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Depoimento: Como é tratar um câncer de mama no SUS em meio à pandemia64 min read

Luciane Grava nos vários estágios do tratamento | Foto: Arquivo pessoal

Mãe solo, projetista e vendedora autônoma, Luciane Grava de Oliveira relata as etapas do diagnóstico e tratamento do câncer de mama no SUS durante a pandemia de covid-19

Por Luciane Grava de Oliveira*

No final de fevereiro de 2020, eu percebi um pequeno nódulo no seio. Naquele momento, não imaginei que pudesse ser câncer porque eu já tinha tido cistos, que depois desapareceram. Só que eu tenho um histórico. Minha mãe faleceu de câncer de útero aos 57 anos. Então eu imaginava que um dia eu poderia ter câncer também, eu só não achava que pudesse ser tão cedo, aos 43 anos. 

No final de março de 2020, eu senti que o nódulo estava diferente, que tinha aumentado. Foi então que eu procurei o posto de saúde para tentar agendar uma consulta. Primeiro eu liguei e falei que queria marcar com algum ginecologista. Me disseram que estavam sem agenda, porque estavam atendendo mais Covid mesmo. Nessa conversa, me pediram para deixar meu número de telefone, mas depois de duas semanas não haviam ligado. 

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Decidi entrar em contato novamente e disse que havia tentado agendar uma consulta, mas não havia conseguido e o nódulo estava aumentando muito rápido. Foi aí que me orientaram a ir até o posto de saúde para passar pelo acolhimento, porque, segundo me informaram, não estavam agendando consultas ginecológicas. Após o atendimento com a enfermeira, no acolhimento, fui encaminhada a um ginecologista, que me atendeu somente na segunda quinzena de maio.

O ginecologista me pediu exames: mamografia e ultrassonografia, que eu só consegui fazer em julho. Voltei ao ginecologista no mesmo mês com o resultado dos exames. O médico não gostou muito dos resultados, mas até então não havia 100% de certeza de que era um tumor maligno. Nessa consulta, fui encaminhada para o mastologista e comecei o tratamento no Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher (CAISM) de São Bernardo do Campo (São Paulo).

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O mastologista que me examinou foi bem verdadeiro. Falou que, pelo aspecto, tudo levava a crer que se tratava de um tumor maligno. Na hora foi assim: “Opa! Nossa, e agora?” Eu não chorei, fiquei meio aérea. Parecia que eu estava em outra dimensão.

2019

Outubro

promulgada

a Lei dos 30 dias,

que determina prazo máximo

para realização de exames

de diagnóstico em pacientes

com suspeita de câncer

OMS anuncia

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Luciane percebe nódulo no seio esquerdo

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de rastreamento de câncer

1a consulta

com ginecologista

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de consulta

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1a consulta com

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Durante todo o meu tratamento, não fui informada – mas também não procurei saber – sobre meus direitos como paciente com câncer. Também não sabia sobre a Lei dos 60 dias ou a Lei dos 30 dias. Eu não sabia quanto tempo passaria até começar o tratamento, e meu irmão chegou até a comentar comigo: “Lu, caso você não consiga (iniciar o tratamento rápido), a gente faz pela rede particular”.

Eu fiz a biópsia quando passei pelo mastologista, quando já tinha os resultados da ultrassonografia e da mamografia. Ele também pediu para eu realizar exames pré-operatórios, porque a ideia era me encaminhar para cirurgia. Em 4 de setembro eu recebi meu diagnóstico: neoplasia maligna de mama esquerda – Luminal B. 

O nódulo tinha evoluído muito rápido. Em quatro meses, havia passado de 2 cm para 7 cm. Fui então encaminhada para o oncologista, no Hospital das Clínicas de São Bernardo do Campo, e comecei a quimioterapia para reduzir o tamanho do tumor e tentar preservar a mama. Foram 16 sessões – a última em março de 2021.

Cerca de 15 dias depois da primeira sessão, comecei a perder o cabelo. Eu passava a mão e, primeiro, caíam alguns fios, mas depois começaram a cair maços de cabelo. Era uma sensação muito ruim, o couro cabeludo fica um pouco dolorido.

Eu tenho duas filhas, uma de 17 anos e outra de 14. Sou divorciada e o pai não assume nenhuma responsabilidade, eu sou a única cuidadora. Por elas, decidi não me deixar abater.

Uma amiga que me acompanhou durante todo o tratamento veio até minha casa um dia e, junto com as minhas duas filhas, cortou meu cabelo. Primeiro com a tesoura e depois com a máquina. Sei que para muitas mulheres esse é um momento difícil. Para a minha mãe foi a pior parte. Mas para mim não foi, eu até gostei do meu cabelo curtinho. Naquele momento eu pensei: “isso faz parte do meu tratamento, é pra minha cura, então se eu tiver que passar por isso, eu vou passar.”

Minha preocupação era minha imunidade cair e atrasar o protocolo das sessões de quimioterapia. Eu queria que passasse logo. Então procurei uma nutricionista por minha conta que ajudou muito a definir um cardápio, porque a alimentação é muito importante nesse período. 

O tratamento mexe muito com o emocional da gente também. Então eu fazia meditação e comecei a me poupar mais. Quando meu corpo pedia para descansar, eu descansava. Mas eu não deixei de fazer as coisas que eu fazia. Diminuí um pouco o ritmo, mas continuei trabalhando em casa.

Meu tipo de tumor, Luminal, não responde muito à quimioterapia. O nódulo diminuiu, mas tiveram que retirar toda a mama e, em seguida, fazer a cirurgia plástica. Me informaram que a intervenção cirúrgica deveria acontecer, no máximo, 60 dias após o término  do tratamento quimioterápico. Me disseram que, por conta da pandemia, poderia haver algum atraso e aquilo me deixou ansiosa, tive medo que o tumor voltasse a crescer. Afinal, minha cirurgia foi agendada exatamente 60 dias depois do fim da quimioterapia.

Depois da cirurgia, iniciei a radioterapia, que terminou em julho de 2021. Hoje eu faço acompanhamento com oncologista e mastologista e tomo uma medicação específica para o meu tipo de tumor. Já tomei as duas doses da vacina contra a Covid-19.

Foi difícil atravessar tudo isso em meio à pandemia. É um momento que a gente tem necessidade de acolhimento. A família queria estar junto, eu queria ver as pessoas, abraçar, e não podia. A minha vida era só médico e casa. Se uma pessoa que não é paciente oncológica precisa ter cuidados (durante a pandemia), os meus precisavam ser redobrados.

Fiquei isolada durante todo o tratamento. O que eu mais queria era o contato físico com outras pessoas, mas não podia. Então ir aos hospitais, colher sangue, passar por consultas médicas e realizar o tratamento eram momentos bons, quando eu trocava experiências com outras pacientes. Fiz amigas e amigos que levarei para o resto da minha vida.

Sempre pensei: “isso não vai me vencer. Vou fazer as quimioterapias, vou fazer a cirurgia, vou fazer radioterapia e vou seguir em frente”. Em setembro de 2021 completo 45 anos, um dia antes do aniversário de um ano do início do meu tratamento.

*em depoimento a Aline Gatto Boueri

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