“Dar direitos às pessoas trans não retira os direitos das mulheres cis”, diz Keila Simpson, ex-presidenta da Antra

Aos 61 anos, a ex-presidenta da Antra reflete sobre três décadas de ativismo, os gargalos da Lei Maria da Penha para a população trans e a urgência de o Estado brasileiro criar mecanismos para que travestis e mulheres transexuais possam envelhecer seguras.

Envelhecer sendo travesti no Brasil é um ato de insubordinação contra a própria estatística. “Eu sou uma travesti de 61 anos e tenho a meta de chegar aos 100. Vim com a missão de não sair daqui sem deixar um rastro”, sintetiza Keila Simpson, ex-presidenta da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) e uma das ativistas LGBTQIA+ mais importantes do Brasil.

Não é exagero dizer que a cartografia de Keila foi desenhada na ausência do Estado, que, quando não omisso, era violento. Nascida em Pedreiras (MA), Keila trabalhou como empregada doméstica em Teresina (PI), cruzou Recife (PE) e fincou raízes em Salvador (BA), onde iniciou seu ativismo. Em 1990, no epicentro da epidemia de HIV, passou a distribuir preservativos às colegas travestis que sobreviviam da prostituição. 

Mesmo na atuação política, Keila não deixou de sentir na própria pele as contradições impostas aos dissidentes. Em 2022, por exemplo, tornou-se a primeira travesti a receber o título de Doutora Honoris Causa no Brasil pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), no mesmo país que lidera o infeliz ranking mundial de assassinato de mulheres trans.

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E é para corrigir disparidades que hoje, por meio da Antra, atua como amicus curiae (quando pessoa física, jurídica ou instituição ingressa em um processo judicial para fornecer informações que auxiliem juízes a tomarem uma decisão) no STF, em temas pertinentes à população trans, ocupa uma cadeira no Conselho Nacional dos Direitos da Mulher e coordena um dossiê anual de assassinatos que o governo brasileiro ainda é incapaz de produzir sozinho. 

Nesta entrevista à Gênero e Número, Keila disseca as lacunas dos 20 anos da Lei Maria da Penha, a presença de mulheres trans na política nacional e o perfil das vítimas que o país insiste em invisibilizar — mas que ela, por meio de sua voz, corpo e atuação, tem o sonho de ver envelhecer bem e seguras.

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Você começou seu ativismo na capital baiana, distribuindo preservativos para companheiras travestis que sobreviviam por meio da prostituição. O que aquela Keila diria à de hoje?

Ela diria: “Amiga, não entra nessa, que é furada”. Brincadeiras à parte, eu fui, na verdade, buscada para fazer esse trabalho. Fui chamada pelo Dr. Luiz Mott, do Grupo Gay da Bahia, e foram as próprias travestis da esquina que me indicaram para fazer a distribuição de preservativos. Por isso eu acho que ali estava sendo dada uma missão. Não fui eu que decidi, não foi o Mott que decidiu me chamar. Foram elas.

Quando chego e me deparo com aquela realidade, percebo que o preservativo cumpria uma função importante — a prevenção do HIV e de outras doenças sexualmente transmissíveis —, mas não alcançava outra dimensão igualmente severa: a violência. Isso foi me desafiando a achar caminhos para trabalhar também com essa outra temática.

Porque, se naquele momento as travestis eram violentadas, presas, encarceradas apenas por estarem se prostituindo, havia algo que não estava sendo dito. Ninguém vai para a prostituição porque acordou um dia e decidiu. Você vai porque precisa de dinheiro, porque a escola expulsou, porque a família não aceitou você em casa. Sem formação, sem qualificação profissional, não tem posto de trabalho que sustente sua sobrevivência.

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O caminho mais curto é esse: oferecer o corpo, fazer sexo, que no Brasil não é proibido. O que é proibido é a exploração sexual, induzir pessoas a se prostituir e praticar sexo com menor de idade. Isso a gente repudia. Mas, se a prostituição é feita por pessoa maior de idade, por livre e espontânea vontade, para o seu ganho e sobrevivência, isso é tranquilamente possível. Eu não entendia e não entendo ainda hoje por que essa criminalização.

O movimento LGBT e a luta contra o HIV

No final dos anos 1970, o movimento LGBT brasileiro começou a se organizar para a abertura política que acontecia após o fim da ditadura empresarial-militar (1964-1985), que deixou pelo menos 434 vítimas fatais e desaparecidos políticos, segundo a Comissão Nacional da Verdade.

