Djamila Ribeiro: “A raiz da nossa sociedade é o ódio às mulheres”

Filósofa disseca o fenômeno red pill, as lacunas raciais nos 20 anos da Lei Maria da Penha e por que o Estado brasileiro ainda falha ao tratar as mulheres como uma “massa abstrata”.

Foto da entrevistada: Felipe Max

Quando Djamila Ribeiro diz que “a raiz da nossa sociedade é o ódio às mulheres”, percebe as pessoas desconfortáveis. O incômodo com a palavra ódio, segundo ela, parece sobrepor os números alarmantes de violência contra mulher no Brasil. Ela responde não ligando para os narizes torcidos ou olhos virados e ainda o nomeia: misoginia. 

Para a escritora, professora e filósofa, entender a misoginia contemporânea é não só encarar uma infraestrutura que reafirma que a mulher é o “outro” — aquela que pode ser mercadoria, dominada ou silenciada por uma suposta “natureza” inferior, mas também olhar para o passado. É entender gênero a partir das raízes escravocratas do Brasil.

Em uma conversa profunda com a Gênero e Número, ela detalha o novo curso que promove, sobre o pensamento Red Pill, com inscrições abertas até 15 de maio, e traz para o debate como ignorar as discussões sobre raça e classe é manter a estrutura da opressão e da violência rodando.

Para ela, nomear é urgente no agora: enquanto as mulheres estão vivas.

ler Receba nossos conteúdos no WhatsApp

Em sua participação na edição comemorativa de O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, você resgata a premissa de que se a mulher é o “Outro”, a mulher negra ocupa o lugar de “Outro do Outro”. Como equilibrar o reconhecimento da genialidade de Beauvoir com a necessidade crítica de apontar os limites de uma obra que, em 1949, ainda partia de uma visão universal de mulher?

Primeiro eu queria dizer que sou absolutamente apaixonada por Simone de Beauvoir. Essa é uma das minhas autoras favoritas da vida. Porque em 1949, lançar um livro sobre a filosofia da condição feminina é para poucas. O tanto de ataques que ela sofreu à época… Ainda mais na filosofia, que é uma área muito masculina. 

É importante dizer que Simone de Beauvoir, no Brasil, na faculdade de filosofia, ainda não tem o reconhecimento que merece, mesmo sendo uma mulher branca e europeia. Então, a gente está falando do quanto ainda, independentemente de sermos brancas ou negras, é difícil para a mulher em geral nesse campo.

Quando ela pensa a categoria do Outro, colocando a mulher nesse lugar do Outro, é muito importante para a gente entender por que a mulher é tratada como o segundo sexo. Ela fala que a mulher está inserida na mesma lógica colonial: o branco é o sujeito, o negro é o objeto. Então, ela está dizendo: o homem é o sujeito, a mulher o objeto. O homem é o racional, a mulher é o emocional. O homem é o superior, a mulher é o inferior. 

Só que, em 1949, ela estava muito focada na realidade de mulheres como ela. De fato, ela parte de uma visão universal de mulher. Às vezes, eu fico em discussões com feministas negras: “Ah, não, tem que jogar fora”. Calma lá. 

ler Assine nossa newsletter semanal
aspa

Apontar o limite de uma análise não é jogar fora. Grada [Kilomba, psicóloga e artista] vem e aponta esse limite: 'A mulher negra, ela é esse 'Outro do Outro', porque ela é essa antítese tanto de branquitude como de masculinidade."

Ela acaba partindo de um outro lugar social. Então, para a gente entender a realidade da mulher negra, precisa necessariamente entendê-la a partir do componente racial, da intersecção de raça, classe e gênero.

Eu insisto nisso com os meus alunos, porque em discussão de Twitter fica tudo muito raso. Você não pode jogar o trabalho de Beauvoir fora. Não interessa o que você acha da vida pessoal dela; ela fez um trabalho monumental e, a partir da sua estrutura filosófica, até hoje, a gente pode pensar outras realidades. 

Se Grada consegue pensar o “Outro do Outro”, Beauvoir pensou o “Outro”. Eu super amo Beauvoir, mas nem por isso vou deixar de trazer a crítica que as feministas negras fazem a ela. Acho que essa é a honestidade do trabalho. A teoria feminista é uma história de mulheres que tiveram essa coragem numa época muito dura e que, claro, tinham limites. As feministas negras conseguem dar conta desses limites porque trazem [seu pensamento] a partir da interseccionalidade.

ler Apoie a Gênero e Número

Seu livro Quem tem medo do feminismo negro? reúne artigos de 2014 a 2017 escritos por você na Carta Capital. Eles questionavam, já naquela época, a hegemonia de um “feminismo universal”, que muitas vezes silenciava as dores específicas das mulheres negras. Passada quase uma década, essa pauta avançou?

