Mudanças climáticas ameaçam tradições medicinais de pajés, raizeiras e guardiãs indígenas

13 de agosto de 2025

Adriana Amâncio

Ervas e sementes essenciais para rituais de cura e preparo de medicamentos estão escassas, dificultando as tradições encabeçadas por mulheres indígenas.

A tradição religiosa e o sistema medicinal dos povos indígenas estão enraizados na mata. Desde o preparo de medicamentos até os rituais de louvor e conexão com os encantados de luz, os espíritos dos ancestrais, dependem de ervas, sementes e plantas típicas do bioma Caatinga. Em três territórios indígenas de Pernambuco, pajés, raizeiras e guardiãs de sementes vivem sob risco de apagamento dessas práticas seculares.

Na aldeia Tuxá, em Inajá, a 383 km do Recife, há queixas de que os períodos de estiagem são mais longos, o desmatamento avança e espécies sagradas importantes tornaram-se raridade. Na terra indígena Kambiwá, no mesmo município, a mata que fica mais próxima da única raizeira local não vê uma gota de chuva faz tempo. Acessar ervas para o preparo de banhos de assento e garrafadas, só se for na mata virgem, a quilômetros da aldeia.

Localizada em Pesqueira, a 213 km do Recife, a terra indígena Xukuru de Ororubá tem abundância de água e de vegetação nativa, se comparada às aldeias de Inajá. No entanto, o desmatamento promovido para viabilizar atividades agropecuárias e de produção de energia eólica têm impactado a biodiversidade local.

TI Xucuru

TI Kambiwá

recife

pernambuco

RI* Tuxá

*reserva indígena

TI Xucuru

TI Kambiwá

recife

pernambuco

RI* Tuxá

*reserva indígena

TI Xucuru

TI Kambiwá

recife

pernambuco

RI* Tuxá

*reserva indígena

Eram por volta das 8h quando a equipe da Gênero e Número cruzou a placa que indica o acesso à aldeia Tuxá, em Inajá, acompanhada por um sol duro e uma vegetação rala. A aldeia Tuxá é uma reserva indígena de 140 hectares, instituída em 1989. Tuxá quer dizer “terra de mulheres guerreiras”. No local, vivem 30 famílias. Há escola, posto de saúde e espaços sagrados como oca, quarto de reza e o DDCom, local onde são realizados os rituais restritos aos nativos do povo.

A GN encontrou a pajé no meio do trajeto à sua casa. Caminhava com passos ligeiros e firmes e sorriso largo no rosto. Na cabeça, usava um cocar com penas brancas e pretas. Sobre o colo trazia um colar de sementes de lágrimas de nossa senhora e mulungu vermelho. Vestia saia de caruá, planta típica da Caatinga, muito usada na produção de indumentária e artesanato.

Anayliô Tuxá, de 34 anos, há dez, carrega nos ombros a patente de primeira pajé mulher da sua aldeia. Ela é a responsável por auxiliar na espiritualidade e nos cuidados com a saúde dos membros da etnia usando ervas, plantas e sementes. Ela convida a reportagem para dentro da oca, espaço coberto de palhas de coqueiro com símbolos da jurema sagrada ao centro, e apresenta os rituais da tradição Tuxá.

A liturgia desse povo conta com quatro rituais sagrados. A alvorada celebra o Mestre Canenê, encantado que orienta a aldeia. Sua imagem foi encontrada por pescadores indígenas em 1987. Sempre no dia 14 de junho, à meia-noite, todos os membros da aldeia seguem em cortejo rumo à serra. Fumam cachimbo de ervas como manjericão roxo, imburana de cheiro e anis estrelado, e louvam os encantados até o amanhecer.

Outra prática comum é o ritual particular, que ocorre a cada 15 dias no território sagrado, conhecido como DDCom. É restrito a alguns membros das aldeias, que só podem participar usando os atavios, adornos típicos da etnia. A ceia é outro ritual mensal restrito aos membros mais velhos. Exige traje a rigor, ou seja, a saia de caruá e o pujá, uma espécie de capacete, artefato secular das mulheres Tuxá.

Placa indica o caminho para a Aldeia Tuxá, localizada no município de Inajá (PE), onde vivem cerca de 30 famílias indígenas do povo Tuxá. Foto: Mariana Rosetti.

Aline Tuxá posa com as ervas utilizadas nos rituais de cura do povo Tuxá, em meio a atavios, adornos típicos da etnia, que compõem sua vivência ancestral. Inajá (PE). Fotos: Mariana Rosetti.

