Ainda no início da carreira, durante um estágio de psicologia em uma vara de infância, Arielle Sagrillo Scarpati se deparou com uma menina de 13 anos vítima de violência sexual. Da equipe socioassistencial que deveria acolher a adolescente, ouviu: “Ela já é mais mulher do que muita mulher, ela sabia o que estava fazendo”.
O episódio foi um marco. Ali, ela compreendeu como os equipamentos de assistência, muitas vezes, revitimizam e culpabilizam mulheres e meninas pela violência que sofrem. E isso direcionou sua trajetória.
Formada em psicologia, com mestrado em psicologia social, doutorado em psicologia forense e especialização em trauma, Arielle passou a investigar os discursos que invertem a lógica da culpa. Estudou os mitos de estupro, os pormenores do consentimento e, sobretudo, o comportamento dos agressores.
Receba nossos conteúdos no WhatsApp!
Em entrevista à Gênero e Número, ela afirma que a violência contra a mulher não é um fenômeno isolado ou excepcional, mas uma engrenagem estrutural e cotidiana que atravessa todos os espaços sociais.
Em primeiro lugar, o que significa consentimento?
É um acordo livre, consciente, voluntário, baseado no respeito e que vai acontecer entre pessoas que decidem participar de alguma forma de interação, seja ela sexual ou não, mas principalmente em contextos afetivos e sexuais. Consentimento não é só a ausência de um não, mas a presença de um sim claro, ativo e contínuo.
O problema é quando ele passa a ser tratado como alguma coisa simples, transparente e absolutamente livre em qualquer contexto. Na prática, as relações humanas são atravessadas por medo, desigualdade, pressão social, dependência econômica, diferenças de idade, hierarquia profissional e vulnerabilidades emocionais. Então, o que a gente propõe no livro é uma reflexão crítica: um sim nem sempre vai nascer de uma liberdade plena.
Uma mulher pode consentir, por exemplo, por medo de retaliação, por pressão emocional, para evitar uma violência maior, por uma dificuldade de negar, por congelamento traumático ou simplesmente porque ela foi socializada para priorizar o desejo masculino em detrimento do próprio desejo.
Assine nossa newsletter!
No livro “Precisamos falar de consentimento”, que você escreveu com Beatriz Accioly Lins e Silvia Chakian, vocês argumentam que ele é necessário, mas que existe uma “zona cinzenta” quando falamos de consentimento num contexto de violência sexual. O que isso quer dizer?
Quando falamos dessa zona cinzenta, não estamos relativizando o estupro, pelo contrário. Estamos chamando atenção para a complexidade do fenômeno.
A gente tem, num extremo, a idealização do que é a violência sexual — cometida por uma pessoa desconhecida num beco escuro, envolvendo violência física, em que essa mulher fica muito machucada — e, no outro, a idealização de uma relação plenamente saudável, em que todas as pessoas se comunicam perfeitamente. E a gente sabe que a vida acontece entre uma coisa e outra.
O consentimento, do jeito como ele está posto hoje, é suficiente? Entendemos que não. Não queremos descartar o consentimento, até porque não temos algo melhor para colocar no lugar dele no momento. Mas queremos chamar atenção para o fato de que existem essas zonas cinzentas e que, para que a gente entenda consentimento como um acordo livre, essas mulheres precisam estar em condição de liberdade. Caso contrário, estamos falando de concordância, não de consentimento.
Gosta do nosso contéudo? Apoie a Gênero e Número!
O que constitui o consentimento ativo?
O primeiro ponto que precisamos esclarecer é que o consentimento ativo não exige registros formais, como vídeos ou contratos, por exemplo. Afinal, essas “provas” podem ser obtidas mediante coerção ou ameaça e, portanto, perderiam seu “valor” ou sua função.
O consentimento ativo, tal como pensado, pressupõe que todas as pessoas envolvidas expressem de forma clara seu desejo de participar daquela interação sexual; considerando que essa concordância pode ser revista ou retirada a qualquer momento.
Tem a ver, portanto, com uma manifestação livre, consciente, voluntária e contínua de concordância para participar de uma atividade sexual; não podendo ser presumido a partir do silêncio, da passividade ou da ausência de resistência. Além disso, é importante que se diga: o consentimento ativo não foi “criado” para “proteger alguém de falsas denúncias”, mas para promover relações sexuais baseadas em autonomia, respeito mútuo e comunicação clara.
