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64% das gestantes infectadas com o vírus HIV em 2021 são negras

Pregnant woman – 3872×2592

Na última década, houve aumento de 30,3% na taxa de detecção do vírus em mulheres grávidas. Diagnóstico muitas vezes só é conhecido após o parto, e ativistas alertam para a falta de um olhar mais atento à relação entre maternidade e saúde sexual

Por Agnes Sofia Guimarães*

Uma vez, Júlia** ouviu de um companheiro que deveria aceitar as brigas e as agressões físicas como as únicas manifestações de amor que ela seria capaz de receber no dia a dia. Aceitou, continuou e, posteriormente, rompeu. Depois, em outro relacionamento, se viu presa no mesmo ciclo, em que amor e violência precisavam compor a mesma fórmula de barganha, diante de sua condição como mulher que convive com o vírus HIV.

“Depois do diagnóstico, eu ainda tive muitos companheiros, e ainda ouvi, de boa parte deles, que eu deveria estar grata por estar ali, porque ninguém aceitaria se relacionar com uma mulher com HIV. Parece que por isso eu merecia apanhar, ser xingada. Até em abrigo fui parar com meus filhos depois de ter sofrido violência doméstica”, conta.

Segundo boletim epidemiológico divulgado pelo Ministério da Saúde no dia 1º de dezembro – data que marca a Conscientização Mundial pelo Combate à Aids – houve uma diminuição de 25% de novos casos em 2020 em comparação a 2019 – 32.701 registros no último ano, diante de 43.312 notificações do anterior. A queda, adverte o Ministério da Saúde, pode estar relacionada a uma possível subnotificação, devido ao momento emergencial da pandemia.

Homens ainda apresentam mais infecção por HIV do que mulheres: de 2007 até junho de 2021, foram notificados 266.360 (69,8%) casos em homens e 115.333 (30,2%) em mulheres. São 28 diagnósticos entre homens para cada 10 mulheres. Entre os homens, 39,4% são brancos e 51,7%, negros. Já entre as mulheres, 35,9% dos casos concentram-se em brancas e 55,1%, em negras.

O boletim também aponta que, nesta última década, houve aumento de 30,3% na taxa de detecção de HIV em gestantes. Em 2020, ela passou a ser de 2,7 casos para mil nascidos vivos. Entre 2000 e junho de 2021, foram 141.025 casos. A pasta atribui o aumento dos números à ampliação do diagnóstico, já possível no pré-natal, e aos avanços para evitar a transmissão vertical (da mãe para o filho). Em 2021, 64,4% das gestantes diagnosticadas com o vírus são negras; até junho deste ano, elas contabilizaram 2758 dos 4280 casos já registrados.

Gestantes com o vírus HIV em 2021

Dos 4.280 casos notificados este ano, 2.758 foram em mulheres negras

64%

negras

31%

brancas

2%

Indígenas

e amarelas

fonte Ministério da Saúde

Gestantes com o vírus HIV em 2021

Dos 4.280 casos notificados este ano, 2.758 foram em mulheres negras

64%

negras

2%

31%

Indígenas

e amarelas

brancas

fonte Ministério da Saúde

Pandemia e recortes raciais

Coordenadora-geral da Gestos – Soropositividade, Comunicação e Gênero, Alessandra Nilo aponta que o período abordado pelo boletim do MS acentuou uma falta de percepção sobre a necessidade de atenção completa ao combate e à prevenção ao vírus HIV que, segundo ela, ficou por vezes muito restrita à facilitação do acesso aos remédios – resolução excepcional do Ministério permitiu que prescrições tivessem validade indeterminada durante o período mais crítico da pandemia. Dessa forma, os pacientes podiam retirar medicamentos em maior quantidade, saindo menos de casa e evitando consultas médicas apenas para receber novas receitas.

