“Práticas de violência contra a mulher foram ensinadas a indígenas para garantir exploração de seus territórios”, afirma diretora do Ministério das Mulheres
As mulheres indígenas vivem um cenário devastador no Brasil. De 2014 a 2023, o total de registros de violências físicas, psicológicas e sexuais contra elas mais que triplicou. A violência sexual, que atinge principalmente menores de idade, por sua vez, quadruplicou. Esses são alguns achados de um levantamento inédito da Gênero e Número com base em dados do Ministério da Saúde. Mas não basta fazer um raio-x dos abusos que vivem as mulheres originárias. É preciso saber: o que está por trás desses números?
Indígena Fulni-ô e socióloga formada pela Universidade de São Paulo, Pagu Rodrigues ocupa, desde abril de 2023, o cargo de Diretora de Proteção de Direitos na Secretaria Nacional de Enfrentamento à Violência Contra Mulheres do Ministério das Mulheres. Em uma conversa por videochamada em 7 de maio, ela falou à Gênero e Número sobre as condições históricas e socioeconômicas que explicam o aumento da vulnerabilidade das mulheres indígenas.
“Em regiões onde há conflito pelo território, a violência sexual marca bastante, como uma estratégia de desmobilizar a luta dessas lideranças. Em territórios onde existe uma demarcação garantida, as violências de âmbito doméstico acontecem com bastante frequência – um legado do processo de colonização”, afirmou. “Quando olhamos para dentro dessas etnias, percebemos que originalmente nada disso era cultural.”
Rodrigues explicou ainda como o Ministério das Mulheres tem trabalhado para incluir as especificidades das indígenas em políticas públicas de enfrentamento à violência e nos adiantou que a principal política do governo, a primeira das seis Casas da Mulher Indígena, espaços de acolhimento a sobreviventes de violência com direito a apoio jurídico, psicológico, cozinha coletiva e espaço para rituais tradicionais, deve ser entregue em 2026. Por fim, a diretora comentou como a transição na liderança da pasta afetará os trabalhos relativos às mulheres originárias. Comandado desde o início do governo Lula por Cida Gonçalves, o Ministério das Mulheres ganhou uma nova titular, Márcia Lopes, dois dias antes da conversa com a Gênero e Número.
O Brasil abriga centenas de etnias indígenas, cada uma com suas especificidades culturais. Como nossas leis e políticas de enfrentamento à violência podem se tornar ferramentas acessíveis à pluralidade de mulheres indígenas?
Uma primeira questão importante é destacar o histórico bastante estruturante de como se forma o Estado brasileiro: a partir da violação, primeiro dos povos originários, com marcos legais que vão instituindo a cultura de estupro, de hiperssexualização do corpo das mulheres indígenas. Também do sequestro dessas mulheres e de uma espécie de domesticação para garantir que elas estivessem em matrimônios forçados [com brancos], e seus filhos não fossem mais considerados indígenas. É uma lógica de embranquecimento que foi definindo como as mulheres indígenas são tratadas até os dias de hoje.
Em termos legislativos, de marcos legais de garantias de direito, temos uma das maiores leis do mundo de enfrentamento à violência doméstica e familiar e também de tipificação do feminicídio como crime autônomo. Mas nenhuma delas considera as especificidades e as diversidades das 305 etnias indígenas. Nessa estrutura e nessa cultura do geno-etnocídio indígena, muitas vezes se acreditou que bastava a integração nacional dessa população dentro da Constituição e que automaticamente seus direitos estariam garantidos.
De outro lado, existe uma narrativa, um conceito sociológico e antropológico de que essas violências são culturais e, portanto, não precisam ser enfrentadas, porque fazem parte de um processo originário. Não é verdade.
Violência contra a mulher não é cultura [indígena]. Isso faz parte de um processo de violência colonial, do patriarcado, que antes da invasão colonial tinha uma baixa intensidade.