Eu considero que tivemos avanços, sobretudo com um número maior de pesquisadoras negras conseguindo mais espaço. Acho que, até por conta das ações afirmativas, elas acessaram o ensino superior e isso fez uma diferença muito grande. A primeira universidade [a ter cotas para pessoas negras] foi a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) em 2001, mas a gente tem a lei federal de cotas em 2012. Antes disso, a gente tinha poucas mulheres negras nesse lugar.

Um outro ponto digno de nota é o mercado editorial, que não foi dado às mulheres negras, mas conquistado. Projetos como o Feminismos Plurais e outras iniciativas mostraram que autores negros vendem, sim, e fazem sucesso com seus livros. Isso forçou o mercado mainstream a se abrir mais para essas pautas. Eles começaram a publicar autoras feministas negras como a gente nunca teve. 

Hoje, temos vários títulos da bell hooks publicados, da Patrícia Hill Collins, da Angela Davis. Em 2015, eu que mandei um e-mail para Angela perguntando se ela tinha interesse em traduzir Mulheres, raça e classe para a Boitempo Editorial. Importante dizer que eu não ganhei nada para isso, mas era muito do meu incômodo de não ver essas autoras publicadas no Brasil. Ela aceitou o convite, o livro foi publicado em 2016, e eu escrevi o prefácio. Foi um dos títulos mais vendidos. 

A partir daí, eu comecei a organizar publicações em 2017, e a gente teve um boom de autoras negras. Eu participei muito de perto da publicação de algumas delas, como a própria Angela Davis, mas também Audre Lorde, Maya Angelou e Toni Morrison.

Foi um movimento que nós feministas negras no Brasil criamos para forçar o mercado editorial a publicar mais, porque a gente sentia muita falta disso nas nossas pesquisas. Esses livros não eram traduzidos, a gente tinha que traduzir nós mesmas ou fazer tradução coletiva, e isso impactava diretamente na percepção dos nossos estudos no campo do feminismo negro.

Isso também possibilitou que várias autoras brasileiras fossem publicadas, como Lélia Gonzalez, que não era, demorou muito para ter um reconhecimento e tantas outras. A própria Sueli Carneiro. Eu criei o selo Sueli Carneiro em 2018, e a gente publicou o livro dela Escritos de uma Vida

A geração mais nova começou a puxar para que as mais velhas também pudessem ser republicadas. Isso é inegável.

ler Angela Davis e Patricia Hill Collins fazem ode à liberdade em passagem pelo Brasil e analisam questões urgentes do país

Esse fenômeno editorial e acadêmico não parece ser apenas uma mudança de catálogo, mas uma ferramenta política. A popularização das teorias feministas negras tem conseguido, de fato, romper a bolha intelectual e pautar a formulação de políticas públicas ou a disputa por espaços de poder institucional?

Sim, porque daí, a gente tem material suficiente para poder organizar e pensar determinadas políticas para as mulheres, com um olhar interseccional. A gente tem como justificar quando tem essas obras em mãos. 

aspa

Acho que nunca na história do Brasil o feminismo negro e as feministas negras tiveram tanto espaço e, com isso, conseguiram pautar os temas que são importantes no debate nacional."

O que aconteceu com Marielle Franco foi algo que nos impactou muito. Impactou a população em geral, mas também nós, mulheres negras, em especial. Isso, apesar da tristeza e da tragédia, também fortaleceu e impulsionou que mais mulheres negras se candidatassem para política institucional.

Essa presença, ainda que pequena é importante falar, o Brasil ainda tem números baixíssimos de representação feminina sem dúvida nenhuma impulsionou que mais mulheres negras pudessem estar nas políticas fazendo essas disputas. É o que a gente precisa muito no âmbito da política institucional. 

ler Mulheres negras eleitas para uma democracia com paridade de gênero e equidade racial

E, por falar em política pública, também no livro Quem tem medo do feminismo negro?, você diz que “no fim, nossa busca é sobre o alargamento do conceito de humaninade”. O que isso significa e como se conecta com o racismo brasileiro?

