“Não deixo de trabalhar em ambiente hostil, mas me incomoda não poder me identificar como jornalista”, desabafa Juliana Dal Piva

Juliana Dal Piva é jornalista, colunista do UOL e repórter especializada em jornalismo investigativo. É uma das 7 pessoas entrevistadas em profundidade para a pesquisa “O Impacto da Desinformação e da Violência Política na Internet contra jornalistas, Comunicadoras e Pessoas LGBT+”.

O IMPACTO DA DESINFORMAÇÃO E DA VIOLÊNCIA POLÍTICA NA INTERNET

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Você pode falar sobre a sua formação, suas áreas de atuação como jornalista e comunicadora?

Juliana Dal Piva – Sou jornalista formada pela Universidade Federal de Santa Catarina, me formei em 2009, sou catarinense, mas trabalho no Rio de Janeiro desde 2011. Eu já trabalhei na maioria dos veículos nacionais do Brasil, tenho mais esse perfil, só não trabalhei com televisão. O Globo foi o lugar onde eu trabalhei mais tempo, e acabei encontrando caminhos melhores para trabalhar lá em dois períodos diferentes, entre 2011 e 2013 e entre fim de 2017 e fim de 2021. Eu já trabalhei em sites, em jornais, em revista. Ajudei a fundar a Agência Lupa, que é uma agência de checagem de dados. Tenho uma característica de trabalhar com o jornalismo de investigação, questões políticas, questões sociais, questões de direitos humanos, questões criminais. Então eu fiz muitas coisas distintas nesse tempo desde que eu me formei. Acho que eu passei mais tempo trabalhando questões relacionadas a direitos humanos do período da ditadura militar, violações de direitos humanos na ditadura, investiguei muitos casos de mortes e desaparecidos políticos, estou produzindo um livro sobre isso também e me especializei em entrevistar militares. Entrevistei muitos deles e isso de certa forma me leva para o meu trabalho mais recente, que tem certos núcleos que são próximos ao governo do presidente Jair Bolsonaro, especificamente o que diz respeito a ele, a família dele e as implicações criminais de um caso que fala muito sobre a biografia dele, que é a história que envolve os gabinetes da família dele no tempo da Câmara dos Deputados e dos filhos.

Na sua percepção há uma naturalização do discurso de ódio no meio jornalístico? Se sim, como percebe que isso ocorre?

