close

No estado do Rio, negras são principais vítimas em crimes contra a vida e estupros4 min read

Estereótipos que cercam mulheres negras contribuem para realidade apontada nos dados, segundo pesquisadora | Foto: Raoni Garcia / Midia Ninja

Dados foram compilados pela plataforma EVA, do Instituto Igarapé, a partir de informações do setor de segurança pública; projeto traz números de todo o país, além de México e Colômbia 

Por Lola Ferreira e Maria Martha Bruno*

Enquanto mulheres brancas são a maioria das vítimas em crimes de violência psicológica e importunação, mulheres negras formam a maior parcela nos crimes contra a vida e de violência sexual no estado do Rio de Janeiro. A plataforma EVA (Evidências sobre Violências e Alternativas para Mulheres e Meninas), lançada pelo Instituto Igarapé nesta semana, traz dados que evidenciam a diferença entre negras e brancas em relação aos tipos de crimes. 

Nos casos de feminicídio e homicídio doloso, mulheres negras representam 64% e 62% das vítimas, respectivamente. Elas também são maioria (58% e 57%) nas tentativas de homicídio e de estupro, e nos episódios de estupro (56%). Os dados de 2018 também mostram que, em relação aos crimes de danos e ameaça, a diferença em relação às brancas é ligeiramente menor: 51% das vítimas são negras.

Meia década de jornalismo sobre gênero e raça
APOIE A GN PARA IRMOS MAIS LONGE
QUERO IR JUNTO!

[+] Leia também: Diferença entre as taxas de homicídio de mulheres negras e não negras evidencia racismo, diz coordenadora do Mapa da Violência de Gênero

Em 2018, foram 2.349 casos de estupro de mulheres pretas ou pardas. Contra as brancas, o índice é de 1.545. A tendência se inverte em relação à raça, quando analisados os crimes de ato obsceno, constrangimento ilegal e importunação ofensiva ao pudor. Os dados foram fornecidos pelo setor de segurança pública. Além do Rio, apenas três estados do país (Alagoas, Bahia e São Paulo) forneceram números sobre a raça das vítimas. 

Para Renata Giannini, pesquisadora do Instituto Igarapé e uma das responsáveis pela plataforma, não é possível comparar a gravidade dos crimes, mas é evidente que “os crimes contra a vida têm mais mulheres negras como vítimas”. Ela acrescenta que os dados precisam ser sempre analisados de forma mais detalhada.

Assine a newsletter e receba nosso conteúdo gratuito!

Aguarde...

“A gente precisa refinar cada vez mais estes números para entender quais mulheres são vítimas de que violência, a fim de poder planejar melhor as políticas públicas. Senão, o impacto em um determinado público pode ser nulo”, afirmou.

Giannini lembra que seria importante agregar fatores ambientais, sobre os locais das agressões: “É preciso saber quais são os fatores individuais e ambientais que colocam uma mulher mais ou menos em risco de sofrer uma determinada violência”.

Bruna Jaquetto, coordenadora do Grupo de Estudos Mulheres Negras da Universidade de Brasília (UnB), destaca a importância do fator territorial tanto para a realização das denúncias, quanto para determinar a vulnerabilidade das vítimas: “Em Brasília, por exemplo, só temos uma Delegacia Especial de Atendimento à Mulher e ela fica no Plano Piloto, que é uma área mais central e de elite. Uma mulher da periferia pode gastar horas para chegar. O local [da delegacia] determina as chances de essas mulheres procurarem ajuda antes de a violência letal se concretizar”. 

[+] Leia também: Mapa da Violência de Gênero: Mulheres são quase 67% das vítimas de agressão física no Brasil

Sobre a diferença entre as violências sexuais às quais mulheres brancas e negras são submetidas, Jaquetto ressalta a relevância do estereótipo criado para pretas e pardas, notadamente na figura da “mulata brasileira”:

“A imagem da mulher negra hipersexualizada não é inofensiva. As imagens geram práticas e consequências. Se a ideia é que a mulher negra está sempre disposta ao sexo e existe para isso mesmo, essa é a consequência mais cruel: a mulher negra fica mais exposta ao ato consumado. Claro que as mulheres brancas também sofrem, mas esta é uma violência mais insinuada que concretizada. Isso tem a ver com como as mulheres são vistas na sociedade brasileira: a branca é mais casta, a ‘mulher direita’. Pra mulher negra este lugar nunca está dado”. 

*Lola Ferreira é jornalista e Maria Martha Bruno é editora da Gênero e Número

Receba o conteúdo da GN por Whatsapp
Para se cadastrar, mande um oi para:
+55 21 98341 3556

Você é fundamental para seguirmos com o nosso trabalho, produzindo o jornalismo urgente que fazemos, que revela, com análises, dados e contexto, as questões críticas das desigualdades de raça e de gênero no país.

Somos jornalistas, designers, cientistas de dados e pesquisadoras que produzem informação de qualidade para embasar discursos de mudança. São muitos padrões e estereótipos que precisam ser desnaturalizados.

A Gênero e Número é uma empresa social sem fins lucrativos que não coleta dados, não vende anúncio para garantir independência editorial e não atende a interesses de grandes empresas de mídia.

EU QUERO APOIAR

  
close-image