Desde o processo de escravidão e de colonização, a população negra foi colocada nesse lugar de outro, de objeto, de não humano. Aquele que pode ser mercadoria, que pode ser escravizado, que não é racional.

As teorias racistas e biologizantes do século XIX, o que a gente chama do racismo científico, foram utilizadas para tentar justificar a dominação da Europa nas Américas, dizendo que os negros não eram racionais e que o nosso cérebro era diferente. Existiram vários desses mecanismos de opressão que estruturaram as sociedades que foram escravizadas e colonizadas.

Então, quando as pessoas falam: “Ah, mas escravidão é lá no passado”. Não, a escravidão molda o processo de colonização, a forma como as pessoas negras vão ser tratadas.

aspa

Ao se criar um comércio de mercantilização de gente, é isso que a gente está falando que é a escravidão. As pessoas eram consideradas mercadorias até pela igreja, como pessoas que não tinham alma, logo, podiam ser escravizadas. Todas essas construções colocam a população negra nesse lugar [do outro], e isso continua estruturando a sociedade até hoje."

ler No país da COP 30, mulheres negras e indígenas são maioria sem saneamento básico

A nossa luta, desde então, é justamente para alargar esse conceito, para a gente quebrar essa imposição e dizer que nós somos seres humanos e, por isso, deveríamos ser tratados de uma maneira que reconhecesse nossa humanidade.

Você usa o termo mercantilização e é bastante comum ouvirmos críticas que tentam separar a pauta identitária da pauta econômica, como se fossem campos distintos. No entanto, sua fala aponta para a escravidão como motor da economia. É possível que hoje a gente discuta raça sem interseccionar classe?

A escravidão foi a base da economia no Brasil durante quase quatro séculos. Não tem como falar de classe sem falar de raça, porque a gente está falando de um debate econômico. Se a escravidão foi a base da economia, significa que os donos de engenho, os senhores de engenho, enriqueceram às custas desse trabalho forçado e da imposição desse lugar de objeto — de mercadoria —  à população negra.

Acaba a escravidão, não se cria nenhum tipo de políticas para reparar a população negra por séculos de trabalho forçado. Aí, o Brasil começa o processo de favelização, e as mulheres negras vão ser trabalhadoras domésticas. E o Estado brasileiro vem com essa teoria fantasiosa da democracia racial para não se responsabilizar pela reparação à população negra — porque você não vai reparar algo que não existe.

Como Kabengele Munanga vai dizer: o racismo no Brasil se configura pela própria negação do racismo. A gente vai sendo deixado à margem durante muito tempo, inclusive pela esquerda brasileira, que também abraçou essa ideia da democracia racial, essa ideia da mestiçagem, como se fosse uma mestiçagem romantizada.

A população negra ficou à parte disso. Quando a gente fala que o racismo estrutura todas as relações sociais, é desde o momento em que a gente foi considerado um ser inferior que serve para ser escravizado, explorado, mercantilizado, e isso não mudou.

ler Brumadinho: Mulheres negras são maioria entre os atingidos e ainda vivem em insegurança alimentar sete anos após rompimento de barragem
Quem é quem: as vozes que Djamila Ribeiro convoca

Lélia Gonzalez (1935–1994): Uma das maiores intelectuais brasileiras, pioneira ao denunciar o “racismo por negação” no país. Foi a voz que exigiu que o feminismo brasileiro deixasse de ignorar as mulheres negras e indígenas.

Sueli Carneiro (1950–): Filósofa e fundadora do Geledés, é uma guardiã da memória negra no Brasil. Ao formular o conceito de epistemocídio, denunciou como o saber ocidental apaga as produções intelectuais negras, sendo hoje uma referência incontornável na conquista de direitos institucionais.

Angela Davis (1944–): Filósofa e abolicionista norte-americana que se tornou um ícone global. O seu livro Mulheres, Raça e Classe é a base para entendermos que a luta contra o racismo e o machismo é, indissociavelmente, uma luta contra o sistema econômico de exploração.

Audre Lorde (1934–1992): Poeta e pensadora que fez da sua identidade lésbica, negra e mãe o centro de uma teoria da diferença. Ensinou que “as ferramentas do mestre nunca derrubarão a casa do mestre”, incentivando-nos a usar as nossas especificidades como motor de criatividade política.

bell hooks (1952–2021): Teórica e ativista que transformou o amor e a ternura em categorias políticas. Em obras como E eu não sou uma mulher?, hooks ensinou que o feminismo é para todo mundo, mas que não existe libertação sem a interseção entre raça, gênero e classe.