Juliana – Forte isso, porque essa afirmação é um pouco genérica, sabe? Eu acho que ao longo do tempo, pegando especificamente o exemplo do presidente Jair Bolsonaro, ocorreu sim um erro ao longo dos anos, de tratar declarações que ele dava sobre opiniões que ele tinha com relação à ditadura, não baseadas em fatos, também opiniões que ele tem sobre a escravidão e as consequências da escravidão e também sobre direitos das mulheres, direitos das minorias de um modo geral, como polêmica. Eu acho que num primeiro momento aquelas entrevistas que foram feitas em alguns programas de auditório e enfim, programas sobretudo televisão, tiveram esse caráter. Tratou ele como se fosse alguém que gerava polêmica, consequentemente audiência, e isso de alguma maneira acabava repercutindo na internet, de modo geral na imprensa, declarações, e aí ele se tornou conhecido a partir dessas declarações. Ele se tornou mais conhecido, ele ganhou relevância como o deputado que era polêmico. Não se colocou o peso de que qualquer discriminação é crime, seja de sexo, seja de raça, a nossa constituição garante igualdade perante tudo isso. Tiveram muitas declarações dele no sentido do racismo, inclusive foram alvo de processos do Supremo Tribunal Federal e o Supremo não o condenou, colocou ele dentro da imunidade parlamentar. Então, eu acho que essa responsabilidade é dividida. A imprensa tem essa responsabilidade no período anterior sobretudo ali antes de 2018, quando ele vem crescendo, a partir de 2010, 2011. Também naquela época tinha a questão da Comissão da Verdade, ele também usou essa imagem do defensor dos militares para cacifar no meio. Nada disso foi levado a sério criminalmente. Então eu acho que essa naturalização não é somente da imprensa, sabe?  Foi uma naturalização da sociedade durante um bom tempo e é uma discussão que está colocada agora com relação à imunidade parlamentar, porque eu vejo uma escalada. Começou com isso, com ele e com outras pessoas que faziam esse discurso também semelhante. E depois, conforme eles vão ganhando poder, o presidente ao ganhar a presidência, a eleição 2018 e os deputados e senadores que se elegeram junto com ele, esse discurso vai crescendo para várias manifestações antidemocráticas. Então os filhos do presidente também fizeram manifestações antidemocráticas, o Eduardo Bolsonaro já declarou mais uma vez sobre defender a volta de um AI-5 e sobre o Supremo Tribunal Federal, “que precisava de um cabo e de um soldado para ser fachado”. Então isso vem numa escalada. Quer dizer então eles podem, dentro da imunidade parlamentar, inclusive defender o fim do Estado democrático no Brasil? Impuseram limites em 2021 com relação à questão do deputado Daniel Silveira, mas o deputado Eduardo Bolsonaro não sofreu nenhuma consequência com relação a isso que disse. Hoje houve uma busca e apreensão no deputado Otoni de Paula, que é um outro apoiador, mas os filhos do presidente não sofrem essa mesma sanção. Então, mais do que a imprensa, acho que existe uma naturalização generalizada da sociedade, o que não exime a imprensa, não é que não tenha cometido erros nesse sentido ao longo do tempo. Eu mesma tive essas discussões internamente, mais de uma vez, em diferentes lugares onde eu trabalhei, eu questionei a maneira como a gente fazia, os títulos, a maneira como você coloca as declarações da pessoa. Eu também vejo nessa mesma esteira, por um lado, eles fazendo essas declarações incriminatórias e depois avançando para questão antidemocrática, e por outro lado também recentemente por causa da pandemia eles negam a ciência. É o mesmo grupo de pessoas que faz essas declarações e naquela época as pessoas queriam menosprezar, achar que não tinha consequência. Bom, agora na pandemia isso resultou efetivamente em morte, né? Não que não resultasse em violência, em discurso de ódio num contexto violento, mas agora ele resulta numa questão de saúde. Porque a cloroquina, ivermectina, essas mentiras que saem,  isso se tornou uma ferramenta política para eles e o Estado demorou, o Estado democrático demorou para reagir. A sociedade normalizou, a imprensa também demorou pra começar a não reproduzir o discurso simplesmente, para contrapor. Eu acho que esse processo vem sendo feito nos últimos dois, três anos, de maneira tímida. Agora que está um pouco mais difundido, mas ainda assim, para o que a gente está vivendo, é pouco.

Como você percebe o fenômeno da desinformação e o impacto na sociedade, na prática do jornalismo?

Juliana – Fazendo esse mesmo raciocínio, foi ficando cada vez mais agressivo. O ambiente já não era dos mais fáceis nessa época em que o Bolsonaro estava dando essas primeiras declarações nesses programas de auditório, ali por volta de 2011, mas aí vem 2013 e quando começam aquelas manifestações de rua, que começaram por causa da passagem de ônibus, tudo veio pra rua, entende? Movimentos de direita, de esquerda, movimentos antidemocrático. Então é difícil até hoje entender o que é que foi que escancarou naquela época. Agora com certeza foi a partir de junho de 2013 que nós, jornalistas, começamos a ter problemas para trabalhar na rua, para usar o crachá, para se identificar como jornalista. Até então eu não me recordo de ter que esconder o crachá, de estar em manifestação ou protesto ou trabalhando e precisar não me identificar como jornalista no meio da multidão para cobrir uma manifestação. Ou mesmo pra chegar em algum ambiente político. A gente sempre se identifica. Isso até ajudava. Mas a partir de então, ali dos protestos, daí começa a ficar complicado, começam a ter as primeiras agressões, primeiro da polícia, depois começam de grupos de manifestantes e isso vai escalando. Começa a se tornar comum na verdade que de vez em quando ocorram agressões físicas a jornalistas em manifestação, eu nunca fui alvo, mas eu também sempre chego super low profile, sem crachá. Antes de abordar alguém para entrevistar, eu já fico olhando ao redor, escolhendo onde é que eu vou. Eu cobri, por exemplo, a manifestação, o protesto quando a vereadora Marielle Franco morreu.