Violência doméstica agrava adoecimento crônico e sintomas no climatério
E o consentimento pode ser revogado no meio de uma relação sexual?
O consentimento é renovável. Eu posso consentir com um determinado ato em determinado momento e não consentir com outro.
Eu preciso ter a liberdade, inclusive, de consentir com vários atos em um momento e, em outro momento, não consentir com esses mesmos atos."
Porque, senão, a gente não tem como pensar, por exemplo, em um estupro marital [quando um parceiro obriga o outro a ter relações sexuais contra a sua vontade dentro do casamento ou união]. Ele acontece dentro de um contexto de uma relação em que houve consentimento em algum momento, em que existe consentimento em algumas situações, mas que em outras não existiu e não foi respeitado.
A gente sempre precisa pensar no consentimento dentro de uma lógica de relações de poder, porque nem toda concordância é fruto de liberdade.
E estamos falando de consentimento para pessoas maiores de idade. Se eu tenho alguém [que ainda está] em desenvolvimento físico, emocional, relacional, psíquico, eu não posso falar de condições plenas para consentir.
O estupro de vulnerável é uma coisa que está dada a partir da interação que se estabelece com aquele sujeito. É diferente de um estupro que acontece dentro de um contexto de relações entre pessoas adultas. São dois cenários completamente distintos.
“O enfrentamento à violência funciona só pela criminalização não porque ela resolve, mas por ser o que está disponível”, avalia advogada por trás da Lei Maria da Penha
No Brasil, a idade de consentimento é 14 anos, mas só é considerado maior de idade quem chega aos 18. As relações sexuais entre 14 e 17 anos necessariamente carecem de consentimento livre? Como trabalhar consentimento nessas idades “meio-termo”?
Essa é uma ótima pergunta, porque ela toca em uma diferença super importante: aquela entre a capacidade jurídica para consentir e a aquela entre a capacidade psicológica de expressar vontade para tal.
Veja: quando afirmo que crianças e adolescentes ainda estão em desenvolvimento físico, emocional, cognitivo e relacional, não estou dizendo que pessoas entre 14 e 17 anos não possuam – ou sejam incapazes de manifestar – desejos, interesses afetivos ou vontade própria. O ponto central é que o consentimento, especialmente em contextos sexuais, precisará ser analisado levando em conta as relações de poder, a maturidade das partes e as vulnerabilidades envolvidas. Estamos falando de um momento e uma questão que são, de fato, delicados.
Em termos de legislação, entendemos que menores de 14 anos não têm capacidade legal para consentir com atos sexuais, configurando, portanto, o crime de estupro de vulnerável. A partir dos 14 anos, contudo, essa análise jurídica muda. Isso não significa, por sua vez, que que todas as relações sexuais envolvendo adolescentes sejam automaticamente livres de assimetrias, coerções ou influências indevidas. Por isso, trabalhar consentimento com adolescentes é tão importante.
197 meninas sofrem violência doméstica por dia, e abuso cria “curto-circuito” na saúde física e mental por décadas
Nessa faixa etária, o foco não deve ser apenas em “sim” ou “não”, mas em temas como respeito aos limites próprios e dos outros, [livre de] pressão dos pares, desigualdades de idade e poder, [com] autonomia corporal, comunicação e reconhecimento de situações de manipulação ou violência. O objetivo é justamente fortalecer a capacidade de fazer escolhas livres e respeitar as escolhas alheias.
Como eu disse: dizer que adolescentes estão em desenvolvimento não significa negar sua agência ou sua sexualidade. Significa, simplesmente, reconhecer que seu processo de construção de autonomia/agência ainda está em curso. Por isso, a educação para o consentimento é tão importante nessa fase: não se trata de presumir incapacidade absoluta, mas de oferecer ferramentas para que decisões afetivas e sexuais sejam cada vez mais conscientes, seguras e respeitosas.
Pensando em movimentos coletivos que tentaram justamente desvelar essa estrutura, qual foi a importância do Me Too para a discussão da violência sexual no Brasil e no mundo? Ele foi capaz de romper com o cenário doméstico e familiar tão favorável aos violentadores?
Eu acho que o movimento Me Too teve um papel fundamental para desmascarar uma série de estruturas sistêmicas de violência praticada contra a mulher. É um marco. Ele chama atenção para o fato de que, quando a gente fala de violência sexual, fala de algo que é de fato sistêmico, relacional, da ordem da desigualdade de poderes.
