“Vivi alguma violação de direitos em todas as empresas onde trabalhei” diz Kátia Brasil, da Amazônia Real

O IMPACTO DA DESINFORMAÇÃO E DA VIOLÊNCIA POLÍTICA NA INTERNET

Kátia Brasil é jornalista, cofundadora e editora da Agência Amazônia Real. Está há mais de duas décadas na cobertura socioambiental com foco na Amazônia. É uma das 7 pessoas entrevistadas em profundidade para a pesquisa “O Impacto da Desinformação e da Violência Política na Internet contra jornalistas, Comunicadoras e Pessoas LGBT+”.

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Você pode falar sobre a sua formação, suas áreas de atuação como jornalista e comunicadora?

Kátia Brasil – Nasci em Fortaleza e minha família mudou no início dos anos 70 para o Rio de Janeiro. Foi onde passei a maior parte da minha vida escolar. Fiz a Faculdade Hélio Alonso, uma faculdade particular. No início da carreira, eu tinha interesse em fazer cinema. Inclusive eu prestei dois vestibulares na Universidade Fluminense para fazer o curso de Cinema, mas não passei. Como também gostava da profissão jornalismo, tinha já ídolos, como o Zuenir Ventura, que sempre foi uma das minhas inspirações nessa questão de fazer grandes reportagens…As viagens que ele fez, pela Amazônia, inclusive. Fui para o jornalismo, mas eu ainda não tinha esse contexto de Amazônia na minha vida. Sou filha de uma família que foi liderada por mulheres sempre, mas o machismo sempre foi uma coisa de enfrentamento porque as mulheres, minha avó é um exemplo, sempre me incentivaram a estudar. Ela ficou viúva muito cedo, teve que cuidar dos filhos sozinha e minha mãe também separou do meu pai cedo e teve que criar os filhos sozinha com a ajuda da minha avó, então eu sempre tive na família essa liderança das mulheres. Mas mesmo assim o machismo sempre foi muito forte. Quando entrei para o jornalismo, tempos depois trabalhei em rádio, em revista e, quando eu me formei, em 1990, participei de uma seleção para a contratação de repórteres para um jornal que seria inaugurado em Roraima, na capital Boa Vista. Passei nessa seleção e mudei para lá. Foi aí que eu fui conhecer a Amazônia. As informações que eu tinha da Amazônia, basicamente, eram sobre o Chico Mendes, uma grande liderança que havia sido assassinado anos antes da minha viagem, em 1988. Então tinha essa referência e coisas que eu lia nos jornais eram basicamente sobre conflitos e a existência de várias populações indígenas. O primeiro jornal em que eu trabalhei era um jornal político que na verdade não era um jornal como eu gostaria de ter trabalhado, era um jornal vinculado a uma candidatura política do dono do jornal, que também fui conhecer lá. Era o Romero Jucá, e foi outra decepção que eu tive, pois era um jornal para comandar a parte toda de comunicação dessa candidatura política que acabou não vencendo, mas assim, a gente viu como se faz uma campanha eleitoral, no rincão. Foi bastante decepcionante para uma jovem jornalista como eu que estava iniciando a carreira. Mas nesse jornal eu conheci bons jornalistas, pessoas que me deram atenção.  Após nove meses, voltei pro Rio de Janeiro. Havia conhecido o Plínio Vicente, que era o correspondente do Estado de S. Paulo em Roraima e ele me ensinou a fazer correspondência. Acabei fazendo correspondência para o jornal O Globo lá em Boa Vista ainda. 1990 foi o ano em que o Governo Collor assumiu o poder e o Lula perdeu aquela eleição. O Rio de Janeiro estava numa estagnação, não havia emprego para jornalistas, a situação estava bem difícil para todo mundo e aí voltei, mas consegui uma vaga de correspondente do Globo em Roraima e fui pra lá. E aí começou a minha vida realmente como jornalista socioambiental, como é mais definido hoje. Fui conhecendo o que eu queria de fato, a Amazônia de verdade. As populações indígenas, as comunidades, as terras indígenas, e fui fazendo um trabalho que eu acho que é pioneiro em relação àquela região do Brasil. Porque apesar de estarmos na Amazônia e escrevendo daquele ponto, não se falava dos povos indígenas nos jornais. Ao contrário, o estado de Roraima é muito combativo em relação às demarcações de terras. Existe um racismo muito grande contra os povos indígenas, inclusive conflitos com mortes, esse processo todo de demarcação de território todo é muito tenso. Eu vivia na zona de perigo o tempo todo. Escrevi sobre muitos conflitos, acompanhei demarcação em territórios e tudo. Acompanhei muito essa questão de