“Quando recebo ataque de ódio, peço pra denunciarem. Prefiro não ler os comentários” afirma Caê Vasconcelos

O IMPACTO DA DESINFORMAÇÃO E DA VIOLÊNCIA POLÍTICA NA INTERNET

Caê Vasconcelos é jornalista, homen trans, autor do livro Transresistência: Pessoas Trans no Mercado de Trabalho e foi uma das 7 pessoas entrevistadas em profundidade para a pesquisa “O Impacto da Desinformação e da Violência Política na Internet contra jornalistas, Comunicadoras e Pessoas LGBT+”. 

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Fale um pouco sobre você, sua formação, suas áreas de atuação enquanto jornalista, enquanto comunicador.

Caê Vasconcelos – Sou jornalista de formação, bissexual, fã de Harry Potter e odiador de Jake Rolling né? Acho que não dá pra não ser as duas coisas. Me formei em 2017. Digo que eu entrei um pouquinho tarde porque a galera entra com 18, 19 anos. Eu fui entrar com quase 23 porque eu não sabia direito o que queria fazer e eu sempre achei que o jornalismo não estava dentro da minha realidade de pessoa crescida e que vivia até dois anos atrás numa periferia da Zona Norte [de SP], né? Eu sou daqui da Vila Nova Cachoeirinha, que é um dos bairros aqui da Zona Norte de São Paulo. Com muito orgulho, graças ao Prouni consegui me formar e acho que não dá pra falar do jornalista sem falar do Caê homem trans. Foi o meu TCC – trabalho de conclusão de curso – que me ajudou a entrar no mercado de trabalho. Foi um livro sobre pessoas trans no mercado de trabalho que também me ajudou a começar a me reconhecer como homem trans. Então quando eu entrevistei os meninos, comecei a me reconhecer mais nesse lugar e aí no mesmo ano, em 2017, eu entrei e comecei a escrever para Agência Mural. Também comecei a colaborar para A Ponte. Na Ponte Jornalismo, eu fiquei por quatro anos, dois anos como repórter colaborador. Os últimos dois anos eu fiquei como equipe fixa, como repórter principal da Ponte. Saí em abril de 2021 porque pandemia, transição de gênero, não estava mais aguentando cobrir segurança pública. Voltei a escrever para A Mural, cobrir a minha região, mas eu voltei com o olhar de ser repórter especial LGBT+. E trabalhei assim, muito a editoria LGBT nesse período. Acho que desde lá do meu TCC eu já entendi que eu queria fazer um jornalismo focado em direitos humanos focado na minha população. Porque eu acho que até hoje o jornalismo não cobre muito bem [essa área], principalmente quando a gente fala de mídia tradicional. Mas a mídia independente também não consegue cobrir todas as lacunas. Agora eu estou num novo desafio, de ser assessor de imprensa, trabalhando como assessor de imprensa na Companhia das Letras.

Na sua percepção há uma naturalização do discurso de ódio no meio jornalístico? Se sim, como percebe que isso ocorre?