Foi nesse cenário que, no início dos anos 1980, surgiu a Aids (que depois seria chamada de HIV). A epidemia foi apelidada nas ruas e na imprensa de “a peste” ou “o câncer gay”, criando uma associação direta e estigmatizante entre a doença e a orientação sexual de quem se contaminava.

Diante do silêncio do Estado e do medo, a comunidade LGBTQIA+ reagiu para garantir os próprios direitos. Como o atendimento médico era escasso, a própria militância — incluindo travestis, gays e lésbicas — assumiu a linha de frente: distribuindo preservativos, oferecendo apoio psicológico e suporte social aos doentes abandonados por suas famílias. 

Foi nesse momento que o movimento entendeu que não bastava prevenir a contaminação pelo vírus; era preciso combater a discriminação, exigindo que o Estado reconhecesse a dignidade e a cidadania dessas pessoas que estavam na margem.

Nas décadas seguintes, essa mobilização deu origem a encontros nacionais e à criação de redes. A visibilidade conquistada nas Paradas do Orgulho e o ativismo político foram essenciais para conquistar o acesso universal a medicamentos gratuitos e o respeito que o Estado antes negava. 

Assim, o que começou como uma resposta desesperada a uma crise sanitária tornou-se um dos pilares mais fortes da defesa dos direitos humanos no país, encabeçada pela população LGBTQIA+.

Fonte: Cartilha “O movimento homossexual e a Aids”, do Ministério da Saúde.

A situação de vida das mulheres travestis passou a chamar sua atenção de uma maneira diferente?

Aquilo me inquietava muito, a ponto de começar a conversar sobre o que fazer com tudo aquilo que o preservativo não resolvia. As travestis estavam adoecendo pelo HIV e sofrendo violência. Era a década de 1990, mas a gente estava nos estertores da ditadura, ainda era muito presente o clima ditatorial de que tudo era proibido.

Eram dois caminhos que precisávamos percorrer. O da prevenção e saúde para se manter saudável, porque trabalhava-se com o corpo, com aparência, e também o de coibir um pouco essas violências que eram tão presentes. A gente começou a compreender que, reunidas em grupos, pelo menos conseguíamos dar visibilidade àquela situação.

Então fundamos, em 1995, a Associação de Travestis de Salvador, muito próxima do Grupo Gay da Bahia (GBG). A partir daí, a gente começa a trabalhar com essa perspectiva de garantia de direitos. Mas, afinal, o que era garantia de direitos?

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A gente não tinha nenhum aparato funcionando que nos desse essa segurança. Então nos tornamos psicólogas de nós mesmas."

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As travestis se reuniam todas as quintas-feiras na sede do GGB, e ali a gente ia contar as dores dos dias passados. Era quase como um grupo terapêutico, sem nenhum profissional habilitado, mas nós éramos as nossas próprias psicólogas. Umas contavam as suas vivências, os seus amores e desamores, os seus dissabores, num grupo em que todo mundo estava no mesmo lugar.

O nosso remédio era o riso. A gente tirava da violência sofrida na noite anterior uma gargalhada, um achincalhe. O riso nos salvou muitas vezes. Isso talvez tenha nos trazido até aqui com essa resistência, essa vitalidade, essa perspectiva de futuro.

E como foi a sua caminhada ativista até a fundação da Antra?

A Antra nasce de uma história que começa em 1992, com a criação da Associação de Travestis e Liberados (Astral), no Rio de Janeiro, o primeiro grupo trans organizado do Brasil. No encontro nacional convocado por eles, as travestis se reúnem em separado e decidem criar a Rede Nacional de Travestis (Renata). Ela nasce, mas sem estrutura nem financiamento para ganhar escala. 

Tempos depois, os “liberados” — lésbicas e gays que estavam junto com a gente — são incorporados ao movimento, e a Renata se torna Rentral, a Rede Nacional de Travestis e Liberados, com secretarias regionais nas cinco regiões do país.

Nesse período, num momento eleitoral, a presidenta da rede convoca todas as afiliadas a fazerem fogueiras em praça pública e queimarem o título de eleitor. A motivação era: nós não somos cidadãs todos os dias, somos apenas na hora de votar, então, vamos reagir a isso de forma simbólica, mostrar para a sociedade que a gente precisava avançar em campos que iam muito além do direito ao voto. Aconteceu, deu manchete.