Atavios: cocar, bolsa de fibra natural e saia de caruá integram o ambiente onde Aline realiza seus atendimentos espirituais. Inajá (PE). Foto: Mariana Rosetti.

Visão do quarto de orações da aldeia Tuxá, onde Aline realiza rituais religiosos. Inajá (PE). Foto: Mariana Rosetti.

A primeira pajé mulher do povo Tuxá realiza defumação com as ervas medicinais. A primeira baforada no cuaqui, lançada em forma de cruz nos pulsos, simboliza o fechamento do corpo para espíritos ruins. Inajá (PE). Foto: Mariana Rosetti.

A pajé relembra que essas vestes foram adotadas, há séculos, como forma de proteger as mulheres indígenas do caraí – o homem branco. “Com a chegada dos brancos ao território, as indígenas passaram a ser perseguidas, estupradas e mortas, até que um sábio teve uma revelação em sonho de que, se elas passassem a usar essas roupas, poderiam despistar os caraís”, resume.

O batismo e o ritual da jurema, por fim, celebra a iniciação dos curumins na tradição espiritual e fortalece o povo da jurema, respectivamente. Em todos os eventos de louvor, a jurema sagrada está presente. “A jurema é a erva responsável por nos conectar com os encantados de luz, por isso, ela não pode faltar em nenhum ritual”, explica. Para adquirir essa planta, ela tem que percorrer 18 km e caminhar mais uma hora até o cume de uma serra – conjunto de montanhas –, onde fica uma mata virgem, que foi adotada como território sagrado.

TRADIÇÕES QUE SEGUEM VIVAS

oca

A oca da Aldeia Tuxá é usada para rituais espirituais e encontros da comunidade

prato com ervas medicinais

Alecrim, iburama de cheiro e menta. Ao lado, o cuaqui, uma espécie de cachimbo entalhado em madeira

cachimbo

A raiz da Jurema preta, que tem a raiz mais forte, é usada para confeccionar cachimbos. É preciso ter preparação espiritual para fazer o cachimbo, caso contrário ele racha.

ALGUMAS DAS ERVAS USADAS PELAS PAJÉS

Jurema

A folha é macerada usada como fumo no cachimbo. É feito o vinho da raiz da Jurema preta lisa, líquido que é tomado em momentos mais relevantes dos rituais.

alfavaca

Junto com o manjericão roxo e a folha de colônia, são usados em banhos para o desenvolvimento da espiritualidade do povo Tuxá

umburana de cheiro

A semente é macerada para virar fumo nos rituais de toré, particular, batismo na jurema, alvorada e a ceia, assim como o anis estrelado

TRADIÇÕES QUE SEGUEM VIVAS

TRADIÇÕES QUE SEGUEM VIVAS

oca

A oca da Aldeia Tuxá é usada para rituais espirituais e encontros da comunidade

prato com ervas medicinais

Alecrim, iburama de cheiro e menta. Ao lado, o cuaqui, uma espécie de cachimbo entalhado em madeira

cachimbo

A raiz da Jurema preta, que tem a raiz mais forte, é usada para confeccionar cachimbos. É preciso ter preparação espiritual para fazer o cachimbo, caso contrário ele racha.

ALGUMAS DAS ERVAS USADAS PELAS PAJÉS

Jurema

A folha é macerada usada como fumo no cachimbo. É feito o vinho da raiz da Jurema preta lisa, líquido que é tomado em momentos mais relevantes dos rituais.

alfavaca

Junto com o manjericão roxo e a folha de colônia, são usados em banhos para o desenvolvimento da espiritualidade do povo Tuxá

umburana de cheiro

A semente é macerada para virar fumo nos rituais de toré, particular, batismo na jurema, alvorada e a ceia, assim como o anis estrelado

TRADIÇÕES QUE SEGUEM VIVAS

TRADIÇÕES QUE SEGUEM VIVAS

oca

A oca da Aldeia Tuxá é usada para rituais espirituais e encontros da comunidade

prato com ervas medicinais

Alecrim, iburama de cheiro e menta. Ao lado, o cuaqui, uma espécie de cachimbo entalhado em madeira

cachimbo

A raiz da Jurema preta, que tem a raiz mais forte, é usada para confeccionar cachimbos. É preciso ter preparação espiritual para fazer o cachimbo, caso contrário ele racha.