Grada Kilomba (1968–): Psicóloga e artista que usa a palavra para descolonizar o pensamento. No seu trabalho Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano, Grada analisa como a misoginia e o racismo cotidiano ainda tentam manter a mulher negra no lugar do “outro do outro”.

Kabengele Munanga (1942–): Antropólogo congolês-brasileiro e mestre na desconstrução do mito da democracia racial no Brasil. Sua obra é fundamental para compreendermos como a “negação” do racismo é a ferramenta mais eficaz da nossa desigualdade e como a identidade negra é uma construção de resistência.

Patricia Hill Collins (1948–): Socióloga que mapeou a “matriz de dominação” para explicar como diferentes opressões se cruzam. Validou a experiência vivida pelas mulheres negras como uma teoria social de excelência, rompendo com o privilégio acadêmico branco.

Simone de Beauvoir (1908–1986): Filósofa existencialista francesa, autora de O Segundo Sexo. Sua tese sobre a alteridade feminina é o espelho onde Djamila e outras pensadoras negras se viram para expandir o conceito de humanidade.

Agora, se o racismo estrutura todas as relações sociais, como você bem pontuou, a Lei Maria da Penha, que completa 20 anos este ano, consegue dar conta de esgotar as discussões sobre [violência] raça e as diferentes realidades das brasileiras?

Acho que a Lei Maria da Penha é um marco legal muito importante e necessário. Pouco antes de ela completar 10 anos, saiu a pesquisa “O Mapa da Violência” em 2015, com dados muito importantes. Dizia que, em 10 anos, havia diminuído o assassinato de mulheres brancas em quase 10%, o que mostrou que a política tinha sido efetiva. Porém, no mesmo período, havia aumentado em quase 55% o assassinato de mulheres negras. 

Essa pesquisa foi muito importante, porque mostrou que faltava um olhar étnico-racial na política. Não é no sentido de que ela não presta. Não, ela é importante. Mas ela precisa ser aprimorada para poder atender às outras possibilidades de ser mulher. O marco legal é importante, mas por si só não garante proteção.

aspa

A maior parte das mulheres negras é pobre e mora na periferia, então, não basta dizer: "Ah, vai lá e denuncie". Ela não pode chamar a polícia no território dominado por facções. Ela tem uma relação muitas vezes de desconfiança com a polícia, que é a mesma que vai nos territórios onde ela mora e age com violência com a comunidade."

Muitas vezes essa mulher não vai ter o dinheiro do transporte para ir ao centro da cidade, para um centro de referência. Essa pesquisa mostrou que era necessário descentralizar esses centros de referência à mulher. 

Era necessário que a realidade da mulher negra fosse pensada junto porque provavelmente a política, quando foi feita, foi pensada a partir de uma categoria universal de mulher. Garantiu uma certa proteção às mulheres brancas, mas não garantiu às mulheres negras. É o “deixar morrer” do Foucault. Se a gente não nomeia, fica invisível.

ler Mulheres marcham contra a violência policial, o cárcere e o racismo no Brasil

Segundo dados da Base Nacional de Boletins de Ocorrência (BNBO) e do Ministério da Justiça, que integram o Mapa Nacional da Violência de Gênero, 418 mil mulheres foram vítimas de algum tipo de violência em 2025. Entre as vítimas de feminicídio, mulheres negras são maioria: 557 casos, sendo 423 pardas e 134 pretas, contra 184 brancas – 447 não tiveram a raça informada. Foi nesse contexto que o governo federal lançou o Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios. Ele avança na discussão?

Eu acompanhei a criação do pacto e faço coro a muitas feministas que foram críticas, porque a gente precisa de ação concreta. O que está ali no pacto, muitas feministas já estão falando há muito tempo. Além disso, foi um pacto criado meio que às pressas, por conta dessa situação insustentável no Brasil. 

Faltou priorizar a pauta das mulheres. Acho que teve discursos muito personalistas, mas pouca ação concreta. 

aspa

No Brasil, ainda se tem essa ideia de que é só discutir ali na Secretaria de Mulher, com pouco orçamento. Aí, é óbvio que a gente tem o resultado que tem."

ler Secretária Nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres: “Se não tivermos feministas em todas as instituições, nada avança”

A gente sabe que, infelizmente, no país o que acontece é política de governo e não política de Estado. Muda o governo, muda-se totalmente a prioridade em relação a essa pauta. É uma falência mesmo.