A partir desse processo é que se agravam as relações de poder, de opressão e de violência contra essas mulheres, o que foi deixando um legado para todos esses povos. Debater e garantir direitos específicos para as mulheres indígenas, tanto em termos legislativos quanto de política pública é fundamental.
As autoras do artigo A violência de gênero invisível: as vítimas indígenas mencionam a importância de incorporar às políticas de enfrentamento à violência um “enfoque holístico” e a “cosmovisão” das mulheres indígenas. O que isso engloba, na prática?
Primeiro, o respeito à tradicionalidade dessas culturas. Há, inclusive, processos culturais internos de cada povo sobre como resolver essas violências. Significa entender a relação que essas mulheres têm com o território, considerar na aplicação dessas legislações, dessas políticas públicas, um cuidado maior em relação a essas especificidades e cosmovisões. Como a vida dessa mulher é em comunidade, se ela não tiver uma garantia de proteção e de acolhimento correto da política pública [após uma denúncia], ela pode ser mais exposta a outros tipos de violência dentro do próprio território dela. Ou ela mal consegue acessar esses direitos, porque nem sua própria língua é respeitada.
Significa uma mudança estrutural de como o Estado, de como a política pública age em relação à diversidade, considerando que somos plurinacionais. Cada povo se identifica a partir dos seus costumes, de um modo de vivenciar o seu território, de questões étnicas que diferem de um povo para outro.
Nandjá Xokleng, residente em José Boiteux/SC, disse às pesquisadoras desse artigo que “a grande violência que precisamos enfrentar é o machismo que se infiltrou até dentro das aldeias”. Pode comentar essa afirmação?
Faz parte exatamente desse processo histórico de 525 anos de colonização, de violências que não eram conhecidas por esses povos. Elas estão muito baseadas em um modo de produção pautado pelo extrativismo das riquezas dos territórios indígenas, que essas mulheres conseguem preservar. As mulheres indígenas, durante muitos anos, têm sido lideranças neste processo de luta por demarcação de território, e o machismo realmente perdura nessas relações. Por isso, elas têm sido o principal alvo, tanto de violências internas às etnias delas, quanto das violências que decorrem do conflito externo, do conflito pelo território, do racismo ambiental, da questão do garimpo.
Esses dois eixos, as violências externas e a violência interna, definem muito quais são as recorrências de tipos de violência que essas mulheres vão sofrer. Em regiões onde há conflito pelo território, a violência sexual marca bastante, como uma estratégia de desmobilizar a luta dessas lideranças. Em territórios onde existe uma demarcação garantida, as violências de âmbito doméstico acontecem com bastante frequência – um legado do processo de colonização.
Diferentes práticas de violência contra a mulher foram ensinadas, inclusive para homens indígenas, para garantir a continuidade dessa exploração.
Um levantamento da Gênero e Número revelou que, de 2014 a 2023, os registros de violência cresceram muito mais entre as mulheres indígenas (258%) do que entre as brasileiras de forma geral (207%). A violência sexual teve o maior aumento entre as indígenas (297%) e a maior disparidade em relação à população feminina em geral (188%). O que está por trás desses números?
A primeira coisa é um modelo econômico de exploração dos territórios indígenas e a não resolução dos conflitos por demarcação de terras que perdura desde a Constituição de 1988. A regra era que as demarcações deveriam acontecer no máximo cinco anos após a declaração da constituinte. Estamos em 2025, e uma grande parte desse território não foi demarcada. Há um incentivo a discussões que aprovam, por exemplo, o marco temporal com uma perspectiva de tirar a população indígena do seu território original, além do crescimento desenfreado do garimpo, da monocultura, do agronegócio nesses territórios.
Isso vai criando o mesmo processo que um megaprojeto. Essas pessoas chegam, instalam o sistema de exploração, que inclui a exploração de corpos femininos – no caso, das mulheres indígenas –, levam costumes que não pertencem àquele território, como a própria pornografia, que incentiva e amplia os índices de violência sexual.
