“Se não disputarmos o imaginário, o racismo vence”, diz Rosane Borges após lançar livro sobre mulheres negras que reconfiguram horizontes democráticos

A professora e pesquisadora Rosane Borges escolheu a 2ª Marcha das Mulheres Negras para lançar o seu livro “Imaginários emergentes e mulheres negras: representação, visibilidade e formas de gestar o impossível”. 

Em 2015, mesmo impedida de estar fisicamente em Brasília para a primeira marcha, foi uma das mentes que deram corpo ao movimento: integrou a organização nacional, articulou debates, e é dela a redação final do documento histórico que sintetizou as vozes das mais de 50 mil mulheres que ocuparam a Esplanada naquele novembro. 

Dez anos depois, Rosane retorna à marcha, agora presencialmente, trazendo a mesma força intelectual, política e afetiva que acompanhou, à distância, no primeiro grande levante. Vanguardista, a jornalista escolheu o Cine Brasília para apresentar o novo livro, já pensando nos próximos dez anos e nas inspirações que a presença de milhares de mulheres reunidas contra o racismo na capital pode gerar nas novas gerações de mulheres que estarão em Brasília em 2035.

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O lançamento às portas da Marcha não foi acaso. Para Rosane, o livro nasce da mesma energia política que mobiliza milhares de mulheres negras: a necessidade de reorganizar os imaginários, questionar estruturas de representação e afirmar outras formas de viver, criar e disputar o Estado. “É uma caixa de ferramentas para implodir o imaginário e construir outros novos”, disse ela ao público, durante o evento de lançamento.

São décadas de dedicação para pensar o Brasil pela chave da imaginação política, da disputa por visibilidade e da reinvenção coletiva. Referência incontornável nos estudos de comunicação, raça e gênero, Rosane é doutora e pós-doutora pela Universidade de São Paulo (USP), onde também é professora do Diversitas – centro que reúne pesquisas interdisciplinares sobre direitos humanos, reunindo diversidade étnica e racial na Universidade de São Paulo, questionando sociabilidades hegemônicas com base nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas.

Ela leciona na Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) e integra o grupo de pesquisa Colabor (ECA-USP). É também articulista, pesquisadora e autora de obras como “Introdução ao pensamento feminista negro”, “Espelho infiel”, “Mídia e racismo” e “Esboços de um tempo presente”. Agora, Rosane Borges amplia esse percurso ao reunir, no novo livro, o pensamento de mulheres negras que têm reconfigurado os horizontes democráticos do país.

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Na 2ª Marcha das Mulheres Negras, ela conversou com a Gênero e Número sobre esse gesto político, o reposicionamento das mulheres negras no Brasil, democracia, disputa institucional e como projetar 2035 a partir das conquistas – e dos enfrentamentos – do presente.

Por que escolher a Marcha das Mulheres Negras para lançar seu novo livro?

O livro tem tudo a ver com a Marcha, com seu tema e com a trajetória das mulheres negras. O que faço nele é sistematizar vozes legítimas que pensaram e vêm transformando este país. Quando falo em “imaginários emergentes”, estou dizendo que há o que foi subalternizado, mas que existe. Temos outros mundos para validar. E, para isso, precisamos de outro regime de representação: precisamos estar na Suprema Corte, em vários lugares, em outros regimes de visibilidade. O livro faz esse percurso para cravar o que queremos para o país e para o mundo.

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A senhora participou da marcha de 2015?

Participei de toda a organização. Tive um problema pessoal, acompanhei à distância. Fiz o documento final da marcha e organizei em São Paulo, mas presencialmente não estive. Mesmo assim, vivi o processo inteiro.

Como tem sido estar aqui hoje, cercada por tantas mulheres negras de tantas regiões e até de outros países?

É muito emocionante. A gente viu o crescimento desde 2015 até agora. As meninas mais jovens, as mulheres… Trinta e sete países responderam à convocatória. É histórico. Cada uma de nós está construindo uma memória futura de emancipação, de luta e de conquista. Você também.

Como surgiu a ideia do seu novo livro, “Imaginários emergentes e mulheres negras: representação, visibilidade e formas de gestar o impossível”?

Surgiu da tentativa de sistematizar o que representa o pensamento das mulheres negras na construção de novos imaginários: nossa atuação política, nossa incidência no Estado, nossas formas de construir utopias. Fui muito impulsionada, quase provocada, por essa obrigação que eu sentia com as mulheres negras brasileiras.

Se não disputarmos o imaginário, o racismo vence. A gente precisa disputar a narrativa — o que se fala de nós, o que se projeta sobre nós, o que tentam determinar como destino para nós. Por isso estamos na Marcha: para afirmar que somos sujeitas da nossa própria história.

A senhora é professora e formadora. Como tem sido esse momento de 2025 para a formação de mulheres negras?

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Em 2015, muita gente falava sobre ser a primeira da família na universidade. Agora estamos em outro momento: já somos advogadas, cineastas, jornalistas. É um reposicionamento. Mas reposicionamento não significa fim do racismo — ele segue no nosso encalço. Por isso, esse é um momento para não nos deixarmos capturar pela lógica dos algoritmos, pelo capitalismo."

Quem conseguiu se reposicionar precisa se engajar ainda mais na luta e pensar: como é que a gente joga nossa alavanca mais para o alto?

A senhora mencionou a ausência de mulheres negras na Suprema Corte. Em 20 de novembro, o presidente Lula indicou Jorge Messias para a vaga do ministro Barroso, mesmo após cobranças por uma mulher negra no STF. Como a senhora leu a decisão?

Como uma falta de respeito. Ele sinaliza que não somos nada pra ele. Mas vamos continuar lutando. Precisamos estar, não porque queremos, mas porque a democracia só é plural quando todas as corporeidades ocupam os espaços de poder. É por isso que gritamos, exigimos, dialogamos e propomos outro quadro de representação para o país.

O que podemos esperar desse reposicionamento das mulheres negras nos próximos anos?

O tempo está maluco, é difícil cravar. Mas, considerando nossa luta histórica desde o pós-escravidão, vejo duas coisas. De um lado, o racismo de reação continuará: quando nos reposicionamos, ele reage. De outro, vamos nos fortalecer. Em 2035, poderemos olhar para trás e dizer: conquistamos isso. Já temos mulheres no STF. Sou esperançosa, não pela espera, mas pela luta que conquista. Vamos chegar lá e, quando chegarmos, vamos dizer o que piorou e o que não mudou. E continuaremos lutando.

Esta entrevista faz parte da série Juntas pelo Bem Viver, uma iniciativa da Coalizão de Mídias Negras e Feministas, formada por Gênero e Número, Alma Preta, AzMina, Instituto Mídia Étnica e Nós, Mulheres da Periferia.

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Laila Nery

Repórter e pesquisadora baiana, Laila Nery escreve da fronteira entre política e afeto. Formada pela UFBA e mestranda em Ciências da Comunicação na USP, cobre política com olhar atento às desigualdades e à representatividade. Já passou pela TV Bahia, pelo UOL e pelo Grupo Estado, o que mais gosta é de ouvir histórias, especialmente as que o país insiste em calar.

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