Mas o Me Too, tanto no Brasil quanto no mundo, passa por um momento que a gente observa também em outros marcos históricos: o de backlash. Toda vez que a gente tem avanços, especialmente em termos de direitos das mulheres, a gente sofre em seguida um backlash importante, e esses direitos ou retroagem ou estacionam.
Justamente porque a gente, enquanto sociedade, ainda está estruturado dentro de uma perspectiva e de uma lógica que desencoraja mulheres a denunciarem, que tira do agressor a responsabilidade pela violência praticada e minimiza o impacto na vida dessas mulheres.
O movimento sofre o resultado de uma força de tensões. E, quando a gente pensa em avanços de direitos, a gente sabe que nós ainda somos minoria. Uma minoria que não é numérica, mas é simbólica e é uma minoria em termos de poderes.
O movimento Me Too
A expressão “Me Too” foi cunhada em 2006 pela ativista negra norte-americana Tarana Burke, que trabalhava com sobreviventes de violência sexual — em especial meninas e mulheres negras — e usava a frase para criar reconhecimento mútuo entre vítimas.
A campanha ganhou alcance global em 15 de outubro de 2017, quando a atriz Alyssa Milano publicou no Twitter um convite para que mulheres que tivessem sido assediadas ou agredidas sexualmente respondessem com a hashtag #MeToo.
O tuíte foi uma resposta às reportagens do New York Times e da New Yorker, publicadas dias antes, que reuniam denúncias de assédio e estupro contra o produtor de Hollywood Harvey Weinstein. Milhões de reações relacionadas ao #MeToo foram registradas nas redes sociais, e a hashtag se espalhou por vários países. Weinstein foi condenado em 2020 a 23 anos de prisão.
No Brasil, o movimento ganhou força em torno de campanhas como #PrimeiroAssédio, #MeuAmigoSecreto e #MexeuComUmaMexeuComTodas. Em abril de 2017, meses antes da explosão global da hashtag, denúncias da figurinista Su Tonani contra o ator José Mayer mobilizaram funcionárias da TV Globo numa campanha pública contra o assédio na emissora.
O movimento é creditado por ter dado visibilidade à dimensão estrutural da violência sexual, especialmente no ambiente de trabalho, e por ter aberto espaço para denúncias contra figuras poderosas em diversos setores — entretenimento, mídia, política, esporte e tecnologia.
Sobreviventes de violência doméstica são mal-atendidas no sistema de saúde apesar de adoecerem mais
O movimento começou a partir de uma mulher negra, mas ganhou repercussão e notoriedade após a postagem de uma mulher branca, expondo a falta de interseccionalidade nas discussões, sobretudo quando pensamos em raça. Quando a gente fala em “mulheres” no plural, esquece a diversidade que está debaixo desse guarda-chuva?
A violência sexual no Brasil tem raízes coloniais muito profundas. As mulheres negras foram historicamente construídas como corpos disponíveis, hipersexualizados, dignos de menos cuidado. Existe uma naturalização histórica da dor da mulher negra, não apenas a dor resultante da violência sexual. Como se ela suportasse mais, sofresse menos e fosse naturalmente mais resistente.
Não à toa a gente vê dados que mostram, em violência obstétrica, por exemplo, que essas mulheres recebem menos anestesia na hora do parto, porque são corpos vistos como mais resistentes. É um racismo institucional.
A violência contra mulheres negras tende a gerar menos mobilização, menos indignação e menos proteção."
Eu nem gosto de usar o termo “recorte de raça”, mas atravessamento de raça. Como se a gente não estivesse separando, mas falando daquilo que atravessa essa existência.
Existe uma diferença não apenas de maior exposição à violência por uma vulnerabilidade financeira, por exemplo, mas de um menor acesso à proteção, que são coisas diferentes.
A gente está falando de descredibilização, de atendimento negligente, de suspeição moral, de menor acesso a serviços especializados, de revitimização institucional, porque o racismo institucional influencia quem é, inclusive, percebido como verdadeira vítima. E essas mulheres — assim como as mulheres quilombolas, indígenas, lésbicas, trans — fogem ao estereótipo do que é a vítima ideal, do que é a vítima perfeita.