ALGUMAS DAS ERVAS USADAS PELAS PAJÉS

Jurema

A folha é macerada usada como fumo no cachimbo. É feito o vinho da raiz da Jurema preta lisa, líquido que é tomado em momentos mais relevantes dos rituais.

alfavaca

Junto com o manjericão roxo e a folha de colônia, são usados em banhos para o desenvolvimento da espiritualidade do povo Tuxá

umburana de cheiro

A semente é macerada para virar fumo nos rituais de toré, particular, batismo na jurema, alvorada e a ceia, assim como o anis estrelado

É possível ver em números a pressão que o desmatamento exerce sobre as terras indígenas de Pernambuco. No período entre 2020 e 2024, o Mapbiomas Alerta registrou 92 alertas de desmatamento nas terras indígenas de oito municípios do estado, entre eles Pesqueira e Inajá. A área total desmatada soma 377,5 hectares, sendo que apenas o ano de 2024 registrou um desmatamento de 143,17 deles.

Pesqueira ocupa o topo da lista de municípios mais desmatados, correspondendo a 60% de toda sua área desmatada em territórios indígenas no estado de Pernambuco. Ainda de acordo com a plataforma, a agropecuária é a principal atividade que promove a devastação da Caatinga em Pernambuco. Sozinha, a criação de gado é responsável por 77 dos 92 alertas em terras indígenas no período e por 338,4 hectares dos 377,5 desmatados.

Em âmbito nacional, a área desmatada na Caatinga aumentou em 2,6 vezes, se compararmos o número registrado em 2020 com 2024. Os dados são do novo Relatório Anual de Desmatamento, divulgados em maio. Em 2020, o MapBiomas Alerta registrou uma área desmatada de 67,138 hectares e, em 2024, 174,511 hectares. Na comparação entre os anos de 2023 e 2024, foi registrada uma queda de 13,04%. A área total desmatada nesses anos foi de 201.607 e 174.511 hectares, respectivamente.

Proporção de área desmatada pela agropecuária em Territórios Indígenas destes municípios

Poção

Águas Belas

Pesqueira

área desmatada total

217,0 ha

51,6 ha

73,5 ha

100%

100%

85%

agropecuária

Carnaubeira

da Penha

Inajá

Tacaratu

Mirandiba

Tupanatinga

7,9 ha

2,0 ha

1,6 ha

0,7 ha

23,3 ha

0%

100%

100%

54%

100%

Desmatamento na Caatinga

Brasil

[HECTARES]

Desmatamento na Caatinga

pernambuco

[HECTARES]

ESCALAS

DIFERENTES

ESCALAS

DIFERENTES

!

!

25 mil hectares

250 mil hectares

21,9

20 mil

200 mil

201,6

174,5

15 mil

150 mil

16,2

14,7

14,4

140,3

115,1

10 mil

100 mil

67,1

ha

5 mil

3,8

ha

2020

21

22

23

2024

2020

21

22

23

2024

Fonte Mapbiomas Alerta e Relatório Anula de Desmatamento no Brasil - RAD 2024 - sob embargo

Proporção de área desmatada pela agropecuária em Territórios Indígenas destes municípios

Poção

Águas Belas

Pesqueira

área desmatada total

217,0 ha

73,5 ha

51,6 ha

100%

100%

85%

agropecuária

Carnaubeira

da Penha

Inajá

Tacaratu

Mirandiba

Tupanatinga

23,3 ha

7,9 ha

2,0 ha

1,6 ha

0,7 ha

0%

100%

100%

54%

100%

Desmatamento na Caatinga

Brasil

[HECTARES]

Desmatamento na Caatinga

pernambuco

[HECTARES]

ESCALAS

DIFERENTES

ESCALAS

DIFERENTES

!

!

25 mil hectares

250 mil hectares

21,9

20 mil

200 mil

201,6

174,5

15 mil

150 mil

16,2

14,7

14,4

140,3

115,1

10 mil

100 mil

67,1

ha

5 mil

3,8

ha

2020

21

22

23

2024

2020

21

22

23

2024

Fonte Mapbiomas Alerta e Relatório Anula de Desmatamento no Brasil - RAD 2024 - sob embargo

Proporção de área desmatada pela agropecuária em Territórios Indígenas destes municípios

Pesqueira

área desmatada total

217,0 ha

85%

agropecuária

Poção

Águas Belas

73,5 ha

51,6 ha

100%

100%

Carnaubeira

da Penha

Tacaratu

Mirandiba

23,3 ha

7,9 ha

2,0 ha

0%

54%

100%

Inajá

Tupanatinga

1,6 ha

0,7 ha

100%

100%

Desmatamento na Caatinga

Brasil

[HECTARES]

250 mil

hectares

0

50

100

200

150

67,1 ha

2020

2021

115,1

2022

140,3

201,6

2023

174,5

2024

Desmatamento na Caatinga

pernambuco

[HECTARES]

ESCALAS

DIFERENTES

!