Quando olhamos para os números crescentes de violência, fica nítido que existe um gargalo entre a denúncia e a proteção efetiva. Na sua visão, onde o Estado investe mal e onde deveria agir com mais rigor para salvar essas mulheres?

Eu não vejo a punição, por si só, como um problema. O problema é que os caras não são presos. Ameaçou? Tinha que prender. Homem preso não mata. Então, prende. 

Aí, as pessoas falam: “Ah, mas aí vai aumentar a população carcerária”. Eu falo: esse é o grande problema, porque se diminuísse a população carcerária na questão da lei de drogas, que é um absurdo, essa guerra às drogas que não serve para nada, podia aumentar em relação aos agressores de mulheres

Os homens negros estão sendo criminalizados na questão da lei de drogas, não é porque eles são agressores de mulheres. A gente tem que separar as coisas. 

O cara pode ser pobre e agressor de mulher, ele pode ser negro e ser um feminicida. Se de fato o fulano é oprimido, mas ele é homem, como é que a gente faz? No Brasil, a vida das mulheres é a última a ser pensada, quando é pensada.

ler “O enfrentamento à violência funciona só pela criminalização não porque ela resolve, mas por ser o que está disponível”, avalia advogada por trás da Lei Maria da Penha

O endurecimento de penas para feminicídios, sancionado pelo presidente Lula, foca no desfecho da violência, mas deixa uma lacuna no que diz respeito à prevenção. A Lei da Misoginia, aprovada no Senado, que inclui a misoginia entre os crimes de preconceito e discriminação, surge como uma resposta para interromper o ciclo de ódio antes que escale para o feminicídio?

Lembro que, na época dessa mobilização que a [pesquisadora da UnB] Valeska Zanello estava fazendo, vi um monte de gente de movimento social: “Ai, mas para quê? Lei contra a misoginia? Já basta de coisas punitivas”. 

Lembro de fazer stories falando: “Gente, tem lei contra o racismo, tem lei contra a homofobia, tem lei contra a transfobia. Por que que não pode ter lei contra a misoginia?”. Ficava muito indignada de ver os movimentos abolicionistas, com todo o respeito que eu tenho por eles, dizerem: “Ah, mas é mais um dispositivo de punição que não resolve”. 

Eu falei: “Então, ué, mas a gente precisa da legislação”. É importante falar, porque quando foi aprovado que se esqueceu um pouco dessa origem. Foi a Valeska Zanello que propôs. É importante a gente dar nome às pessoas que fizeram.

É interessante que, quando a gente fala que misoginia é o ódio às mulheres, as pessoas ficam assustadas: “Ah, mas ódio é muito forte”. Mas a raiz da nossa sociedade é o ódio às mulheres, a partir do momento que essas mulheres são colocadas nesse lugar de meras incubadoras [de filhos] ou são assassinadas. 

ler Desaparecer pode ser um ato de resistência para mulheres — mas também pode ser o último capítulo de um feminicídio ainda sem nome, diz promotora

Glossário

Machismo

É o sistema de crenças que estabelece a superioridade do homem sobre a mulher, ditando papéis sociais rígidos. Diferente da misoginia, o machismo é a norma invisível que organiza o cotidiano: ele está na divisão desigual do trabalho doméstico ou na crença de que mulheres são “naturalmente” mais emotivas. É a estrutura que garante privilégios masculinos sem necessariamente exigir o uso da violência direta.

Misoginia

É o estágio mais profundo e agressivo da opressão de gênero. Traduz-se como o ódio, o desprezo ou a aversão visceral às mulheres pelo simples fato de serem mulheres. Enquanto o machismo organiza a hierarquia, a misoginia atua na desumanização, tratando o corpo feminino como propriedade, mercadoria ou objeto de nojo. É a força motriz que justifica o feminicídio e a violência sexual.

Masculinismo

Embora o termo possa se referir aos estudos de masculinidades, no contexto atual, ele descreve movimentos reacionários que surgem como resposta aos avanços feministas. O masculinismo opera sob a retórica da “vitimização masculina”, alegando que os homens perderam espaço e direitos. É a base ideológica que tenta restaurar o domínio patriarcal, tratando a igualdade de gênero como uma ameaça à “natureza” do homem.