invasão, de garimpos ilegais, conflitos na fronteira com soldados militares e garimpeiros e ganhei um Prêmio Esso. Eu era recém-formada e ganhei esse prêmio justamente relatando o conflito que eu fui acompanhar na fronteira do Brasil com a Venezuela, da Guarda Nacional Venezuela. Fiquei lá em Boa Vista morando mais dois anos, trabalhei na TV Educativa, fui repórter de TV, e esse foi meu último trabalho lá. Mas sempre tive muito embates, com editores e diretores, menos na Gazeta. Já nos outros veículos eu enfrentava esse problema de matérias que não podiam sair porque não ia agradar o político tal ou matérias sobre meio ambiente que também não iam agradar os empresários, então a minha vida foi marcada por esses por essas questões de violação de direitos da liberdade de expressão e a própria ameaça ao jornalista. Em 1993, comecei a cobrir um crime, que foi a morte de um conselheiro da Ordem dos Advogados do Brasil, eu era da TV Educativa. A TV me deu muita liberdade para fazer a cobertura desse crime que envolvia um desembargador e os filhos dele, que eram da Polícia Militar, inclusive um era delegado. Houve muita comoção dessa morte, os conselheiros da ordem foram todos para Roraima fazer uma manifestação, o Governador não queria federalizar o caso, havia pressões do Governador e eu enfrentei muitos problemas. No final o desembargador me ameaçou de morte. Eu ainda fiquei um tempo lá administrando isso e acabou que eu conheci um jornalista da cobertura do massacre dos Ianomâmis que ocorreu em 1993. Eu disse para ele que eu tinha interesse em morar em Manaus, que eu não queria sair da Amazônia, ele falou para mim que se eu fosse para Manaus ele conseguiria uma vaga de correspondente no Estadão e foi assim que aconteceu, fui pra Manaus, fui ser a editora de economia do Jornal Amazonas em Tempo. A dona do jornal, que era Hermengarda Junqueira, sabia da minha situação de ameaça de morte, me ajudou bastante nessa transição e cheguei lá como correspondente do O Globo também. Depois deixei O Globo e entrei no Estadão. Fiquei sete anos como correspondente para o Estadão. No Amazonas eu fiquei uns dois anos, acabei tendo problemas com a direção do jornal porque comecei a fazer a investigação de uma questão de sonegação de impostos, empresas fantasmas da Zona Franca de Manaus com Usina de São Paulo. Então eu sempre estava no meio do perigo, fazendo material investigativo. Teve até um caso de um jornalista que estava me espionando, por incrível que pareça, porque ele era assessor de um vereador e esse vereador tinha dado uma entrevista para o Estadão. E houve uma espionagem do que eu estava fazendo, eu era editora de economia. Todas as empresas em que eu trabalhei, todas, eu tive alguma situação de violação de direitos. Todas, entendeu? A TV Educativa, por exemplo, para onde fui quando saí do Amazônia em Tempo. Na época quem era o Governador do Amazonas era o Amazonino Mendes, um cara totalmente truculento com jornalistas. Lá eu fiz uma matéria sobre prostituição infantil de criança, eu gerava matérias pra TV Cultura de São Paulo, e esse material que eu fiz sobre a violência sexual contra crianças desapareceu. A fita sumiu no dia em que ia ser enviada. Foi mais de um mês de trabalho andando de madrugada nas ruas atrás das crianças, acompanhando delegada, pessoal dos comissários, pessoal do Conselho Tutelar, indo nas periferias, atrás dos pais e mães que eu queria contar a história de algumas crianças. E no final todo o trabalho ficou fantástico. Quando foi gerar o material, a fita sumiu. Isso ocorreu em 1996. Inclusive esse foi o motivo que me fez não trabalhar mais em empresa local. Eu tenho trinta e um anos de profissão, sem contar os estágios. Mas assim como outras [jornalistas] entrevistadas para essa pesquisa, a minha vida sempre foi cheia de altos e baixos em relação às violações. É difícil, é difícil quem não tenha enfrentado, principalmente quem trabalha muito em campo, como eu, que trabalho numa região já caracterizada como uma região de conflitos, como é a Amazônia. 

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Hoje estamos sendo muito atacadas e estamos na linha de frente dos grandes acontecimentos. Na nossa profissão,a maioria são mulheres, e essas jornalistas não estão nos postos de chefia nas redações, que é uma outra violação que a gente sofre

Você percebe que há uma naturalização do discurso de ódio no meio jornalístico? E se sim, de que maneira?