Caê – Ocorre. Primeiro, não dá pra gente ser imparcial, não existe isso. Todo jornalismo é parcial. O título que a gente escolhe numa reportagem já tem um viés. Então acho que quando a gente é jornalista que não esconde as suas posições políticas, e acho que tudo é política no fim das contas, a gente é muito mais facilmente alvo de ataques de ódio nas redes sociais. Vira e mexe recebo ataques de ódio no Twitter porque eu não me silencio quando vejo transfobias acontecendo na imprensa. Então eu sempre gosto de pontuar, e quando um homem trans fala sobre menstruação, por exemplo, incomoda muito, né? Incomoda as pessoas que são eleitoras dessa pessoa que tá na presidência, incomoda vertentes do feminismo que são radicais e excluem corpos trans. Então é bem comum não só eu receber ataques de ódio, mas eu sempre vejo [ataques]. Principalmente quando a gente fala de pessoas LGBT+, pessoas negras, mulheres, pessoas indígenas. São alvo de ataques de ódio na internet. Eu trabalhei muito tempo com segurança pública e nunca aconteceu de eu sofrer alguma ameaça, mesmo cobrindo protestos. Mas colegas meus na Ponte Jornalismo foram casos bem emblemáticos principalmente. Tem o Serginho [Sergio Silva], que ficou cego em 2013, após a manifestação em que tomou um tiro [de borracha], e o Daniel [Daniel Arroyo], que tomou um tiro de bala de borracha na perna. Acho que não só nesse governo atual, mas a profissão jornalista sempre foi perigosa. Porque quando a gente mostra ali o jornalismo de verdade, traz o lado que normalmente a sociedade hétero branca rica não quer que a gente mostre, a gente acaba virando alvo. Quando a gente resolve falar sobre crianças trans, sobre pessoas trans, não só no e pessoas LGBTs, não só no sentido da morte e da violência, a gente afronta muito esse sistema. Então infelizmente é bem comum [ser alvo de ataque].

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Ele [Jair Bolsonaro] sempre foi essa pessoa, sempre foi racista, machista, LGBTfóbico, elitista e tudo mais, mas com certeza está mais inflamado agora. Eu, enquanto homem trans, quando eu tento apontar transfobia, vem essa galera dizendo que não, que “isso” não é transfobia, e que “tudo pra vocês é isso agora”.

E você percebe que há alguma relação entre o governo Bolsonaro e os discursos de ódio? 

Caê – Cem por cento. Eu me formei pouco antes de ele ser eleito, então como jornalista não consegui vivenciar muito como era ser jornalista antes desse governo, mas de 2018 pra cá tem esse avanço do bolsonarismo e as pessoas não têm mais vergonha de dizer o que elas pensam na Internet. Não sei se pessoalmente todas essas pessoas teriam coragem de falar o que elas falam. Quando eu recebo ataques de ódio, peço para as pessoas denunciarem porque normalmente eu prefiro, para a minha saúde mental, não ler os comentários. O Twitter, o Instagram, qualquer rede social, não entende como ataque de ódio. Mas quando a gente tem uma tirinha, por exemplo, que fala sobre o racismo, e é uma tirinha antirracista, pode ser censurada porque aí, para as plataformas, infringe. Como pode funcionar assim? O ataque de ódio não [infringe], mas a publicação explicitamente política sim. Acho que a gente, LGBT+, sempre teve voz, mas as redes sociais amplificam isso, então 2018 também penso que é bem emblemático, pois Bolsonaro é eleito, mas também temos, por exemplo, a Erica Malunguinho [deputada estadual por São Paulo] chegando ali, então acho que está tudo mais quente, a briga está mais mais visível, e com certeza o bolsonarismo aumentou muito o ataque de ódio. Eu lembro que 2018 foi muito difícil, né? Porque eu já estava trabalhando na Ponte na época e a Ponte representava tudo que o bolsonarismo odeia, né? Esse presidente, desde deputado, ele pode falar o que ele queria. Tem uma entrevista que acho um absurdo não ter tido nenhuma consequência para ele, pois além de assediar o Elliot Page [ator transgênero canadense] naquela entrevista, ainda se mostrou extremamente LGBTfóbico. Os eleitores dele não podem dizer que foram enganados. Ele sempre foi essa pessoa, sempre foi racista, machista, LGBTfóbico, elitista e tudo mais, mas com certeza está mais inflamado agora. Eu, enquanto homem trans, quando eu tento apontar transfobia, vem essa galera dizendo que não, que “isso” não é transfobia, e que “tudo pra vocês é isso agora”. Então é muito difícil, pois a gente vivenciando na nossa pele e pessoas que não fazem parte da nossa vivência tentando definir o que é e não é [preconceito]. Eu já pensei várias vezes em parar de usar o Twitter como plataforma de luta, mas tem um exemplo recente de por que continuo. Recentemente teve o veto do governo Bolsonaro para a distribuição de absorventes [para estudantes de baixa renda e pessoas em situação de rua] e a mídia inteira, 80% da mídia, eu diria, errou nas matérias. Falavam que eram mulheres e meninas em situação de vulnerabilidade, esquecendo que as pessoas trans masculinas também são atingidas pela pobreza menstrual. O G1 fez um título absurdo falando “absorvente feminino” e eu fiquei naquele dia, o dia inteiro, tuitando, criticando tudo o que saia de errado na mídia. No fim do dia o G1 corrigiu a matéria e me falaram “ó a gente viu suas críticas e arrumou a matéria”. Então ao mesmo tempo que a gente percebe que está fazendo uma mudança nas redes sociais, a gente sabe que é isso, se eu faço um tweet desse, por exemplo, eu já silencio [as notificações] porque eu sei que vai ter ataque de ódio e eu não quero ler. Então eu acho que essas pessoas tentam afastar a gente desse lugar, né? Que agora a gente está conseguindo ser ouvido, está conseguindo ampliar as nossas lutas e é uma resistência diária fazer esse trabalho, que já pensei várias vezes em não fazer mais. Tentar me preservar um pouco mais, mas também eu fico pensando muito no futuro. Eu não quero que as crianças trans cresçam num mundo que ainda é extremamente transfóbico. Então a gente tem que às vezes ser essa linha de frente mesmo que toda sexta-feira eu tenha que falar muito sobre isso na terapia com meu psicólogo.