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Em 2000, durante um encontro na região Sul, as travestis deliberam pela fusão da Renata com a Rentral. Nasce a Antra, que tem esse nome há 26 anos, mas tem mais de 30 anos da sua constituição. A Antra hoje cresceu e tem outras possibilidades de trabalho, diferentes daquele que foi pensado lá no início, mas ela está constituída dentro dessa conjuntura que eu te contei aqui.

A violência doméstica e de gênero contra mulheres trans

Mesmo com o ativismo incessante da comunidade LGBTQIA+, a violência de gênero contra mulheres trans e travestis continua invisibilizada por atores estatais. É o que mostra a 11ª Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, organizada pelo Data Senado e disponibilizada no Mapa Nacional da Violência de Gênero, iniciativa do Senado em parceria com Gênero e Número e o Instituto Natura

O estudo exploratório ouviu 43 mulheres trans e travestis de diferentes regiões do país, que revelaram experiências marcadas por violência doméstica, transfobia, discriminação institucional e baixo acesso à rede de proteção. 

Uma pesquisa exploratória serve para investigar questões pouco conhecidas e/ou com poucos dados que permitam ter uma compreensão aprofundada. A pesquisa exploratória, neste sentido, cumpre o objetivo de aumentar a familiaridade com a temática investigada e fundamentar melhor o contexto que o tema se insere.

A pesquisa ouviu, principalmente, mulheres trans jovens, com menos 39 anos (73%), e que se identificam como pretas, pardas ou indígenas (70%). Quando olhamos para a violência doméstica, 56% das entrevistadas disseram terem sido vítimas nos últimos 12 meses. As agressões psicológicas (95%), físicas (80%), morais (80%) e digitais (26%) são as mais frequentes.

Em metade dos casos, o agressor era marido, companheiro ou namorado, que as agrediu por ciúmes (60%) e inconformidade com o término do relacionamento (50%). São dados que aproximam as experiências de mulheres trans e travestis das dinâmicas históricas da violência doméstica enfrentada por mulheres cisgênero, reforçando a importância da aplicação da Lei Maria da Penha nesses casos.

Mas a pesquisa demonstra um alto índice de desconhecimento da lei e mesmo de desconfiança nos equipamentos públicos de proteção: metade das entrevistadas disse conhecer pouco sobre a Lei Maria da Penha e 12% disseram não conhecer nada. O mesmo para a Medida Protetiva de Urgência: seis a cada 10 responderam que conhecem pouco e 7% que não conhecem nada. Além disso, nove a cada dez vítimas de transfobia não procuraram serviço de proteção à mulher. 

Para as entrevistas, tanto a violência como a desigualdade estão associadas à permanência de estruturas patriarcais e transfóbicas: 72% consideram o Brasil um país muito machista e 77% conhecem alguma amiga, familiar ou alguém próximo que já sofreu algum tipo de violência doméstica ou familiar.

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O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, em 2025, que a Lei Maria da Penha pode ser aplicada às relações afetivo-familiares de casais homoafetivos do sexo masculino ou que envolvam travestis e mulheres transexuais. O ministro Alexandre de Moraes chegou a indicar a omissão do Congresso Nacional. Mas mesmo o STF agiu quase duas décadas após a promulgação da lei. O que esse atraso legislativo significa?

A gente fica muito na dependência de interpretações — de um ou outro advogado que consegue nos atender em alguns casos. Com a inércia do Congresso Nacional em regulamentar a lei, não conseguimos ter um corpo jurídico para atender às demandas que chegam até nós. 

Os processos judiciais não são baratos, e a violência é inerente a todos nós, todos os dias.

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Quando o Estado é leniente, as pessoas acham que a organização da sociedade civil pode fazer o que ele deveria fazer. A gente não pode. A gente não tem recurso para isso."

O que a gente consegue fazer, até aqui, é orientar para que as pessoas procurem apoio jurídico na sua localidade. Ajuizar ações por conta própria a gente não consegue, a menos que atue como amicus curiae no STF, o que a gente tem feito cada vez mais, para que os magistrados consigam entender as complexidades que apontamos com as nossas vivências. Mas queríamos conseguir muito mais. Queríamos constituir um grupo jurídico dentro da Antra para atender a esses processos que são morosos.