Kátia – Não sei se acontece em outros países, mas aqui a gente, jornalista, enfrenta rejeição. A gente tem, infelizmente, essa desqualificação do jornalista. Dizem que somos fofoqueiros, até no campo da literatura, no campo da telenovela, a gente é retratado como pessoas ou muito radicais ou pessoas que fazem fofoca. E sabemos que o nosso trabalho não é esse. A gente tem um trabalho diário de contar as histórias da sociedade, o que se passa na sociedade e no mundo. Nós somos, na verdade, personagens de mudanças, uma série de trajetórias social, política, econômica. Então a gente não é respeitado como deveríamos ser. É importante, principalmente, pesquisas como essa porque vai valorizar o nosso trabalho, porque é um trabalho muito difícil, é existencial a profissão de jornalista. Hoje estamos sendo muito atacadas e estamos na linha de frente dos grandes acontecimentos. Na nossa profissão,a maioria são mulheres, e essas jornalistas não estão nos postos de chefia nas redações, que é uma outra violação que a gente sofre, a desvalorização enquanto mulheres. Somos mandadas por homens, homens que ganham muito mais do que nós, mesmo quando estão no mesmo patamar de chefia ou no mesmo patamar de repórter, mas vemos ainda muitas de nós ganhando menos. Dentro das Redações também vemos uma série de violações contra as mulheres. Então eu acho que a primeira coisa que a gente precisa mudar nessa história é valorizar a profissão de jornalista e as jornalistas mulheres. Hoje estamos vivendo um momento em que a questão da diversidade está muito forte, mas por outro lado estamos também vivendo um momento em que as pessoas não têm mais vergonha de dizer que são racistas, que não gostam de preto, que não gostam de mulher feminista. Tem toda essa questão que nós estamos vivendo nesse momento e aí de repente a gente vê que a diversidade está nas propagandas, as grandes empresas estão se preocupando com a diversidade, estão incluindo, mas será que isso aí é uma temporada? Será que isso vai passar? Eu pergunto muito isso. A gente tá numa caixinha, mas eu não quero estar numa caixinha. Entendo que a diversidade é uma janela que não vai mais fechar. A gente está vivendo um momento de revolução, certo? Mas na verdade nós que somos ligadas ao movimento de mulheres e principalmente ao movimento antirracista, que combate o preconceito e o racismo, sabíamos que esse dia ia chegar. Demorou muito e ainda temos muitos problemas a enfrentar, muitos desafios, mas no jornalismo isso tem que entrar dentro das redações. O jornalismo, se você for avaliar, é uma profissão e as empresas também são preconceituosas. 

Você avalia que o bolsonarismo tem alguma relação com isso?

Kátia – O preconceito sempre existiu, o racismo sempre existiu, mas acho que era camuflado. Na minha vida eu tive que enfrentar isso e algumas vezes eu nem sabia que era racismo e enfrentei. Com a entrada do Bolsonaro a partir de 2018, a partir do momento em que ele ganha a eleição, isso se torna mais visível,  porque em todo o decorrer da carreira dele, ele sempre mostrou quem ele era, nunca negou que ele não gosta de pessoas pretas, que ele é racista, que ele não gosta de indígenas, que ele não ia apoiar nenhuma questão de demarcação de territórios, que ele ia colocar a população armada etc. E isso foi colocado na campanha dele, mas antes esse era já era discurso dele, ele sempre teve discurso de ódio, né? Nós tivemos aí um país envolvido em mais de vinte anos de ditadura militar e o Brasil não virou uma potência; se a ditadura fosse boa nós não estaríamos nessa situação que é agora né? Então nem eles generais querem comandar o Brasil atualmente, só um grupo ali que é ligado ao Bolsonaro que se mostra interessado em assumir o poder, mas a maioria não quer. Então assim, a gente tem que lutar contra isso, a gente tem que combater isso e é muito importante o jornalismo nesse sentido, esclarecer a sociedade o que está acontecendo de fato sem que as empresas sejam envolvidas politicamente com o poder, porque a gente sabe também que a imprensa teve muita responsabilidade na eleição do Bolsonaro. Criou uma política antipetista. A imprensa teve influência sobre isso, como tiveram também jornalistas que apoiaram a candidatura do Bolsonaro. Então a imprensa até hoje não fez sua mea culpa