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Eu fiz um tweet criticando o Fantástico. Na manhã seguinte, um perfil bolsonarista pegou esse print e postou no Instagram e eu recebi mais de mil replays de ódio, assim, automático 

Você acredita que o contexto da pandemia acabou escalonando de alguma forma a propagação desse discurso de ódio? 

Caê – Com certeza. Quando a gente viu o próprio presidente negando essa pandemia…um genocídio extremamente bem calculado pelo governo, que não comprou a vacina na hora certa, que falava que não tinha que usar máscara, que ele não usava máscara. Eles odeiam a ciência, mas quando a gente trans explica que o gênero não está na genitália, que o gênero é uma questão de como a gente se identifica na sociedade, eles já querem falar que a gente é negacionista, que estamos negando a ciência, a biologia. Distorcem um discurso que não tem nada a ver com negacionismo, pois a gente fala de identidade de gênero. Houve uma vez em que eu fiz um tweet, depois de o Fantástico fazer uma matéria sobre pobreza menstrual, antes da questão do veto bolsonarista, e na matéria eles falavam o tempo inteiro que a menstruação é uma coisa do corpo feminino. Eu fiz um tweet criticando o Fantástico. Na manhã seguinte, um perfil bolsonarista pegou esse print e postou no Instagram e eu recebi mais de mil replays de ódio, assim, automático. Centenas de pessoas entraram e responderam esse meu tweet com vários ataques de ódio e a maioria falava sobre isso, negacionismo, que eu estava negando a biologia, que sim, existe o corpo feminino e o corpo masculino. Parece que a gente está errando em alguma coisa e eles estão certos porque mil pessoas de uma vez te falando aquilo gera uma confusão mesmo, você fica até meio confuso, mas é o que eles tentam sempre, inverter a lógica. Até hoje é muito forte a “mamadeira de piroca”. As pessoas acreditam nisso, acreditam numa ideologia de gênero, a nossa sociedade sempre foi heteronormativa e sempre existiram pessoas LGBTs, mas bolsonaristas acham que se a gente falar de gênero para crianças, todo mundo vai acordar LGBT+ no dia seguinte. Fazendo tanta fake news com a pandemia, percebo que aumentou bastante esse discurso de ódio. 

A respeito do fenômeno de fake news, como você avalia que está impactando a prática do jornalismo hoje?