Por exemplo: do dossiê de assassinatos que a gente publica todo ano, pouquíssimos casos são levados a inquérito. Pouquíssimos são finalizados. Ou então o inquérito caduca, não é levado à frente, porque muitas daquelas pessoas assassinadas não tinham familiares que reclamassem o corpo. E, sem quem reclame, o processo morre junto. 

A gente não consegue acompanhar para além do que está apontado no dossiê. A morte está publicada num veículo de comunicação, mas o inquérito processual advindo daquele homicídio, a gente não consegue acompanhar. A justiça não se interessa muito em apurar esses casos. E, em se tratando de travesti ou mulher transexual, dificulta ainda mais.

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Mais da metade (51%) das 43 mulheres trans ouvidas pela 11ª Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher responderam conhecer pouco a Lei Maria da Penha. Na prática, a lei dá conta de proteger mulheres trans e travestis?

Não. Ela é necessária, importantíssima, um ganho muito importante para a luta das mulheres e para a reparação histórica que o Estado brasileiro tem com elas. Mas ainda está muito distante de cumprir todas as suas possibilidades, especialmente no que diz respeito à população trans.

Não é simples apresentar os argumentos da lei quando se fala de pessoas trans, porque ela não é clara nesse sentido. Uma travesti que vai acionar a Maria da Penha vai se deparar, muito comumente, com a resistência de quem entende que travesti não é mulher ou que mulher transexual também não é mulher.

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A lei ainda é muito genitalizada em alguns aspectos. As pessoas — e os tribunais — ainda compreendem o gênero feminino a partir de uma perspectiva anatômica. Mas a gente não anda despida pelas ruas."

A gente anda vestida. O nosso genital não deveria importar, mas ele é colocado em primeiro plano. Isso é um absurdo.

É preciso, antes de mais nada, que a sociedade compreenda travestis e mulheres transexuais como gênero feminino. Como a gente não tem uma lei que originalmente atenda a essa população, é preciso que os diversos tribunais passem a adotar os arcabouços jurídicos já existentes, como a Maria da Penha, para nos atender. Mas ela ainda precisa avançar muito para contemplar a totalidade de travestis e mulheres transexuais.

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A pesquisa exploratória também confirmou um fenômeno já sabido pelas ativistas: sete a cada 10 mulheres trans ouvidas pelo estudo se identificam como pretas, pardas ou indígenas, e 30% não conseguem se sustentar financeiramente. O que esse recorte revela sobre o país?

Revela que é uma população já extremamente vulnerabilizada que encabeça diversas estatísticas — todas elas negativas. Toda vez que a população negra aparece no topo de uma estatística, é pelo lado negativo. É preciso modificar essa realidade. E se a população negra já está em situação de vulnerabilidade, a travesti negra está pior ainda: muitas vezes nem nas estatísticas aparece.

Este ano eu disse no lançamento do dossiê que precisamos fazer um dossiê de felicidade, de amores, de coisas boas. A gente não consegue ainda.

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É uma missão que eu coloco para a Antra: falar mais sobre educação, sobre sociabilidade, sobre trabalho, sobre os processos em que a nossa população também é protagonista. Chega de a gente só elencar estatísticas pelo lado pejorativo e nunca pelo lado da emancipação."

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A Antra mostrou que, mesmo com avanços, em 2026 o Brasil seguiu liderando a contagem mundial de assassinatos de pessoas trans. Por que isso acontece, mesmo com os dados evidenciando que essa população está sendo morta sistematicamente?

Pela inércia do Estado. A gente nota isso exatamente porque não caminha — pelo contrário, o Estado esconde muito. Não ter dado também é um dado. O Estado não adota esses números porque não está muito interessado no que eles revelam. 

A gente ainda não consegue que o IBGE coloque a identidade trans dentro dos seus processos de pesquisa.

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Há mais de trinta anos a gente quer aparecer visivelmente no IBGE. Se o instituto de pesquisa não se interessa em visibilizar a nossa existência enquanto vivemos, quando morremos é que não vai dar conta mesmo. Morreu, acabou."

Nós publicamos os dados no final de janeiro, na data de visibilidade trans. Eles ganham mídia naquele dia, e depois mais nada. É só esperar mais um ano, mais um dossiê, mais violência a reportar, mais matérias naqueles dias — e acabou. Para nós, não acaba. Para nós, o começo de tudo é ali. Mas a gente não se conforma. 