Desaparecer pode ser um ato de resistência para mulheres — mas também pode ser o último capítulo de um feminicídio ainda sem nome, diz promotora
E qual é o estereótipo dessa vítima perfeita?
A gente idealiza que é uma mulher frágil, que deixou a violência acontecer, se colocou em risco e é dependente emocionalmente. E daí eu, enquanto mulher, não quero me reconhecer com esse perfil. A gente faz um movimento cognitivo mesmo, de afastamento desse perfil.
Não se reconhecer como vítima tem a ver com vergonha, com culpa, com a sensação de que vai ser responsabilizada — o que é uma verdade, provavelmente será socialmente responsabilizada pela violência que sofreu.
Mas também tem a ver com uma tentativa de afastamento desse perfil imaginado de quem é a vítima, de uma vítima que provocou a própria vitimização. Porque, no momento em que eu me percebo próxima desse perfil, isso gera sofrimento, angústia, potencializa os sentimentos de culpa e de vergonha.
E aí, quando a Gisèle Pelicot fala “a vergonha precisa mudar de lado”, ela sinaliza para a gente um movimento importantíssimo, que tira mulheres vítimas de violência desse lugar de responsáveis pela própria vitimização e devolve a responsabilidade para quem ela é de direito: quem provocou a violência.
O caso Gisèle Pelicot
Conhecido como “o estupro de Mazan”, em referência à cidade no sudeste da França onde os crimes aconteceram, o caso veio a público em setembro de 2024, quando começou o julgamento em Avignon. Entre 2011 e 2020, Dominique Pelicot drogou a então esposa, Gisèle Pelicot, e recrutou pela internet dezenas de desconhecidos para estuprá-la enquanto ela estava inconsciente. Em 19 de dezembro de 2024, os 51 réus — incluindo o ex-marido — foram condenados.
Gisèle, então com 71 anos, renunciou ao anonimato e exigiu um julgamento aberto, para expor publicamente os agressores e o funcionamento da violência sexual. Cunhou a frase que virou bandeira global do movimento: “A vergonha precisa mudar de lado”.
O caso reabriu o debate jurídico sobre consentimento na Europa. Em outubro de 2025, o Senado francês aprovou mudança na lei de estupro do país para incluir a noção de consentimento. A nova legislação define que o consentimento deve ser “dado livremente e informado” e ser “passível de ser retirado”, e que ele “não pode ser presumido pelo simples silêncio ou pela ausência de resistência por parte da vítima”. A medida alinha a França a mais de uma dezena de países europeus que já operam com legislação baseada em consentimento, como Alemanha, Holanda, Espanha e Suécia.
Em 2025, Gisèle publicou o livro de memórias “Um hino à vida”, lançado no Brasil pela Companhia das Letras. Em um trecho, ela diz: “Passei dez anos buscando um diagnóstico. Coletas. Ultrassonografias. Supositórios vaginais. Exames neurológicos. Dez anos consultando médicos que me olhavam como quem diz que, na minha idade, uma mulher não tem muito o que esperar, era o caso de relaxar e de deixar o tempo seguir seu trabalho de destruição. Nenhuma pergunta interessada, jamais. Nenhum diagnóstico. E Dominique do meu lado, sabendo de tudo”.
No livro “Um hino à vida”, Gisèle Pelicot relata que buscou médicos por dez anos devido a apagões e dores, mas nunca recebeu um diagnóstico, apenas exames inconclusivos. Quando a violência não é identificada de imediato, de que forma ela se desdobra como um problema de saúde crônico para a vítima?
A gente precisa começar reconhecendo que existem profissionais extremamente qualificados e comprometidos. Tendo reconhecido isso, o sistema ainda é insuficiente para o tamanho do trauma e da demanda.
A violência sexual tem impactos muito profundos, como a possibilidade de desenvolvimento de transtorno de estresse pós-traumático. Além disso, a dificuldade de confiar — no próprio corpo, nas outras pessoas, de voltar a confiar no mundo.
É uma sensação de medo constante, de alterações físicas e psicológicas em relação ao próprio corpo. Esses efeitos podem durar meses, décadas ou muito menos tempo, desde que seja feito um acolhimento adequado. A violência contra a mulher não é só um atentado contra o presente, mas contra o futuro dessa mulher também.
Secretária Nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres: “Se não tivermos feministas em todas as instituições, nada avança”
Muitas vão permanecer em estado constante de alerta, como se o perigo ainda estivesse acontecendo, porque o corpo continua reagindo mesmo quando a violência terminou."