Caê – Na nossa credibilidade. Porque essas pessoas são muito ligeiras. Na Internet, Marília Mendonça morreu, não deu nem uma hora já estavam com fake news que o piloto teria tomado a vacina e passado mal. Eles conseguem fazer print das pessoas falando coisas que elas não falaram. Fico imaginando quantas pessoas não trabalham para tudo isso. Eles são muito rápidos. Acontece algo e daqui a pouco já tem tweet errado, matéria que nunca existiu, print com logomarca de qualquer jornal. O jornalismo, quando é bem feito, tem apuração, muitas vezes tem documento, tem pesquisa. Mas aparece uma fake news e parece que o que a gente faz não é lido porque as pessoas já não sabem mais o que é verdade, o que que é mentira. O que acaba tendo mais credibilidade hoje em dia ainda é a televisão, ainda é o jornal impresso. As pessoas mais velhas têm dificuldade de acreditar [no digital]. Lembro quando eu trabalhava na Ponte e ia entrevistar uma galera mais humilde que no final perguntava em qual canal que ia passar, sabe? Eu falava ‘é um site’ e entrava no site, mostrava. Mas ainda tem muito isso, essa percepção de que o jornalismo só acontece na TV. E aí o que deveria viralizar aqui é o nosso trabalho, que é acho que o maior avanço do jornalismo vem disso. Dos jornalistas independentes e nativos digitais. A partir desse jornalismo, a grande mídia começou a perceber “putz, a gente está errando muito também na nossa cobertura”. Acho que o maior desafio pra gente é que perdemos a credibilidade porque eles [a audiência] acham que tudo que vem da internet no jornalismo não é verdade.

Pegando o gancho com essa questão da credibilidade, há uma perda de confiança generalizada na mídia por parte da sociedade e você acredita que isso tem a ver ou ocorre de forma diferente a depender dos tipos de mídia?

Caê –  Eu acho que, generalizando, sim. Muitas pessoas não confiam mais [na mídia]. Eu tenho muitos amigos trans que não confiam em jornais como a Folha de S. Paulo, que tem texto de opinião que não deveria ser opinião, né? Porque racismo e LGBTfobia são crimes, mas saíram [os textos] com esses vieses de opinião e a Folha publicou. E aí muita gente, mesmo progressista, pensa “um jornal que está dando voz para alguém que é extremamente transfóbico, extremamente racista, por que isso está acontecendo em 2021?”. A mídia deveria ter essa autocrítica e pensar que a liberdade de expressão tem um limite. Por que dá espaço para defenderem o Maurício [Maurício Souza, jogador de vôlei], por exemplo, que é um cara extremamente, abertamente LGBTfóbico. E se a pessoa que vai escrever consegue ser transfóbica nesse texto de opinião, por que que a gente vai publicar no site? Por que a gente vai dar esse espaço no jornal? Tem que ter esse olhar também. Quando sair qualquer matéria super bem apurada da Folha [de S. Paulo] em relação a covid, muita gente não vai querer ler porque está chateada por conta daquela matéria. Com razão né? Acho que quando a gente faz parte de uma minoria, a gente sabe o quanto dói ver essas pessoas tendo espaço numa Folha de S. Paulo, sendo que a gente sabe que é difícil para qualquer pessoa LGBT+ emplacar uma matéria positiva dentro de um jornal como esse. Precisa ter essa meia culpa também da imprensa, mas não arrisco dizer qual [tipo de mídia] que tem mais credibilidade ou menos credibilidade [junto à audiência]. Depende muito do viés [político], não? Acho que hoje nem o Danilo Gentili defende mais o Bolsonaro, né? Então eu não sei em quem essas pessoas confiam. Não sei se é na Jovem Pan, que traz ainda esse viés [ultraconservador]. Esse curso que a mídia tomou não é liberdade de expressão. A gente tem que entender que são coisas muito diferentes, que não dá mais para o jornalismo tolerar essas coisas [preconceitos].