E quanto ao contexto da pandemia, você acha que escalou de alguma maneira a propagação de discurso de ódio? Kátia –  Eu já falei essa frase algumas vezes, que considero super verdadeira. O grande problema da pandemia é a desinformação, a pandemia chegou no Brasil de forma totalmente distorcida. As pessoas achavam que a China era culpada, que a China inventou um vírus no laboratório. Houve problema com médicos logo no início [da pandemia no Brasil], todas as informações foram totalmente distorcidas com e por um Presidente da República que passou a  espalhar informações mentirosas. São mentirosas na verdade, para toda a população, principalmente para os eleitores dele. Então combater isso logo no início foi um desafio descomunal. Lá na Amazônia, por exemplo, como a gente trabalha com populações indígenas, elas começaram a receber essas informações totalmente descontroladas, desencontradas, era muita desinformação. Alguns resolveram fazer a quarentena por conta própria, fechar as aldeias, colocar barreiras e outros diziam que não, que o vírus nunca ia chegar lá. E nós fomos atacadas, eu e a Elaíze Farias [editora da Amazônia Real] por uma liderança que disse que a gente estava escrevendo fake news. Essa pessoa ficou uma hora no Facebook nos atacando, chamando a gente de bandida, de feia, dizendo que a gente pegava o dinheiro de ONG, que a gente ganhava milhões, que a gente mentia. Isso porque estávamos dizendo que o vírus estava se aproximando das aldeias e que já havia casos suspeitos, inclusive em populações isoladas. E vimos depois que a covid passou a ser a principal causa de morte de povos indígenas. É algo absurdo. Um genocídio terrível. Até hoje o governo Bolsonaro ainda não fez uma política especial para os povos indígenas no combate a covid. Por quê? Porque mesmo a vacinação não é para todos os povos né? Eles vacinam só pessoas que vivem nas aldeias, quem vive na região urbana não está sendo vacinado [informação dada em 2021, quando foi realizada a entrevista]. A não ser que consiga vacina pela a rede municipal, mas como um direito de indígena eles não conseguem porque o governo não reconhece os territórios que existem nas periferias.

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A maior parte da população não lê nada, só fica no WhatsApp recebendo porcaria. Por causa disso, inclusive, nós aumentamos o nosso envio de notícias pelo WhatsApp, para enviar conteúdo para esse aplicativo 

E você percebe que há uma perda de confiança na mídia por parte da sociedade? 

Kátia – Sim, eu percebo. Já inclusive vi pessoas que têm grau de estudo alto e que dizem pra mim que não veem nada [na mídia]. Dizem  “não vejo, não leio mais nada, eu não eu não tenho mais paciência pra ler notícias, principalmente da pandemia”. A gente ouviu muito isso. As pessoas não têm mais paciência para assistir, ler e preferem receber notícias mentirosas pelo Facebook, mas eu digo “essas notícias que estão recebendo aí elas não são confiáveis, tem que saber da onde é a fonte, o que estão enviando pra você, porque você vai enviar uma notícia falsa”. Então, isso é muito perigoso. A maior parte da população não lê nada, só fica no WhatsApp recebendo porcaria. Por causa disso, inclusive, nós aumentamos o nosso envio de notícias pelo WhatsApp, para enviar conteúdo para esse aplicativo. Esse descrédito da mídia, o governo Bolsonaro trabalha pra isso o tempo todo, né? Quando ele não fortalece a comunicação e quando ele privilegia alguns veículos que o apoiam em detrimento de outros, ele enfraquece a imprensa. Porque a mídia brasileira tem essa questão específica de ter financiamento público. É uma coisa de legislação, relacionada à questão da concessão, tem essa questão da publicidade institucional que vai para os veículos comerciais de um modo geral. Nós que somos uma mídia independente, como a Amazônia Real, não recebe recursos públicos justamente para manter nossa liberdade de expressão e também garantir a segurança dos jornalistas. Porque quando os governos apoiam essas mídias eles também são cerceados, justamente por fazer reportagens que vão desagradar determinados políticos ou ao próprio Governador. Enfim, pra evitar esse tipo de violação a gente não recebe recurso público. Essa foi a decisão da Amazônia Real porque como nós, eu e a Elaíze, passamos muito tempo e já vivemos muito tempo nesse perigo, a gente não queria que a Amazônia Real fosse exposta a essa questão da segurança dessa forma.

Como você acha que o poder público tem atuado nessa temática da liberdade de imprensa?