Red pill

Metáfora extraída do filme Matrix, cooptada pela extrema direita e por grupos da “machosfera” digital. Na visão desses grupos, “tomar a pílula vermelha” significa acordar para uma suposta realidade onde os homens seriam as verdadeiras vítimas de um sistema dominado por mulheres. É uma porta de entrada para a radicalização, em que o ressentimento masculino é transformado em ferramenta de controle, vigilância e ódio organizado.

Existe uma narrativa que é bastante usada pelo setor conservador de que qualquer comentário negativo a uma mulher agora poderia acabar em cadeia. Para além desse pânico moral, como a gente diferencia, na prática, o machismo da misoginia?

O machismo é essa sociedade que coloca o homem como superior. Agora, um homem pode ser machista, mas não necessariamente misógino. Ele pode ser machista, acreditar que a mulher tem que ficar em casa, por exemplo, mas não necessariamente ele é um homem que vai infligir algum tipo de violência. Machistas todos eles são: se você é hétero, você vai conviver com os homens, e eles são machistas. 

Agora, quando a gente fala de misoginia, a gente está falando desse ódio profundo às mulheres. Quando eu falo ódio, são de fato homens que acreditam que mulheres são meras propriedades. Se elas dizem que não, eles pensam que têm o direito de matar. 

A gente está falando de homens que acreditam que as mulheres são seres inferiores e que tudo que é relacionado à mulher é colocado no lugar do nojo, como a menstruação. Para eles, a gente tem que ter vergonha do nosso próprio corpo.

Olha o número de assassinatos de mulheres nesse país nos últimos anos. Olha o número de violência sexual, estupros coletivos de meninas. 

A gente está falando de uma coisa muito séria, que é a base de todas as sociedades, não só da brasileira.

ler “Misoginia é porta de entrada para grupos de extrema direita”
aspa

Quando a gente diz assim: 'Ah, que se você disser que uma mulher é bonita, é misoginia'. Não é isso que a gente está falando. Você pode e deve criticar uma mulher se isso acontecer no campo das ideias, se você criticar o pensamento dela, se você criticar o posicionamento dela. Não é que você não pode falar nada para uma mulher."

Tem a tentativa deles de esvaziar e tirar tudo de contexto, mas acho que também faltou da nossa parte dizer: “Gente, vamos explicar o que é misoginia?”.

Você está lançando um curso chamado “Pensamento Red Pill”. Do que ele falará?

Primeiro, eu vou trazer um pouco dessa genealogia, de pensar o que é o movimento Red Pill, porque por estar aqui nos Estados Unidos, eu acabo tendo acesso a uma bibliografia que ainda não tem no Brasil. Eu vou trazer um pouco do que é e como essa massa se organiza. 

Eu tenho uma filha da geração Z que está sendo minha consultora. Ela é super aficionada a esses temas. Eles têm o termo “Stacy”, que é para menina padrão e o “Becky”, para meninas que não são padrão. Então, eles ficam com mais raiva quando eles levam o “não” das “Beckys”, porque as “Beckys”, que já não são tão bonitas, não deveriam dizer não para eles.

aspa

É um curso que também vai mostrar para esses meninos como eles são vítimas desses coaches que estão ganhando dinheiro em cima da frustração deles. Porque não são caras que estão pensando no bem-estar deles. Estão lucrando com a insegurança deles."

ler Radar Antigênero revela como vídeos no YouTube alimentam discurso antigênero e ondas de ataques

Os grandes nomes desse movimento estão ricos, mas investindo em muitas coisas ilícitas. Eu também vou mostrar para esses jovens que esses caras não querem o melhor para vocês. Eles também estão usando vocês. Discutir masculinidade a partir de bell hooks, que é a nossa referência.

O objetivo justamente é oferecer esses instrumentos para pessoas, de modo geral, mas também para as escolas, porque está todo mundo meio perdido do que é, de como funciona. Eu sou uma autora que luta muito por essa questão do didatismo. A gente precisa ser didático, conversar, precisa entender o que a gente está falando. Tudo que eu tive acesso aqui na biblioteca do MIT, eu vou trazer para esse curso. Para que as pessoas possam entender o que significa. 