25 mil

hectares

10

0

5

15

20

3,8 ha

2020

14,4

2021

21,9

2022

16,2

2023

14,7

2024

Fonte Mapbiomas Alerta e Relatório Anula de Desmatamento no Brasil - RAD 2024 - sob embargo

As ervas sumiram

Até o ano de 1987, Anayliô e todo o povo Tuxá viviam cercados pelas águas do Rio São Francisco, na Ilha da Viúva, em Rodelas, Bahia, a 100 km da aldeia onde vivem atualmente. A construção da Usina Hidrelétrica Luiz Gonzaga, na divisa entre Pernambuco e Bahia, inundou parte da terra indígena com as águas da Barragem de Itaparica, forçando a migração de parte do povo Tuxá.

A escassez das ervas e plantas é resultado do desmatamento e da redução do volume de chuvas, pondera Anayliô. “Muita gente entra na mata, sem autorização, e derruba a imburana e a jurema para fazer imagens de santos. A gente até já denunciou na Funai”, complementa. Anayliô chegou a ser ameaçada de morte ao tentar impedir a instalação de um monocultivo de melancia no território por parte de um dos moradores da aldeia.

“Chegaram a ligar o trator para desmatar e começar o plantio de melancia. Era melancia e veneno junto. Eu pulei na frente do trator e ele parou. À noite, o homem escutou tanta pedra batendo no trator que saiu correndo. Foram os encantados o expulsando. Nesse dia, eu recebi uma ligação dizendo: ‘Olhe! Tome cuidado para não amanhecer com a boca cheia de formiga”, recorda.

Pelo Sertão de Pernambuco afora, assim como Anayliô, muitas outras mulheres indígenas sofrem o risco de apagamento das suas tradições imposto pelas mudanças climáticas. A combinação de escassez de chuva e desmatamento vem reduzindo a oferta de ervas, plantas e sementes, impactando no preparo de medicamentos e na realização de rituais. Essas mulheres têm realizado o reflorestamento, construído viveiros de mudas e farmácias naturais para resgatar e preservar o patrimônio genético, cultural e espiritual que serve à tradição dos seus povos.

Na tentativa de evitar o apagamento das suas tradições, foi criada, em 2020, a Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (Anmiga). O grupo tem buscado formas de “salvaguardar os saberes e práticas culturais dos povos indígenas”, explica uma das coordenadoras e indígena Pankararu, Cristiane Julião.

Ela reclama de muitos pesquisadores que “adentravam os territórios, coletavam amostras de ervas e os saberes indígenas, faziam comprovação científica, mas excluíam os povos”. E avalia que as mudanças climáticas potencializam as agressões que as terras indígenas sofrem há tempos com a agropecuária e o desmatamento”.

Antropóloga do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Eleonora Erendira atua há 18 anos com os povos indígenas de Pernambuco. Ela nos conta que estudos realizados nas terras Kapinawá e entre serras Pankararu para criar o Plano de Gestão Territorial em Terras Indígenas (PGTA) apontaram que “as terras indígenas de Pernambuco foram invadidas por fazendeiros e ocupadas com criação de gado.”

Mais tarde, quando “esses territórios foram regularizados, ou seja, voltaram para as mãos dos povos indígenas, ganharam outro uso e recuperaram a biodiversidade”, reforça a antropóloga. No entanto, as terras ficaram isoladas por trechos devastados ao redor e “justamente por terem mais recursos naturais, por estarem mais preservadas sofrem pressão [de forças econômicas] para apropriação dos recursos dentro das terras indígenas”, analisa.

1,23 milhão

de pessoas indígenas no Brasil

26% da população indígena do Nordeste vive em Pernambuco [PE]

328 mil

nordeste

540

mil

norte

328

mil

MA

CE

RN

169

mil

centro-

oeste

PI

PB

110

mil

PE

26%

sudeste

81

mil

AL

sul

BA

SE

26%

12%

2%

da população indígena

de Pernambuco vive em Terras Indígenas, equivalente a 34,3 mil pessoas.

62%

Fonte Censo 2022

1,23 milhão

de pessoas indígenas no Brasil

26% da população indígena do Nordeste vive em Pernambuco [PE]

328 mil

nordeste

540

mil

norte

328

mil

MA

CE

RN

169

mil

centro-

oeste

PI

PB

110

mil

PE

26%

sudeste

81

mil

AL

sul

BA

SE

26%

12%

2%

da população indígena

de Pernambuco vive em Terras Indígenas, equivalente a 34,3 mil pessoas.