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Foi a partir de junho de 2013 que nós, jornalistas, começamos a ter problemas para trabalhar na rua, para usar o crachá, para se identificar como jornalista. Até então eu não me recordo de ter que esconder o crachá, de estar em manifestação ou protesto ou trabalhando e precisar não me identificar como jornalista no meio da multidão para cobrir uma manifestação

Na frente da Cinelândia [no Rio de Janeiro] era um ambiente muito hostil à imprensa, uma comoção muito grande, mas havia ódio também ao trabalho da imprensa. A gente tinha colegas trabalhando junto em diferentes locais, mas não dava para a gente ficar o tempo todo junto porque era uma multidão e também o único jeito de a gente acompanhar tudo era estando em diferentes lugares. Eu sei que eu não me aproximei do núcleo central em nenhum momento porque eu não me senti segura pra fazer isso, eu ficava com medo mesmo da multidão, ficava com medo de precisar sair e não ter como ou mesmo, de sei lá, sabe… Então eu fui escolhendo pessoas aqui, ali, tentando identificar representatividade para entrevistar e fiz o que deu, mas me senti bastante insegura durante todo o momento. Passei por situações parecidas cobrindo manifestações do Bolsonaro, eu não quero equiparar, dizer que é igual, essa é uma coisa bem importante para mim, eu não quero dizer que é igual, mas eu preciso dizer que existe intolerância de uma maneira grave, generalizada na sociedade. E quando você vai cobrir também. Eu cobri também manifestação depois da facada que o presidente sofreu em Juiz de Fora. Fui aqui em Copacabana, numa manifestação que teve os filhos, o vice-presidente Mourão. Outro dia que também fui sem crachá, sem se aproximar do palco, meio que tateando onde dava pra ir. Nesse dia tinha bem menos gente que no dia dos protestos por Marielle. Eu tento trabalhar, não deixo de trabalhar porque o ambiente é hostil, mas me incomoda não poder me identificar como jornalista, me incomoda não saber se a gente vai ter efetivamente segurança da polícia para poder trabalhar, seja num lugar, seja no outro, e olha eu evito ter que cobrir manifestação de rua, por exemplo,  porque é inseguro, é onde talvez de tudo seja mais inseguro. E também a abordagem, sabe? Quanto mais grosseira a pessoa é comigo, mais simpática eu sou com ela. Porque aí assim a pessoa chega lá em cima, aí você vai contornando, dali a pouco ela começa a ficar com vergonha, em alguns casos, se ela tá sozinha, né? Eu já vi situações, é um limite muito pequeno pra você perder o controle e acontecer situações de linchamento como aconteceram com alguns colegas que dali um pouco vêm uns dez em cima, começam sabe, encurralar. Então eu tento fazer meu trabalho, mas não ignorar que essas coisas são complicadas e às vezes a gente vai perder o controle se você ficar assim, muito no meio do núcleo central. Falando de redes sociais, é outra escalada também de violência. Eu tenho Twitter acho que desde 2009, Facebook também, Instagram tenho, mas eu quase não usava, agora que eu estou usando mais. O Twitter também usava pouco, eu usava mais o Facebook antes. Já tinha episódios de linchamento desde a eleição de 2014, que eu me recorde, mas com certeza é do impeachment da Dilma [Rousseff] em diante que ganha uma velocidade esse tipo de episódio de linchamento virtual contra jornalistas. Já passei por isso, é um pouco assustador, porque eu diria que ninguém pode se dizer preparado para passar por uma situação dessa. Eu acho que de modo geral nem as empresas estão e nem elas nos preparam para encarar isso. Antigamente, como funcionava quando você fazia uma matéria que tinha muita repercussão e gente que não gostou: existia uma caixa de comentário do jornal, do site do jornal ou então ligavam para a Redação. Ligavam muito, ligavam para os telefones da Redação ou mandavam e-mail para os e-mails gerais que a gente tinha etc. Mas as redes sociais acabam criando proximidade para a gente falar com pessoas que a gente não conheceria, da mesma forma que viraram um muro de lamentação, e a pessoa vai te xingar se ela quiser. Começam a ter movimentos organizados, provavelmente automatizados, e aí vem escalando 2016. Tem a eleição que é a primeira eleição em que o Flávio Bolsonaro disputa a Prefeitura do Rio de Janeiro e também é a eleição do [Donald] Trump, nos Estados Unidos. Eu vejo que não estamos isolados no mundo em relação a isso, a essa violência na internet. Mas está acontecendo aqui também, de uma maneira cada vez mais agressiva. 

