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Em 92 anos de Oscar, menos de 1% das estatuetas foi para mulheres negras62 min read

Ariana DeBose foi indicada a melhor atriz coadjuvante| Foto: Divulgação/20th Century Studios

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Com apenas 6 indicadas, presença tímida de mulheres negras no Oscar 2022 segue histórico de racismo; até hoje, Halle Berry foi a única mulher negra premiada pela Academia de Hollywood como melhor atriz, por sua atuação em “A Última Ceia”, em 2002

Por Agnes Sofia Guimarães, Marília Ferrari e Victoria Sacagami *

A cerimônia do Oscar, que acontece no próximo domingo (27/03), já está marcada pela ausência de mulheres negras nas principais categorias do prêmio: apenas atriz coadjuvante conta com duas indicações: ArianaDeBose, pelo filme “Amor, Sublime Amor” (“West Side Story”) – dirigido por Steven Spielberg — e Aunjanue Ellis, por “King Richard: Criando Campeãs”, que, indicado também a melhor filme, conta com uma produção majoritariamente negra, uma exceção no prêmio. 

Levantamento da Gênero e Número mostra que, em 93 edições, nenhuma mulher negra foi indicada a prêmios considerados nobres para o cinema, como melhor direção. Ao todo, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas concedeu 3.140 estatuetas, mas apenas 19 foram concedidas a mulheres negras em toda a sua história – menos de 1% do total. Apenas uma mulher foi agraciada com o prêmio de melhor atriz, Halle Berry, em 2002, por “A Última Ceia”. A categoria com mais indicações (26) e vencedoras (8) é a de melhor atriz coadjuvante – categoria em que ArianaDeBose foi indicada este ano. 

Produtora de cinema, Camila Nunes acredita que o preterimento no Oscar de pessoas negras em categorias de destaque, como melhor filme e direção, tem muito a ver com uma ideia de subserviência já associada por uma questão racial – o que refletiria, para ela, a predominância de indicações e prêmios em categorias mais técnicas (como maquiagem e cabelo). Em relação ao número de mulheres negras indicadas, e reconhecidas, nas categorias de atuação, Camila destaca que ainda há uma forte tendência a premiar atrizes coadjuvantes – o que não implica, necessariamente, um interesse genuíno por ouvir histórias protagonizadas por pessoas negras. 

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A primeira vitória de uma mulher negra no Oscar é um exemplo clássico deste papel de subserviência. Caçula dos 13 filhos de um casal de escravos libertos, Hattie McDaniel ganhou a estatueta de melhor atriz coadjuvante pelo filme “E o Vento Levou”, em 1940, com Mammy, a criada da protagonista, Scarlett O’Hara. Apesar da personalidade forte e sarcástica de sua personagem, o papel de Hattie não foge do arquétipo da empregada negra à mercê da sua patroa. 

A atriz foi proibida de ir à estreia do filme por causa das leis de segregação racial vigentes, e só pôde receber o prêmio porque o produtor pediu uma autorização especial para que ela estivesse no teatro,  numa pequena mesa ao fundo, longe das estrelas presentes na premiação. E nem sequer pôde aparecer nas fotos com os demais membros da equipe do filme. Só 51 anos depois, uma outra atriz negra voltaria a receber um Oscar, também de atriz coadjuvante: Whoopi Goldberg, por “Ghost”, em 1991. 

“Nas indicações de homens e mulheres negras, encontramos sempre um reconhecimento sobre como eles ajudam a servir, e não necessariamente protagonizar. Quando há um destaque nas telas para as atuações, percebe-se que são corpos negros endeusados, sexualizados, mas a gente não é só isso. Temos uma pluralidade que esses prêmios não reconhecem quando não destacam histórias dirigidas e escritas por pessoas negras, e se preocupam em reconhecer apenas aquelas que ficam dentro de uma ‘caixinha’ que a sociedade branca quer estabelecer como uma representação midiática do negro”, critica a produtora. 

