“Com a sobrecarga e o pouco acesso a renda, ultraprocessados são a única opção para muitas mulheres” , Veruska Prado, coautora do estudo Prato do Dia

Veruska Prado estuda políticas de segurança alimentar e nutricional e assina, ao lado de outros pesquisadores, os estudos Prato do Dia: Desigualdades. Raça, Gênero e Classe Social nos Sistemas Alimentares, da FIAN Brasil, e as duas edições do Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no contexto da pandemia da COVID-19 no Brasil (VIGISAN)

Veruska Prado é professora da Faculdade de Nutrição da Universidade Federal de Goiás (UFG). Ela integra a equipe de pesquisadores do estudo Prato do Dia: Desigualdades. Raça, Gênero e Classe Social nos Sistemas Alimentares, da FIAN Brasil, e das duas edições do Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da COVID-19 no Brasil (VIGISAN), da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar (PENSSAN).

Na terceira entrevista do projeto Caminhos da Alimentação: o que chega à mesa das mulheres negras, Prado lembra que a fome que ronda as casas das mães solo negras chefes de família é fruto da sobrecarga de trabalho.

A falta de acesso a creches, o cuidado com os filhos e outros membros da família e a necessidade de trabalhar criam uma situação de baixa renda e esgotamento físico. Para a pesquisadora, a combinação de todos esses fatores prepara o terreno para que elas prefiram os ultraprocessados, porque são mais baratos e levam menos tempo para o preparo. Os ajustes na dieta alimentar já configuram um nível moderado de insegurança alimentar.

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Prado também destaca que as políticas de combate à fome entre as mulheres negras chefes de família ou mães solo devem prover uma rede de apoio, que ofereça condições para que elas possam investir em suas carreiras e participar no mercado de trabalho.

Leia a entrevista:

Qual é o impacto da insegurança alimentar na vida de mulheres negras chefes de família e mães solos?

A insegurança alimentar, em seus diversos níveis, afeta as mulheres negras e mães solo de maneira diferenciada. Estudos da Fian e o Inquérito VIGISAN, da Rede Penssan, mostram isso de maneira enfática.

O estudo da Fian, realizado com base em dados de 2017 e 2018 da POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares), observa que as famílias chefiadas por mulheres e mulheres negras sofrem mais com a fome do que as famílias chefiadas por homens e homens brancos. Mesmo no grupo só dos negros, há uma diferença grande na fome que se expressa nos lares chefiados por mulheres e homens. Já o Inquérito VIGISAN, do qual eu participei, mostra que a situação de fome nos lares chefiados por mulheres negras em comparação com os lares chefiados por mulheres brancas piorou.

É necessário analisar a fome presente entre as mulheres negras numa perspectiva histórica. Infelizmente, ainda há desigualdade entre homens e mulheres na sociedade, o que dificulta o acesso a renda. Elas ainda têm mais dificuldade de acesso ao mercado de trabalho e ocupam postos mais precários do que os homens.

ler “A alimentação ancestral é a cultura que resiste”, Sandra Chaves, coordenadora da Rede PENSSAN

Além da renda, a sobrecarga de trabalho com a qual as mulheres negras chefes de família e mães solos sofrem também se reflete na insegurança alimentar?

As mulheres negras chefes de família e mães solo, muitas vezes, sofrem sem acesso a creches. Com isso, precisam conciliar o trabalho remunerado e o cuidado com os filhos e outros membros da casa. Como chefes dos lares, essas mulheres tomam as decisões, pagam as contas, são as responsáveis por tudo.

A pandemia deixou bem clara essa sobrecarga de trabalho. As mulheres com as crianças em casa, tendo que cuidar das pessoas mais vulneráveis ao vírus da Covid-19, e sem a renda do trabalho, que ela ficou impedida de realizar por causa das medidas sanitárias. A responsabilidade da maternidade somada aos cuidados com outras pessoas recai de forma muito pesada sobre as mulheres.

Além de tudo, o papel de cozinhar ainda é exclusivamente delas. É engraçado que os homens são Chefs de Cozinha, estão na posição de poder, mas o preparo cotidiano dos alimentos em casa ainda é tarefa da mulher e isso é mais um trabalho que reforça essa sobrecarga. A falta de tempo, o menor acesso a renda e o cansaço com as jornadas de trabalho interferem na alimentação das mulheres e da família que elas chefiam. Os ultraprocessados se tornam a única alternativa, pois são mais baratos e o preparo é mais prático, o que vai exigir menos trabalho da mulher já esgotada.

Na insegurança alimentar moderada, há os ajustes na dieta alimentar. Alguns alimentos são substituídos, algumas refeições são eliminadas. As mulheres, muitas vezes, sacrificam as suas refeições para garantir que os filhos se alimentem. Os dados, que mostram a fome mais presente nos lares chefiados por mulheres, atestam que essa sobrecarga resulta na fome mais intensa entre as mulheres negras chefes de família.

ler “Políticas de combate à fome precisam priorizar mulheres”, Adriana Salay, historiadora que pesquisa renda e acesso a alimentos

A combinação da falta de renda com a sobrecarga de trabalho que leva mulheres a optarem por ultraprocessados mais baratos poderia colocá-las em situação de insegurança alimentar moderada? Quais os caminhos para resolver esse problema?

Ter a capacidade de adquirir alimentos prejudicada pelo acesso a renda é uma condição da insegurança alimentar moderada, pois envolve a necessidade de fazer ajustes familiares e substituições para que todos possam comer. Com a sobrecarga e o pouco acesso a renda, os ultraprocessados acabam se tornando a única opção para muitas mulheres.

