“Misoginia é porta de entrada para grupos de extrema direita”

 Luka Franca, coordenadora do Movimento Negro Unificado de São Paulo é coautora de relatório sobre extremismo de direita entre jovens fala sobre os mecanismos de cooptação de adolescentes para atentados contra escolas

Foto: Marcelo Camargo/Agencia-Brasil

O discurso misógino, de ódio às mulheres, disfarçado de piada e ironia, costuma ser a isca para a cooptação de crianças e adolescentes para comunidades online que incentivam atentados a escolas.

Esses grupos, que disseminam ódio, já foram restritos a fóruns anônimos, os chamados chans, cujo conteúdo não aparece nos mecanismos de busca que estamos acostumados a usar. Hoje, porém, estão presentes em ambientes de fácil navegação, como os grupos de WhatsApp ou Telegram, nas comunidades do Discord — software inicialmente projetado para a comunicação de gamers —, e nas redes abertas como Tik Tok e Twitter.
Adolescentes cooptados pelas comunidades passam a ter contato com discursos de extrema direita, o que inclui racismo, homofobia e defesa da supremacia branca, o que ajuda a explicar o perfil da maioria dos algozes de atentados às escolas no Brasil e nos Estados Unidos: meninos e homens, cisgêneros, héteros e brancos. Por outro lado, as vítimas são, na sua maioria, meninas e mulheres.

Coautora do relatório O ultraconservadorismo e extremismo de direita entre adolescentes e jovens no Brasil: ataques às instituições de ensino e alternativas para a ação governamental, entregue ao governo de transição, Luka Franca conversou com a Gênero e Número sobre os mecanismos de cooptação de crianças e adolescentes pela extrema direita e a necessidade de fortalecer as comunidades escolares. Luka também é coordenadora do Movimento Negro Unificado de São Paulo e mãe de uma adolescente de 14 anos.

Leia os principais trechos da entrevista.

Misoginia como porta de entrada

O tempo todo, crianças e adolescentes entram e saem dessas comunidades. Nem todos vão cometer algum tipo de atentado. Porém, você consegue verificar aqueles que ficam e que, realmente, são cooptados e servem para cooptar outros meninos. A gente chama de movimento de ônibus, entra muita gente pela frente, sai muita gente por trás e alguns permanecem até a parada final.

Os que ficam têm cada vez mais contato com o conteúdo misógino, racista e supremacista branco da extrema direita. A misoginia é a porta de entrada para extrema direita. Não é possível combater o discurso de ódio sem combater o machismo e o racismo. É fundamental isso, porque eles trabalham justamente na normalização do meme misógino, racista, para, então, partir para a normalização do meme nazista, da ironia nazista.

Em alguns casos a família daquele jovem é nazista mesmo, mas na maioria dos casos são meninos de famílias trabalhadoras, suas mães estão se virando em dois ou três trabalhos. Pode acontecer com o filho de qualquer pessoa.

Grupos de cooptação

Os jovens são cooptados achando que é ok a ironia em cima da misoginia, a piada em cima da misoginia. [Até pouco tempo] eles se localizavam dentro do que a gente chama de incels [acrônimo de celibatários involuntários, em inglês].

Antes da pandemia, o movimento dos grupos ocorria em outras partes da machosfera [ambiente virtual que prega superioridade masculina], em fóruns na deep web. Durante a pandemia, extremistas de direita tomaram uma comunidade chamada True Crime Community (TCC), onde muita gente falava sobre crimes reais. Mas o debate foi ocupado por jovens com discurso de ódio, muito extremistas, que enaltecem atiradores em massa e copiam o léxico e a forma de falar dos atiradores que eles admiram. Se antes da pandemia a maioria desses atiradores estava dentro da machosfera, onde era possível identificá-los, no pós-pandemia, eles estão mais espalhados por grupos de WhatsApp, Telegram, Tik Tok, Twitter e Discord.

Discurso de ódio e governo Bolsonaro

Existe essa transição [dos chans para as redes sociais], mas a gente não consegue localizar se foi antes ou depois da pandemia, porque é orgânico. A professora Adriana Dias [que localizou mais de 300 células neonazistas no Brasil], identificou um aumento de células nazistas durante o governo Bolsonaro. O trabalho da professora demonstra, porém, que o bolsonarismo pode ser uma porta de entrada para o nazismo, mas não necessariamente o contrário existe.