A gente está todos os dias dizendo ao governo dos estados e ao governo federal que é preciso voltar os olhos para essa população, para que a gente não entre nessa escala de violência a que as mulheres estão submetidas. Nunca se falou tanto de assassinato de mulheres como ultimamente.

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O atraso de direitos e políticas públicas para garanti-los é visível. Mas há quem diga que incluir mulheres trans na proteção da Lei Maria da Penha “enfraquece” a legislação. O que você responde?

Ampliar direitos para pessoas trans não retira nenhum direito já constituído pelas mulheres. Nenhum. A gente não está pedindo para tomar o lugar de ninguém — está caminhando na mesma trilha. Batalha pelas mesmas reivindicações que as mulheres na sua totalidade fazem. Quem vai discutir isso muito fanaticamente, a partir da genitalização, são mulheres que não estão preocupadas com outras mulheres. Estão preocupadas somente com elas próprias.

E eu preciso que isso seja compreendido: a gente quer direito específico, somos uma especificidade dentro de um conceito mais amplo, mas não abrimos mão de que as mulheres continuem tendo e ampliando os seus direitos já constituídos. A nossa pedida é que a proteção chegue também até nós.

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Dar ou resguardar direitos de pessoas trans não vai fazer com que os direitos das mulheres cis sejam retirados. A gente não pede isso e nunca vai advogar por isso."

Em 4 de fevereiro de 2026, os três Poderes assinaram o Pacto Nacional de Enfrentamento ao Feminicídio, uma iniciativa que vem sendo encabeçada com afinco pelo Ministério das Mulheres, do Governo Federal. Mas não há, no projeto, menção às mulheres trans. Como tem sido essa relação institucional?

A Antra tem uma cadeira no Conselho Nacional dos Direitos da Mulher e dialoga bastante. O governo federal é muito complexo nessa coalizão de forças que foram estabelecidas para fazer a governança.

Em alguns ambientes, a gente não consegue avançar de fato com a nossa pauta. Na força dos tratados, dos protocolos, a menção à nossa existência fica muito perdida nesse processo da generificação, o que é ruim por um lado, mas, por outro, a gente também tem possibilidade de lançar [algo específico]. 

Mas nós, Antra e Ministério das Mulheres, temos um protocolo de intenção assinado, que é um livreto lançado, disponível no site do ministério e no nosso site também. Ele traz recomendações de atuações em parceria entre o ministério e nós, pessoas trans, para cada iniciativa que acontece no governo, chamar a gente para a responsabilidade.

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Ainda assim, o site do governo federal é invadido por comentários violentos de mulheres que chamamos de feministas radicais, atacando as nossas existências. Imagina se nós, pessoas trans, estivéssemos, de fato, estampadas na política pública ali — que é meu sonho, não estou dizendo que não deveria estar —, quantos ataques mais a gente sofreria dessas mulheres que, muitas vezes, se ocultam aí nas telas frias de computadores e vão destilando o seu ódio e o seu veneno.

Em 2022, pela primeira vez, Erika Hilton e Duda Salabert, duas travestis, chegaram ao Congresso Nacional, a instituição máxima do Poder Legislativo federal no Brasil, responsável por criar e aprovar leis. O que essa eleição representou para a Keila e também para a Antra?

Representou a chegada de um caminho que começou em 1992, quando elegemos Cátia Tapety em Oeiras, no Piauí, a primeira travesti eleita no Brasil. Ela depois foi vice-prefeita, depois vereadora. Em 2006, a Antra começa a mapear candidaturas de pessoas trans e a trabalhar o fortalecimento dessa pauta nos partidos políticos. A chegada de Erika Hilton e Duda Salabert ao Congresso é fruto de quase trinta anos de construção.

É um processo contínuo de qualificação que vem de muito antes. A Erika sempre diz que muito do que ela sabe foi buscar na prostituição. Ela aprendeu a reagir ali.

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O que parece prática parlamentar [da Erika Hilton] é prática de rua. Ela foi formada na rua e, por isso, age daquela forma tão qualificada. E aquilo assusta. O que tira as pessoas da zona de conforto incomoda."