“Foi o momento em que observamos uma dificuldade geral de acesso à saúde, mais preocupante no caso do HIV quando lembramos que, para o tratamento, é preciso muito mais do que acesso a medicamentos, mas sim uma atenção continuada de médicos, laboratórios. E no caso da prevenção, nós também ficamos preocupados porque foi algo que deixou de ser pauta no momento em que foi preciso fazer escolha sobre para qual pandemia olhar”, lamenta.

Segundo o relatório da UNICEF HIV and Aids Global Snapshot, pelo menos 300 mil crianças foram infectadas pelo HIV em 2020, ou uma criança a cada dois minutos. No mesmo período, outras 120 mil crianças morreram de causas relacionadas à AIDS, ou uma criança a cada cinco minutos. Os dados são um alerta para um problema que, de acordo com ativistas, sempre foi invisibilizado e acabou potencializado com a pandemia: a relação entre o vírus HIV e a saúde materna.

Ativista do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas, Silvia Aloia acredita que, apesar do período apontar uma preocupação menor com campanhas pela prevenção ao HIV para a população de modo geral, mulheres sempre foram invisibilizadas nas campanhas mesmo antes da pandemia.

“Não colocar a mulher no centro ajuda até a reforçar estigmas sobre qual tipo de atenção uma mulher pode receber da saúde. É como se, quando ela não está no que é considerado grupo de risco, não é profissional do sexo ou usuário de drogas, ela não precisasse fazer testagens durante o parto ou conhecer outros métodos de prevenção. Nesses momentos, é uma invisibilidade da saúde integral daquela mulher, que só é vista como reprodutora, e esquecem que é necessário também, cuidar da sua sexualidade”, critica.

Alessandra Nilo também destaca que, como consequência da falta de atenção aos casos de HIV em mulheres, muitas delas recebem um diagnóstico tardio que pode gerar complicações para a gestação e para a saúde da criança.

“Temos muitos casos, na Gestos, em que as mulheres faziam testes durante a gravidez, mas só sabiam do resultado depois do parto. É algo sintomático de como ainda não temos a devida atenção à saúde materna no Brasil como todo, sobretudo no período do pré-natal”, critica.

Hoje, Júlia está concluindo um curso técnico de enfermagem. Durante o processo, ela, que tem a pele clara e sempre ouviu de amigos e familiares que era “morena”, também se descobriu negra – o que a fez pensar sobre o tratamento que recebeu em relacionamentos abusivos e nas várias vezes em que buscou acesso à saúde ou emprego. 

“Eu só me descobri negra aos 30 anos, mas isso para mim é o bastante para entender como marcou meu convívio com o próprio HIV e com as minhas experiências de vida. Agora eu sei e conto aos meus filhos que eles também são negros, porque acredito que quando a gente sabe, entende porque as coisas acontecem da forma como aconteceram, e também sobre como vai ser meu olhar como mulher e como profissional quando eu começar a trabalhar”, pontua. 

“Não colocar a mulher no centro ajuda até a reforçar estigmas sobre qual tipo de atenção uma mulher pode receber da saúde. É como se, quando ela não está no que é considerado grupo de risco, não é profissional do sexo ou usuário de drogas, ela não precisasse fazer testagens durante o parto ou conhecer outros métodos de prevenção. Nesses momentos, é uma invisibilidade da saúde integral daquela mulher, que só é vista como reprodutora, e esquecem que é necessário também, cuidar da sua sexualidade”

– Silvia Aloia, ativista do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas

A coordenadora da Gestos também alerta para a necessidade de trazer a questão racial para o centro da discussão quando se observam os casos de HIV no Brasil.

“Mulheres negras acabam somando com mais gravidade problemas que já estão acentuados em todas as mulheres. Por uma questão de estigma, observamos como elas acabam sendo mais expostas a várias situações de violências, que já começam com uma dificuldade maior de negociar o uso de preservativo com seus companheiros,  as agressões nos relacionamentos, que também podem resultar na infecção do vírus, e a dificuldade para o acesso à informação”, enumera Nilo.

