“O Estado brasileiro demorou muito para entender sua responsabilidade sobre a vida das mulheres”, afirma a ministra das Mulheres Márcia Lopes
Ministra das Mulheres faz um balanço da urgência de políticas intersetoriais, do impacto das plataformas digitais na segurança feminina e das travas políticas do Congresso para debater a igualdade de gênero.
Design de capa: Carlos Carneiro | Foto: Dney Justino
Houve um tempo, entre as décadas de 1970 e 1980, em que a paranaense Márcia Lopes viajava a Brasília, ao lado de outros ativistas, para “dormir nos tapetes do Congresso Nacional” e exigir mudanças no Brasil. Entre elas: mais direitos para as mulheres. Quase meio século depois, Márcia segue na capital federal, não mais acampada nos corredores, mas, desde maio de 2025, à frente do Ministério das Mulheres.
Assistente social formada pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) e filiada ao Partido dos Trabalhadores (PT) desde 1982, Márcia construiu sua trajetória no centro das políticas públicas brasileiras. Foi peça-chave na estruturação do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), que organiza e coordena os serviços de assistência social no Brasil, além de ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome em 2010.
Em entrevista à Gênero e Número, ela detalha sua trajetória política e os desafios atuais de articular uma pauta estrutural que o Estado brasileiro, em suas próprias palavras, “demorou muito” para assumir: a violência contra mulheres.
Quem é a Márcia Lopes, para além de ministra das Mulheres? E como a pauta de gênero te atravessou?
Sou filha de uma família de descendência italiana e portuguesa, bastante religiosa e sempre com atuação na comunidade. Minha mãe é viva até hoje, tem 98 anos. Minha avó, que morreu aos 96, era uma mulher muito forte, que enfrentava os desafios do próprio machismo. E, como assistente social, estive onde as mulheres sempre foram maioria na participação, nos movimentos de reivindicação, e sofrendo as consequências do machismo.
Na década de 1970, as mulheres tiveram um papel muito importante, embora ainda vivessem muito à parte dos processos políticos. Era raro uma mulher se colocar como candidata ou assumir espaços de poder, mas elas sempre estiveram na retaguarda, com uma posição muito clara de resistência, de questionamento. Diante da realidade, elas sempre se indignaram muito.
Sou filiada ao PT desde 1982 e sempre fiz pesquisa e extensão pela universidade, e o tema de gênero sempre foi central. Embora os governos tenham demorado muito para assumir essa agenda, ela sempre foi, do meu ponto de vista e na minha experiência, uma área estratégica.
Além disso, sou casada há quase 50 anos, tenho quatro filhos, seis netos e vou ser bisavó daqui a pouco. Volto a Londrina sempre e me dedico muito a curtir a família, viajar, passear e cozinhar, que eu gosto muito.
A senhora tem uma longa trajetória em espaços institucionais e de poder historicamente ocupados por homens. O machismo esteve presente na sua vivência política?
Ai, sempre. Sempre.
Quando fui vereadora, por exemplo, éramos 21 vereadores na Câmara de Londrina, e só três mulheres. E sempre recebíamos provocações: de que, quando a gente estava na sessão, ela ficava mais longa. Ou que a gente fala muito e sempre quer discutir muitos projetos.
As assessoras tinham que cuidar até da roupa que vestiam, porque alguns homens, infelizmente, não tinham nenhum tipo de ética, de cuidado.
Como eu sempre fui de grêmio estudantil, de diretório central dos estudantes, da igreja, sempre houve as piadinhas, as conversinhas. E, quando me coloquei na política, as pessoas diziam: “Ah, mas você tem certeza? É aqui mesmo? Você acha que tem condição de disputar?”. São sempre as mesmas coisas, a história se repete.
Mas, como a gente é de uma família muito determinada, isso nunca me fez desistir. Eu sempre fiz a crítica, mas sempre participei de tudo. Tenho exemplos importantes de mulheres fortes na família — mulheres que, claro, também seguiram a lógica da época. Lembro que a minha avó era muito inteligente, mas não podia falar na frente do meu avô: tinha que estar sempre escutando, esperando ele falar, para depois falar. E é aquilo que, infelizmente, acontece até hoje.
1982 – Filia-se ao Partido dos Trabalhadores (PT).
1993 a 1996 – Atua como secretária municipal de Assistência Social em Londrina, além de conselheira municipal e estadual (Assistência Social e Direitos da Criança e do Adolescente no Paraná).
2001 a 2004 – Exerce o mandato de vereadora em Londrina.
2004 – Ingressa no governo federal, integrando o Conselho Nacional de Assistência Social (CNAS) e o Conanda.