Você poderia falar sobre ataques que sofreu na internet, o teor, o nível, o conteúdo?

Juliana – Normalmente o conteúdo da matéria é ignorado. Na internet, sobretudo. Em geral o conteúdo da matéria é ignorado no ataque, quando é linchamento, com centenas, milhares de mensagens, como acontece no Twitter. Para nós, mulheres, é misógino, é ofensa. A pessoa ali tem pouco mais de 200 caracteres. O automático é uma palavra, né? Chamando de “vagabunda” ou “burra”, aí tem as desqualificações no sentido de você parecer novinha demais pra eles, então “estagiária” e variações disso; aí vêm os xingamentos que não são gênero, mas que também aparecem muito que é “jornazista”, “extrema imprensa”, “Globo lixo”, mesmo se você não é da empresa, entende? Eu acho muito engraçado “extrema imprensa”, o que é “extrema imprensa”? Teve uma vez que eu fiz uma matéria, entrevistei pessoas que tinham se arrependido de bater panela protestando contra a ex-presidente Dilma Rousseff e foi uma matéria que quando propuseram a pauta na reunião, eu pensei “nossa, não vou achar ninguém, ninguém vai ter coragem de admitir”. Em dois, três dias, achei umas cinco pessoas. Essa foi uma primeira matéria que teve um linchamento, xingamento.

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Em geral o conteúdo da matéria é ignorado no ataque, quando é linchamento, com centenas, milhares de mensagens, como acontece no Twitter.