O estupro tem sido usado como estratégia para desmobilizar a luta de lideranças femininas indígenas.
Sequestrar e estuprar tem sido uma forma de demonstrar para esses povos que ali não é o lugar deles e que a imposição da violência é o mecanismo de garantir que essa população não permaneça. As pessoas que encabeçam essas violências não contam é com a grande resistência que essas mulheres indígenas impõem nos seus territórios.
Outro fator fundamental é a ausência de políticas públicas para atender corretamente as mulheres indígenas. E essa ausência, ou a não recepção dessas mulheres dentro do serviço público de acolhimento, decorre de um racismo estrutural, um racismo de Estado que acha que não tem que garantir esses direitos para as mulheres indígenas. É comum uma mulher chegar numa delegacia, muitas vezes não falar o português direito, e não ter direito a uma tradutora; o delegado ou a delegada não querer registrar o boletim de ocorrência e lidar com aquela violência como se fosse um ato cultural daquele povo; e, no final, mandar a pessoa voltar e resolver dentro do território dela.
Essas mulheres realmente ficaram abandonadas durante muito tempo. Nesse mesmo período que vocês levantaram, as mortes violentas contra mulheres indígenas cresceram em 500%. Esse crescimento é brutal e expressa o conflito por território de uma política genocida, que afeta primeiramente as mulheres. E não há uma preocupação em prevenir, né? Porque o homicídio – e, muito provavelmente, inúmeros casos dentro desse percentual são de feminicídio – está pautado nesses conflitos, nessa exploração e na ausência de política pública de prevenção a todas as outras violências que antecedem a morte violenta ou o feminicídio.
Os dados mostram também uma maior vulnerabilidade das meninas. 79% dos registros de violência sexual contra as indígenas tiveram como vítimas menores de idade. Em metade deles, as vítimas tinham menos de 14 anos.
É preocupante. Temos feito um trabalho nos territórios, porque uma das coisas que foi ensinada durante esse processo de violência colonial é que é cultural você estuprar meninas menores de idade, que é cultural que essas meninas sofram exploração sexual. E, muitas vezes, em inúmeros territórios, o que percebemos em algumas situações é uma ausência de percepção de que essas coisas são crimes e de que essas coisas são violências.
Ou há uma percepção de que isso não pode acontecer, mas essas mulheres não têm onde recorrer. Para sair dos territórios e acessar um equipamento público para fazer uma denúncia para essa menina, muitas vezes as mulheres levam cinco dias em uma travessia de barco. Isso para ser atendida, para ter o seu direito garantido no Código Penal quanto à interrupção da gravidez, o aborto legal. E a justificativa que é usada comumente em todos esses casos é que isso é cultural. Quando olhamos para dentro dessas etnias, percebemos que originalmente nada disso era cultural. De novo, deriva sim da ausência de garantia de direitos para toda essa população, nos 305 povos que passaram anos sem política pública efetiva.
Do golpe contra a presidenta Dilma até o final do governo Bolsonaro, o que tivemos concretamente foi um incentivo à continuidade dessas violências.
Tínhamos um representante de Estado, presidente à época, que disse para quem quisesse ouvir que estava paquerando menores de idade. Foram declarações públicas, discursos misóginos de incentivo a violências e a um tratamento à população indígena, como se ela fosse bife ou selvagem e merecesse esse tipo de tratamento. Imagina o estrago que isso produz em termos de índice de violência.
E, além de tudo, a impunidade dos agressores, não só em relação à população indígena. Houve um incentivo à impunidade das violências contra meninas e mulheres todos os dias no Brasil. Esse é o retrato que nós pegamos nesses últimos dois anos e meio e que temos trabalhado para reverter.
Vimos também que as regiões Sul e Sudeste são as que apresentam maior disparidade entre a taxa de violência sofrida por mulheres indígenas e por mulheres brancas. O que explica isso?
