“Segurança alimentar de mulheres negras deve ser pensada com base em experiências de vida”, Etna da Silva, nutricionista e integrante do GT de Racismo da Abrasco

Pesquisadora destaca que a sobrecarga das mulheres negras com as diversas jornadas de trabalho e a dificuldade de acessar os serviços de saúde agravam as doenças crônicas

Foto de Etna Silva. Ela é uma mulher negra de cabelos cacheados na altura dos ombros e usa óculos. Na imagem, ela olha diretamente para a câmera

Segundo o Estudo Longitudinal da Saúde do Adulto (Elsa Brasil), pessoas pretas e pardas são as maiores vítimas das doenças crônicas não transmissíveis, a exemplo do diabetes e da hipertensão. O Elsa Brasil é um estudo de coorte no qual os participantes são observados por um longo período de tempo. Os dados mencionados aqui referem-se aos últimos 15 anos. Essas comorbidades são um agravante quando nos referimos às mulheres negras em situação de insegurança alimentar.

É sobre essa relação entre doenças crônicas, fome, gênero e raça que a Etna da Silva conversa com a Gênero e Número, na última entrevista do projeto Caminhos da Alimentação: o que chega à mesa das mulheres negras. A pesquisadora é professora da Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB) e integra o Grupo de Trabalho de Racismo e Saúde da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e a Rede de Nutricionistas e Estudantes de Nutrição Negros (AJEUM).

Silva destaca que a sobrecarga das mulheres negras com as diversas jornadas de trabalho e a dificuldade de acessar os serviços de saúde agravam as doenças crônicas. Ela também defende que para que as políticas de saúde e segurança alimentar se tornem mais efetivas, é preciso adequar os serviços às realidades de vida dessas mulheres.

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Leia a entrevista:

Quais são as principais doenças crônicas que acometem as mulheres negras?

As doenças crônicas não transmissíveis, aquelas enfermidades que as pessoas acabam tendo que conviver durante toda a vida, vêm aumentando no Brasil e no mundo. Isso acontece devido à mudança no padrão de vida e de alimentação das pessoas.

Mulheres pardas e negras têm maior risco de adoecimento e menos chances de controle dessas doenças, o que pode causar outras complicações. Mulheres pretas e pardas têm maior chance de desenvolver multimorbidade, ou seja, acumular mais de uma doença – diabetes e hipertensão, por exemplo.

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Qual a razão para que as mulheres pardas e negras sejam o principal alvo dessas enfermidades crônicas?

Essas mulheres são impactadas tanto pelo racismo quanto pelo sexismo. A condição de vulnerabilidade socioeconômica, na qual muitas delas vivem, cria um terreno fértil para que essas doenças possam se instalar e se agravar.

Outra razão é o acúmulo de trabalho de cuidado, envolvendo as jornadas dentro e fora de casa. As mulheres que trabalham como empregadas domésticas, por exemplo, têm esse papel de cuidado remunerado, mas também têm as responsabilidades que se estendem à sua família e à sua comunidade. Muitas vezes, elas são também as únicas a gerenciarem as próprias casas.  O tempo que essas mulheres teriam para o autocuidado físico e psíquico, reduzindo o risco de adoecimento, é usado para cuidar de outras pessoas.

Além disso, a discriminação racial também influencia no desenvolvimento de doenças crônicas. Ela pode ser um potente estressor [provocar dor, angústia, estresse], facilitando o desencadeamento de doenças crônicas.

Por fim, há a dificuldade de acesso ao serviço público de saúde, que entre as mulheres negras é maior do que entre as mulheres brancas.

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As mulheres negras também são as que mais sofrem com insegurança alimentar, como essa condição pode interferir no controle dessas doenças crônicas?

O controle dessas doenças passa pela alimentação. Portanto, se as mulheres negras são o grupo mais atingido pela fome, há a dificuldade de ter acesso aos alimentos adequados para evitar o agravamento de doenças.