Mulheres negras no Oscar

Indicadas em 2022

Beyoncé

Knowles-Carter

Canção original

King Richard:

Criando Campeãs

Aunjanue Ellis

Atriz Coadjuvante

King Richard:

Criando Campeãs

Traci A. Curry

Documentário

Attica

Stacey Morris

e Carla Farmer

Maquiagem e Cabelo

Um Príncipe em Nova York 2

Ariana DeBose

Atriz Coadjuvante

Amor, Sublime Amor

3140

premiações

de oscar

na história

19

mulheres negras

premiadas

Premiadas ao longo da história

indicações

ao Oscar

vencedoras

do Oscar

Hattie McDaniel

foi a primeira mulher negra indicada e vencedora do Oscar, na categoria atriz coadjuvante, pelo filme E o Vento Levou, em 1940

1940

1950

1960

1970

Irene Cara

ganhou o Oscar de melhor canção original por Flashdance…What A Feelin, canção-tema do filme Flashdance, em 1984. Foi a mais jovem artista negra norte-americana a ganhar um Oscar, com apenas 24 anos

1980

1990

Whoopi Goldberg

indicada ao Oscar duas vezes, levou a estatueta de melhor atriz coadjuvante em 1991, por Ghost. Já atuou em mais de 60 filmes

Halle Berry

a primeira mulher negra a conquistar o Oscar na categoria melhor atriz, por A Última Ceia, em 2002. Antes de iniciar a carreira de atriz, disputou vários concursos de beleza e foi eleita Miss Ohio, em 1986

2000

Octavia Spencer

ganhou o Oscar de melhor atriz coadjuvante em 2012, por Histórias Cruzadas. É a primeira atriz negra da história a ser indicada três vezes ao Oscar, sendo duas vezes consecutivas por Estrelas Além do Tempo e A Forma da Água

2010

2020

Mia Neal e Jamika Wilson

primeiras mulheres negras a conquistar o Oscar na categoria maquiagem e cabelo, pelo filme A Voz Suprema do Blues, em 2021. As duas foram também as primeiras negras indicadas nesta categoria na história da premiação

Indicações e prêmios por categorias

indicações

vitórias

Atriz

Coadjuvante

26

8

Atriz

14

1

Canção

10

3

Documentário

6

Figurino

1

5

Maquiagem e Cabelo

4

2

Oscar Honorário

2

2

Filme

2

Documentário

de curta-metragem

2

Design de produção

1

1

Curta-Metragem

em Animação

1

1

Roteiro Original

1

Roteiro Adaptado

1

Edição

1

Curta-metragem

em live action

1

categorias que nunca tiveram

indicação de mulheres negras

Melhor Direção

Melhor Montagem

Melhor Trilha Sonora

Melhor Animação

Melhor Fotografia

Melhor Filme internacional

fonte Wikipédia/Academy Awards Database

fotos imdb

Mulheres negras no Oscar

Indicadas em 2022

Aunjanue Ellis

Atriz Coadjuvante

King Richard: Criando Campeãs

Beyoncé

Knowles-Carter

Canção original

King Richard:

Criando Campeãs

Traci A. Curry

Documentário

Attica

Ariana DeBose

Atriz Coadjuvante

Amor, Sublime Amor

Stacey Morris

e Carla Farmer

Maquiagem e Cabelo

Um Príncipe em Nova

York 2

3140

premiações

de oscar

na história

19

mulheres negras

premiadas

Premiadas ao longo da história

vencedoras

do Oscar

indicações

ao Oscar

1940

1950

Hattie McDaniel

foi a primeira mulher negra indicada e vencedora do Oscar, na categoria atriz coadjuvante, pelo filme E o Vento Levou, em 1940

1960

1970

1980

Irene Cara

ganhou o Oscar de melhor canção original por Flashdance…What A Feelin, canção-tema do filme Flashdance, em 1984. Foi a mais jovem artista negra norte-americana a ganhar um Oscar, com apenas 24 anos

1990

Whoopi Goldberg

indicada ao Oscar duas vezes, levou a estatueta de melhor atriz coadjuvante em 1991, por Ghost. Já atuou em mais de 60 filmes