Alguém não gostou da matéria e em vez de refletir que em nenhum momento a matéria falava que era uma sensação generalizada, não estava afirmando que era a maioria das pessoas, não. Existem pessoas e um perfil dessas pessoas, sabe? E aí aquele Rodrigo Constantino fez uma coluna sugerindo que eu tinha inventado essas pessoas e acredito que devem ter replicado em  grupo de WhatsApp, de direita, essas coisas. E aí replica e começa a te xingar e aí vai. Me lembro que esse foi um episódio, mas esse é um episódio “só” de xingamento. Mas a coluna do Rodrigo Constantino saiu na Gazeta do Povo, eu fiquei com muita raiva daquilo, muito chateada, a minha vontade era de ligar lá “não é possível que vocês vão inventar que a gente inventou uma matéria que tem até foto das pessoas”. Então assim é desrespeitoso num nível gravíssimo. Você pode criticar a matéria, só não dizer que a gente inventou a história porque isso não é crítica, é uma acusação, é uma infração ética. Pouco depois disso, em 2019, fiz uma matéria sobre um filme da produtora Brasil Paralelo que falava sobre uma nova visão do Golpe Militar,  e aí é uma área que eu tenho especialidade, não só de cobertura como de formação profissional, meu mestrado foi nessa área, então eu tinha até curiosidade pra saber qual era, vamos dizer assim, a volta linguística, semântica, simbólica que eles iam dar para afirmar que não teve golpe. Assisti o filme e entendi que mesmo querendo impor uma narrativa de que não teve uma outra solução, de que o Brasil foi salvo, vamos dizer assim, salvo de um golpe comunista, pois o Brasil sofria e ia talvez sofrer uma ditadura comunista caso não tivesse ocorrido a ditadura militar, mas mesmo quando precisa justificar a mudança do governo, eles usam a palavra golpe e aí a pauta estava dada. Até os cara de direita estão falando que é golpe, então ok né? No dia seguinte dessa matéria boba, que fiz num fim de tarde, o Brasil Paralelo fez um tweet “chamando para xingar”. Porque ele não diz para xingar, mas eles me acusavam de não ter visto o filme, ter feito a matéria e vieram com essa coisa de “estagiária”, “redatora”, como se você fosse desqualificada para fazer a matéria. E aí sim foi um outro episódio, eu acho que eu fiquei uns dois dias sendo xingada na internet bastante. Foi ali que eu descobri os filtros do Twitter para não receber notificação de quem não tem foto, email. Eu recebia umas notificações automáticas, eu estava recebendo muita notificação, aí eu alterei isso, fechei minha rede, eu acho, e eu recebi uma primeira ameaça de morte. Assim, veio uma mensagem que dizia “você vai morrer” de um perfil não identificado. Foi a primeira vez que eu tive que me defrontar com isso mais diretamente na minha carreira. Você saber se é só alguém na internet pirado ou se é uma coisa que você tem que se preocupar, o que que você faz? Então eu acho que justamente por não ter experiência nenhuma com o ocorrido a gente tomou medidas muito tímidas e aí, por exemplo, eu avisei internamente, foi avisado internamente, foi comunicado na época para a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo), mas a gente não fez um registro formal pedindo investigação, sabe? Isso acabou não sendo feito e é um arrependimento que eu tenho de não ter feito isso, me incomoda bastante. Porque eu acho que assim, depois disso, eu carreguei para mim que essas coisas precisam ser levadas a sério e quando a gente não cobra a punição, a gente não cobra a responsabilidade de quem faz essas coisas. Eu fiquei meio baqueada emocionalmente naquele episódio, eu não conseguia muito bem falar sobre aquilo e eu não conseguia falar  sem me emocionar, sabe, e “mulher não pode chorar”. Então eu não dei entrevistas sobre aquilo, não quis participar de evento nenhum, passei um tempão mesmo recusando coisas de trabalho assim para aparecer, até porque eu não me sentia confortável, não me sentia bem. Eu foquei muito em trabalhar, eu já estava enfurnada nessa coisa do governo Bolsonaro e dessa situação do [Fabrício] Queiroz e achei que também era o jeito de me proteger naquele momento, me manter low profile. No meio disso estavam acontecendo aqueles episódios com a Patrícia Campos Mello e a Patrícia começou a falar mais abertamente sobre o fato de que ela tava passando por tudo aquilo, que outros colegas estavam passando por ameaças, ela citava a gente, homenageava a gente, aí eu comecei a entender que também não dava pra deixar a Patrícia sozinha na história. Eu comecei a me sentir um pouco mais confiante, daí eu retomei um pouco a vida mais normal em relação a trabalho, parei de me proteger, eu me senti confiante de novo para me expor um pouco mais profissionalmente. Eu acabei tendo um destaque importante com relação a isso, se tornou importante para a minha carreira. E eu hoje separo o que é xingamento e o que é ameaça. Sai do Globo no fim de 2020, e na pandemia a gente trabalhou muito em casa, eu principalmente por causa do trabalho, da prevenção do vírus, trabalhei mais em casa e fiz saídas mais pontuais, quando tinha muita necessidade, quando era para falar com alguém ou buscar alguma coisa, documento, mas de uma geral eu trabalhei mais em casa, então eu me senti mais segura, sabe. Fiz um monte de matéria importante. Acabei não precisando estar na rua, então era menos esse embate com relação à questão da minha segurança física. Na internet, eu já silencio gente me xingando, bloqueio quando vejo que não é uma crítica, quando eu vejo que é com xingamento, denuncio etc. E aí eu saí do Globo e comecei a trabalhar como colunista do Uol ainda em 2020.

