“Políticas de combate à fome precisam priorizar mulheres”, Adriana Salay, historiadora que pesquisa renda e acesso a alimentos

Adriana Salay estuda a fome no Brasil sob a perspectiva da falta de acesso a renda e comanda o projeto Quebrada Alimentada, iniciativa que oferta alimentos e refeições à base de orgânicos em São Paulo.

Após anos de estudos, que tiveram a obra de Josué de Castro como base e versavam sobre a relação entre a fome e a desigualdade de renda, a historiadora e doutora em História Social pela Universidade de São Paulo (USP) Adriana Salay partiu para a prática. 

Em 2020, em plena pandemia, Salay criou o Quebrada Alimentada, projeto  que oferece alimentos orgânicos a pessoas em situação de vulnerabilidade econômica e social, na Vila Medeiros, no extremo Norte de São Paulo, que ela comanda ao lado do marido, o chef Rodrigo Oliveira.

Em entrevista à Gênero e Número, a pesquisadora destaca como a renda é o fator determinante para as escolhas alimentares das mulheres negras chefes de família e mães solo. Ela frisa a importância de uma política econômica que venha a sobretaxar os produtos ultraprocessados e facilitar o acesso aos alimentos in natura, especialmente para as mulheres negras sem acesso a renda. Como caminhos para o combate à fome, Salay assegura que as mulheres precisam ser prioridade no acesso às políticas emergenciais de combate à fome e de acesso à terra.

Esta é a primeira de uma série de quatro entrevistas que compõem o projeto Caminhos da Alimentação: o que chega à mesa das mulheres negras. O especial multimídia mostra, por meio de dados, vídeos e relatos, fatores que interferem na aquisição e no consumo de comida de verdade por mulheres negras chefes de família. 

Leia a entrevista: 

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Qual o peso da renda nas escolhas alimentares das mulheres e como isso se relaciona com o aumento do consumo de ultraprocessados?

A renda, hoje, é o principal fator de acesso à alimentação. Muitas pessoas recomendam escolher bem os alimentos, mas para a imensa maioria da população não há escolha. Grande parte da população brasileira inseriu a alimentação no mercado. Antes, na era pré-capitalista, havia um certo controle nas trocas comerciais. Hoje, a situação se inverteu. O mercado domina a alimentação e a população se molda ao mercado. Tudo passa pelo mercado. As pessoas vendem a sua força de trabalho e o seu tempo e usam o dinheiro que ganham para comprar comida. O Brasil subsidia a Coca-Cola e sobretaxa os orgânicos. O meu dinheiro e o seu dinheiro servem para fazer com que a Coca-Cola seja vendida por um preço mais barato, mas os orgânicos precisam de um certificado para serem comercializados. Isso onera a produção.

No meu mestrado, eu trabalhei com a POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares) e ela mostra que a última coisa que é tirada do cardápio das classes D e E é o feijão com arroz. As classes mais altas consomem mais ultraprocessados, mas também consomem mais orgânicos e proteínas de diversos tipos. As pessoas das classes D e E desejam consumir mais ultraprocessados e isso é fruto da propaganda, que cultiva o desejo por esses produtos. A gente precisa de uma política pública de incentivo aos produtos in natura. Caso contrário, as pessoas vão preferir comprar dois pacotes de miojo em vez de um maço de alface, por causa do preço e da falta de tempo para cozinhar. Obrigar uma mulher que leva duas horas para chegar no trabalho, duas horas para voltar, chega em casa e ainda tem que cuidar dos filhos, a cozinhar vegetais e raízes orgânicas é mais uma violência com essa mulher.

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Uma mulher negra, mãe solo, nordestina e rural é o principal alvo da fome"

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Foto: João Velozo/ Gênero e Número

Quando se trata de mulheres negras e mães solo, a fome decorrente da falta de acesso à renda se expressa de forma mais intensa?

As mulheres negras são o grupo mais vulnerável da sociedade, portanto se a fome é consequência da desigualdade social e essa desigualdade se expressa através das questões de gênero e raça, as mulheres negras são as mais prejudicadas. Esse núcleo de mães solo é o que mais atendemos no [projeto] Quebrada Alimentada. Levando em conta que a fome concentra maiores números nas regiões Norte e Nordeste, se a gente somar as escalas de desigualdades, uma mulher negra, mãe solo, nordestina e rural é o principal alvo da fome. Cruzar gênero e raça é fundamental, reflete o retrato da sociedade brasileira. Se a gente for ver, quem não ocupa os postos de trabalho de lideranças? Quem recebe os menores salários? Quem está no nos empregos precarizados? São as mulheres negras. Então, a fome é um sintoma de uma doença que se chama desigualdade social. 