62%

Fonte Censo 2022

1,23 milhão

de pessoas indígenas no Brasil

nordeste

540

mil

norte

328

mil

169

mil

centro-

oeste

110

mil

sudeste

81

mil

sul

26% da população indígena do Nordeste vive em Pernambuco [PE]

328 mil

nordeste

MA

CE

RN

PI

PB

PE

26%

AL

BA

SE

26%

12%

2%

da população indígena

de Pernambuco vive em Terras Indígenas, equivalente a 34,3 mil pessoas.

62%

Fonte Censo 2022

Dados do último Censo do IBGE apontam que a região Nordeste concentra a segunda maior população indígena do Brasil. Pernambuco possui uma população indígena de 84 mil pessoas, número que corresponde a 0,92% do total da população do estado. Desse total, apenas 34 mil vivem em terras indígenas. Uma em cada quatro pessoas indígenas da região Nordeste vivem em Pernambuco.

Mapear e plantar

A caminho da serra, onde está localizada a Terra Indígena Xukuru de Ororubá, no município de Pesqueira, uma vegetação de Caatinga verde e vibrante se impõe. Formada por 29 aldeias, a terra, homologada em 2007, tem um cenário bem diferente do que a Gênero e Número havia encontrado na aldeia Tuxá. Quem abre a porteira que dá acesso ao território é envolvido em um abraço de orvalho e aroma de ervas. Essa presença viva e pulsante da natureza acompanha a reportagem até a casa de semente Mãe Zenilda, espaço que abriga sementes nativas resgatadas e catalogadas na aldeia.

É neste lugar, que leva o nome da matriarca do povo, mãe do cacique Marcos Xucuru, que o laboratório de plantas e ervas medicinais Jeté Radial produz, mensalmente, uma variedade de 20 produtos. É uma tiragem de cerca de 200 unidades entre óleos, sabonetes, shampoos, hidratantes sólidos, desodorantes, medicamentos, tinturas e álcoois temperados. Jeté é o nome de um espírito encantado de luz, que orienta os indígenas no preparo de medicamentos à base de ervas e plantas.

Guardiã de plantas, sementes e de conhecimento, Ângela Neves, mais conhecida como Bella Xucuru, de 38 anos, fica com o peito estufado de orgulho ao falar do seu patrimônio genético. Moradora da aldeia Couro Dantas, um dos seus ofícios é “cuidar e multiplicar a sabedoria das plantas”. O laboratório exerce um papel fundamental nessa direção. “É um lugar para animar esse cuidado com a mãe terra, porque se a gente não tem esse olhar de cuidado, amanhã está condenado”, resume.

A diversidade genética cultivada por mulheres como Bella Xukuru fortalece a soberania alimentar e o cuidado com o território. Pesqueira (PE). Foto: Mariana Rosetti.

Produtos naturais feitos a partir de plantas medicinais nativas compõem a produção laboratório comunitário coordenado por Bella Xukuru. Pesqueira (PE). Foto: Mariana Rosetti.

Roda de sementes tradicionais reúne variedades de feijão, milho, urucum e outras espécies, disposta no centro da Casa de Sementes Mãe Zenilda, na aldeia Couro Dantas. Foto: Mariana Rosetti.

Na aldeia Couro Dantas, onde mora, Bella Xucuru cuida do laboratório, que produz mensalmente 200 unidades de medicamentos e cosméticos naturais. Pesqueira (PE). Foto: Mariana Rosetti.

Bella e alguns parentes, membros da etnia, realizam mapeamento das sementes e plantas nativas da aldeia. Em uma dessas rondas, descobriram que, ao longo dos 28 mil hectares de extensão do território, só existiam dois pés de mulungu roxo. Essa planta possui propriedades calmantes e é usada para curar insônia e depressão. Para reparar o problema, “foram produzidas 260 mudas da espécie em 2024”, informa.