O imaginário social trata a violência como se fosse alguma coisa pontual, mas, para muitas vítimas, isso se transforma numa experiência crônica, que vai atravessar relações, trabalho, maternidade, estudo, percepção de segurança.
Pelicot denuncia que, nessas idas ao médico, suas queixas eram frequentemente tratadas como uma “questão da idade”. O etarismo é um fator estrutural que impede o sistema de enxergar mulheres idosas como possíveis alvos de violência sexual?
Existe uma construção social muito forte de que mulheres idosas deixam de ocupar um lugar de desejo e, por consequência, deixam também de ser percebidas como possíveis vítimas de violência sexual, como se envelhecer retirasse delas não só a sexualidade, mas também a vulnerabilidade.
Não que a violência sexual esteja baseada no desejo, mas, quando a gente faz essa associação, a gente produz invisibilidade e deixa de proteger essas mulheres. O caso da Pelicot rompe com esse imaginário. Ele mostra que violência sexual não está ligada a desejo, mas a exercício de poder, controle, desumanização, objetificação desse corpo.
A maioria dos dados indica que a principal vítima de violência sexual é a menina de até 14 anos.
Mas a gente precisa questionar o quanto esses dados são incapazes de captar o cenário real da violência praticada contra mulheres idosas, justamente porque essas mulheres estão em situação de vulnerabilidade."
Muitas vezes, elas são agredidas por cuidadores, filhos, companheiros, profissionais da saúde. A gente tem uma invisibilidade dessa violência que está colocada e que, por isso, não se reflete nos dados. E, se não se reflete nos dados, acaba não se refletindo em cuidado.
Secretária Nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres: “Se não tivermos feministas em todas as instituições, nada avança”
“Meu corpo era uma prova material”, escreveu Pelicot. Como ela sofria apagões, não tinha as memórias para se afirmar como vítima no consultório, mas as marcas não deixavam de estar lá. O sistema de saúde ainda depende de que a mulher chegue com a queixa nomeada para, só então, acionar os mecanismos de cuidado?
Tem duas coisas. A primeira é que a gente [da área da saúde] pode dizer que uma mulher foi vítima de violência e ajudá-la a nomear o que viveu. Porque muitas vezes essa mulher não tem os recursos simbólicos para chamar a própria experiência de violência. E é a gente, enquanto profissional de saúde, que vai fazer isso junto com ela.
Para isso, precisamos de treinamento, de capacitação, de investimento, de acolhimento adequado, de olhar humanizado, de uma escuta ativa. De profissionais que estejam sensíveis ao fato de que a violência é uma realidade. Também que, muitas vezes, essa mulher vai comparecer aos sistemas de saúde e se tornar o que a literatura chama de paciente poliqueixosa — que tem uma série de queixas e que está ali recorrentemente, mas não existe um diagnóstico que justifique que ela esteja ali.
A gente precisa pensar em estratégias para considerar a violência como uma dessas possibilidades. Porque, senão, a gente invisibiliza isso. Em alguns momentos, ela se percebe enquanto vítima, mas não dá conta de falar em voz alta, de pedir ajuda em um cenário de saúde, por exemplo.
Os agentes comunitários de saúde, por exemplo, estão dentro das casas das pessoas e poderiam ser porta de entrada importantíssima, se a gente tivesse investimento suficiente para o reconhecimento. A gente precisa abrir a porta do consultório, sair desse consultório e se conectar com aquela comunidade, com aquelas pessoas que estão no entorno.
Djamila Ribeiro: “A raiz da nossa sociedade é o ódio às mulheres”
Mas há também outros atores que devem ser considerados. No caso de Pelicot, 51 homens estupraram uma mulher inconsciente e muitos seguiram, no julgamento, negando ser agressores. No seu doutorado, você estudou o “desengajamento moral”. Como esse conceito explica a recusa em se reconhecer como autor da violência?
O desengajamento moral é um processo cognitivo em que o indivíduo “tira” a imoralidade do ato que ele está praticando para si mesmo antes de praticá-lo.
O [psicólogo Albert] Bandura, que é o autor dessa teoria, fala assim: “Ninguém comete um ato imoral sem antes justificar a moralidade desse ato para si mesmo”. Em atos violentos contra mulheres, eu busco socialmente as justificativas morais para que eu pratique o ato violento sem que eu me perceba enquanto autor de violência.