O primeiro primeiro elemento é a expansão do agronegócio, desse modelo do capital financeiro, industrial, nos territórios indígenas. De monocultura para soja, cana, plantação de palma e que tem como principal alvo esses territórios. Além disso, realmente houve um incentivo nos últimos seis anos, sobretudo no Sul e no Sudeste, a uma política bastante racista, o reforço de um discurso de que a população indígena é inimiga do desenvolvimento, e que foi incentivando a ampliação desses índices de violência. Também a expansão desenfreada da urbanização desses territórios, porque a urbanização cresce sem planejamento, combinada à especulação imobiliária nos territórios indígenas. Então, são fatores econômicos que têm se agravado e garantido que esses territórios estejam cada vez mais com insegurança alimentar, índices de pobreza, uso abusivo de álcool, aumento de violência em relação às mulheres.
As violências obstétricas que as mulheres indígenas sofrem sempre vêm acompanhadas de um fator de discriminação étnico-racial, portanto, de racismo. Houve um desincentivo, no último período, para que essas mulheres parassem de fazer os partos dentro dos seus territórios ou com suas parteiras tradicionais. Só que, quando elas chegam na rede pública de saúde, elas não têm esses direitos tradicionais respeitados. Tem cultura, por exemplo, em que precisa enterrar a placenta. Tem cultura em que a mulher não pode simplesmente fazer o parto e já na sequência tomar banho. Tem cultura em que o cônjuge precisa ficar quase que durante todo o processo acompanhando essa mulher, desde o parto até a recuperação. E, muitas vezes, isso não é permitido.
As outras violências que as mulheres indígenas sofrem são bastante parecidas com as que as mulheres negras sofrem, porque o fator de discriminação étnico-racial é determinante nisso. Então, por exemplo, o uso de menos anestesia, de manobras proibidas durante o parto, a falta dos cuidados devidos no pós-parto, o tempo de espera na hora de ter a criança.
Às vezes, a mulher já está pronta para fazer o parto, mas fica ali um ou dois dias esperando, o que muitas vezes acarreta em perda do bebê ou em agravantes para a saúde dela.
Antes, no processo de pré-natal, essas mulheres já não passam muitas vezes pelos exames que são necessários para checagem de saúde delas, da criança.
Como a vulnerabilidade econômica das mulheres indígenas influencia no aumento da violência doméstica e como o Ministério das Mulheres tem atuado nessa frente?
A primeira ação que temos realizado dentro da política de cuidados e da igualdade de gênero é a garantia da redução da desigualdade em relação à empregabilidade e ao nível salarial das mulheres indígenas no mercado de trabalho. Durante o processo de pandemia, a empregabilidade da população indígena [foi a que mais] reduziu. O fator do racismo tem sido importante na discussão de políticas reparatórias para garantir, primeiro, a empregabilidade dessas mulheres, e depois, a qualificação. Muitas são formadas e continuam sendo empregadas nos postos mais precarizados, então tem o terceiro momento, que é esse de correção em relação à igualdade salarial. No último relatório de igualdade salarial, nós já percebemos uma diminuição dessa distância salarial para mulheres negras e para mulheres indígenas.
Outro fator importante é que, muitas vezes, as mulheres indígenas não vão entrar no mercado formal de trabalho, porque são outros costumes de empreendedorismo, de renda que elas produzem dentro do território. Então, há um incentivo para garantir que essas mulheres que trabalham com o artesanato, que trabalham com essas outras frentes que não estão exatamente no mercado formal CLT, possam ter um escoamento da sua mercadoria e qualificação.
No Norte do país, nós estamos produzindo um projeto agora com as mulheres Yanomami, junto ao Ministério do Desenvolvimento Social, para garantir que elas possam ter um lugar de venda do seu artesanato. Elas produzem muito artesanato, muita tapeçaria. É uma fonte de renda para as Yanomami e precisa haver programas que incentivem e garantam não só que elas tenham um lugar onde fazer a sua produção, mas também o escoamento, que elas tenham lugares onde possam fazer a venda e obter a renda. O artesanato para a população indígena, hoje, é uma das principais fontes de renda nos territórios, mesmo para as mulheres indígenas que estão em contexto urbano. Então, temos que trabalhar nas duas frentes e têm sido criadas políticas com foco nesse sentido.