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Acho que a gente nunca precisou tirar nenhuma matéria do ar, mas já recebemos vários processos. Na época em que eu estava na Ponte, processos da Polícia Militar, de policiais civis. Qualquer policial que a gente fizesse matéria, eles processavam. Ficavam ofendidos com o conteúdo da matéria

E como você percebe a atuação do poder público no trato de questões relacionadas à liberdade de imprensa?

Caê – Nossa, eu cheguei a fazer algumas matérias e acho que é muito difícil. Principalmente essa experiência que eu tive na Ponte Jornalismo. Lá a gente já teve várias censuras, não tem outra palavra. Acho que a gente nunca precisou tirar nenhuma matéria do ar, mas já recebemos vários processos. Na época em que eu estava na Ponte, processos da Polícia Militar, de policiais civis. Qualquer policial que a gente fizesse matéria, eles processavam. Ficavam ofendidos com o conteúdo da matéria. Eu lembro muito de um caso que eu acabei fazendo a matéria depois, e acho que a Ponte que começou com essa esse olhar de contar esses casos de prisões injustas. Depois os outros veículos começaram também, até que hoje no Fantástico tem um quadro sobre isso. Mas lá em 2018, mais ou menos, a Bárbara Quirino [dançarina e coreógrafa presa e condenada após reconhecimento falso] foi o primeiro caso emblemático que a gente trouxe na Ponte. E na mesma época teve a prisão de três meninos. Dois irmãos e um outro, que foram presos porque eles foram reconhecidos pelos olhos e a Ponte tentou entrevistar os meninos assim que eles foram presos. Pra gente entrevistar alguém na prisão tem que fazer todo um trâmite, pedir autorização para a Secretaria de Administração Penitenciária. E nesse caso eles negaram porque entenderam que não era de relevância pública ter essa matéria. E por que que não era né? Porque a vítima que acusou injustamente esses três meninos foi uma juíza. Para eles é interessante mesmo que a sociedade saiba que a juíza colocou três pessoas inocentes na cadeia? A gente teve essa ordem judicial negada. Depois, tentamos de novo, com uma outra abordagem, e deu certo. Depois dessa negativa, a matéria aconteceu em 2020, um pouco antes da pandemia. A gente conseguiu ir lá presencialmente, fizemos um vídeo, mas a Justiça não autorizou que a gente mostrasse o rosto dos meninos nem seus nomes. Então a gente percebe quando a gente está trazendo o jornalismo relevante, a gente mostrando três pessoas presas desde 2018. Eu acho que infelizmente não vai ter uma reversão do caso deles porque a vítima é uma juíza, então dói muito para a Justiça reconhecer que um deles pode errar, que também a justiça também pode errar e ter olhares enviesados. Nem preciso dizer que eles são jovens negros e periféricos. Quando a gente vê o Sikêra Júnior, o Datena né…a quantidade de violações de direitos humanos que tem nesses programas policialescos. Esse tipo de programa continua funcionando e tem uma audiência assustadoramente grande. Eu cheguei a fazer algumas matérias sobre o Sikêra Júnior, com essa questão do CPF cancelado [ele dança com uma réplica de CPF que traz uma tarja “cancelado” quando noticia morte de pessoas envolvidas ou suspeitas de crimes], ouvindo o pessoal da Artigo 19, que é uma ONG que luta para difundir o que que é liberdade de expressão. E é absurdo como existem dois pesos e duas medidas. Então é isso, se o jornalismo está falando que sim, tem que matar o jovem negro na periferia, para justiça não tem problema, né? Então entendo que uma das maiores dificuldades na Ponte era isso né? Dificilmente a gente conseguia entrar em presídio, conseguia ouvir alguém do sistema de justiça porque normalmente era uma nota, quando havia uma nota…Eu lembro que a Secretaria de Segurança Pública aqui de São Paulo ficou meses sem me responder porque eu fazia as matérias que eram mais críticas.

