“Vivemos em sociedades violentas onde abuso, violência sexual e assédio são naturalizados” diz senadora colombiana

Recém-eleita para o parlamento da Colômbia pela coalização de esquerda Pacto Histórico e co-presidente da Comissão da Paz, María José Pizarro fala sobre igualdade,  justiça climática, conservadorismo e aborto na América Latina em sua passagem pelo Brasil

Por Vitória Régia da Silva*

Em um hotel à beira-mar em Copacabana, a representante da Câmara por Bogotá (2018-22) e recém-eleita senadora pela coalizão de esquerda Pacto Histórico, María José Pizarro, reunia-se com lideranças feministas do terceiro setor para discutir justiça climática e violência política de gênero na América Latina. Ela veio ao país para uma série de reuniões e para o “Encontro Internacional Democracia e Igualdade” promovido pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), com Yolanda Díaz, segunda vice-primeira-ministra e ministra do Trabalho da Espanha.

Em março, os colombianos foram às urnas para eleger a nova composição do Congresso, o que mostrou um crescimento histórico da esquerda no país. Nas eleições presidenciais, que serão realizadas em maio, o líder do bloco de esquerda Pacto Histórico, o senador e ex-guerrilheiro Gustavo Petro, é o favorito. Sua candidata a vice-presidência é Francia Márquez, uma mulher negra e feminista que vem das lutas sociais. “Isso levou a sociedade colombiana a discutir temas que jamais foram uma questão em nosso país, como o racismo e a participação política dessas mulheres”, afirma.  

Em entrevista à Gênero e Número, Pizarro, que também é artista plástica e co-presidente da Comissão da Paz, analisa a movimento feminista e seu contraponto, a onda conservadora, na América Latina, e trata da importância de dialogar com mulheres e comunidades tradicionais sobre justiça climática: ‘‘O cuidado com a vida de todos na Colômbia está no centro de nossa proposta política alternativa e progressista porque a justiça ambiental está no centro de nossas disputas”.

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Confira a entrevista a seguir:

1 - A coalizão Pacto Histórico confirmou sua chapa presidencial com os candidatos Gustavo Petro e Francia Márquez. O que significa para o país essa candidatura e sua possível eleição?  

Simbolicamente é muito importante. É a primeira vez na história de nosso país que temos uma candidatura a vice-presidente de uma mulher negra que vem das lutas sociais, uma mulher negra e feminista. Essa foi a primeira vez nas prévias em que houve candidatura de duas mulheres. Uma foi a Francia Márquez, que teve uma grande votação, e a outra foi Arelis Uriana, uma mulher indígena, da etnia wayú. Isso levou a sociedade colombiana a discutir temas que jamais foram uma questão em nosso país, como racismo e organização de partidos políticos por classes. E pela primeira vez está se discutindo a candidatura dessas mulheres. 

Essas são perguntas que começam a surgir na sociedade colombiana, e isso implica uma mudança de narrativa, independentemente de se estar ou não preparado para a candidatura de Petro. E se ele for eleito, necessariamente Francia será a vice-presidente, e a sociedade terá que se acostumar. Isso muda imaginários e é simbolicamente muito poderoso. E creio que a sociedade colombiana, por sua diversidade, tem que, definitivamente, começar a se questionar sobre meio ambiente, racismo, feminismo e a participação das mulheres na política.

2 - Como analisa essa onda feminista na América Latina e, por outro lado, o fortalecimento de uma agenda conservadora nestes países?

Essa reação conservadora acontece porque nós estamos falando. Acredito que nós, mulheres latino-americanas, vivemos condições muito particulares, em sociedades e ambientes agressivos, violentos, em que índices de abuso, violência sexual e assédio são naturalizados, normalizados, e sua consequência dramática se vê nas taxas de gravidez na adolescência. Além disso, há mulheres que não conseguem construir seus projetos de vida porque estão condenadas, elas e seus filhos e filhas, a ciclos de violência. Muitas mulheres são retiradas de seus territórios, o que significa que elas não só foram tiradas de suas terras como não podem ser donas delas. Por isso, inclusive, acredito que a Justiça tem que se concentrar na justiça de gênero, principalmente no sul global. E essa é uma realidade  que compartilhamos com mulheres de outros continentes, como as africanas, por exemplo.

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Todo esse movimento feminista na América Latina provoca uma série de reflexões sobre qual é a sociedade em que podemos viver não só em igualdade, mas livres de violência, onde nossas vozes sejam reconhecidas socialmente

Todo esse movimento feminista na América Latina provoca uma série de reflexões sobre qual é a sociedade em que podemos viver não só em igualdade, mas livres de violência, onde nossas vozes sejam reconhecidas socialmente. Sabendo que podemos, sim,  exterminar o patriarcado, que é justamente o que tem fomentado todo tipo de violência econômica, física, sexual e política.

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3 - A Colômbia foi o sexto país da América Latina e Caribe a descriminalizar o aborto. Como uma sociedade conservadora como a colombiana, assim como a brasileira, conseguiu avançar em temas relacionados a direitos reprodutivos?