No trajeto entre a casa de sementes e a casa da guardiã, é possível ver vários pés de mulungu recém-plantados, todos com uma etiqueta azul para identificação e monitoramento. O mapeamento resgatou 32 sementes de favas.

rituais de cura

Casa de Sementes Mãe Zenilda

Localizada na aldeia Couro Dantas, em Pesqueira (PE), onde é produzida, mensalmente, 200 unidades de medicamentos e cosméticos naturais

garrafadas

As garrafadas são remédios que combinam plantas medicinais, maceradas e imersas em bebidas como mel, vinho, água ou vinagre. Essas preparações são administradas por via oral, mas também há garrafadas para administração por via tópica e inalatória.

produtos naturais

Feitos a partir de plantas medicinais nativas compõem a produção do laboratório comunitário coordenado por Bella Xukuru

ALGUMAS DAS ERVAS USADAS PELAS PAJÉS

sementes de urucum

São utilizadas pela comunidade Xukuru como corante natural e insumo em preparos medicinais.

manjericão roxo

Uma das ervas principais, é usada misturada ao alecrim em banhos para tratar febre, especialmente em crianças.

mulungu

As folhas e as lascas do tronco são usadas para produzir chás que servem para tratar insônia e depressão.

anis estrelado

Usado junto com hibisco e unha de gato em chás para tratar problemas de saúde da mulher.

rituais de cura

Casa de Sementes Mãe Zenilda

Localizada na aldeia Couro Dantas, em Pesqueira (PE), onde é produzida, mensalmente, 200 unidades de medicamentos e cosméticos naturais

garrafadas

As garrafadas são remédios que combinam plantas medicinais, maceradas e imersas em bebidas como mel, vinho, água ou vinagre. Essas preparações são administradas por via oral, mas também há garrafadas para administração por via tópica e inalatória.

produtos naturais

Feitos a partir de plantas medicinais nativas compõem a produção do laboratório comunitário coordenado por Bella Xukuru

ALGUMAS DAS ERVAS USADAS PELAS PAJÉS

sementes de urucum

São utilizadas pela comunidade Xukuru como corante natural e insumo em preparos medicinais.

manjericão roxo

Uma das ervas principais, é usada misturada ao alecrim em banhos para tratar febre, especialmente em crianças.

anis estrelado

Usado junto com hibisco e unha de gato em chás para tratar problemas de saúde da mulher.

mulungu

As folhas e as lascas do tronco são usadas para produzir chás que servem para tratar insônia e depressão.

rituais de cura

Casa de Sementes Mãe Zenilda

Localizada na aldeia Couro Dantas, em Pesqueira (PE), onde é produzida, mensalmente, 200 unidades de medicamentos e cosméticos naturais

garrafadas

As garrafadas são remédios que combinam plantas medicinais, maceradas e imersas em bebidas como mel, vinho, água ou vinagre. Essas preparações são administradas por via oral, mas também há garrafadas para administração por via tópica e inalatória.

produtos naturais

Feitos a partir de plantas medicinais nativas compõem a produção do laboratório comunitário coordenado por Bella Xukuru

ALGUMAS DAS ERVAS USADAS PELAS PAJÉS

sementes de urucum

São utilizadas pela comunidade Xukuru como corante natural e insumo em preparos medicinais.

manjericão roxo

Uma das ervas principais, é usada misturada ao alecrim em banhos para tratar febre, especialmente em crianças.

anis estrelado

Usado junto com hibisco e unha de gato em chás para tratar problemas de saúde da mulher.

mulungu

As folhas e as lascas do tronco são usadas para produzir chás que servem para tratar insônia e depressão.

As plantas identificadas são multiplicadas e armazenadas em um viveiro, que conta com mais de 30 mil mudas

Além da diferença de clima e vegetação, a aldeia Xukuru tem uma infinidade de pés de jurema. A reportagem percorreu vários pontos da aldeia Tuxá, mas não conseguiu visualizar sequer um pé de jurema.

Expulsamos o gado

Alguns membros do povo se renderam à criação de gado. Bella considera a prática uma “herança maldita dos colonizadores”. A presença do gado é nociva à vegetação e ao solo, que é pisoteado, justifica.

O problema foi levado à reunião do Conselho de Lideranças da aldeia, que assumiu a missão de sensibilizar esses membros a substituir a fonte de renda por algo menos nocivo ao meio ambiente. “Apresentamos a produção e venda de itens medicinais, de mudas como alternativas de renda. Tínhamos 10 famílias criando gado, agora, temos cinco”, comemora.

De acordo com a Base de Dados Econômicos de Pernambuco, Pesqueira possui um rebanho de 37.280 bovinos. Já a população local, segundo o IBGE, soma 62.722. Ou seja, a população de gado corresponde a quase 60% do total de habitantes do município. Já a cidade de Inajá tem 25.603 habitantes e um rebanho bovino de 5.975, o que corresponde a mais de um quinto da população total.