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Grande parte dessas mulheres sofrem com o estresse e a preocupação de garantir a alimentação para as pessoas que estão sob sua responsabilidade. Outro agravante é a falta de acesso a outros serviços básicos, a exemplo de moradia e educação de qualidade.

Muitas dessas doenças demandam escolhas alimentares saudáveis. No entanto, em muitos casos, essas mulheres não têm possibilidade de escolha. Isso acontece porque elas não têm renda suficiente para comprar alimentos saudáveis ou não encontram oferta de alimentos saudáveis perto de casa, vivem em desertos alimentares. Na cidade onde ela vive a distribuição de alimentos pode não ser equitativa, ou seja, os alimentos frescos se concentram em regiões mais centrais ou mais abastadas. Outra condição é que essas mulheres podem simplesmente não ter tempo para preparar alimentos saudáveis, devido ao acúmulo de trabalho.

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Como o serviço público de saúde pode se tornar mais efetivo no controle dessas doenças crônicas entre as mulheres negras?

A gente precisa de uma mudança efetiva no Sistema Único de Saúde, que compreenda as vulnerabilidades dessas mulheres, na Política Integral de Saúde da População Negra. Tudo isso para que a gente tenha uma atenção efetiva da população negra, ou seja, tratar os diferentes de forma diferente.

Para isso, é preciso reconhecer essa forma diferenciada no adoecimento dessas mulheres, para pensar estratégias diferentes de cuidado com esse público. Especialmente após a pandemia, como mostram diversas pesquisas, essas mulheres se tornaram ainda mais vulneráveis a doenças crônicas pelas consequências do excesso de trabalho de cuidado.

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O serviço público de saúde deve enxergar essa dimensão do impacto do trabalho de cuidado sobre as mulheres negras.

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Como as políticas de segurança alimentar podem compreender esses marcadores de gênero, raça, classe social e condição de saúde, que intensificam a fome entre as mulheres negras?

As políticas de segurança alimentar para mulheres negras com multimorbidades devem ser pensadas com base em suas experiências de vida. Ou seja, se essa mulher é empregada doméstica, como o serviço de saúde pode adequar seu horário e sua forma de atendimento para atendê-la melhor. As políticas de doações de alimentos podem ser adaptadas às condições de saúde dessas mulheres. Essas políticas não podem partir do princípio de culpabilização da mulher, mas oferecer suporte para o controle dessas doenças, garantir a oferta de alimentos saudáveis mais próximos de onde elas vivem e programas de transferência de renda.

Também é importante a formação e a educação permanente para que os profissionais de saúde estejam atentos e ofereçam atenção rápida a esse público vulnerável, além da adoção de medidas que ajudem mulheres negras a identificar os alimentos adequados ao controle da sua doença, e facilitar o acesso ao serviço de saúde por parte desse público.

As políticas de segurança alimentar que estavam consolidadas, foram desmanteladas entre 2019 e 2022 e agora estão sendo retomadas, precisam ser direcionadas à população negra de forma específica. O Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) são alguns dos exemplos de políticas eficientes, que não devem só chegar aos negros de forma ampla, mas também de forma efetiva.

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Adriana Amâncio

Jornalista formada pela Universidade Joaquim Nabuco (PE) com 25 anos de experiência em assessoria de comunicação e reportagem nas áreas de direitos humanos, gênero e meio ambiente. É da equipe Inclusão e Diversidade do Colabora – jornalismo sustentável, e já assinou matérias em veículos como o O Joio e o Trigo, Gênero e Número, Marco Zero Conteúdo, ((o)) Eco e Saiba Mais e assinou reportagens para o The Brazilian Report nas eleições 2022. Venceu o edital “Primeira Infância e a cobertura das eleições”, realizado pelos veículos Nós, Mulheres da Periferia, Alma Preta Jornalismo, Amazônia Real e Marco Zero Conteúdo, com o apoio da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal. Já recebeu o Prêmio Sassá de Direitos Humanos, além de ser premiada por As Amazonas, Abraji e pela Embaixada dos Estados Unidos com o podcast “Cidadãs das Águas”, no curso Podcast: o seu conteúdo para o mundo.

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