2004 a 2007 – Secretária nacional de Assistência Social no Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome.
2004 a 2010 – Coordena a implantação do SUAS, integra o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) e coordena o Grupo de Trabalho “Fome Zero”, envolvendo 13 ministérios.
2010 – Assume o cargo de ministra de Estado do Desenvolvimento Social e Combate à Fome.
2016 – Ajuda a criar e compõe a Coordenação da Frente Nacional em Defesa do SUAS e da Seguridade Social.
2022 – Integra a equipe de transição (Grupo de Trabalho de Desenvolvimento Social) para o governo Lula.
Maio de 2025 – Retorna ao governo federal como ministra das Mulheres.
Como foi a construção histórica do entendimento de que a pauta de gênero precisava e nortear o orçamento do Estado?
Quando fui secretária municipal, no início dos anos 1990, estávamos elegendo governos democráticos em vários lugares — Campinas, Porto Alegre, Belo Horizonte. Conheci o Patrus Ananias [professor, advogado e político brasileiro] quando ele era prefeito de Belo Horizonte, em um Seminário Nacional de População de Rua, quando ninguém falava de política para essa população.
Conforme fomos tendo governos democráticos, fomos aprendendo um modo de legislar e de governar: orçamento participativo, inversão de prioridades, valorização dos conselhos e da participação social. Isso sempre foi muito marcante nas gestões do campo da esquerda. Fomos construindo uma visão de sociedade, de país, de nação.
Já naquela época, ter a mulher na política era fundamental. As mulheres brigavam por isso — a luta pelas cotas, pela participação. E o presidente Lula, desde o outro governo [2003-2010], sempre foi muito ligado nisso. Tanto é que, no Bolsa Família, ele dizia: “Nós temos que entregar o cartão para as mulheres, porque as mulheres cuidam da família, sabem cuidar da economia da casa”. Na época, quase 95% dos titulares do cartão do Bolsa Família eram mulheres. E assim foi para a moradia, para a agricultura familiar, em que as mulheres produzem muito e são a maioria das que participam desse processo.
E qual foi o diagnóstico que esse governo fez ao retomar o poder, em 2023?
A gente quer que um novo governo melhore, avance sempre mais, e não retroceda. Quando começamos a ver o retrocesso, desde 2016, a gente adoeceu. Depois, o descaso e a omissão durante a pandemia. Foi muito duro. Houve o desfinanciamento das políticas públicas, o desrespeito aos conselhos, às conferências. Um trato completamente atrasado. Não era possível que o Brasil fosse melhorar com aquele tipo de postura.
Na transição [de governo], eram 33 grupos de trabalho, e fizemos um bom relatório, com o diagnóstico do desenvolvimento social e também das mulheres. Diante disso, quando o presidente Lula formou a equipe, orientou que se retomasse a partir dos dados desses relatórios, para ir para a frente.
E, claro, o Brasil é outro depois da pandemia, depois do golpe, depois de um retrocesso político e ideológico mesmo, com tanto conservadorismo, com concepções que a gente já tinha superado em relação à igualdade de gênero, à questão racial, aos povos indígenas, à população de rua. A gente tinha feito, pela primeira vez [em 2009], um Censo Nacional da População em Situação de Rua, tinha escrito uma política nacional, e tudo foi parando, sendo interrompido, retrocedendo.
Quando o presidente Lula assume em 2023, ele imediatamente cria o Ministério das Mulheres — já tinha havido, no governo dele, a Secretaria de Políticas para as Mulheres, com status de ministério, mas não um ministério — e a ex-ministra Cida Gonçalves começa a retomar a luta. Eu assumi em maio do ano passado e, em setembro, fizemos a 5ª Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres. E começamos a mapear os fóruns e os grupos de mulheres no Brasil.
Temos hoje no ministério 12 fóruns, entre eles o de mulheres indígenas, quilombolas, lésbicas, catadoras, população de rua, mulheres com deficiência, pescadoras e marisqueiras. Fomos acolhendo e apoiando conforme a organização delas."
Da conferência nacional, saímos com 60 propostas, que agora embasam a preparação do Plano Nacional de Políticas para as Mulheres, que vamos entregar no segundo semestre, talvez agosto, setembro.
Qual é o desafio de representar, em um único ministério, mulheres tão diferentes — em cultura, em território, até em clima — e qual a importância de ouvir as que estão nos territórios?