Conte sobre situações que você considera como eventuais formas de violência que você pode ter sofrido em decorrência da sua atuação como jornalista.

Caê  – Antes da transição, quando eu ia em delegacia, por exemplo, mesmo que não tenha havido nenhuma agressão física nem verbal, não falavam tanto comigo porque eu estava cobrindo ali por um veículo independente. Mas se chegava alguém de alguma emissora de TV, o delegado falava. Isso era muito comum. A gente insistia, às vezes conseguia pegar algumas aspas. Lembro de um caso que me marcou muito antes da transição, que enxergo que foi uma lesbofobia, mas também já era um tanto de transfobia, que foi quando eu fui, em 2019, lá pra Ribeirão Preto [interior de São Paulo] cobrir uma audiência do caso da Luana Barbosa [morta após espancamento de policiais militares]. Luana foi morta por parecer um homem, né? Os policiais não têm vergonha de falar isso, que eles abordaram a Luana e acabou acontecendo “tudo” porque ela “parecia um homem”. Então eles repetiam isso várias vezes durante a audiência que eu presenciei. Nessa audiência, a gente foi, a Ponte e o Alma Preta, à convite da Dina Alves, que é uma das maiores juristas que a gente tem, advogada que defende a família da Luana e ela convidou a gente para cobrir. O caso ficou parado durante muito tempo, e essa seria a primeira audiência para decidir se iria para o júri popular ou não. Primeiro, impediram a de entrar. O juiz entendeu que não tinha porque ter imprensa lá. Então a Dina Alves dialogou e falou “eu convidei, os repórteres vieram de São Paulo, quero que eles entrem sim”. Entramos. Éramos eu, uma repórter do [site] Alma Preta e os grupos LGBT+, principalmente de mulheres lésbicas. Mas eu era a única pessoa na época não feminilizada do rolê. A gente tem que falar nas matérias sempre o que eles [os suspeitos] e o advogado falavam para o juiz, e era isso ali:  “porque abordaram ela achando que era um homem”, e eles olhavam pra mim. Então eu senti muito isso. Me apresentei com meu nome morto no gênero feminino, mas pra eles eu estava ali querendo ser um homem. Então foi muito violento aquele dia, eu fiquei muito mal durante toda a audiência e Ribeirão Preto é uma cidade extremamente violenta, que a polícia ali manda e desmanda e eu estava numa cidade que não era minha. Lembro que uma galera ficou fora do fórum, que eles falaram “tem uns carros passando aqui toda hora a gente não sabe o que é, se é polícia ou não”. Acabou a audiência, a repórter do Alma Preta voltou para São Paulo e dormi na casa da tia de uma amiga e no outro dia fui para audiência de novo. Me senti muito mal e com muito medo “sei lá do que que poderia acontecer”. Acho que foi a primeira vez na pauta que eu me senti assim, com medo por ser uma pessoa LGBT. Depois, como a minha transição aconteceu já na pandemia, acho que eu não vivenciei muito desses momentos desde então. Mas lá no começo de 2019, quando teve a posse da Erica Malunguinho, eu cheguei na Alesp (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo) para usar  o banheiro e não me deixaram entrar no banheiro do gênero que eu me reconhecia, e eu fui barrado na hora de entrar. E eu fiquei pensando “nossa, se eles vão ter uma pessoa trans aqui como parlamentar e têm essa ideia errada de estarem barrando pessoas no banheiro…”. Então naquele dia eu fui embora depois que isso aconteceu e entrevistei a Érica por telefone. Infelizmente a gente sofre em todas as interações sociais. Mas se eu estou indo entrevistar a mãe de um jovem que acabou de ser morto pela polícia, eu não vou ficar bravo se ela me chamar no feminino. Mas se eu estou lidando com as forças de segurança pública, eu quero que elas me respeitem como eu estou me apresentando, como Caê, que me chame desse jeito e me chame no masculino. Além disso, houve também um caso em que eu acabei virando matéria na Ponte. Eu faço acompanhamento endocrinológico a cada dois, três meses, por conta da aplicação de hormônio, e o meu médico não tinha agenda em março, abril e eu precisei ir na clínica que ele atendia anteriormente, onde me falaram que tudo bem, que eu poderia passar lá que a médica tinha tudo no sistema. Quando eu cheguei, ela negou a consulta, e dois dias antes eu tinha feito uma matéria ouvindo uma advogada que estava auxiliando uma mulher trans. Perguntei se essa advogada topava ir comigo na delegacia para que eu abrisse um boletim de ocorrência porque aquilo foi uma transfobia e não dá para a gente silenciar. A delegada só faltou rir da minha cara quando eu falei que isso era transfobia. Se eu não estivesse com a advogada, naquele dia eu teria saído sem o BO. Isso porque a gente foi na DECRAD né? Que é a delegacia que, teoricamente, está pronta para atender casos de racismo e de LGBTfobia. Mas deu pra perceber nitidamente que eles também não estão preparados, como qualquer outro lugar. Então acho que é sempre difícil lidar com o sistema de justiça.Com certeza foi arquivado [o caso] porque até hoje, seis, sete meses depois, eu não fui chamado na delegacia. Mas eu quis também abrir esse BO para a médica médica perceber que ela errou. A justiça não vai estar a nosso favor, mas eu também decidi que enquanto jornalista não poderia não abrir esse BO. Se eu silenciasse, ela continuaria negando consultas para outros meninos.