Estratégias combinadas de prevenção ao vírus HIV

Medicamentos são fornecidos nos hospitais e não substituem o uso de preservativo

exposição

ao vírus hiv

usuários

da PrEP

usuários

da PEP

Profilaxia

Pré-Exposição ao HIV

Profilaxia

Pós-Exposição

homens cis gays

e outros HSHs*

84.6%

34.9%

Mulheres cis são

as maiores usuárias da PEP

7.1

34.5

Mulheres cis

Homens Cis héteros

4.6

26.9

Mulheres Trans

2.9

2.3

Homens Trans

0.4

1.1

0.4

0.2

travestis

*Homens cis que fazem sexo com outros homens; grupo inclui bissexuais e pansexuais, entre outros

fonte Ministério da Saúde

Estratégias combinadas de prevenção ao vírus HIV

Medicamentos são fornecidos nos hospitais e não substituem o uso de preservativo

exposição

ao vírus hiv

usuários

da PEP

usuários

da PrEP

Profilaxia

Pós-Exposição

Profilaxia

Pré-Exposição

Mulheres cis são

as maiores usuárias da PEP

homens

cis gays

e outros

HSHS*

84.6%

34.9%

Mulheres

cis

7.1

34.5

Homens

Cis héteros

4.6

26.9

Mulheres

Trans

2.9

2.3

Homens

Trans

0.4

1.1

0.4

0.2

travestis

*Homens cis que fazem sexo com outros homens; grupo inclui bissexuais e pansexuais, entre outros

fonte Ministério da Saúde

Acesso à prevenção combinada 

Durante o mês de dezembro, as campanhas de conscientização ao combate da AIDS buscam destacar a importância do uso de preservativos, combinados a outras estratégias de prevenção, sempre adequada às condições de vida da pessoa. Entre elas, destacam-se o uso de preservativos, testagens e de acompanhamento, no caso de gestantes, para evitar a transmissão vertical do vírus HIV. As atenções também estão voltadas para as PREPs (Profilaxias Pré-Exposição) e PEPs (Profilaxias Pós-Exposição).

As PREPs são usos contínuos de remédios combinados (tenofovir + entricitabina), de fórmula similar aos medicamentos usados no tratamento de pessoas já diagnosticadas com o vírus HIV, e que podem reduzir em mais de 90% as chances de infecção. Elas são oferecidas desde que o paciente realize, a cada três meses, exames de acompanhamento do seu uso, além de testes para infecções sexualmente transmissíveis (ISTs).

Já as PEPs são recursos emergenciais e utilizados, principalmente, em casos de relações sexuais desprotegidas, e são compostos por medicamentos retrovirais similares às PREPs.

Segundo o Ministério da Saúde, homens gays e que fazem sexo com outros homens (definição utilizada pela pasta para bissexuais ou para homens que não se declaram homossexuais) e mulheres cis são os grupos que mais recebem atendimentos com PEPs. Em relação às PREPs, o primeiro grupo é o que mais demanda pelo serviço.  

Médica infectologista do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Karen Morejon trabalha diariamente com a oferta de PrEP e PEPs. Ela diz que ainda falta às pessoas o conhecimento sobre estes métodos, pois poderiam ser uma porta de entrada para atenção maior à saúde sexual, principalmente para as mulheres que ainda têm dificuldades em assimilar problemas em relações sexuais desprotegidas. Para ela, quando pacientes conhecem as opções desse tratamento, passam a ter mais chances de compreender a importância da prevenção como um todo, integrada a outros métodos, como o uso dos próprios preservativos.

“Muitas mulheres acabam sendo mais vulneráveis, já que estão presas em situações em que seus parceiros se recusam a usar qualquer tipo de preservativo durante a relação. Conhecer a prevenção combinada poderia ser importante para que pudessem entender melhor que estão em risco, já que nem sempre elas conseguem se enxergar dessa forma”, explica.