Tivemos sorte na Colômbia, apesar de termos um congresso que não quer legislar sobre isso, um congresso patriarcal, cheio de velhos e brancos. Não quero desmerecer, mas é uma geração de políticos que têm se recusado sistematicamente a discutir esses assuntos. Mas nós conseguimos trazer essa discussão, uma vitória também de todas as organizações sociais que têm acompanhado as mulheres,  principalmente as mais pobres e jovens, que são as que mais morrem por abortos inseguros. Além das mais de cinco mil mulheres que foram investigadas pelo crime de aborto, também mulheres pobres, sem acesso ao aborto seguro. Essa não é uma decisão fácil, nem é uma decisão feliz. 

A Corte Constitucional [equivalente ao STF] fez o trabalho que o Congresso da República não quis fazer, e a decisão veio depois de várias setenças em diversas situações, garantindo o aborto não só nos três casos (violência sexual, malformação fetal e risco de vida da gestante) que já era permitido em nosso país como descriminalizando-o até a 24ª semana. Não significa que todas as mulheres vão abortar na 24ª semana,  mas que é permitido até esse momento. 

Se o Estado não fugir de suas responsabilidades, se os governos não se esquivarem de sua responsabilidade de regular o acesso à interrupção voluntária da gravidez, as mulheres poderão acessar esse direito sem estigmatização ou obstáculos. E definitivamente haverá uma diminuição das taxas de aborto se for disponibilizado acesso a mecanismos de planejamento de saúde sexual e reprodutiva.

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4 - A crise ambiental e as mudanças climáticas são temas centrais no seu trabalho e, segundo denúncias, a Amazônia colombiana está cada vez mais afetada pelo desmatamento e ataque a ambientalistas. O que precisa ser feito para interromper isso?

Infelizmente nós e o Brasil compartilhamos esse problema. No caso da Colômbia, há também outros ecossistemas que estão sendo arrasados e que são importantes não só para a Colômbia, mas para o equilíbrio climático do mundo. Temos muito claro que precisamos nos colocar em dia com os compromissos ambientais que assumimos internacionalmente e que isso tem que fazer parte de todos nós, por isso, é preciso que haja um despertar social, uma consciência social de que é preciso proteger não só a Amazônia, mas todos os ecossistemas. 

Na luta contra as mudanças climáticas, se a consciência social não vier acompanhada de decisões políticas firmes, não vamos alcançar nem metade do que nos propusemos. Acabamos de passar por uma pandemia que é reflexo da deterioração ambiental. Essa é uma teoria que também alerta para o fato de que essa não será a única pandemia que enfrentaremos; não podemos minimizar nem esquecer o que aconteceu. Por isso, é uma luta política muito importante.

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Obviamente, o papel da mídia é vital nesse processo porque ela pode conectar  as decisões políticas à sociedade e realmente colocá-las à serviço dessa consciência social, para que haja pressão também da sociedade no sentido de cobrar políticas que possam frear as alterações climáticas.

5 - Qual a importância de dialogar com mulheres e comunidades tradicionais, como indígenas e quilombolas, sobre justiça climática?  

Feminismo e cuidado com o meio ambiente estão intimamente ligados. Nós, mulheres, somos cuidadoras, e na política buscamos fortalecer o cuidado. Cuidado não é só a economia do cuidado, é cuidar de nossas comunidades, cuidar de nossas famílias. O cuidado com a  vida de todos na Colômbia está no centro de nossa proposta política alternativa e progressista; e não apenas porque a justiça ambiental está no centro de nossas disputas.

Temos um conceito de reparação coletiva às comunidades étnicas, às comunidades ancestrais. Declarar a terra vítima do conflito político-social que vivemos em nosso país implica tomar uma série de medidas para não apenas compensar as comunidades ancestrais como também distribuir de forma justa os territórios. Essa ideia está no centro das discussões porque não é só assinatura de acordos de paz, mas também do tipo de política que estamos propondo. Trata-se de como vamos compensar, como vamos cuidar do planeta, e para isso é necessária uma conexão das mulheres negras, indígenas e feministas com as políticas públicas de governo.

6 - E para finalizar, como foi sua viagem ao Brasil? Que intercâmbios e conexões foram estabelecidas? 

Participei de um fórum organizado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e estava em uma mesa com Yolanda Díaz [segunda vice-primeira-ministra e ministra do Trabalho da Espanha]. Foi importante conversar com outras lideranças políticas do continente íbero-americano porque pudemos pensar a nossa representação e participação política para além do nível local.

E também tive a possibilidade conversar com mulheres de organizações sociais e organizações independentes, e estavam presentes várias mulheres advogadas, da ciência, camponesas, o Instituto Marielle Franco,  para reforçar a defesa de temas importantes como violência política, meio ambiente, justiça climática, além da nossa participação política e a possibilidade de nos fortalecermos conjuntamente em nossas instâncias de representação.

*Vitória Régia da Silva é repórter da Gênero e Número

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