2000

Halle Berry

a primeira mulher negra a conquistar o Oscar na categoria melhor atriz, por A Última Ceia, em 2002. Antes de iniciar a carreira de atriz, disputou vários concursos de beleza e foi eleita Miss Ohio, em 1986

2010

Octavia Spencer

ganhou o Oscar de melhor atriz coadjuvante em 2012, por Histórias Cruzadas. É a primeira atriz negra da história a ser indicada três vezes ao Oscar, sendo duas vezes consecutivas por Estrelas Além do Tempo e A Forma da Água

2020

Mia Neal e Jamika Wilson

primeiras mulheres negras a conquistar o Oscar na categoria maquiagem e cabelo, pelo filme A Voz Suprema do Blues, em 2021. As duas foram também as primeiras negras indicadas nesta categoria na história da premiação

Indicações e prêmios por categorias

indicações

vitórias

Atriz Coadjuvante

26

8

Atriz

14

1

Canção

10

3

Documentário

6

Figurino

1

5

Maquiagem e Cabelo

4

2

Oscar Honorário

2

2

Filme

2

Documentário

de curta-metragem

2

Design de produção

1

1

Curta-Metragem

em Animação

1

1

Roteiro Original

1

Roteiro Adaptado

1

Edição

1

Curta-metragem

em live action

1

categorias que nunca tiveram

indicação de mulheres negras

Melhor Direção

Melhor Montagem

Melhor Trilha Sonora

Melhor Animação

Melhor Fotografia

Melhor Filme internacional

fonte Wikipédia/Academy

Awards Database

fotos imdb

Dados do Geena Davis Institute on Gender and Media (EUA) também trazem uma ideia sobre o lugar em que está a mulher negra no cinema de Hollywood. A partir da análise dos filmes de maior bilheteria entre 2009 e 2019, a pesquisa constatou que apenas 5,7% dos filmes foram protagonizados por mulheres negras, e que, nas telas, elas são predominantemente engraçadas e com menos envolvimento romântico comparadas a personagens brancas. 

Como mulheres negras aparecem nos filmes de Hollywood de maior bilheteria

ocupação

personalidade

relacionamentos

violência/criminalidade

Mulheres

negras

Mulheres

brancas

70%

Muito trabalhadora

60%

Esperta / inteligente

Muito trabalhadora

50%

Esperta / inteligente

Líder

Líder

40%

Nenhuma ocupação

Nenhuma ocupação

Engraçada

Engraçada

30%

Violenta

Relacionamento romântico

Violenta

Relacionamento romântico

20%

Tem mais de um parceiro sexual

Setor de tecnologia (stem)

Ocupação de serviço

Tem mais de um parceiro sexual

Setor de tecnologia (stem)

10%

Criminosa

Ocupação de serviço

Criminosa

0

fonte Geena Davis Institute on Gender in Media

Como mulheres negras aparecem nos filmes de Hollywood de maior bilheteria

ocupação

personalidade

relacionamentos

violência/criminalidade

Mulheres

negras

Mulheres

brancas

70%

Muito

trabalhadora

60%

Esperta/

inteligente

Muito

trabalhadora

50%

Esperta/

inteligente

Líder

Líder

40%

Nenhuma

ocupação

Nenhuma

ocupação

Engraçada

Engraçada

30%

Relacionamento

romântico

Violenta

Violenta

Relacionamento

romântico

Tem mais

de um

parceiro

sexual

20%

Setor de

tecnologia

(stem)

Ocupação

de serviço

Tem mais

de um

parceiro

sexual

Setor de

tecnologia

(stem)

10%

Criminosa

Ocupação

de serviço

Criminosa

0

fonte Geena Davis Institute on Gender in Media

O Oscar e o Brasil 

No Brasil, o cenário não é diferente. Segundo a pesquisadora Paula Alves, da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (Ence-IBGE), o perfil da cineasta brasileira é uma mulher branca, do Sudeste (onde estão  80% das empresas produtoras de filmes do Brasil) e de classe média alta. Para chegar a esse perfil, ela montou um banco de dados em que reuniu informações sobre longa-metragens de ficção, documentário e animação. Para Alves, a ausência de mulheres negras no Oscar também impacta o mercado audiovisual brasileiro, apesar das diferenças que podem ser encontradas entre os países. 