*Agnes Sofia Guimarães é repórter da Gênero e Número

** O nome da entrevistada foi alterada para preservar sua identidade 

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Fases avançadas do câncer de mama consomem 80% dos recursos do SUS para tratamento da doença

abre-matéria-2

Tratamentos para pacientes em estágios mais graves são mais caros, mas representam menos da metade do total realizado no semestre de 2021; queda de diagnósticos no primeiro ano da pandemia pode contribuir para aumentar pressão no SUS

Por Aline Gatto Boueri, Maria Martha Bruno e Natália Leão *

Tratar o câncer de mama em estágios mais avançados é mais penoso para as mulheres e custoso para o Sistema Único de Saúde (SUS). Estes tratamentos representaram pouco menos da metade do total, mas consumiram cerca de 80% de todo o valor destinado a cuidados com a doença no semestre de 2021 pelo SUS, onde sete a cada dez pessoas com a enfermidade se tratam no Brasil.

Os dados são do levantamento exclusivo realizado pela Gênero e Número a partir do Sistema de Informações Ambulatoriais (SIA/SUS) para o projeto Câncer de Mama Hoje, em parceria com o Instituto Avon. Os tratamentos analisados incluem quimioterapias e hormonioterapias, por exemplo. 

Foram pouco mais de 438 mil de tratamentos para as fases mais avançadas da doença, isto é, 48% dos 914 mil no primeiro semestre de 2021. Eles custaram R$ 241 milhões ao SUS, do total de R$ 296 milhões. Desde o início da pandemia, foram R$ 698 milhões para essas etapas, versus R$ 166 milhões para as fases 1 e 2.

Os quatro estágios do câncer de mama estão relacionados com o  grau de disseminação da doença pelo organismo e são importantes para determinar as possibilidades de sobrevida da paciente. A classificação obedece a critérios clínicos e patológicos e deve ser feita junto a profissionais de saúde que acompanham o caso.

Em geral, o terceiro e quarto níveis são considerados avançados. No estágio 3, o tumor já está crescendo nos tecidos próximos ou se espalhou para os gânglios linfáticos, estruturas do sistema imunológico localizadas em áreas do corpo como as axilas. No estágio 4, já há metástase, isto é, disseminação para outros órgãos. Os tratamentos nestas fases demandam mais recursos e têm maior impacto na qualidade de vida das mulheres. 

Não há dados oficiais no Brasil sobre incidência da doença entre pessoas trans e não-binárias, mas elas também podem desenvolver a doença, assim como homens. O Instituto Nacional do Câncer (Inca) estima que o Brasil registre mais de 66 mil novos casos de câncer de mama por ano no triênio entre 2020 e 2022.

Tratamentos e recursos no sus

No Brasil, de janeiro a junho de 2021

FASES 1 E 2

FASES 3 E 4

quantidade TOTAL

de tratamentos

VALOR TOTAL

DOS tratamentos

R$ 296 milhões

914 mil

R$241

438

milhões

mil

81% dos recursos

foram investidos nas 2 fases mais avançadas da doença

48% dos procedimentos de tratamento de câncer de mama se referem às fases mais avançadas da doença

fonte SIA/SUS

Tratamentos e recursos no sus

No Brasil, de janeiro

a junho de 2021

FASES 1 E 2

FASES 3 E 4

quantidade TOTAL

de tratamentos

914 mil

438

mil

48% dos procedimentos de tratamento de câncer de mama se referem às fases mais avançadas da doença

VALOR TOTAL

DOS tratamentos

R$ 296 milhões

R$241

milhões

81% dos recursos

foram investidos nas 2 fases mais avançadas da doença

fonte SIA/SUS

Exames de diagnóstico, como as mamografias, ajudam a rastrear e detectar o câncer de mama precocemente. Dados do SIA/SUS mostram que a quantidade deste procedimento caiu 40% entre 2019 e 2020. Em geral, considerando todos os exames de diagnóstico, a queda foi de 28%.  

Na contramão, no mesmo período, os tratamentos para debelar a doença subiram 5%. A realização de quimioterapias e hormonioterapias relacionadas a tumores na fase 3 aumentou 7%, o maior percentual de crescimento entre todos procedimentos para os quatro estágios analisados para essa reportagem.