Propor como que a gente pode fazer alguma coisa juntos em relação a esse sentido. Que era algo que, para mim, o governo tinha que ter feito. Mas que a gente espera, espera, espera, e não sai. A gente fala: “Bom, vamos fazer alguma coisa também em relação a isso”.

ler Radar Antigênero analisa narrativas de ódio e desinformação no YouTube com uso de inteligência artificial

Se a misoginia é estrutural, ela precisa de um campo de formação. Existe um ressentimento masculino diante da autonomia conquistada pelas mulheres. De que forma o discurso público sobre a “crise do masculino” acabou sendo sequestrado por grupos extremistas para validar uma retórica de vitimização?

Eu acho que a mídia errou e tem muita responsabilidade nisso. Porque, no final dos anos 90, início dos anos 2000, toda a discussão sobre crise do masculino colocava o homem como vítima. A gente assistia [programas dizendo]: “Ai, é a crise do masculino. O homem não sabe lidar com a nova mulher, porque as meninas estão independentes, coitado dos meninos”. 

Cara, era uma oportunidade única de dizer: “Gente, vamos construir uma masculinidade alternativa, que vai ser boa para você também”. Porque essa masculinidade faz mal: não pode chorar, não pode mostrar sentimento.

aspa

Tem um número altíssimo de suicídio de homens, um número altíssimo de homens com problemas com drogas porque não pode dizer eu te amo, não pode chorar, tem que ser o provedor. Então faz mal para vocês também, vamos construir outra masculinidade!"

Acho que ficou muito no lugar do coitadinho. Em vez de partir desse olhar de vamos entender, vamos fazer uma maneira diferente, eles se vitimizaram.

Criaram esses grupos com o objetivo falso de dizer que era para se reunir para falar de saúde mental entre homens, só que, na verdade, era uma maneira de se organizarem para reclamarem que o mundo mudou e que as mulheres não estavam mais ali disponíveis a eles, que isso era um direito deles. E como que eles podem fazer para infligir violência às mulheres para que elas voltem para os seus lugares.

Quando Djamila Ribeiro insiste que “a gente precisa ser didático”, está sendo filha — aquela que em Cartas para minha avó conversa com ancestralidade. Está sendo ativista — aquela que em Quem Tem Medo do Feminismo Negro? questionou por que o feminismo universal não nomeava mulheres negras. Está sendo aquela que, em Lugar de Fala, insistiu que multiplicidade de vozes é desestabilização de poder. Está sendo professora — aquela que em Pequeno Manual Antirracista provou que prática antirracista é urgente, cotidiana, ação.

Porque nomeação é ação. E, enquanto o Estado falha, enquanto políticas públicas governam para ninguém, ela segue nomeando. Porque, quando você não nomeia, fica invisível. E o que é invisível, ninguém protege.

Essa entrevista faz parte da série Quando o corpo guarda a violência, produzida com apoio do Fundo ELAS+ Doar Para Transformar e da Agence française de desenvolvimento (AFD). As ideias e opiniões nela expressas são de responsabilidade dos autores e não refletem, necessariamente, o ponto de vista do ELAS+ ou da AFD.

Quem leu essa Entrevista também viu:

Mariana Rosetti

Jornalista, repórter, produtora, fotógrafa e podcaster, com atuação focada em direitos humanos, meio ambiente e segurança pública, sempre pelas lentes de gênero. Investiga histórias que revelam desigualdades estruturais e amplificam vozes historicamente invisibilizadas. Já colaborou com veículos como Agência Pública, Revista AzMina, Portal Catarinas, Gênero e Número, Ecoa UOL, Mongabay Brasil e Repórter Brasil, além de sete anos trabalhados em televisão, como apuradora, produtora e chefe de reportagem. É fundadora do podcast Marias&Anas, que compartilhou vivências de mulheres diversas a partir de uma escuta sensível e crítica. Formada em Comunicação Social e Jornalismo, com pós-graduação em Direito Penal e Processo Penal.

Se você chegou até aqui, apoie nosso trabalho.

Você é fundamental para seguirmos com o nosso trabalho, produzindo o jornalismo urgente que fazemos, que revela, com análises, dados e contexto, as questões críticas das desigualdades de raça e de gênero no país.

Somos jornalistas, designers, cientistas de dados e pesquisadoras que produzem informação de qualidade para embasar discursos de mudança. São muitos padrões e estereótipos que precisam ser desnaturalizados.

A Gênero e Número é uma empresa social sem fins lucrativos que não coleta seus dados, não vende anúncio para garantir independência editorial e não atende a interesses de grandes empresas de mídia.

Quero apoiar ver mais