrevista e texto de abertura
Caê Vatiero e Sanara Santos, da Transmídia

Edição
Bruna de Lara

Direção de conteúdo e revisão
Vitória Régia da Silva