E então veio o Podcast… 

Juliana – A gente começou a programar o podcast “A Vida Secreta de Jair”, que recupera a biografia do presidente e o envolvimento criminal ali da história toda dos gabinetes, desse rolo que envolve um dos casos mais importantes para ele, e falo isso porque ele se irrita muito com essas questões, já falou para um jornalista, ao ser questionado sobre aspectos do caso, que a vontade dele era encher a boca da pessoa de porrada. É porque é muito intrínseco à família dele, é sobre ele e é sobre a família dele. É algo que incomoda e que preocupa e várias medidas foram feitas no Governo para proteger a família. Eu tentei reunir um pouco de toda essa história que é pública, que diz respeito ao processo, e também da minha atuação profissional investigando esse fato. O podcast foi publicado no dia 06 de julho. Mas teve a prévia da estreia do podcast, uma série de reportagens no dia anterior e, de novo, os xingamentos na internet. De modo geral, falando da minha rede, até que não houve tanto dessa vez. E aí eu quero também destacar algo que eu considero importante. Eles geralmente me xingam mais em outras matérias. Quando há matérias como esse caso eles não respondem, quando eu digo eles é sobre a família Bolsonaro de um modo geral, porque isso reverbera na rede deles, então aí as pessoas comentam também. Esses dias mesmo o Eduardo Bolsonaro veio criticar uma matéria que eu fiz sobre dados de valores que o Alan de Santos do [programa] Sexta Livre mandou para o exterior, e aí ele veio criticar essa matéria, eu respondi, ele printou o meu tweet, ele expôs a minha imagem, e aí eu respondi pra ele, respondi perguntando coisas que ele não tinha respondido no ano passado, além de responder à questão da crítica da matéria, porque não tinha fundamento. Então quando as matérias são específicas sobre esse assunto que envolve os gabinetes e o Queiroz e a ex-mulher do presidente e a Michele Bolsonaro, a atual primeira-dama em geral, a resposta não é direta para não reverberar dentro da própria rede deles. Eles deixam para atacar em outras matérias. Mas voltando ao que aconteceu no podcast, para concluir o trabalho do podcast, eu entrei em contato por e-mail com o Palácio do Planalto perguntando se eles queriam comentar o conteúdo das gravações, da ex-cunhada do presidente que tinha uma série de acusações com relação a ele, com relação à família. Chamei os advogados, diferentes advogados, porque o Flávio [Bolsonaro] tem um grupo de advogados que não vem ao caso, e o Bolsonaro tem especificamente um advogado que se apresenta como a pessoa que o representa, que é o Frederick Wassef e aí gravei entrevistas com essas pessoas para concluir o trabalho.

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Quando há matérias como esse caso eles não respondem, quando eu digo eles é sobre a família Bolsonaro de um modo geral, porque isso reverbera na rede deles, então aí as pessoas comentam também