Menor chance de cura

A queda no número de exames preocupa profissionais de saúde, que já veem neste movimento um possível impacto da pandemia de coronavírus no tratamento de câncer.

“O impacto de detectar o câncer de mama em fases mais avançadas é a diminuição na chance de cura. Uma paciente no estágio 3 será tratada para se curar, mas ela tem um risco maior de a doença voltar na comparação com pacientes que começam a se tratar nos estágios 1 e 2”, explica Daniela Dornelles Rosa, membro da diretoria da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC).

Tratamentos e recursos no sus

No Brasil, por fase, entre 2020 e o 1o semestre de 2021

FASE 1

FASE 2

FASE 3

FASE 4

quantidade de tratamentos

Em milhares

555

533

502

470

357

377

mil

333

322

285

269

190

169

2019

2020

2021

R$ 18

R$ 31

R$ 37

R$ 36

milhões

R$ 75

R$ 76

R$ 101

R$ 140

R$ 166

R$ 181

R$ 267

R$ 276

VALOR DOS tratamentos

Em R$ milhões

fonte SIA/SUS

Tratamentos e recursos no sus

No Brasil, por fase, entre 2020

e o 1o semestre de 2021

FASE 1

2

3

4

2019

357 mil

R$ 31 milhões

R$ 75

533

R$ 166

470

322

R$ 267

2020

377 mil

R$ 36 milhões

555

R$ 76

502

R$ 181

333

R$ 276

2021

190 mil

R$ 18 milhões

285

R$ 37

269

R$ 101

169

R$ 140

fonte SIA/SUS

Oncologista especializada em câncer de mama, Rosa afirma que, além dos custos emocionais de descobrir a doença em estágios mais avançados, há também o impacto econômico sobre o sistema de saúde e previdenciário.

“No estágio 4, quando há metástase, muitas pacientes têm que se afastar do trabalho e se tratar pelo resto da vida. É possível controlar muitos tipos de câncer de mama por vários anos, mesmo nessas circunstâncias. Mas muitas mulheres terão de entrar no INSS para se dedicar ao tratamento, então o SUS também vai pagar esta conta. Além disso, a profissional vai sair do mercado de trabalho e contribuir menos”, explica.

Rosa explica que há semelhanças nos tratamentos adotados nas fases iniciais e nas avançadas, mas, nos casos mais graves, muitas pacientes precisam cuidar também dos efeitos do tratamento. “No estágio 3, a paciente faz procedimentos muito parecidos com aqueles das fases iniciais, mas a chance de precisar de mais quimioterapia, por exemplo, é maior. Com isso, ela pode necessitar de internações para tratar a toxicidade do tratamento, o que também demanda mais investimentos do SUS”, complementa.

“Vamos precisar de um novo SUS”

A chegada de pacientes com estágios mais avançados exige ainda maior investimento em infraestrutura e na capacitação de profissionais da saúde. 

“O SUS foi concebido com base na atenção primária e com estratégia de saúde da família. Prevenção e detecção sempre foram a fortaleza do SUS, para evitar ao máximo que os pacientes cheguem na atenção secundária [serviços e procedimentos de média complexidade] e na atenção terciária [alta complexidade], etapas que demandam tratamentos mais especializados e mais caros”, aponta Alessandro Bigoni, pesquisador do departamento de epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP) e do Centro de Estudos em Planejamento e Gestão de Saúde da Faculdade Getúlio Vargas (FGV Saúde).