A gente vai avançando, e hoje é comum falar das “mulheridades”. Do ponto de vista do perfil dessas mulheres: quando a gente fala das LBTs [lésbicas, bissexuais e transexuais], por exemplo, se avançamos em processos de legislação, ainda vivemos muita discriminação e desrespeito à vida dessas mulheres. Por isso, eu nem consigo mais falar “Secretaria de Estado da Mulher”: parece que é muito pouco. É mulheres mesmo. E, nos documentos, nós falamos “mulheres em todas as suas diversidades”, porque é disso que se trata.
Eu já tinha andado muito pelo Brasil nos cinco anos em que fiquei no Ministério do Desenvolvimento Social, Família e Combate à Fome (MDS), e agora mais ainda. Quando assumi o ministério, comecei a participar dos vários fóruns.
E eu saía perguntando: “Aqui tem violência contra a mulher?”. Muita. Falei com a Benedita da Silva [deputada federal pelo PT]: “Entre as mulheres evangélicas, tem muita violência?”. Muita. Mulheres empresárias, falando com Luiza Trajano [presidente do conselho do Magazine Luiza] e Ana Fontes [fundadora e CEO da Rede Mulher Empreendedora]: tem muita. Esses tempos atrás, perguntei para um grupo do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST): “Tem violência no MST?”. Muita. Falei: “Não é possível, gente, como é que pode?”. São grupos, às vezes, tão qualificados, com uma cabeça arejada. Essa questão do machismo, da misoginia, dessa percepção quase oficial de que as mulheres são propriedade dos homens e de que eles podem tudo, interfere em tudo.
Eu sempre explico que o Ministério das Mulheres não tem um fim em si mesmo: ele coordena, mobiliza, se dedica a pensar as mulheres e as mulheridades no Brasil.
Mas a política para as mulheres é intersetorial — depende da saúde, da educação, do trabalho, da previdência, da assistência social, da cultura, do esporte, de todas as áreas."
Nós somos mais de 51% da população, 105 milhões de meninas e mulheres no Brasil, e estamos em todas as políticas públicas.
É muito diferente conversar com o interior de São Paulo e conversar com mulheres do Norte, do Nordeste. Cada região do país tem uma característica. Por isso temos uma área que trabalha com intersetorialidade e com a ação interfederativa, para conversar com estados e municípios.
Numa das reuniões, uma das pescadoras e marisqueiras me disse: “Ministra, nós ficamos o dia todo da cintura para baixo dentro da água. A nossa saúde é diferente das outras mulheres, e a gente precisa que os médicos e as equipes da unidade básica de saúde saibam disso”. Aí eu falei com o [ministro da Saúde, Alexandre] Padilha. Falei com a [ex-ministra do Meio Ambiente] Marina Silva um dia, e ela já pegou um papel, começou a desenhar uma calça e disse: “Olha, elas têm que usar látex” — uma calça impermeável. Eles já estavam pensando em como essas mulheres podem ter uma roupa que as proteja mais, e em como a saúde pode incorporar isso. Em todos os lugares que eu vou, é assim.
E por que o Estado brasileiro demorou tanto para assumir essa responsabilidade intersetorial?
O que a gente vê é que quem tem feito avançar, tanto nas gestões quanto no próprio processo eleitoral, é o campo que tem uma ideologia de democracia, de socialização da riqueza, de participação das mulheres na economia.
Os homens, em vez de assumirem, junto com as mulheres, a luta pela paz, pela igualdade nas relações, pelo respeito às escolhas amorosas, às identidades, fizeram o contrário. As mulheres permaneceram nessa luta sem que houvesse adesão necessária para estruturar um outro arcabouço jurídico e teórico em relação às suas vidas.
A Constituição de 1988 é muito clara, no artigo 3º e no artigo 5º: não pode haver discriminação de nenhuma forma. E a gente demorou muito para entender que compete ao Estado essa regulamentação, essa responsabilidade de zelar pela vida de toda a população brasileira — e das meninas e mulheres, principalmente.
Teias do cuidadoPrincipais projetos de Márcia Lopes no Ministério das Mulheres
Maio de 2025 – 5ª Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres: Mobilizou o país como espaço de participação social e formulação de propostas, servindo de base para o novo Plano Nacional de Políticas para as Mulheres.
Agosto de 2025 – Painel de Dados do Ligue 180: Plataforma interativa lançada nos 19 anos da Lei Maria da Penha que confere transparência aos atendimentos e denúncias da Central de Atendimento à Mulher.
Outubro de 2025 – Plataforma DataMulheres: Ferramenta digital que reúne indicadores nacionais, estaduais e municipais sobre a situação das mulheres no Brasil.
2025 – Estratégia Transversal Mulheres e Clima: Integração da pauta de gênero ao Plano Clima do governo federal.