Você já sofreu algum tipo de ataque diretamente por ser jornalista?

Caê – Por incrível que pareça, nunca recebi ataque direto por ser jornalista, acho que a questão é mais por ser um homem trans que é jornalista e usa as redes sociais para falar também. O que acontece, vira e mexe, é que tem uma foto minha sendo usada em algum grupo de ódio, com legendas “escrotas”. Isso já aconteceu umas três ou quatro vezes. Então eu peço para quem viu fazer a denúncia. Porque, como já disse, eu prefiro nem acessar esse conteúdo. A gente sempre falava [na Ponte]: não vamos olhar o Facebook da Ponte. Parecia que a gente abria o esgoto quando olhava os comentários nas matérias. Era absurdo, mas não era diretamente ao repórter. Falavam que a Ponte é financiada pelo PCC porque fala da polícia. Criou-se uma ideia que se fala mal da polícia, com certeza é o PCC que apoia. É uma coisa muito louca. Mas diretamente, pra mim, não teve isso. Eu acho que o que incomoda muito, no Twitter principalmente, é quem tem o selo verificado. Então se você é uma pessoa que faz parte de uma minoria [verificada] por direito, seja uma pessoa negra mulher, uma pessoa LGBT, uma pessoa indígena, se você tem um selo verificado, ficam muito mais ofendidos. Acho que [fere] o ego do homem hétero cis branco. Principalmente se for mais da direita, inflama muito quando eles veem que as redes sociais podem reconhecer que temos perfis relevantes. Então os ataques de hoje têm a ver com isso também, selinho de verificação. No dia em que eu critiquei a matéria do Fantástico foi bem pesado. Eu só consegui esse selinho por ser jornalista.
Teve uma outra vez também que eu recebi ataque de ódio na condição de entrevistado. O pessoal do Yahoo me entrevistou assim que eu fiz a minha cirurgia [mastectomia] porque eles queriam fazer uma matéria sobre cirurgias de pessoas trans na rede particular, entender como funcionava. E eu sabia que eu ia receber ataque de ódio, mas eu falei porque é muito relevante. É uma dúvida de muitos meninos trans, então, ok, pode por minha foto. Foi a foto principal da matéria. Não olhei os comentários, mas me contaram, e eu nunca vi comentários tão baixos, tão transfóbicos, tão absurdos. O Yahoo conseguiu destaque no Twitter e o meu peitoral ficou em destaque. Isso atingiu muito o ego do homem cis hétero branco. Várias pessoas denunciaram o comentário e o Twitter falou que não violava os direitos. Nos reconhecem como uma conta relevante, mas quando a gente sofre ataque de ódio, precisa ter essa esse outro lado também. “O que vocês vão fazer?” Banir essa conta? Como que a gente consegue se proteger pra não sair dessa plataforma?”. Já fechei as minhas redes sociais, mas eu fiquei uma hora somente com as redes fechadas, mas é isso que eles querem. Querem que a gente saia das redes sociais, assustar a gente. Nunca se sabe do que essas pessoas são capazes. Mas tem que ser um ato de resistência diária. Saber que a gente vai postar aquele conteúdo e vai receber algum ataque de ódio.