“Se elas têm menos chances de assumir papéis de destaque, à frente ou atrás das câmeras, terão muito mais dificuldades de serem valorizadas como profissionais e reconhecidas em premiações, etc. Infelizmente, o cinema brasileiro não é feito por pessoas negras, de uma forma geral, como mostram os dados da minha tese. Porém, se enquadra internacionalmente em outro grupo racial do ponto de vista do Norte (Europa e EUA, principalmente), o de latinos. Uma categoria também pouco representada em grandes premiações internacionais, embora recentemente tenha havido exceções.”, destaca a pesquisadora.

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As mulheres negras, na verdade, são o grupo social menos representado em todas as principais funções do cinema brasileiro, como mostra o boletim “Raça e Gênero no Cinema Brasileiro”, do Grupo de Estudos Multidisciplinares de Ação Afirmativa (GEMAA). Em 240 filmes analisados, entre 1995 e 2018, elas não exercem nenhuma atividade de direção e roteiro e são apenas 4% do elenco selecionado para os longas- metragens. Enquanto isso, as mulheres brancas são 21% das diretoras, 34% das roteiristas e 34% das personagens. Já os homens brancos dominam todas as funções, entre elas diretor (84%) e roteirista (71%), e ainda representam 49% dos elencos.

Em 2019, último ano antes da pandemia (quando começaram as restrições nos cinemas), dos 167 filmes brasileiros lançados comercialmente em salas de exibição no país, apenas 36 foram dirigidos por mulheres, de acordo com os dados do Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual, vinculado à Agência Nacional de Cinema (Ancine). Em 2018, quando lançou o “Informe Diversidade de Gênero e Raça”, a Ancine já havia mostrado que dos 142 filmes nacionais lançados comercialmente em 2016, 97,2% foram dirigidos por pessoas brancas e apenas 19,7%  foram dirigidos por mulheres, nenhuma delas negra.

No entanto, os festivais de cinema estão mudando essa realidade, diz Paula Alves, destacando o reconhecimento de mulheres que já estão à frente de produções cinematográficas, ao mesmo tempo em que começa um movimento para equilíbrio de gênero e raça nas equipes de produção. 

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“A grande questão é que o mercado audiovisual se comporta como o mercado de trabalho como um todo. Mulheres e negros estão quantitativamente presentes no mercado de trabalho, mas ganhando menos e desempenhando menos funções de chefia do que homens brancos. No cinema acontece a mesma coisa. Esse é o gap que eu acho que vamos demorar mais a resolver”, explica. 

Apesar disso, Camila Nunes é otimista quanto aos novos rumos do mercado audiovisual brasileiro, com o aumento de mulheres negras dispostas a trabalhar na direção, e o surgimento de produtoras de cinema que são gerenciadas por profissionais negros – iniciativas que ela considera fundamentais para a representação, na tela, de mulheres negras que fujam de estereótipos sexistas e apresentem uma diversidade maior de papéis. Mas a produtora reitera que o aumento de mulheres negras em posições de mais destaque só vai ser possível a partir de mobilizações coletivas realizadas por elas mesmas:

“Se hoje sou uma produtora respeitada, entendo que não posso subir sozinha. Tenho a responsabilidade de ser uma produtora negra que incentiva outras profissionais negras. Só nós vamos sentir necessidade de contar nossas histórias a partir do nosso ponto de vista. Não é uma necessidade que vai partir de profissionais brancos. Então, temos que nos juntar em laboratórios de criação, para inscrever projetos em editais, criar coletivos audiovisuais entre nós, correr atrás de oportunidades”, reflete.

Acesse a base de dados da reportagem aqui

*Agnes Sofia Guimarães é repórter, Marília Ferrari é diretora de arte e Victoria Sacagami é designer da Gênero e Número.

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