Gravei as entrevistas no dia 02 de julho. Foi normal, não teve nenhum grande estresse com ninguém. Passou uma semana, no dia 09 de julho, no último dia da publicação do material que foi a estreia do último episódio do podcast, que estreava 4h da manhã, fiz uma entrada ao vivo no canal do Uol ao meio-dia para comentar, explicar um pouco do que tinha no ar, de novidade, e horas depois, no fim da tarde, por volta de umas 18h, eu recebi uma mensagem do Wassef, em que ele fazia insinuações dizendo que se eu fizesse o trabalho que eu faço no Brasil na China, meu corpo poderia desaparecer. Dizia que eu sou uma inimiga da pátria, que eu estava querendo destruir a vida do presidente, a família, perguntava se eu estava feliz com isso, entre outras coisas, que é uma mensagem longa que tem um monte de coisas nesse sentido, paranoia comunista e uma clara ameaça à minha atuação profissional de certo modo. Também à minha integridade física. Ele não contestou em nenhum momento nenhuma informação que foi publicada.  A mensagem é gratuitamente um ataque a mim, não é nem a empresa, o Uol passa longe. Sou eu. Eu acho que no caso dele tem a ver com o fato de que eu me destaquei muito profissionalmente também nesse tempo, fiz muitas matérias que tiveram repercussão e implicação pro senador e para família e para o presidente, então ele conhece esse trabalho. Eu estava vendo um filme com meu marido em casa quando essa mensagem chegou, começando a tirar uma folga de todo trabalho pesado das semanas anteriores para concluir o podcast. E a minha primeira reação foi de choque. Comuniquei à chefia e à minha família também avaliei que tinha que avisar. Estava com meu marido na hora, então ele olhou e foi tomada a decisão de tornar público o que ele me mandou, por uma questão até de proteção, porque é difícil saber exatamente se a gente se preocupa. O que você faz durante isso, naquele momento, e ali eu acho que realmente era importante dizer que ele estava fazendo isso porque estava se sentindo confiante o suficiente para me mandar uma mensagem daquela. Eu vou saber o que ele vai fazer mais? Sei que tornar público que você é ameaçada é algo que é ruim. Não é bom. Era o que tinha que ser feito para tentar ter alguma proteção com relação à alguma coisa que pudesse ser feita contra mim, mas a exposição disso é algo que te marca como profissional. Eu não quero ser conhecida como a jornalista que foi ameaçada pelo Frederick Wassef. Eu tenho uma carreira, eu tenho um trabalho, então eu não quero que esse episódio me defina, mas infelizmente te marca. Quando você notícia, ele te marca bastante e é algo que é incômodo, não é bacana, nem um pouco, passar por isso. Até porque ele é uma pessoa extremamente difícil, então na medida em que a gente denunciou isso ele foi lá e me ofendeu ainda mais. Ele começou a inventar isso para algumas pessoas que começaram a procurar ele por a gente ter noticiado a ameaça e dizia que tinha sido “uma troca de mensagens, e que mandou isso numa troca de mensagens”. E não, não houve uma troca de mensagem, ele aquilo gratuitamente”. Eu estava em casa, com meu marido, não tinha uma matéria, não estava esperando o outro lado de nada e aí ele me ofendeu mais publicamente. Na cobertura da imprensa sobre isso, eu recebi muita solidariedade de entidades, instituições, colegas jornalistas e foi muito bacana saber disso, mas ao mesmo tempo algumas matérias que saíram , olha, terríveis. Eu vi uma que abriu o microfone pra ele falar dez minutos dizendo que eu tinha quebrado um off em uma determinada rádio. Deram o título pra ele dizer que era fake news a notícia da ameaça. A mensagem não foi enviada, então? É um absurdo. Fiquei chateada com isso também, me poupei de ler o resto. Hoje foi comigo, mas amanhã pode ser com qualquer um de vocês. Achei que as empresas [de jornalismo] não se manifestaram da maneira como deveriam, de modo geral. As demais empresas de jornalismo, além do Uol.

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Quando há matérias como esse caso eles não respondem, quando eu digo eles é sobre a família Bolsonaro de um modo geral, porque isso reverbera na rede deles, então aí as pessoas comentam também

Acho que deveria ter tido uma repercussão mais parecida com o que aconteceu quando aconteceu com o Glenn Greenwald, por exemplo. Quando o Bolsonaro ameaçou o Glenn Greenwald de prisão, não foi a vida especificamente, foi de prisão. Então eu não sei se é porque eu sou mulher, mas enfim. Eu denunciei ele formalmente ao Ministério Público de São Paulo, apresentei ata notorial das mensagens que foram trocadas. Era o que me cabia, fazer a denúncia. É uma coisa que é custosa também ser feita. Não faço a menor ideia do que vai acontecer, mas eu achei que precisava ser registrado e a minha família também entendeu dessa maneira e eu fiz questão que isso fosse feito. Eu ainda estou aqui, pouco mais de um mês depois do que aconteceu, me recuperando das consequências desse episódio, não só da ameaça, mas da repercussão do podcast. Esta semana talvez tenha sido a primeira semana em que eu saí de casa sozinha sem compartilhar a minha localização com alguém. Nas primeiras semanas, nos primeiros quinze dias, eu praticamente não saí de casa. A gente teve que orientar aqui o porteiro, coisas como “não dê informações sobre a gente”. Se alguém perguntar, nos avise. Eu não quis botar a segurança, entendeu? Achei que ia chamar a atenção dos vizinhos. Dentro de casa eu relativamente me sinto segura. Mas eu com um certo medo de sair de dentro de casa nas primeiras semanas, não dá pra saber se tem perigo ou se não tem, sabe? Isso fica na sua cabeça, é estranho. Então nas primeiras semanas as poucas coisas que eu precisei fazer de trabalho eu compartilhava a minha localização com meu marido pra que ele soubesse sempre onde eu estava, quando eu precisava sair, embora tenha evitado ao máximo sair, saindo só para questões muito urgentes. Também me afastei do trabalho, tive que pegar uns dias de folga mesmo, sair, fui passar uns dias na casa da minha família. A minha família também sofreu retaliação de trabalho por causa do podcast, mas eu não quero detalhar muito. É assim, pressão pra cima de pessoas da minha família por causa do meu trabalho. Então eu lido com isso e vou tentando trabalhar, mas eu não me sinto 100%. Eu tenho dificuldade de me concentrar agora, tenho dificuldade de manter a concentração. E estou tentando lidar, tentando não me cobrar muito. Trabalho muito, eu gosto muito de trabalhar, eu gosto muito de ser jornalista, de trabalhar com a reportagem, mas isso tudo mexeu muito comigo e com a minha família. Embora eles tenham me apoiado muito a ir em frente, a seguir,  mas também tem uma preocupação, de continuar fazendo o trabalho que eu estava fazendo. Então eu estou um pouco num processo de entender os caminhos que eu vou seguir. O estado das coisas é esse. 