Já aconteceu algum tipo de ataque relacionado a alguma reportagem sua na Ponte?

Caê – Sou fã de Harry Potter e J.K Rolliwng era a minha escritora favorita, mas a vi proferindo tanto ódio, ela dizer que é errado dizer “pessoas que menstruam”, que antes tinham um outro nome referindo que homens trans, pessoas trans masculinas, também são mulheres. Eu pedi para escrever um artigo sobre isso na Ponte. Porque acho que ninguém melhor do que eu, que sou homem trans, jornalista, fã de Harry Potter, para escrever sobre isso. E naquele artigo chegaram comentários de gente muito brava, afinal eu explicava ponto a ponto porque a Rolling foi transfóbica. Eu dei 10 dicas para não ser transfóbico e além de bolsonaristas tiveram as feministas radicais atacando. Por exemplo, negar ficar [se relacionar] com uma pessoa trans por conta da genitália dela, sim, é transfobia. Então quando a gente fala sobre isso, as pessoas ficam muito bravas. Eu lembro que nessa matéria houve ataques e comentários sobre isso. Houve uma época em que a Ponte fazia muita matéria sobre os grupos que proliferam ódio nas redes, para contar como funcionava, como era a lógica deles. Marielle [Franco, vereadora assassinada em 2018] era muito mencionada nesses grupos. Por quê? Porque a figura da Marielle é incrível, a direita odeia. Uma mulher negra favelada bissexual que nunca silenciou. Já cheguei a escrever matéria que não assinei, por exemplo, sobre aquela mulher que fala que é ex-feminista, a Sara Winter. Escrevi sobre como ela odeia a população LGBT. Eu falei “ok, gente, eu apuro, mas não quero assinar”. A única matéria da minha carreira que eu não assinei porque sei que ela adora atacar pessoas LGBT+ e a matéria era sobre isso. Pensei: ela vai pesquisar o meu nome, vai ver que eu sou um homem trans, prefiro já evitar sofrer qualquer ataque. Mas acabou que foi uma matéria que não teve repercussão. Mas eu prefiro evitar por quê? Bem, se quando eu não falo sobre esse assunto pode dar ruim [sic], então eu prefiro evitar [quando falo sobre]. Mas às vezes, numa reunião de pauta, se há uma matéria para fazer  sobre alguma célula nazista em algum lugar, me passam todas as outras matérias do dia e deixam essa para o repórter cis hétero, né? Porque se ele for sofrer um ataque de ódio, não vai ser relacionado a quem ele é. Pode ser qualquer outra coisa. Então havia esse cuidado na hora de definir as pautas.

Lembro também que quando o Bolsonaro foi eleito [presidente], fizemos uma reunião presencial na Ponte, no dia seguinte, pois toda segunda-feira tinha reunião. E a gente pensava “o que vai ser da gente agora?”. Pensávamos “ele pode fechar o nosso jornal”. Porque eu vou continuar falando das questões LGBTs, e aquela foi uma época bem tensa, aquela eleição dele, mas também a gente viu na época que era ali para a gente resistir, né? Acho que mais do que nunca, esse tipo de jornalismo era e ainda é necessário. A gente percebe que ainda vai demorar uns anos para a Ponte não precisar mais existir.

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