“Ou você luta, ou te matam”, diz Patricia Hill Collins sobre a luta contra o racismo

Uma das maiores pensadoras sobre o feminismo negro e a luta contra o racismo, Patricia Hill Collins conversa sobre Black Lives Matter, justiça social e a eficácia do discurso pró-famílias da extrema-direita

Texto: Maria Martha Bruno e Vitória Régia da Silva
Imagens: Marilia Ferrari

 

Patricia Hill Collins tem o riso solto. Fala de temas espinhosos, como a polarização política e supremacistas brancos e luta antirracista com a clareza e a didática que fizeram dela um das maiores autoridades em luta antirracista nos Estados Unidos e no mundo, ao lado de nomes como Angela Davis.

Mas bom humor e o prazer de estar no Brasil — “conversar com vocês foi um happy hour”, confessou, para a alegria da nossa equipe, após um papo de quase uma hora e meia — não escondem o pragmatismo sobre a representatividade da população negra na política:Marielle Franco na política. Barack Obama presidente. É fácil pensar que as coisas estão realmente melhorando. Por um lado, elas estão. Por outro, não”. Hill Collins também não se surpreende com discursos de ódio e a consolidação da extrema-direita: “Tudo isso faz parte da história dos EUA.

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Aos 74 anos, a professora emérita da Universidade de Maryland, autora do clássico “Pensamento Feminista Negro”, esteve no Brasil em sua primeira viagem ao exterior pós-pandemia para lançar o livro “Bem Mais que Ideias — A Interseccionalidade como Teoria Crítica” (ed. Boitempo).

Neste Dia da Consciência Negra, confira a primeira parte da entrevista especial.

Em 2018, você conversou com a Gênero e Número após a morte de Marielle Franco e a eleição de Jair Bolsonaro. O que mudou na luta pela representação de negros e outras minorias políticas nos EUA e no Brasil desde então?

O discurso de ódio, as ameaças, as pessoas que defendem a supremacia branca, o patriarcado, o privilégio de classe … Eu não fiquei surpresa com nada disso, porque tudo isso faz parte da história dos EUA. Mas acho que muita gente ficou, principalmente quem cresceu em um período de tempo em que houve avanços.

Para mim, está mais claro o que precisa acontecer com o antirracismo e com as lutas de todos aqueles que estão nas camadas mais baixas da sociedade há muito tempo. Infelizmente, nos EUA, o despertar foi a eleição de Donald Trump e o autoritarismo, e, no Brasil,  o assassinato de Marielle Franco.

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Se você acha que estamos progredindo porque as coisas parecem boas, preste atenção, porque o que temos é uma mudança cosmética. Marielle Franco na política. Barack Obama presidente. É fácil pensar que as coisas estão realmente melhorando. Por um lado, elas estão. Por outro, não.

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Se eu acho que as coisas melhoraram para as minorias políticas? Eu acho que elas estão diferentes (risos). Sou pragmática. Nós, minorias políticas, vamos sempre seguir em frente, seja qual for o contexto.

Naquela entrevista, você também disse que “a estratégia mais importante [para a população negra] é sobreviver em uma sociedade que nos traz todo tipo de morte”. Bolsonaro não foi reeleito, mas temos um Congresso muito conservador e uma extrema-direita enraizada na sociedade brasileira. Como sobreviver a este cenário?

Você continua fazendo o que funciona e o que não funciona, você muda. Quando as pessoas me perguntam o que fazer, eu digo: ou você luta ou eles te matam. É muito simples (risos).

Essa é uma luta muito longa. E este é o momento de fazer algo maior. Isso significa lutar por justiça social, justiça e equidade. Esta luta já dura séculos, tanto nos EUA quanto no Brasil.

Aconteceu algo muito importante desde minha última entrevista para a GN: o movimento Black Lives Matter. Esse movimento vinha acontecendo localmente e não era pequeno. Mas a combinação do assassinato de George Floyd com o fato disso ter sido filmado foi muito significativa para mudar a discussão sobre tipo de movimento social. Havia pessoas não só nos EUA, mas em todo o mundo, sob a bandeira do Black Lives Matter, dizendo: “vidas negras importam”. E não estavam apenas falando de vidas negras, mas de questões maiores que estão ligadas a isso.

Falando em governos conservadores, um de seus mecanismos de sustentação é a ideia de proteção da família. A suposta ideologia de gênero, os ataques às minorias políticas, as fake news sobre banheiros unissex na campanha eleitoral do Brasil... Tudo isso faz as pessoas temerem por seus filhos. Em seu livro “Bem Mais que Ideias”, você fala sobre como o Ocidente entende certas famílias como superiores a outras. Por que a preservação desse modelo de família é tão importante para a manutenção do poder?

Porque funciona! [risos] Todo mundo… Bem, não todo mundo, mas muita gente se preocupa com seus filhos, com as pessoas que amam ou quem dizem amar. A família simboliza isso para praticamente todo mundo. Todas as mulheres negras que tiveram filhos assassinados ou um familiar assassinado, se preocupam com a família, por exemplo.

Mas há uma percepção do poder da ideia de família para uso político. Vejo agora que talvez haja uma preocupação genuína com a ideia de família em muitas famílias nos EUA e no Brasil. E infelizmente, o racismo e as questões de classe agravaram isso, porque as pessoas não têm muitas chance de ver que gente que vive em outros tipos de famílias têm as mesmas preocupações que elas.

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Portanto, não é que as pessoas sejam ruins. É que elas estão ouvindo líderes que estão usando o poder da família por oportunismo. Eles querem ser eleitos. Eu culpo os políticos, não as pessoas.

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