Kátia – Eu não vejo nenhum movimento do [poder] Executivo. Vejo um movimento do Supremo Tribunal Federal em relação ao combate às fake news, que é um movimento muito importante. Vejo agora, com a CPI da Covid, esse movimento também de combate às fake news, mas eu vejo muito mais e cada vez cresce mais o apoio das organizações que defendem a liberdade de expressão, como a Repórteres Sem Fronteiras, Artigo 19, as próprias organizações que apoiam o jornalismo que são formadas por outros jornalistas, como a Abraji (Associação Brasileira de Jornalistas Investigativos), a Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas), a Ajor (Associação de Jornalistas Digitais). É todo o movimento da sociedade, mas as instituições do Executivo, do Legislativo e principalmente do Judiciário ainda devem muito ao setor da comunicação. Por exemplo: hoje o maior risco que nós temos não vem nem da política em si, do Executivo, vem do Judiciário porque se um político ou empresários se sentir prejudicado por alguma reportagem que a gente escreveu sobre eles ou, enfim, alguma coisa que tenha relacionado pessoas, empresas, alguma das matérias que fazemos, o que que eles fazem? Eles entram com a ação até em juizado de pequenas causas, e aí conseguem uma liminar rápido, para retirar o conteúdo. Isso é censura e isso nós enfrentamos recentemente com um parceiro nosso, que foi da Repórter Brasil. Eles publicaram uma matéria nossa no site deles e o juiz lá de Roraima concedeu a liminar para a funcionária da saúde que se sentiu prejudicada com a nossa matéria. E o juiz não leu o nosso conteúdo, se leu, não entendeu, não ouviu outra parte, ou seja, não deu direito à Repórter Brasil a ser ouvida e censurou a reportagem e mandou tirar o conteúdo do ar. Uma censura gravíssima. Isso já foi derrubado, os advogados conseguiram ingressar com recurso e o juiz derrubou, acabou arquivando o processo, mas nós estamos aguardando também o processo por causa do impacto que tem uma decisão como essa. A pessoa que é investigada inclusive agora já está sendo investigada até pela Polícia Federal. Então a gente tem muito impacto no conteúdo e é muito importante que essas parcerias com outras mídias aconteçam, principalmente para as mídias que estão no Norte do Brasil, principalmente na Amazônia. Vou te dar um exemplo. Em 2019, tivemos aquele fatídico dia do fogo. Foram madeireiros do Pará que se juntaram e anunciaram que madeireiros e fazendeiros ligados a Bolsonaro queriam chamar a atenção do Bolsonaro para a questão do combate ao Ibama e às ONGs. Então eles resolveram fazer o dia do fogo lá para queimar uma área e fizeram mesmo. Teve um jornalista da cidade de Novo Progresso, Adecio Piran, que é dono do jornal local de lá que escreveu uma matéria sobre o dia do fogo e foi super ameaçado. Foi ameaçado de morte, inclusive. Eu mesma comecei a escrever a matéria sobre a situação dele quando eu fui falar com as organizações, com a Fenaj e sindicatos. No início foi muito difícil apoiarem porque achavam que o jornalista tinha problemas na justiça, que ele tinha processos, e eu dizia “bom, vocês vão esperar matarem ele para soltar uma nota?”. Até o Ministério Público demorou para agir. Às vezes, esse jornalista, que é o comunicador da cidade, o radialista, às vezes é o único comunicador de uma cidade, é a única pessoa que transmite comunicação que faz notícia, que produz conteúdo numa cidade, e esse jornalista, ele é desclassificado até pelo sindicato dos jornalistas. Isso é uma coisa que eu questionei muito aos sindicalistas, a própria Fenaj eu questionei e depois eles soltaram uma nota e começaram a acompanhar o jornalista. Na nossa profissão há também uma desigualdade relacionada à região, relacionada também às mulheres e, principalmente, à questão LGBT+. Isso é uma dificuldade que existe, nós não somos vistos como iguais, nós somos vistos com muitas diferenças e preconceitos. Então esse caso do Adécio Piran foi uma questão que eu avaliei como um preconceito regional. Ele não é jornalista formado na faculdade, ele é comunicador, dono de jornal, mas ele estava ali sozinho, com ameaça de morte. Inclusive ele sofreu aquele tipo de assédio de as pessoas procurarem os patrocinadores do jornal e ameaçarem tirar o patrocínio. Ele recebeu ameaças veladas, em panfletos, telefonemas anônimos, recados ao ponto de ter que sair da cidade, foi para outro local, passou uma semana longe do trabalho por causa de segurança. E até hoje ninguém foi preso, ninguém foi responsabilizado. Então assim, no interior do Brasil isso é muito comum, é muito comum também quando assassinam jornalista, ou quando jornalista é agredido, acharem que é por outros motivos e não por motivos de violência contra a imprensa, contra jornalista. A mesma coisa com as mulheres, quando a mulher é vítima de assédios, quando ela é vítima de ameaças, às vezes acham em um primeiro momento que há uma coisa parcial, e que não é a violência em si, por causa da profissão. Isso é muito comum. Então é muito importante que as organizações, principalmente as que fazem pesquisa, busquem qualificar mais essa pesquisa no sentido de ouvir essas vozes que estão silenciadas.

Você poderia falar sobre eventuais violências que você possa ter passado em decorrência da profissão nos últimos cinco anos, na internet e fora dela?