Sem contar que há muitas regiões nas quais o acesso aos alimentos in natura é baixíssimo ou praticamente inexiste. É preciso aumentar o acesso a alimentos in natura, trabalhar no preço desses alimentos, que têm que ser muito baratos, senão as pessoas não vão ter acesso a eles.

Além disso, as novas gerações já foram criadas em meio ao marketing dos ultraprocessados, que têm a sua composição alterada para trazer sabores hiperpalatáveis que viciam. Então, muitas vezes, elas não escolhem alimentos in natura simplesmente por não terem o hábito de consumir.

ler Caminhos da alimentação: o que chega à mesa das mulheres negras

O 2º Inquérito VIGISAN apontou que metade dos lares com crianças de até dez anos de idade na região Nordeste sofre com insegurança alimentar moderada e grave. Considerando que as mulheres ainda são as principais responsáveis pelo cuidado com os filhos, qual o impacto dessa realidade na vida delas?

Esse dado reúne as formas de insegurança alimentar moderada e grave juntas, que são as duas mais severas. No caso da insegurança alimentar grave, o indivíduo fica o dia inteiro sem comer. Ele não comeu e não sabe quando vai comer a próxima refeição. Na insegurança moderada, o indivíduo tem algum grau de acesso aos alimentos, mas ele comeu agora e não sabe quando vai comer novamente. Ou ele come menos agora para comer novamente antes de ir dormir. É o caso em que a gente observa os ajustes internos na família para que o alimento seja suficiente para todos. Quer dizer, um indivíduo prioriza a alimentação das crianças, consideradas mais frágeis, e precisa sair para conseguir renda. Muitas vezes, são as mulheres que sacrificam a sua alimentação.

Esse dado revela que há a necessidade de se pensar políticas, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae), que ofereçam alimentação regular e de qualidade, pois grande parte desse público está em idade escolar. Isso envolve a educação infantil, que contempla a primeira infância, fase de desenvolvimento que demanda acesso regular a alimentos.

A alimentação envolve também o aleitamento materno, que é o primeiro direito alimentar da criança e está diretamente ligado à mãe. Por exemplo, se essa mãe atua no trabalho informal, tem que passar horas na rua, ela não vai dispor de tempo para amamentar. Se ela não tiver rede de apoio, fica difícil conciliar trabalho e amamentação. Trabalhar o dia todo, chegar em casa cansada e ainda ter que ordenhar leite para dar para a criança é cansativo. O Estado precisa olhar com prioridade e maior atenção para as famílias chefiadas por mulheres negras com crianças com menos de dez anos em situação de fome.

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Como devem ser as políticas públicas de combate à insegurança alimentar que atendam mulheres negras chefes de família?

Com o novo governo, muitas políticas públicas foram retomadas. O Pnae, por exemplo, teve o seu valor reajustado, após anos com o orçamento desatualizado. Muitas dessas políticas têm as mulheres como público prioritário, mas o que a gente precisa pensar é que o combate à fome entre as mulheres chefes de família mães solo envolve algo mais amplo.

É preciso assegurar uma rede de apoio social e econômico a essas mulheres. Isso quer dizer oferecer acesso à creche pública, criar políticas de acesso a renda, emprego e capacitação. Significa pensar políticas que não tenham relação direta com o acesso a alimentação, mas que reduzam essa sobrecarga de trabalho que as mulheres enfrentam e criem condições para elas acessarem o mercado de trabalho.

É preciso garantir um conjunto muito mais amplo de políticas públicas para a insegurança alimentar em suas diversas formas entre as mulheres, além de debater na sociedade o papel de todos no cuidado com os filhos. Mesmo que a mulher já não esteja com o progenitor da criança, ele tem responsabilidade de cuidar. Muitas vezes, uma mãe solo se vê numa situação de abandono mesmo. Essa mãe decide retomar os estudos para ter melhor acesso a renda, mas se vê impossibilitada por não ter rede de apoio para cuidar da criança. O pai fica com a responsabilidade jurídica, mas não assume os cuidados com a criança.

Entre as alternativas imediatas que podem apoiar essas mulheres na alimentação estão a criação de restaurantes populares, cozinhas populares e hortas comunitárias, e as doações de refeições prontas. Isso faz com que elas não fiquem tão dependentes da renda para comprar alimentos que podem saciar a fome, mas não levam saúde.

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Adriana Amâncio

Jornalista formada pela Universidade Joaquim Nabuco (PE) com 25 anos de experiência em assessoria de comunicação e reportagem nas áreas de direitos humanos, gênero e meio ambiente. É da equipe Inclusão e Diversidade do Colabora – jornalismo sustentável, e já assinou matérias em veículos como o O Joio e o Trigo, Gênero e Número, Marco Zero Conteúdo, ((o)) Eco e Saiba Mais e assinou reportagens para o The Brazilian Report nas eleições 2022. Venceu o edital “Primeira Infância e a cobertura das eleições”, realizado pelos veículos Nós, Mulheres da Periferia, Alma Preta Jornalismo, Amazônia Real e Marco Zero Conteúdo, com o apoio da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal. Já recebeu o Prêmio Sassá de Direitos Humanos, além de ser premiada por As Amazonas, Abraji e pela Embaixada dos Estados Unidos com o podcast “Cidadãs das Águas”, no curso Podcast: o seu conteúdo para o mundo.

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