Você acha que a questão de gênero, o fato de ser mulher ou  ser LGBT+, implica em algum tipo de violência específica no jornalismo? 

Juliana – Eu acho que tem uma diferença sim na maneira como eles nos ofendem. De modo geral, os xingamentos que a gente recebe são xingamentos claramente com viés de gênero, pois é raro um homem ser chamado de vagabundo, mas é bem comum uma mulher ser chamada de vagabunda. Se olhar para o meu episódio mais grave, vários colegas jornalistas cobrem esse assunto que envolve o Bolsonaro, Queiroz e companhia. Um deles recebeu nada [de ataque], entendeu? E tem um outro colega jornalista, homem que fez algumas matérias muito importantes do caso também, que é o Fábio Serapião, da Folha de S. Paulo agora, mas antes ele trabalhava no Estadão e na [revista] Crusoé. Ele é o repórter que revelou o relatório do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) lá em dezembro de 2018. Ele é o repórter que fez a matéria sobre os cheques da Michele [Bolsonaro], que ela recebeu do Queiroz. O Frederick não mandou essas mensagens para o Serapião, entende? Mas ele se sentiu à vontade de mandar para mim. É difícil até saber o que passa na cabeça de uma pessoa para esse tipo de coisa. Quando eu tornei pública a ameaça, a Luísa Martins, do Valor [econômico] contou que foi constrangida por ele e forçada a entrar no carro para que ele reclamasse de uma matéria que ela tinha feito em Brasília tempos atrás. Então, eu acho que é diferente sim, tem muito machismo nos arredores do Bolsonaro e quando a gente passa o tempo assim, todo dia no Palácio, quando eu estive lá senti muito por ser mulher. Tem até mais jornalistas mulheres cobrindo o Palácio do Planalto, mas quando você olha o caso dessa história tem muito mais homens que cobrem do que mulheres e nenhum deles foi alvo de algo  como aconteceu comigo. Mas a Patrícia [Campos Mello] foi alvo de ameaças daquelas injúrias sexuais. Teve o caso da Vera Magalhães, que teve exposição de dados da família dela, além de xingamentos de modo geral. Com homens não é igual, dessa mesma maneira, sabe? E eu, quando eu andava no meio dos militares, desde quando eu cobria só repressão, mais a questão da repressão política, a violência na ditadura, sempre tinha e carrego essa sensação,  como se eles me tratassem como “aquela menina, aquela menininha ali que faz umas perguntas impertinentes, sabe?”. Porque muitas vezes menosprezam. Pelo menos quando o presidente tem várias pessoas ao redor. Tem o que é machista de te desprezar profissionalmente e aí quando você se destaca profissionalmente vai te atacar para te diminuir, eles não respondem especificamente as coisas que precisam ser respondidas por representantes públicos. Então, ou você não é competente, e aí “não vou te dar bola”, ou então você se excedeu e precisam te diminuir profissionalmente, então “eu te ataco, eu te ataco, e tento atacar a sua credibilidade”.

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