Kátia – Na internet eu até já comentei para você que em 2020 sofri um ataque no Facebook, de uma liderança indígena de Manaus que ficou uma hora atacando, com muita misoginia. Vimos ali um viés bastante bolsonarista, havia ligação com pessoas relacionadas ao Ministério da Saúde. A gente viu que tinha meio que um acerto aí com pessoas ligadas ao governo que não ficaram satisfeitas com a reportagem que fizemos e que bateu muito nessa questão do Governo Federal não ter dado a informação correta para os povos indígenas, não ter apoiado, não ter informado e enviado equipamentos, todos aqueles equipamentos iniciais que precisavam enviar: álcool em gel, o sabão etc. A gente estava ali naquele momento na rota de fogo, contando o que estava acontecendo e relatando a situação da chegada da pandemia na Amazônia, nos povos indígenas e sendo atacadas. Foi bem difícil. A gente teve apoio jurídico e resolvemos a questão, mas foi um ataque terrível. Outro ataque que nós tivemos nas redes sociais foi também causado por pessoas que produzem desinformação. Foi gente ligada a esse movimento todo de fake news, de pegar fotos de nossas reportagens e dizer que era mentira ou inventar mentiras de umas fotos. Nós tivemos por exemplo uma foto que foi feita dentro do cemitério, de uma senhora que morreu de Covid e o caixão dela estava sendo levado por dois funcionários do cemitério, coveiros. Eram quatro coveiros. E uma pessoa pegou essa foto e espalhou pela internet dizendo que o caixão estava vazio. A Agência Lupa fez a checagem de fatos. Foi uma checagem que teve que ouvir inclusive um familiar da pessoa. É uma coisa absurda você ter que dizer que a pessoa morreu e que ali tinha um corpo. Chegamos a esse ponto extremo porque estavam dizendo que era mentira e os leitores que nos chamaram a atenção, os nossos eleitores que começaram a nos procurar ali pelo Facebook, pelas mensagens e dizer “olha, Amazônia Real, estão usando a foto das matérias de vocês, estão dizendo que é mentira”, e então a gente começou a soltar a nota no próprio Facebook. Foi quando houve a checagem de fatos da Agência Lupa. E foi fantástico. O trabalho das agências de checagem são superimportantes, a gente deve muito a esse setor de jornalismo porque são pessoas que trabalham e que sofrem também muitos ataques durante o trabalho para poder checar.

E quando aconteceu esses ataques vocês usaram algum suporte do Facebook? Ou chegaram a usar em outra rede? 

Kátia – Esses dois que eu relatei pra você foram no Facebook. No Instagram de vez em quando tem leitores que entram ali, mas é mais pra questionar. Na minha conta pessoal eu fiz um agradecimento. Eu sempre falo “todas, todos e todes” ou então coloco todos com x. Eu estava pedindo votos para uma campanha que eu estava participando, de prêmio de jornalista. Aí a pessoa escreveu “eu não vou votar em você por causa desse ‘todes’” aí, e eu disse “tudo bem, eu não preciso do seu voto pra ganhar nada”. 

Mas você chegou a recorrer à plataforma, ao Facebook?

Kátia – Não porque não tinha como o Facebook entrar nisso, porque era algo que já havia se espalhado, estava em outras redes, como o Twitter também. Então a gente preferiu, por orientação jurídica, fazer um texto no Facebook e passar para as outras redes. E também tivemos a checagem da Lupa. Então quando a gente teve a checagem da Lupa, a gente colocou em todas as redes também. Nós agimos bem rápido e isso foi muito importante, a rapidez com que a gente conseguiu localizar o problema. Inclusive a gente descobriu quem estava produzindo a notícia falsa. Havia inclusive deputados federais bolsonaristas replicando isso nas redes sociais, principalmente no Twitter. Quando a gente começou a republicar o conteúdo da Lupa, dizendo que aquilo era mentira, aí foi neutralizado. Mas assim, passaram alguns meses e essa foto voltou de novo a ser veiculada.

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A gente recebe muitos comentários racistas, comentários de pessoas descontentes com as reportagens e a gente já tem uma norma dentro do Amazônia Real que é não publicar esses comentários, a gente não publica comentários misóginos, nem racistas, nem preconceituosos.

E você acredita que o vínculo empregatício, o tamanho da empresa, o alcance da mídia e o tema que está sendo publicado influenciam na possibilidade de sofrer algum tipo de ataque?