Não à toa, quando a gente chega nos grupos reflexivos de homens, o discurso é: “Eu não deveria estar aqui. Eu não sou um agressor de mulheres. Eu não matei ninguém”. Ou, mesmo quando ele matou alguém, quando cometeu um feminicídio: “Eu não deveria estar aqui, porque eu só respondi a um ato dela. Eu não sou um assassino”.
E onde eu busco o insumo para justificar a moralidade desse ato? Sociedade, cultura. É dentro desses discursos muitas vezes tidos como banais, pequenos, irrelevantes, que esses agressores encontram os subsídios para conseguirem se comportar de maneira violenta sem se implicarem nesse ato.
Violentômetro: conheça a ferramenta da saúde que pode vir a prevenir feminicídios
Esse desengajamento embasou a defesa de réus que alegaram “achar que era um fetiche” ou que “ela fingia dormir”. Em resposta ao caso, o Senado francês aprovou em 2025 uma lei baseada no consentimento. Qual é o impacto jurídico de redefinir o debate?
Tem uma transformação internacional importante na forma como a violência sexual é compreendida juridicamente, muito em função desse caso, mas também de outros.
Diversos países europeus passaram a deslocar o centro da discussão da presença de eventual agressão física ou marca física para a ausência de consentimento. Isso muda completamente, profundamente, a lógica jurídica. Por quê? Porque reconhece algo essencial:
Muitas vítimas não conseguem reagir fisicamente diante da violência. Algumas vão congelar, dissociar, obedecer. Elas estão inseridas em relações marcadas por desigualdade de poder, estão dopadas, medicadas, sob efeito de substância, estão dormindo. A gente tem uma série de cenários possíveis."
A França avança nesse debate depois do caso da Gisèle Pelicot. O Parlamento Europeu também pressiona para que a definição de estupro seja baseada em consentimento em todos os países membros. Espanha e Suécia já têm legislação, e a Austrália também tem feito um movimento nesse sentido, de caminhar na direção de ausência de consentimento para falar de violência sexual.
E como está a legislação brasileira nesse ponto?
No Brasil, o artigo 213 do Código Penal, que é o artigo que fala sobre violência sexual, ainda trabalha com a ideia de constranger mediante violência ou grave ameaça. Qual é o problema? Muitas situações de violência não acontecem dentro desse modelo clássico de agressão brutal praticada por um desconhecido ou mesmo por um conhecido.
O desafio contemporâneo é entender que a ausência de resistência física não significa presença de consentimento."
Quando a gente pensa em relações hierárquicas, em dependência emocional, em coerção psicológica, em medo, em vulnerabilidade, a gente percebe que o conceito tradicional muitas vezes não consegue abarcar a complexidade da violência sexual contemporânea.
Os projetos recentes que aumentam as penas mostram uma preocupação legítima do Estado em endurecer a resposta penal, mas a gente precisa tomar cuidado para não acreditar que só o aumento de pena resolve o problema. Porque violência sexual é também fenômeno cultural, relacional e estrutural.
Esses movimentos internacionais sinalizam para a gente algo muito importante: a gente precisa falar sobre consentimento — não à toa é o nome do [meu] livro. Mas a gente precisa entender de que maneira vamos falar sobre consentimento nesses contextos. As iniciativas que falam “não é não”, a gente precisa discutir em que contexto esse “não” está sendo dito. Quando dizem “sim é sim”, em quem está a responsabilidade de dizer o sim.
A gente precisa acompanhar esses movimentos que têm sido feitos no Brasil, que eu ainda enxergo como iniciais.
Do Congresso à sala de aula: apagamento do debate de gênero alimenta a violência contra mulheres
O consentimento também aparece muito atrelado ao contato físico. Mas, quando olhamos para o ambiente digital, como ele opera? Hoje uma mulher pode sofrer violência sexual sem que ninguém encoste nela — pelas deepfakes, por exemplo.
A gente tem deepfake, vazamento de imagem íntima, perseguição digital, as campanhas coordenadas de misoginia. Todas têm impactos devastadores.
A gente ainda está começando a entender como é possível levar para o digital essa lógica de relacionamento que ainda tentamos estabelecer no contato offline, fora das redes.