O discurso de ódio, misógino e racista, que a gente vê no bolsonarismo, gera um caldo para que haja maior aceitação desses memes e ironias mais pesadas que a gente via em chans. Dentro desse processo, temos uma geração que vai desenvolver comunidades e vai se utilizar de ferramentas que estão na surface web [mais acessível], que são o Twitter, Tik Tok, Discord, Telegram e WhatsApp. Não precisa mais ir para a deep web para encontrar esses conteúdos.

As redes sociais facilitam o processo de organização das comunidades, elas são usadas como ferramentas. As plataformas precisam de diretrizes próprias de moderação. Ao mesmo tempo, não dá para se valer apenas da autorregulamentação das plataformas, é momento de fazer um debate sério sobre regulamentação de mídias e redes sociais.

Confronto com a segurança pública é desejável

Desde quando eram só os incels [nos fóruns dos chans], existe um padrão que é: ‘eu quero fazer o maior número de vítimas e o confronto com a segurança pública é desejável’. Chegar ao confronto significa [para a comunidade] virar uma referência, pois você cumpriu parte da sua missão, seja de emular o que já fizeram antes, seja de conseguir purificar o mundo das mulheres. Por que Realengo e Suzano são mais importantes? Porque geraram mártires: têm nome, sobrenome e eles morreram na mão da polícia. Tanto que, toda vez que eles saem pra fazer algo desse tipo, eles deixam cartas. O responsável pelo ataque à escola na Vila Sônia postou sobre o episódio no Twitter. Os [outros] meninos, que ficam achando maravilhoso o que ele disse que ia fazer, ficam esperando a parte final, que é o confronto com a polícia.

Chamado à ação

A gente percebe que há dois níveis de postagens nas redes sociais. Tem um mais massivo, que causou pânico recentemente e todo mundo foi correr pra discutir, porque começou a ter lista de estados com ameaças de ataques [a escolas] e datas, no Tik Tok, no Twitter, no WhatsApp. Ao mesmo tempo, não seguem o mesmo padrão do que acontece nas comunidades.

A gente avalia que esses últimos ataques ou tentativas que ocorreram no Brasil, como em Goiás, Manaus e Ceará, já estavam planejados para acontecer em algum momento. Mas as ameaças massivas, que a gente considera exógenas às comunidades, servem como um chamado à ação de quem já tinha o plano. Por isso, há um período menor entre um caso e outro.

Apesar de não fazer parte das comunidades, as ameaças compartilhadas por redes sociais e aplicativos de mensagens terminam sendo encaradas como uma convocação. A gente está lidando com uma roleta russa. Em algum lugar do país, um jovem cooptado pela extrema direita pode olhar para isso e falar: ‘esse é o momento de executar o plano’. Mesmo que seja um jovem, já é muito.

Comunidade escolar

Há casos em escolas privadas, mas a maioria ocorre em escolas públicas. A gente não trata como violência nas escolas, mas sim como atentados contra as escolas, por ter esse elemento de cooptação da extrema direita e pelo fato de que as escolas ainda são um lugar onde é possível a criação de pensamento crítico, o que causa ojeriza na extrema direita.

Neste exato momento, estamos buscando formas de proteger as comunidades escolares – e eu acho que essa é a prioridade mesmo. Mas precisamos lembrar que estamos falando de crianças e adolescentes cooptados pela extrema direita enquanto ainda estão em formação de sua visão de mundo, ideológica, de valores, de moral, que precisam ter seus direitos respeitados perante o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente). É necessário pensar mecanismos de para acessar essas crianças que foram cooptadas.

É um problema complexo, que precisa de saídas multifacetadas. É preciso garantir assistência social e psicológica na escola, que a gestão tenha a escuta para identificar esses movimentos de radicalização, assim como convocar professores, famílias e responsáveis também. A comunidade escolar inteira precisa de formação, não só os professores. O ambiente escolar precisa ser um ambiente comunitário.

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Schirlei Alves

Atua com jornalismo investigativo orientado por dados e sob a perspectiva dos direitos humanos. Formada desde 2008 pela Univali, colaborou para o Epoch Times, no Canadá, e atuou como repórter nos principais jornais do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Seus trabalhos mais recentes foram para a Folha de S.Paulo, Abraji, Agência Lupa, O Joio e O Trigo, The Intercept Brasil e Portal Catarinas. Recebeu como reconhecimento os prêmios ABCR de Jornalismo, Unimed e RBS. Em 2022, concluiu especialização em Jornalismo de Dados, Automação e Data Storytelling pelo Insper.

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