Qual a importância das políticas sociais, como o Bolsa Família, no combate à fome?

A gente precisa de uma solução imediata e emergencial para que as pessoas possam comer. Por isso, a  transferência de renda é fundamental, tanto que o Bolsa Família é um desmembramento do Programa Fome Zero Como essas políticas de transferência de renda já estão consolidadas há algum tempo, há pesquisas que mostram que o Bolsa Família foi importante para retirar as mulheres da condição de extrema pobreza. Por exemplo, essa mãe que recebe uma renda consegue adquirir alguns itens que podem aperfeiçoar os estudos dos filhos, eles têm um melhor desempenho, conseguem ir para um curso superior e melhorar a renda da família. Mas é importante destacar que a fome não é solucionada apenas com a transferência de renda.

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A gente precisa de uma solução imediata e emergencial para que as pessoas possam comer. Por isso, a transferência de renda é fundamental"

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Neste caso, a doação de alimentos e de refeições frescas, a criação de hortas e restaurantes comunitários, também são relevantes para minimizar a fome?

Acho que a gente tem que pensar programas emergenciais e programas estruturais. Como diz o [José] Graziano, quem está com fome, está com fome agora. A gente não pode esperar que programas estruturais façam efeito. A doação de alimentos nos mais diversos formatos, por exemplo, pode solucionar emergencialmente questões específicas das mulheres. Muitas mulheres passam duas horas em uma condução, pois moram nas periferias das cidades, e não têm tempo de cozinhar um alimento in natura, isso representa um fardo a mais para elas. Uma ação que doa uma refeição pronta, com tudo o que ela precisa, elimina esse trabalho, que quase sempre é feito apenas pelas mulheres. Muitas delas são culpabilizadas por não oferecer uma refeição adequada aos filhos, fruto do volume de trabalho que elas têm, além de cozinhar os alimentos.

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Quais são os caminhos que o Brasil precisa seguir para intensificar as ações contra a insegurança alimentar nos seus diversos níveis?

As políticas emergenciais de combate à fome precisam ter as mulheres como prioridade. Elas precisam ser prioridade como pessoa de referência para receber o Bolsa Família, pois as pesquisas mostram que são elas que fazem a gestão da alimentação do lar. Por isso, cabe a elas terem o poder de compra para escolher esse alimento. Outra ação importante é o Programa Minha Casa, Minha Vida, que já prioriza as mulheres no cadastro. Mesmo não estando ligado à alimentação, essa ação é importante, pois, aqui, no [projeto] Quebrada Alimentada, temos visto muitos casos que relacionam fome e violência doméstica. Se é oferecido o mínimo possível para essa mulher, que enfrenta tantas camadas de problemas, se a gente foca nela como principal receptora das políticas públicas, a gente oferece caminhos possíveis de solução.

Além do Bolsa Família, a retomada das Cozinhas Solidárias, agora, pelo Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) é muito importante. Há pessoas que não têm botijão de gás em casa, então, uma cesta básica não vai resolver, mas a marmita sim. Entre as medidas estruturais, é preciso garantir moradia para as mulheres.  Hoje, moradia é a despesa que mais compromete o orçamento, até os anos 70 era alimentação. Outra coisa que eu destaco é a necessidade de fazer reforma agrária no Brasil. A gente tem uma das maiores concentrações de terra e de renda do mundo. Se a gente oferecer terra para essas mulheres, que são maioria na agricultura, vamos oferecer a possibilidade de produzir o próprio alimento e de gerar renda.

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Adriana Amâncio

Jornalista formada pela Universidade Joaquim Nabuco (PE) com 25 anos de experiência em assessoria de comunicação e reportagem nas áreas de direitos humanos, gênero e meio ambiente. É da equipe Inclusão e Diversidade do Colabora – jornalismo sustentável, e já assinou matérias em veículos como o O Joio e o Trigo, Gênero e Número, Marco Zero Conteúdo, ((o)) Eco e Saiba Mais e assinou reportagens para o The Brazilian Report nas eleições 2022. Venceu o edital “Primeira Infância e a cobertura das eleições”, realizado pelos veículos Nós, Mulheres da Periferia, Alma Preta Jornalismo, Amazônia Real e Marco Zero Conteúdo, com o apoio da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal. Já recebeu o Prêmio Sassá de Direitos Humanos, além de ser premiada por As Amazonas, Abraji e pela Embaixada dos Estados Unidos com o podcast “Cidadãs das Águas”, no curso Podcast: o seu conteúdo para o mundo.

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