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Diálogos possíveis: Janaina Paschoal (PSL/SP) e Mônica Francisco (PSOL/RJ)10 min read

Fotos: Geraldo Magela (Ag. Senado) | Divulgação

As duas deputadas recém eleitas e tão distantes no espectro político aceitaram o convite da Gênero e Número para uma conversa franca e respeitosa; na pauta, feminismos, a importância das Assembleias Estaduais e justiça para Marielle Franco

Por Maria Martha Bruno*

Uma simples vogal e uma infinidade de ideias distanciam PSOL e PSL no cenário político do país, posicionando os dois partidos em lados virtualmente incomunicáveis. Mas a Gênero e Número acredita que essa distância pode ser superada pelo respeito e pelo diálogo aberto e franco, que vá além do lugar-comum da polarização. Mulheres de todos os matizes políticos ampliaram sua presença no Legislativo nestas últimas eleições: foram 50% mais eleitas para a Câmara dos Deputados e 37% mais nas assembleias estaduais em comparação com 2014. Cada vez mais elas terão de trabalhar juntas, apesar das diferenças.

Numa tentativa de estabelecer pontes entre lados antagônicos, pedimos a Janaina Paschoal (PSL/SP), estreante na Assembleia Legislativa de São Paulo e deputada estadual mais votada da história do Brasil, e a Mônica Francisco (PSOL/RJ), também novata no parlamento estadual e ex-assessora de Marielle Franco, que enviassem, cada uma, três perguntas à outra. Ambas concordaram com a proposta e, em vez de apenas três questões, mandaram comentários e perguntas complementares sobre assuntos como feminismo, corrupção e direitos humanos.  Ao se despedir, Janaina agradeceu “a honra de manter este diálogo” com a parlamentar do PSOL, enquanto Mônica ressaltou a importância de a parlamentar do PSL ter lido a dissertação de mestrado de Marielle. Por email e WhatsApp, ambas estabeleceram uma conversa civilizada que, além das óbvias diferenças, também expôs pontos em comum.

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Leia abaixo as perguntas e as respostas de Mônica Francisco e Janaina Paschoal.

Janaina Pascoal: Cara Mônica, primeiramente, parabéns por sua eleição. Você acredita que esta operação que investiga irregularidades na Assembleia do Rio de Janeiro, envolvendo as mais diversas siglas partidárias, poderá ser útil ao seu mandato? Crê que será mais fácil convencer os futuros colegas de que é certo fazer o certo?

Mônica Francisco: Obrigada, Janaina. A investigação e a luta contra a corrupção são importantes para a democracia. Mas não é só uma questão de convencimento do outro. Para mudar a política é preciso mudar o sistema, a relação com as empresas, os modos de fazer campanha, entre outras coisas, para que políticos corruptos simplesmente não consigam atuar e para que tenhamos uma representação mais diversa. A população está cansada de ver o dinheiro público ser desviado, quando poderia estar sendo investido em educação, saúde, saneamento, transporte e alimentação. Qualquer partido ou projeto político que tenha a intenção de ter legitimidade popular deve ser transparente e fazer uso correto dos recursos públicos aos quais tem acesso. A tentativa, todos os dias, é de fazer o certo e influenciar positivamente quem nos cerca.

Janaina Paschoal: Você entende que a competência do Poder Legislativo estadual é compatível com o custo de manutenção das Assembleias? Vê espaço para fortalecimento do colégio das Assembleias?

Mônica Francisco: As Assembleias Legislativas nos estados têm uma importância ímpar, embora espremidas pelas competências das Câmaras Federal e Municipal. Fortalecer este colégio de representação é uma tarefa que demanda maior fiscalização do Poder Executivo e maior acompanhamento das pautas que a população cobra. Precisamos combater os privilégios e benefícios que fogem da necessidade da atividade parlamentar, mas não podemos cair no discurso fácil de cortar todos os gastos e reduzir o Estado ao mínimo. Afinal, para que a atividade parlamentar seja realizada de forma séria e para que corresponda à expectativa da população é necessária estrutura para pesquisa, produção legislativa, comunicação da prestação de contas, e uma equipe que mantenha o gabinete aberto todos os dias da semana para atender às pessoas. Isso não é de graça. É muito comum ouvirmos pessoas ricas, que receberam heranças ou enriqueceram com especulação financeira, dizendo que não precisam de recursos públicos. Essa não é a realidade da maioria da população. No caso do Rio de Janeiro, é importante fortalecer a transparência, mais ainda em um momento de tanta visibilidade do parlamento estadual, de forma negativa, infelizmente.

Janaina Paschoal: Eu li a dissertação de mestrado de Marielle. Gostei muito da parte em que ela descreve a sistemática do policiamento nas comunidades. Até discuti o trabalho dela com meus alunos de pós [-graduação em Direito da Universidade de São Paulo, USP]. No entanto, a dissertação ainda traz um tom de vitimização do criminoso. Por outro lado, em razão do crime bárbaro de que Marielle foi vítima, cobra-se (com razão) punição exemplar. Como compreender uma esquerda que toma o criminoso como vítima da sociedade e, ao mesmo tempo, cobra duras penas quando um dos seus é alvo? Reitero meus sentimentos pela perda de Marielle.

Mônica Francisco: É muito importante que o trabalho de Marielle tenha chegado até você! O crime contra Marielle Franco foi político, contra uma mulher, negra, no exercício de seu mandato e, nesse caso, a luta por justiça é também a luta para que seja possível continuar atuando e agindo politicamente, sem medo. Pedir justiça para Marielle é pedir que as penas previstas sejam cumpridas por quem matou e quem mandou matá-la. Criticar o sistema penal e a política de segurança pública não é abolir a justiça. É lutar para que ela seja de fato justa, que colabore para uma sociedade de oportunidades mais iguais, sem racismo ou qualquer tipo de discriminação pela origem da pessoa. É muito importante que seja possível lutar na defesa dos direitos humanos sem que isso coloque em risco nossas vidas. É uma luta por democracia radical, que seja vivida por todos e todas.

Pedir justiça para Marielle é pedir que as penas previstas sejam cumpridas por quem matou e quem mandou matá-la. Criticar o sistema penal e a política de segurança pública não é abolir a justiça. É lutar para que ela seja de fato justa, que colabore para uma sociedade de oportunidades mais iguais, sem racismo ou qualquer tipo de discriminação pela origem da pessoa. É muito importante que seja possível lutar na defesa dos direitos humanos sem que isso coloque em risco nossas vidas.

— Mônica Francisco (PSOL/RJ)

*Maria Martha Bruno é subeditora da Gênero e Número.

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