Inajá

Pesqueira

terras indígenas no município

terras indígenas no município

27,1 mil hectares

17,6 mil hectares

25.603

Habitantes

62.722

Habitantes

37.280

Rebanho bovino

5.975

Rebanho bovino

= 500 pessoas

= 500 pessoas

= 500 bois

= 500 bois

O rebanho bovino no município de Inajá equivale a 23% da população

O rebanho bovino no município de Pesqueira equivale a 60% da população

Fonte Base de Dados Econômicos de Pernambuco e ibge

Inajá

Pesqueira

terras indígenas no município

terras indígenas no município

27,1 mil hectares

17,6 mil hectares

25.603

Habitantes

62.722

Habitantes

37.280

Rebanho bovino

5.975

Rebanho bovino

= 500 pessoas

= 500 pessoas

= 500 bois

= 500 bois

O rebanho bovino no município de Inajá equivale a 23% da população

O rebanho bovino no município de Pesqueira equivale a 60% da população

Fonte Base de Dados Econômicos de Pernambuco e ibge

Pesqueira

terras indígenas no município

27,1 mil hectares

62.722

Habitantes

37.280

Rebanho bovino

= 500 pessoas

= 500 bois

O rebanho bovino no município de Pesqueira equivale a 60% da população

Inajá

terras indígenas no município

17,6 mil hectares

25.603

Habitantes

5.975

Rebanho bovino

= 500 pessoas

= 500 bois

O rebanho bovino no município de Inajá equivale a 23% da população

Fonte Base de Dados Econômicos de Pernambuco e ibge

Nos últimos tempos, Bella observou que alguns animais têm chegado “desorientados na aldeia”. Ela acredita que o problema seja consequência da construção do Parque Eólico São Clemente, um complexo composto por 126 aerogeradores, que se distribuem pelos municípios de Poção, Pedra e Buíque. No alto de uma das serras da aldeia Xucuru, é possível ver as torres ao longe. “Aqui é uma área preservada. Os animais que não suportam o zumbido daquelas torres buscam refúgio aqui”, suspeita.

Nos troncos das árvores, há vários recipientes com água fixados pelos indígenas para matar a sede dos animais. Esse gesto traduz o significado da palavra que dá nome à aldeia. Xukurú quer dizer “respeito do indígena à natureza”.

Fizemos contato com a Agência Pernambucana de Águas e Clima (Apac) para obter dados sobre o volume de chuvas nos últimos dez anos nos municípios de Pesqueira e Inajá. Por e-mail, o órgão informou que “até 2017, o volume de chuvas em Inajá foi abaixo da média normal climatológica”. Já no período entre “2018 e 2024, o volume de precipitação anual foi acima do esperado.”

Em relação a Pesqueira, o órgão informou que “os volumes de chuva no período de 2014 a 2024 tiveram grandes variações.” Ficou bem abaixo da média climatológica em 2014, mas ultrapassou a normal em 2015. Nos anos de 2016, 2018 e 2019, voltaram a ficar bem abaixo da média. Já em 2017 e no período de 2020 em diante, ficou acima do valor esperado.

Segundo o órgão, “com as séries históricas dos dois municípios, não se observa um padrão que possa ser atribuído à ocorrência das mudanças climáticas. Pois seria necessário um comportamento persistente para isso, e no caso desses dois municípios podemos atribuir o ocorrido a variação normal do clima”.

Para as guardiãs de saberes indígenas, porém, o problema é a mudança de intensidade e o momento no qual a chuva acontece. “Sempre que as formigas aparecem, é sinal de que a chuva vai cair. Mas ou ela chega fraca e fora do tempo, ou muito forte e destrói tudo”, lamenta Bella.

Um dos maiores climatologistas do mundo, o cientista Carlos Nobre, explica que o problema relatado por Bella é sim fruto das mudanças climáticas e vem ocorrendo globalmente.

“A ciência já tem mostrado que, quanto mais a temperatura global aquece, mais energia é jogada na atmosfera. Isso faz com que os fenômenos climáticos fiquem mais intensos. Secas ficam mais prolongadas e as chuvas são intensas, em pancadas fortes”, resume.

O homem maltrata a natureza

Ao chegar à casa de Maria Nazaré do Nascimento, 58 anos, raizeira do povo Kambiwá, em Inajá, a reportagem logo pergunta se podia ver a área onde ficam as ervas usadas no preparo medicinal. Ela dispara: “Não tem uma erva lá! Sem chuva, não nasce mais”.

Nazaré mora na aldeia Baixa do Alexandre, uma das 13 que compõem a Terra Indígena Kambiwá, que significa “retorno à Serra Negra”. Esse território, homologado em 1998, mede quase 31 mil hectares e se estende pelos municípios de Inajá, Ibimirim e Floresta.