Kátia –  Sim, eu acho. Na verdade, primeiro o motivo do ataque é o conteúdo. Quando o conteúdo não agrada, quando o conteúdo é questionado, principalmente por políticos e pessoas que se sentem atacadas por alguma matéria que a gente faça, esse é o grande motivo [do ataque]. Por exemplo, se uma pessoa se sente insatisfeita ela vai usar aquele espaço que nós temos nos comentários para enviar seu comentário. A gente recebe muitos comentários racistas, comentários de pessoas descontentes com as reportagens e a gente já tem uma norma dentro do Amazônia Real que é não publicar esses comentários, a gente não publica comentários misóginos, nem racistas, nem preconceituosos. A gente não publica por norma nossa mesmo. A gente neutraliza, mas mesmo assim tem pessoas que ainda enviam muitos ataques via comentários, isso a gente recebe. E a gente não publica, a gente não vai divulgar de maneira nenhuma. Fora isso, recebemos os comentários normais que a gente responde, a gente responde também nas redes sociais, os eleitores. De um modo geral a gente acaba tendo uma audiência muito positiva. A questão da Amazônia interessa muito à população de um modo geral. A gente quer o debate, a gente precisa do debate independentemente da situação que nós estamos vivendo. A Amazônia Real já fazia debate, a gente já tem uma tradição, desde 2015, de fazer debates, de trazer o público para a gente discutir as questões da Amazônia. A gente faz oficinas, faz exposição de fotografia, justamente para a sociedade discutir o que acontece nessa região, e principalmente acompanhar essas transformações que estão acontecendo, tanto na floresta como nas populações tradicionais. Porque existe um ataque muito grande, principalmente do Governo atual, em relação à floresta. Então a gente tem obrigação, como jornalista, de fazer com que a sociedade discuta isso, debata de uma forma respeitosa em primeiro lugar e que esse debate leve alguma pelo menos à discussões que possam trazer um caminho mais positivo para o que nós fazemos em relação à Amazônia. O jornalismo é um serviço de sociedade, mas é um serviço para fazer a sociedade ter um olhar crítico dos temas que se aborda. Ninguém quer que se pense de uma maneira só, não é isso.A sociedade precisa ser crítica, mas ela precisa também ter meios de ter um debate pelo menos respeitoso, que as pessoas possam chegar em algum lugar. 

E para você a eleição do Bolsonaro como presidente afetou na violência e nos ataques contra jornalistas? 

Kátia – Afeta porque a gente escreve sobre os ataques. Quando o Bolsonaro foi eleito em 2018  nós recebemos comunicados de duas lideranças indígenas de etnias diferentes. Os  Pankararus, em Pernambuco, tiveram a escola e o posto de saúde incendiados. Nós escrevemos sobre esse acontecimento, foi uma coisa terrível porque foi um ataque de bolsonaristas contra essas lideranças, essas populações especificamente que estavam naquele momento lutando pelo reconhecimento e a expulsão de posseiros dos seus territórios. E na região do Mato Grosso do Sul a gente recebeu informações dos Guarani Kaiowá, que é uma comunidade indígena que vive ali na região do Mato Grosso que há muitos anos luta pela demarcação do seu território e também pela expulsão de fazendeiros de suas terras. Então eles vivem numa situação muito crítica de insegurança. Eles vivem na vulnerabilidade social e cultural, inclusive. Também relatamos que nos Guarani Kaiowá pistoleiros atiraram contra indígenas. Não ocorreu morte, mas muitos foram feridos, né? A gente acompanha essa comunidade e isso afeta a gente emocionalmente. Por isso que eu digo, nossa profissão é existencial porque mexe com a sua emoção. Depois começaram a surgir outras informações. Funcionários do Ibama foram atacados, carros do Ibama foram incendiados na região do Alto do Javari, que fica na fronteira com o Peru, aldeias indígenas também foram atingidas por tiros, outras etnias, como povos que vivem na região do sul do Amazonas também foram alvos de tiros e aí começaram ataques contra outros povos do Maranhão, assassinatos, assassinatos em Rondônia. Então a gente começou a relatar uma tensão muito grande dos povos indígenas mesmo, de uma situação de ataque geral. Todo dia alguém ligando e dizendo “olha, madeireiro me ameaçou” “olha, o fazendeiro está ameaçando”. Ocorreu a morte no Pará e a gente relatando tudo isso. Nós estávamos, antes da pandemia, muito centralizados no acompanhamento dos defensores da Amazônia porque começou a realmente ter haver muitos relatos. Com relação ao jornalista naquele momento não havia. O primeiro caso de relato de ameaça de morte de jornalista que eu recebi foi justamente esse caso do Adécio Piran, que eu relatei anteriormente.

Ainda sobre o período da pandemia, você acha que ela afetou nessa violência contra jornalista? 