Que ações o Executivo está promovendo hoje para enfrentar a violência contra as mulheres indígenas e no que elas diferem das ações voltadas à população feminina em geral?
A primeira é a política da Casa da Mulher Indígena, que é um equipamento de proteção e acolhimento para mulheres indígenas em situação de violência. A segunda delas, devemos aprovar durante o processo das conferências territoriais da 1ª Conferência Nacional de Mulheres Indígenas: a Política Nacional de Prevenção à Violência contra Mulheres Indígenas. É uma política que vai debater propostas dentro do eixo de garantia de direitos sexuais e reprodutivos, políticas de prevenção à violência contra mulheres indígenas, as necessidades de mudanças nas legislações e nas leis existentes sobre enfrentamento à violência. É uma política completa, integral para a prevenção à violência contra mulheres indígenas.
Estamos também na fase de entregar um protocolo de atendimento para mulheres indígenas nas Casas da Mulher Brasileira, para garantir que a rede especializada e específica de enfrentamento à violência respeite suas especificidades. O protocolo está pronto e prestes a ser lançado. Combinado a isso, o estabelecimento adequado de fluxo dentro da rede, incluindo os órgãos indigenistas – a Funai, a SESAI, o Ministério dos Povos Indígenas – para conseguirmos garantir uma política estrutural para essas mulheres. Sabemos que, no minuto em que essas políticas forem implementadas, outras coisas vão precisar ser feitas, mas estamos partindo de praticamente do zero.
É importante destacar que, no âmbito do sistema de justiça e da rede de segurança pública, temos defendido o projeto de lei da deputada Célia Xakriabá [do Psol], que vai garantir uma série de coisas que, na nossa política, também serão garantidas. O direito ao tradutor, ao intérprete, ao facilitador cultural; o direito que essa mulher tem de ter os seus costumes preservados e respeitados quando ela acessa a delegacia, a Casa da Mulher Brasileira, a Casa da Mulher Indígena. Isso é necessário para que tenhamos um sistema de proteção e acolhimento capaz de, no médio e longo prazo, impactar os índices de violência que essas mulheres estão sofrendo.
Pode falar mais sobre a Casa da Mulher Indígena? Em que pé andam as seis unidades prometidas?
No dia 16 de maio, vamos lançar o concurso público da Casa da Mulher Indígena, para definir o projeto arquitetônico e executivo, além dos serviços que essas casas vão ter. O que chamamos de programa de necessidades está pronto. Nós, do Ministério das Mulheres, somos as promotoras, as organizadoras e coordenadoras da política, mas ele foi discutido com as mulheres indígenas, com os órgãos de governo, a SESAI, a Funai, o Ministério dos Povos Indígenas, o Ministério dos Direitos Humanos.
É um equipamento de proteção e um equipamento reparatório e de acolhimento de mulheres indígenas em situação de violência, que vai ter advogadas, apoio psicossocial, profilaxia e contracepção de emergência para os casos de violência sexual. Vai haver abrigamento, formação para essas mulheres, apoio para a autonomia econômica. Vai haver uma rede integrada dentro da casa para atender e acolher mulheres indígenas em situações de violência, mas ela também será um equipamento que respeitará as tradições e as diferentes culturas indígenas. Vai ter um espaço para elas exercerem a cultura tradicional, como a cozinha coletiva, a lavanderia coletiva, o terreiro ou o pátio para rituais tradicionais, a horta medicinal e tradicional. Queremos que seja um equipamento que contrate profissionais indígenas e indigenistas, considerando também a contratação de antropólogas, sociólogas, facilitadoras culturais e intérpretes, para que seja um espaço de proteção para essas mulheres.