Dezembro de 2025 – Tenda Lilás: Espaço itinerante de atendimento, informação e mobilização, com 30 mil atendimentos no lançamento em Brasília e previsão de percorrer todas as regiões brasileiras em 2026.
Dezembro de 2025 – Diretrizes para a Tramitação de Medidas Protetivas de Urgência: Elaboradas no Fórum Nacional Permanente de Diálogos sobre a Lei Maria da Penha, padronizam procedimentos e dão celeridade às decisões do sistema de justiça.
Março de 2026 – Cartilha sobre medidas protetivas de urgência: Publicação que apresenta as diretrizes de tramitação, lançada no Encontro Nacional de Gestoras em Fortaleza.
Março de 2026 – Protocolo Nacional de Enfrentamento à Violência Política contra as Mulheres: Firmado com cinco instituições do sistema de justiça, estabelece fluxos nacionais para prevenir, acolher, investigar e responsabilizar casos, com atendimento pelo Ligue 180.
Esse ano foi marcado por uma intensa produção de protocolos e diretrizes no Ministério das Mulheres. Segundo dados da BNBO e do Ministério da Justiça, acessados pelo Mapa Nacional da Violência de Gênero, 418 mil mulheres foram vítimas de violência em 2025. Foram 292 mil ameaças, 153 mil lesões corporais e 1.197 feminicídios — sendo a grande maioria das vítimas mulheres negras (557 casos, contra 184 brancas). É exatamente diante desse cenário que nasce o Pacto Nacional de Enfrentamento ao Feminicídio. Quais são as expectativas do ministério?
Temos produzido protocolos importantíssimos, e eu estou bem animada nesse aspecto. Embora a cada dia a gente veja novos feminicídios, eu acho que essa chave vai virar, porque reunimos Legislativo, Judiciário e Executivo, e estamos estimulando que cada estado e cada município também implantem o pacto. Tenho ido a muitos lugares que estão assinando. E, quando você começa a divulgar, a pôr nas redes, quando a mídia assume, também é muito importante, por causa dessa repetição.
Além das demandas territoriais, o Brasil vive hoje um desafio no ambiente digital: o aumento da violência de gênero impulsionada pela machosfera, deepfakes, vazamentos e linchamentos virtuais. As políticas públicas conseguem acompanhar essa velocidade?
A gente sabia que a sociedade e o mundo estavam mudados. No caso do Brasil, houve influências, como a do governo anterior, que pôs mais armas na mão das pessoas e desvalorizou a vida das mulheres. Foi um processo crescente. E as plataformas digitais, que deveriam ser usadas para o bem — para que as pessoas se sentissem mais informadas, mais orientadas, mais participativas —, viraram uma disputa pelo discurso do ódio, um discurso que rebaixa sempre as mulheres. Isso interferiu demais.
Tenho conversado com as especialistas, e elas dizem isso: a violência digital é o ápice de um processo em que se naturaliza e normaliza a violência."
Desde aquele momento em que se fez muita piadinha, em que se criaram máximas: “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”, “cada um por si”, apostou-se num processo de individualização da vida, se distanciando da vida coletiva e do bem-estar comunitário.
Uma reportagem recente da Gênero e Númeromostrou que, desde sua criação, a Lei Maria da Penha aponta a escola como pilar do enfrentamento à violência de gênero, mas o novo Plano Nacional de Educação sequer traz o termo “gênero” — usa “sexo” para se referir à diferença entre meninos e meninas. Como mudar esse cenário e quais são as travas políticas que a educação enfrenta?
Eu acompanhei o processo do Plano Nacional de Educação até a aprovação. Ele traz novidades importantes, é melhor do que o anterior, mas é isso: para aprovar, a bancada do campo democrático teve que engolir algumas coisas que, por nós, teriam uma formulação diferente. Então, você usa as brechas: o protocolo que assinamos com o MEC é completamente atualizado, fala o tempo todo em igualdade de gênero, raça e etnia.
De um lado, a gente vai administrando esses vazios, que ainda existem mesmo; de outro, apostando na formação da juventude, das futuras gerações e dos profissionais da educação — temos falado, inclusive, com os sindicatos e as entidades que organizam os professores.
Quando cheguei ao ministério, a equipe que estava aqui me disse: 'Olha, ministra, se a senhora falar 'gênero' lá na Câmara, já não consegue nem continuar a conversa. Nem gênero alimentício pode falar'. É uma tragédia, um atraso em relação àquilo que a gente já conquistou na Constituição brasileira e em várias legislações."
Agora, por exemplo, tem a lei da misoginia, aprovada por unanimidade no Senado. Chegou à Câmara, e os deputados já disseram: “Olha, aqui não vai ser assim”. Tanto é que o presidente Hugo Motta criou um grupo de trabalho que, a rigor, não precisava – a lei podia ter tramitado nas comissões, como de costume.
