Na 2ª Marcha das Mulheres Negras, pela primeira vez, um comitê inteiro foi formado por mulheres negras evangélicas. A frente reúne batistas, metodistas, assembleianas, luteranas, anglicanas, pentecostais e neopentecostais para disputar narrativas dentro da própria fé. Entre elas, está Andressa Oliveira, ativista de direitos humanos, militante antirracista do Movimento Negro Evangélico do Rio de Janeiro (MNE-RJ), evangélica de esquerda e estudante de Teologia.
O comitê publicou um manifesto em que se apresenta como um coletivo diverso, formado por mulheres de diferentes idades, tradições cristãs e regiões do país. Elas reivindicam a fé como território político, espiritual e de resistência. O documento ressalta que o corpo negro feminino é território sagrado, memória de resistência e promessa.
Para essas mulheres, a espiritualidade não é dissociada da experiência concreta: nasce do corpo que dança, ora e luta, e se manifesta na vida cotidiana de mães, filhas, pastoras, teólogas, trabalhadoras, cuidadoras e intelectuais. Ao nomear o silenciamento imposto por estruturas racistas e patriarcais — inclusive dentro das igrejas —, o manifesto reivindica justiça de gênero e raça dentro e fora dos espaços religiosos, além de reparação histórica pelas violências sofridas.
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Entre as denúncias centrais, está o impacto do racismo estrutural sobre a vida das mulheres negras evangélicas. O texto aponta a precarização do trabalho, as jornadas múltiplas, a falta de políticas públicas básicas, como creches e escolas, e a insegurança alimentar como expressões de um modelo que mantém mulheres negras na base da pirâmide social.
Soma-se a isso a violência doméstica, a exploração do trabalho religioso sob o disfarce do voluntariado e a política de segurança que segue produzindo mortes e luto nas famílias negras.
Representando não só a si mesma, mas a centenas de mulheres reunidas desde agosto, Andressa ergue uma voz que desafia a ideia de que existe pensamento único no campo evangélico. Em uma conversa com a Gênero e Número, logo após o início da Marcha, ela fala sobre fé, política, violência religiosa e de gênero, e sobre o trabalho de orientar mulheres que foram ensinadas, por leituras distorcidas da Bíblia, a se calar diante de abusos.
Com coragem e convicção, ela reafirma que essas mulheres não estão sozinhas, não são poucas e não devem submissão a lideranças que usam a religião para controlar seus corpos e vidas. “Eles não mandam na nossa fé”, diz. E é com esse ideal que Andressa marcha para ampliar o comitê, fortalecer vínculos e disputar, de dentro, os sentidos da fé que move tantas mulheres negras no país.
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Ao longo do manifesto, as mulheres negras evangélicas rejeitam a falsa escolha entre fé e negritude. “Nossa fé não é contrária à nossa negritude — ela nasce dela”, afirmam as integrantes do Comitê no documento. A defesa do Bem Viver aparece como expressão do Reino de Deus, associada ao cuidado com a terra, os corpos e as comunidades, e ao compromisso com uma vida livre da violência racial e social. A marcha, nesse sentido, é apresentada como chamado profético e ação concreta: enquanto houver injustiça, a fé seguirá em movimento.
Você disse que está na Marcha representando outras mulheres negras evangélicas. O que significa ocupar esse lugar?
Nós somos mulheres que já estamos na luta dos movimentos de mulheres, enfrentando o racismo e lutando por direitos. É muito importante estarmos aqui unidas e identificadas, porque é um contraponto ao processo que tenta dizer ao país que existe uma unanimidade no pensamento dos evangélicos – não existe.
Querem fazer parecer que todos concordam com a tentativa de submeter o país inteiro a um poder estabelecido usando a religião, sufocando outras religiosidades, outras identidades, tentando retroceder nos direitos das pessoas LGBTQIA+, de outras religiões e das pessoas pretas. Existe um discurso de negação do racismo, e nós somos a reação a isso.
A verdade é que sempre estivemos aqui, mas agora nos colocamos enquanto mulheres negras evangélicas para dialogar e lutar. Eles não mandam em nós — nem na nossa fé. A nossa fé é em Jesus, e não neles [líderes religiosos].
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De qual congregação você faz parte?
Sou da Igreja Batista. Mas temos irmãs da Assembleia de Deus, da Congregação Cristã do Brasil, metodistas, batistas, luteranas, anglicanas, e neopentecostais. Somos diversas e estamos unidas para lutar.
Quantas mulheres fazem parte do comitê?
O comitê só conseguiu se organizar na metade de agosto, então tivemos pouco tempo para alcançar muita gente. Hoje, no grupo, somos cerca de 150 mulheres, o que para nós já é um sinal importante. A partir daqui, queremos continuar esse trabalho e agregar ainda mais mulheres à luta e ao diálogo.
Na apresentação dos comitês da Marcha, você falou sobre a violência contra as mulheres evangélicas. O Mapa Nacional da Violência de Gênero mostra que 53% das mulheres que sofreram violência doméstica buscaram a igreja após a agressão. Como tem sido discutir isso nas igrejas?
A gente tenta mostrar às irmãs que sempre houve uma interpretação errada da Bíblia, um uso para submeter as mulheres. É isso que gera tantos altos índices de violência.
Muitas aprendem na igreja que precisam ficar quietas, têm que ceder ao marido mesmo quando não querem, não podem se separar, precisam perdoar sempre, porque ‘“isso agrada a Deus”. E isso é dito com argumentos bíblicos, mas está errado.A Bíblia diz que mulheres têm direitos."
Há diversas passagens que falam sobre proteger as mulheres. O próprio Jesus protegeu uma mulher que ia ser apedrejada. Nós dialogamos com as irmãs para que elas não se submetam às violências. Para que entendam que não estão desagradando a Deus se denunciarem um marido agressor. E mais: se o pastor disser para apenas orar e perdoar, ela denuncia o marido, e denuncia o pastor também.
Você esteve na Marcha de 2015?
Não. Eu ainda não estava organizada. Mas, a partir do final de 2017, encontrei o movimento e fui entrando.
Esta entrevista faz parte da série Juntas pelo Bem Viver, uma iniciativa da Coalizão de Mídias Negras e Feministas, formada por Gênero e Número, Alma Preta, AzMina, Instituto Mídia Étnica e Nós, Mulheres da Periferia.