Prometemos inicialmente seis casas. Sabemos que a demanda vai ser maior, mas inicialmente serão seis.
Também assumimos o compromisso de ter inicialmente uma [Casa da Mulher Indígena] no território Yanomami, para garantir que dentro de toda a política para enfrentar a crise emergencial.
Os diálogos estão acontecendo com o território, dentro do protocolo de consulta Yanomami, para que possa ter mais uma lá.
Já tem orçamento definido dentro da nossa lei orçamentária de 2025, então esperamos que, lançando um concurso público agora de modalidade de licitação, tenha o melhor projeto arquitetônico, que mais represente essas demandas das mulheres indígenas. Queremos apresentar o resultado desse concurso em agosto, na 1ª Conferência Nacional de Mulheres Indígenas. A partir de então, começaríamos a fase propriamente de negociação com os estados, de licitação e construção das casas.
Imaginamos que as primeiras Casas da Mulher Indígena sejam entregues em 2026.
Como tem sido o diálogo de vocês com a sociedade civil?
O Ministério das Mulheres tem ido a todos os territórios em que é demandado a estar para discutir e trabalhar políticas de prevenção à violência. Estamos realizando, junto com o Ministério dos Povos Indígenas, as pré-conferências territoriais por biomas para fazer esse trabalho de escuta e de discussão de propostas, de políticas que sejam aprovadas conjuntamente com as mulheres indígenas. Vamos realizar, com o Ministério dos Povos Indígenas e com a Anmiga, que é hoje a grande associação de mulheres indígenas, a 1ª Conferência Nacional de Mulheres Indígenas em agosto.
Afora, conseguimos realmente participar do processo da Marcha das Mulheres Indígenas. Estamos lá com o Ministério das Mulheres para fazer toda essa escuta com as mulheres indígenas. Tem sido um diálogo bem estreito. É uma aposta mesmo do Ministério das Mulheres que dialogar, ouvir a sociedade civil, ouvir as mulheres indígenas é o que vai garantir que a política pública que estamos implementando seja exitosa.
Em 5 de maio, Márcia Lopes tomou posse como ministra das Mulheres, substituindo Cida Gonçalves, que estava à frente da pasta desde a posse de Lula. Como a transição na liderança do ministério afeta todo esse trabalho que vem sendo planejado?
Essa transição, ao contrário do que vem sendo ventilado muitas vezes na imprensa, tem sido bastante justa e qualificada. A ministra Cida sai deixando um legado muito importante, que é, como ela mesma disse, o de colocar uma pedra fundamental no ministério, garantir que ele existisse e se consolidasse. E a ministra Márcia Lopes está chegando com o potencial de entregar muita coisa dentro da pauta das mulheres. Certamente será uma gestão bastante exitosa também. O que já temos visto é o compromisso dela com as mulheres indígenas. Em dois dias como ministra, ela já afirmou em todas as suas falas a importância de termos políticas públicas para as mulheres indígenas.
Acreditamos que tudo que está em andamento terá continuidade e que ela também imprimirá sua marca nos avanços em relação às mulheres indígenas e às mulheres de maneira geral no Brasil. Ela tem falado muito da necessidade de termos políticas consistentes de autonomia econômica, de enfrentamento à violência, de conseguirmos que essas políticas cheguem para o Brasil mais profundo. Então, para as mulheres indígenas, quilombolas, do campo, da água, da floresta, vamos ter uma continuidade. E, certamente, coisas novas que a própria ministra Márcia deverá trazer para a pauta, além de acompanhar com as mulheres indígenas o processo das conferências locais e da conferência nacional. As expectativas são muito boas.
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Bruna de Lara é escritora e jornalista formada pela UFRJ. Atuou como editora do Intercept Brasil por seis anos e foi duas vezes finalista do Prêmio Gabriel García Márquez de Jornalismo, o maior da América Latina. Escreveu o romance "Se o sol apagar" e é coautora do livro de ensaios "Feminismo além das redes".
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