Lá, ela é uma das sábias que detêm o conhecimento sobre as propriedades medicinais das ervas e raízes e produz medicamentos naturais. Ela se orgulha de “nunca ter tomado remédio de farmácia”. Tem o rosto atravessado por linhas que parecem rios por onde correm, há anos, muitas experiências de vida. Sua voz é doce, calma e ao mesmo tempo firme, sem titubeios.

Maria Nazaré dos Santos, 58 anos, é raizeira do povo Kambiwá e referência no uso de plantas medicinais. Inajá (PE). Foto: Mariana Rosetti.

Responsável pela produção de garrafadas medicinais, Nazaré é uma das guardiãs do conhecimento tradicional sobre ervas no território Kambiwá. Inajá (PE). Foto: Mariana Rosetti.

No quintal de casa, Nazaré deixa repousar um copo com resquícios de garrafada, preparado com raízes e folhas medicinais. Inajá (PE). Foto: Mariana Rosetti.

Realizar esse trabalho em meio à escassez de ervas essenciais para o preparo das garrafadas, remédio feito com ervas e mel, não tem sido fácil. Ervas como a jurema, imburana de cambão, babosa, sambacaitá e quixabeira já não são encontradas facilmente.

Mas o que a faz seguir obstinada no ofício é ver que muitas mulheres da comunidade tiveram a cura de inflamações e corrimentos com os banhos de assento e as misturas medicinais preparadas por ela. “Tem mulher que nem busca os homens de saia branca [médicos], prefere aqui. Elas vêm, eu trato, depois elas vão ao posto fazer revisão”, conta.

aspas

Eu tinha um caderno com mais de mil nomes de mulheres atendidas desde 2003”, relembra, orgulhosa.

Por isso, ela não hesita em pedir ajuda a quem passa na estrada para pegar as ervas de que precisa. “Quando passa um menino aqui, eu chamo e peço para ele catar para mim”, explica em tom de lamento. Ela criou uma pequena farmácia natural no quintal de casa para garantir algumas ervas essenciais para os preparos. “Aqui tem a babosa, o sambacaitá, alecrim do reino”, aponta.

Nazaré aprendeu a fazer remédio natural com a mãe, que também era raizeira. Ela a observava atentamente durante o preparo das garrafadas. Certo dia, foi passear na mata, quando teve uma revelação. “Quando cheguei lá, veio a mensagem da natureza, através do vento. Tive a confirmação de que eu já poderia começar a trabalhar sozinha”, explica.

Aos 14 anos, viveu a experiência de preparar, sozinha, a sua primeira garrafada. O paciente era o pai, que sentia uma quentura na região da próstata, após realizar uma cirurgia para retirar um tumor cancerígeno. “Os médicos deram pouco tempo de vida a ele. Eu disse: ‘Meu pai, o senhor vai viver muito ainda’. Fiz uma garrafada com mel de rajada e babosa. Ele morreu com 84 anos de um AVC, não foi de câncer”, relembra.

Perguntada como se sente diante da possibilidade de não poder contar mais com as ervas para realizar os preparos, ela fita o horizonte, com um olhar que mistura lamento e desorientação, dá um longo suspiro e responde: “Eu sinto que o maltrato do homem com a natureza está muito grande. É triste, né?”.

METODOLOGIA PARA COLETA DE DADOS

O Mapbiomas Alerta fornece dados sobre o desmatamento e o vetor de pressão e a Agência Pernambucana de Águas e Clima (Apac) serviu para entender o comportamento das chuvas ao longo dos anos nos municípios que abrigam esses territórios. Com o recorte temporal de 2020 a 2024, usamos o filtro Tipo de território – Estado, Território – Pernambuco, e Cruzamentos – Terras Indígenas para obter a área total desmatada no estado no Mapbiomas. Mudamos a configuração de filtros para obter dados de cada município abordado. Assim foi possível dimensionar o desmatamento especificamente nas três terras indígenas onde apuramos in loco.

 

Além disso, o Mapbiomas disponibilizou a nova edição do Relatório Anual de Desmatamento (RAD) com informações de 2024. Por outro lado, os dados sobre a população bovina estão disponíveis na Base de Dados Econômicos de Pernambuco. Por fim, os dados sobre a população indígena de Pernambuco foram extraídos do Censo IBGE de 2022. Os dados usados na reportagem se encontram aqui.

Expediente

Direção de conteúdo
Vitória Régia da Silva

Edição
Bruna de Lara

Design de informação
Victória Sacagami

Revisão
Vitória Régia da Silva

Checagem de dados
Diego Nunes da Rocha