Porque, se a gente for pensar — e a Bia, outra autora do livro, fala muito disso —, quando você vai abrir uma rede social, tem lá uma série de termos. E você precisa consentir com esses termos para que esteja na rede. Só que não é consentimento, porque, se você não concordar, você não entra na rede. Se eu não tenho opção, eu não estou falando de consentimento.
Isso significa que, mesmo nas coisas mais básicas do nosso dia a dia, o consentimento está colocado, mas não necessariamente está orientado por uma lógica de respeito, de cuidado, de igualdade de poderes.
Radar Antigênero revela como vídeos no YouTube alimentam discurso antigênero e ondas de ataques
A legislação e a rede de cuidados têm conseguido acompanhar a velocidade da tecnologia?
Eu acho que não, porque existe um agravante importante quando falamos de violência no ambiente digital:
A internet produz permanência. A vítima não vive com a sensação, mas com a certeza de que aquela violência vai reaparecer a qualquer momento."
A percepção que eu tenho é que a gente ainda não conseguiu compreender plenamente como essas ferramentas estão sendo utilizadas, apesar dos avanços que temos feito. A gente tem especialistas em violência digital que falam muito bem sobre isso.
Tem também um movimento que tenta dar conta deste novo fenômeno, mas eu não percebo que tenhamos as ferramentas para bater de frente com o que a internet já produziu. Mesmo porque não existe o interesse das corporações de frear alguns movimentos baseados nas reações exageradas, nos afetos emocionados, porque eles movimentam a rede.
A gente viu recentemente, por exemplo, aquela novela das frutas, com conteúdo absolutamente misógino. E o que a gente observa? É popular porque mexe com a imaginação, é palatável, pega um assunto importante e o transforma em comédia.
A gente tem uma série de pequenos movimentos que acontecem simultaneamente e retroalimentam uma rede já muito complexa, e para a qual a gente ainda não está preparado para lidar. A gente vê iniciativas de legislação, projetos de lei interessantes, mas que ainda não dão conta de responder adequadamente a essa velocidade que a tecnologia imprime no que se refere a essas ferramentas para agressão de corpos femininos.
Você usou a palavra misoginia. O que ela significa e por que a gente tem dificuldade de nomeá-la em casos de violência contra a mulher?
Misoginia é o ódio direcionado às mulheres. Quando a gente observa casos de violência contra a mulher, é quase que o impulso social procurar justificativas individuais para a ocorrência daquela violência. Não nomeamos misoginia como um ódio coletivo, compartilhado, direcionado a mulheres. Dizemos: “Ele tinha ciúme, ele deve ter algum transtorno psicológico, ele é um monstro, ele não aceitou o fim da relação, ela o traiu e ele teve a sua honra ferida”.
Nós procuramos respostas da ordem do indivíduo para justificar violências, sem nomear adequadamente os fenômenos culturais e sociais que embasam esse discurso, que é um discurso misógino e que se traduz em ações violentas.
Radar Antigênero analisa narrativas de ódio e desinformação no YouTube com uso de inteligência artificial
Olhando para tudo o que a gente conversou — internet, redes sociais, direito das mulheres, consentimento —, como seria, na sua imaginação, o cenário ideal daqui a 10 anos?
Eu idealizo um momento em que a gente consiga convocar todas as gerações para falar sobre violência, para agir sobre ela, para cuidar de vítimas, para desenvolver uma escuta ativa, para que a gente consiga pensar e aplicar, de fato, estratégias de cuidado.
Se eu puder idealizar alguma coisa para daqui a 10 anos, eu idealizo cuidado. Essa é a palavra-chave para pensar esse cenário.
Porque, se a gente se concentra apenas nas respostas legais, nas respostas jurídicas, e se a gente avança nessas respostas, mas não dá conta de olhar para os outros elementos que compõem esse cenário, a gente não vai conseguir diminuir ou encerrar a violência contra a mulher.
Eu não imagino que, daqui a 10 anos, a gente vá ter acabado com a violência, mas, num cenário ideal, a gente vai ter pelo menos convocado diferentes gerações a estarem juntas no enfrentamento desse problema.
Essa entrevista faz parte da série Quando o corpo guarda a violência, produzida com apoio do Fundo ELAS+ Doar Para Transformar e da Agence française de desenvolvimento (AFD). As ideias e opiniões nela expressas são de responsabilidade dos autores e não refletem, necessariamente, o ponto de vista do ELAS+ ou da AFD.