Kátia –  Na pandemia, como eu te falei, ficou mais difícil para o jornalista. Primeiro que a maioria está trabalhando em casa, em home office, são poucas as redações que estão com todo mundo trabalhando. Eu não sei, essa situação de escrever, relatar o que está acontecendo, também é difícil porque a gente está escrevendo sobre pessoas que estão doentes ou morreram. Então assim, o dia a dia nosso ficou muito difícil. No caso da Amazônia Real a gente pediu ajuda da Repórteres Sem Fronteiras para ter um apoio psicológico com terapias para os nossos profissionais porque chegou um momento em que ninguém estava mais aguentando. Então começamos a ter conversas, começamos a trabalhar o autocuidado de todo mundo, a nossa reunião de pauta não ficou tão fechada, a gente começou a abrir para ouvir como estava sendo, porque era sempre alguém relatando que tinha algum parente doente ou algum parente havia morrido. Então a gente mudou muito a nossa forma de trabalhar para poder acolher todos da equipe, todo mundo trabalhando em casa. A gente teve em Manaus dois picos da pandemia muito sérios né. Em dois mil e vinte e no início de 2021, com a falta de oxigênio. Isso mexeu muito com a emoção de todo mundo. Além dos ataques contra o nosso trabalho, a gente teve esse ataque judicial que eu falei pra você. Já foi naturalizado e pessoas que não se sentem confortáveis com as matérias dizem que vão ameaçar. A gente vai tentando neutralizar isso da forma como a gente pode, procurando apoio jurídico, pedindo orientação ao advogado, mas dentro da Amazônia Real, fora esses ataques que eu falei pra você, nenhum jornalista relatou alguma coisa mais grave. 

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É muito importante você receber informações precisas, corretas e principalmente verdadeiras. A gente precisa criar esse senso crítico na nossa sociedade e isso é o papel do jornalista, então eu não tenho medo nenhum de ser jornalista.

E você se sente segura exercendo a profissão de jornalista? 

Kátia – Olha, eu me sinto segura no momento em que eu sei que o meu trabalho é feito com muita profundidade. Sou uma pessoa muito criteriosa, tenho um trabalho grande na apuração dos fatos, isso é algo que marca muito o trabalho desses anos todos da Amazônia Real. Eu não tenho medo nenhum do trabalho que eu faço. Aliás, o trabalho que eu faço é um trabalho de gratidão porque eu acredito que a nossa sociedade tem que ser bem informada, precisa, isso é tão importante como respirar ou beber água. É muito importante você receber informações precisas, corretas e principalmente verdadeiras. A gente precisa criar esse senso crítico na nossa sociedade e isso é o papel do jornalista, então eu não tenho medo nenhum de ser jornalista, ao contrário, isso me dá muita coragem, eu sou muito satisfeita pela profissão que eu escolhi. O meu objetivo inclusive é ensinar, é passar meu conhecimento para outros jornalistas, principalmente os jovens que estão chegando na profissão e querem fazer esse jornalismo socioambiental que é o que a gente faz hoje, então eu não tenho medo, essa palavra não existe no meu vocabulário.

Caso você queira falar alguma coisa que eu não te perguntei, que você considere importante… 

Kátia –  Eu gostaria sim de falar só um pouco mais sobre a questão da violência contra as mulheres jornalistas e uma questão sobre as pessoas LGBT+. Nós estamos em movimento de inclusão dentro da Amazônia Real, principalmente de pessoas LGBT+. A gente já tem um trabalho, que é uma oficina interna de diversidade, na nossa redação. Vamos pedir, inclusive, o apoio da Énois, que é uma escola de jornalismo que trabalha nessa temática. Queremos fazer nosso próprio Código de Ética dentro da redação para irmos além, e não apenas escrever conteúdos para essa população, mas também ter as pessoas dentro da nossa Redação. Nós já temos, mas a gente quer mais, a gente tem uma redação que tem muitas pessoas indígenas, a gente tem mais de trinta mulheres trabalhando. Temos uma equipe de mais de cinquenta colaboradores e temos a maioria mulheres, inclusive mulheres, mulheres negras, mas a gente quer avançar mais. A gente sempre cobre eventos relacionado ao movimento das mulheres, eu sou mulher feminista, então eu tenho participação em organizações que lutam pela defesa da mulher, como o Fórum Permanente das Mulheres de Manaus. Eu sou uma das fundadoras da Partida, organização que trabalha a defesa das mulheres na política. Participei também de outras organizações que também apoiam a questão do combate a violência contra as mulheres. É um trabalho muito importante hoje na nossa sociedade porque por mais que a gente ouça relatos, questões que envolvem a violência contra a mulher, a violência, isso sim, cresceu muito durante a pandemia. Eu vi esse crescimento, percebi isso junto com a minha colega, a Paula, do site As Catarinas, de Santa Catarina, e a Paula me ligou, me perguntou que parceria nós poderíamos fazer. Isso foi por volta de março de 2020. Falei para Paula que a gente precisava fazer um monitoramento da violência contra a mulher porque a situação estava gravíssima. Criamos uma série chamada “Um vírus e duas guerras”, que são duas guerras, uma contra a Covid e outra contra a violência, o feminicídio. Reunimos na sequência cinco mídias e no total foram sete mídias que participaram desse monitoramento. Fizemos durante todo o ano de 2020.

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