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Não é à toa que ela sofre aqueles ataques todos, especialmente quando vai para a Comissão de Defesa das Mulheres. Porque ali aparece o primeiro obstáculo: “Você não é mulher. Você não tem vagina”, dizem. Então, tem genitalismo até ali. Não importam todas as ações que ela fez antes para defender as mulheres. O debate ali é muito mais identitário do que qualquer outra coisa. Não é a condição dela como parlamentar que está em questão, mas a genitalização. Tirando dela o direito de ser o que ela de fato é.

E essa coisa acontece de uma forma que ela também vai para o embate. Porque ela é travesti, aprendeu na rua que não adianta se resignar. Ela afronta com qualidade. E é muito bom ver uma parlamentar afrontosa como ela é. A gente precisa disso. Cada uma com a sua condição: a Duda, um pouco mais nos bastidores, mas também atuando muito fortemente para as pautas. É o que deve ser feito no parlamento.

E a gente não quer que, na próxima legislatura, sejam só elas duas. Queremos outras pessoas trans — e também parlamentares comprometidos com a nossa causa que não sejam trans. Nunca vamos ter um Congresso só de pessoas trans, e nem acho que seria bom. O que precisamos é de representantes que entendam de onde vieram, que estejam antenados com os processos de exclusão que a gente vive. Uma trans de direita que não vai entender as nossas diversidades não nos representa.

Daqui a 20 anos, no aniversário de 40 anos da Maria da Penha, o que você almeja estar comemorando?

Vou estar com 81 anos. E espero estar comemorando que tenhamos, de fato, uma legislação brasileira que trate especificamente da população trans idosa. Porque, se antes a expectativa de vida de uma travesti era de 35 anos, hoje a gente está conseguindo envelhecer. A prova viva sou eu, com 61 anos. Mas não basta envelhecer. É preciso que existam aparatos legais que reverberem sobre essa população idosa de travestis e mulheres transexuais. Coisas que a Lei Maria da Penha não consegue dar conta.

Espero também que tenhamos naturalizado a função da lei. Que tenhamos uma justiça mais ágil, mais atenciosa, leis mais seguras, e que a população brasileira entenda de fato o que é uma legislação e para que ela se aplica. Que a gente consiga, de verdade, coibir essa violência que é tão presente na vida de nós — mulheres cis e trans — nesse país. O Brasil é muito desigual, a legislação muito pontual e a justiça muito morosa. Mas eu espero que daqui a 20 anos isso tenha mudado.

Você já disse, durante uma entrevista, que “nossa vingança é envelhecer”. Essa frase ainda vale?

É muito atual. A nossa vingança é envelhecer sorrindo. É olhar para a cara delas e dizer: vocês não conseguiram vencer. Nós vencemos. Nós envelhecemos.

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Se antes eu disse que envelhecer era vingança, agora eu digo: a nossa vingança é envelhecer — mas envelhecer sorrindo, envelhecer altruísta, envelhecer senhoras de nós mesmas, sabendo cada vez mais de onde viemos e para onde vamos."

Daqui a 20 anos, nós envelheceremos com qualidade de vida. O que é muito mais audacioso do ponto de vista da sociedade em que a gente vive.

A gente vai querer ser as centésimas, as milésimas. Não “a primeira professora travesti negra da UFBA” ou “a primeira travesti da minha quebrada que comprou uma TV de 75 polegadas”.

Hoje, a Keila mais velha compreende aquela de ontem como a pessoa que começou algo que só foi possível por conta da organização coletiva e das parcerias que a gente construiu. E eu me sinto melhor do que aquela de ontem. Quando eu ganho o título de doutor honoris causa na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), venho bebendo exatamente lá na fonte da esquina, da prostituição. Ali eu aprendi muita coisa.

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Mariana Rosetti

Jornalista, repórter, produtora, fotógrafa e podcaster, com atuação focada em direitos humanos, meio ambiente e segurança pública, sempre pelas lentes de gênero. Investiga histórias que revelam desigualdades estruturais e amplificam vozes historicamente invisibilizadas. Já colaborou com veículos como Agência Pública, Revista AzMina, Portal Catarinas, Gênero e Número, Ecoa UOL, Mongabay Brasil e Repórter Brasil, além de sete anos trabalhados em televisão, como apuradora, produtora e chefe de reportagem. É fundadora do podcast Marias&Anas, que compartilhou vivências de mulheres diversas a partir de uma escuta sensível e crítica. Formada em Comunicação Social e Jornalismo, com pós-graduação em Direito Penal e Processo Penal.

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