A deputada Tabata [Amaral] está coordenando esse grupo, e eu já conversei com ela:
Nós temos muita necessidade da aprovação dessa lei, porque, quando se criminaliza a misoginia, se põe também uma trava na própria violência digital, porque ela é muito rigorosa."
É um quebra-cabeça que a gente administra todos os dias.
E, na educação, temos nos reunido, coisa que não acontecia. Eu trouxe para cá a ex-reitora da Universidade Estadual de Londrina, a professora Lygia Pupatto, que está se dedicando exclusivamente às universidades — todas elas. No âmbito privado, ainda não temos um protocolo, mas temos diálogos, seminários. Estamos nos reunindo com a Associação Brasileira das Reitoras e Reitores das Universidades Estaduais e Municipais (Abruem), das estaduais, com a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), das federais, com o Conselho Nacional das Instituições da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica (Conif), dos institutos federais — as pessoas que têm liderança na relação com as universidades. Cada decreto, cada resolução, cada portaria é fruto de uma batalha, pode saber disso.
Qual é o maior desafio que o Ministério das Mulheres enfrenta hoje na luta contra a violência de gênero? E qual seria o Brasil ideal para a ministra Márcia?
O maior desafio é, sem dúvida, que a sociedade compreenda que depende dela a mudança. Não se trata de diminuir a violência, de minimizar.
Trata-se, de fato, de assumir um processo de ruptura, de eliminação de qualquer violência contra as mulheres — da piadinha, das músicas, da forma grosseira com que os homens tratam as mulheres."
Tenho percebido isso de forma impressionante: no avião, no mercado, em qualquer lugar, é impressionante a tolerância que se tem, e sempre muito mais da parte dos homens em relação às mulheres.
O maior desafio é a mudança de cultura, de fato — mas não uma mudança que venha só de um lado; ela tem que ser assumida. Por isso, também estamos falando com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), com as igrejas católicas e evangélicas, com a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), para instituir isso nos jogos, em todos os times de futebol — em todos os lugares onde há aglomeração.
Criamos uma Tenda Lilás, que se desloca e vai aonde tem povo, com a nossa turma, para falar com as mulheres, distribuir material e dialogar. Tem sido muito legal. O maior desafio é esse: que a sociedade paute, priorize e tome a decisão de que não vai mais haver violência contra as mulheres.
E o Brasil dos nossos sonhos é esse: um Brasil democrático, que dialogue, que supere esse conservadorismo, essa misoginia e a discriminação, que ainda é tão grande – de raça, de etnia, social. Nós vivemos uma luta de classes. O Brasil que eu sonho é um país onde as pessoas entendam que a vida é um sopro e que vale viver bem aquilo que a gente pode.
Tenho percebido muita intolerância, inclusive nas gerações mais novas. As pessoas não têm nenhuma ambição de construir coletivamente. É tudo muito individualista. Superar esse individualismo, viver o coletivo, viver as comunidades: isso é muito importante.
E a dimensão espiritual — não no sentido de uma religião, mas a dimensão da vida que valoriza o outro, que valoriza as pessoas, com solidariedade. A gente não pode passar despercebida sabendo que tem gente passando fome, deitada na calçada. As mulheres em situação de rua falam muito disso, de como é duro viver o desprezo da sociedade. Eu sonho com um Brasil que não despreze, um Brasil que trate todas e todos com absoluta igualdade e justiça.
Essa entrevista faz parte da série Quando o corpo guarda a violência, produzida com apoio do Fundo ELAS+ Doar Para Transformar e da Agence française de desenvolvimento (AFD). As ideias e opiniões nela expressas são de responsabilidade dos autores e não refletem, necessariamente, o ponto de vista do ELAS+ ou da AFD.
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Jornalista, repórter, produtora, fotógrafa e podcaster, com atuação focada em direitos humanos, meio ambiente e segurança pública, sempre pelas lentes de gênero. Investiga histórias que revelam desigualdades estruturais e amplificam vozes historicamente invisibilizadas. Já colaborou com veículos como Agência Pública, Revista AzMina, Portal Catarinas, Gênero e Número, Ecoa UOL, Mongabay Brasil e Repórter Brasil, além de sete anos trabalhados em televisão, como apuradora, produtora e chefe de reportagem. É fundadora do podcast Marias&Anas, que compartilhou vivências de mulheres diversas a partir de uma escuta sensível e crítica. Formada em Comunicação Social e Jornalismo, com pós-graduação em Direito Penal e Processo Penal.
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