Investimento do sus desde o início da pandemia

Valor investido pelo SUS em tratamentos de câncer de mama, entre 2020 e jun/2021

R$ 698 milhões

Investimento nas fases avançadas da doença

FASES

3 E 4

FASES

1 E 2

R$ 166 milhões

Investimento nas fases

iniciais, no mesmo período

fonte SIA/SUS

Investimento do sus desde o início da pandemia

Valor investido pelo SUS em tratamentos de câncer de mama, entre 2020 e jun/2021

R$ 698 milhões

Investimento nas fases avançadas da doença

FASES

3 E 4

FASES

1 E 2

R$ 166 milhões

Investimento nas fases

iniciais, no mesmo período

fonte SIA/SUS

Alessandro é um dos autores da nota técnica “Pressões Orçamentárias da Saúde para 2021 e além”. O documento, assinado por médicos, pesquisadores e pelo Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), faz dois alertas. Primeiro, sinaliza que o SUS passou a ser subfinanciado a partir de 2016 devido às medidas de austeridade fiscal do governo de Michel Temer (MDB). Segundo, atenta para a insustentabilidade do sistema caso esse cenário seja mantido nos próximos anos.

“Os casos que a atenção primária não conseguir segurar vão gerar uma sobrecarga financeira ao menos pelos próximos cinco anos. A pandemia vai demorar para terminar, mas quando isso acontecer, vamos precisar de um novo SUS”, alerta o pesquisador.

“Uma vez que as pacientes comecem a chegar ao SUS com o câncer em estágios mais avançados, é preciso garantir que elas consigam fazer o tratamento da forma mais rápida possível”, completa. A Lei dos 60 dias obriga o SUS a oferecer o tratamento nesse prazo, a partir do diagnóstico de câncer. Já a Lei dos 30 dias obriga o SUS a realizar exames de diagnóstico em pacientes com suspeita de câncer nesse prazo.

De acordo com o Inca, o câncer de mama é o segundo mais incidente entre as  mulheres no Brasil, após o câncer de pele. A Sociedade Brasileira de Mastologia alerta para o aumento da incidência entre mulheres no Brasil e no mundo. O estilo de vida da população, com hábitos mais sedentários e alimentação pouco saudável, bem como gestações mais tardias, são fatores que contribuem para o crescimento dos casos entre mulheres mais jovens.

Beatriz Jardim, epidemiologista e doutoranda pelo Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IMS/UERJ), lembra também que a mudança no perfil demográfico da população brasileira tem impacto no aumento da incidência do câncer de mama no país, uma vez que a doença é mais frequente em pacientes com mais de 60 anos.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no início do século 21 a expectativa de vida ao nascer para mulheres era de 73 anos. Em 2019, chegou a 80 anos. Mas para Jardim, o aumento nos tratamentos também é um bom sinal: “O SUS até agora tem sido capaz de responder à demanda dos pacientes que atende”. 

Nota metodológica

O projeto Câncer de Mama hoje realizou levantamento e análise de dados através do DATASUS, utilizando a ferramenta TabNet. Foram levantados dados do Sistema de Informações Ambulatoriais (SIA-SUS), do Sistema de Informações Hospitalares (SIH-SUS) e do Sistema de Informação do Câncer (SISCAN) coletados entre os dias 04/05/2021 e 14/09/2021, considerando a quantidade de procedimentos realizados, podendo ser pela mesma pessoa. Além disso, foram solicitados ao Ministério da Saúde e às Secretarias Estaduais de Saúde de Pará, Bahia, Distrito Federal, Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul, via Lei de Acesso à Informação (LAI), dados referentes ao orçamento destinado ao diagnóstico e tratamento do câncer de mama.

Os pedidos via LAI foram respondidos pelo Ministério da Saúde (via INCA) e por todas as Unidades da Federação, com exceção do Rio de Janeiro e de São Paulo. Entretanto, os dados não eram referentes apenas ao câncer de mama e consideravam tratamentos oncológicos em geral. Desta forma, não foram utilizados. 

Também enviamos às Secretarias de Saúde questionamentos via assessoria de imprensa sobre o cenário revelado pelos dados e o que estava sendo feito para revertê-lo. Somente São Paulo, Pará e Rio Grande do Sul responderam.

Após levantamento no SIA-SUS, os procedimentos ambulatoriais relacionados ao câncer de mama foram agrupados em duas categorias: tratamento e diagnóstico. A análise considerou somente o valor total e a quantidade de procedimentos aprovados para pagamento pelas Secretarias de Saúde. É importante destacar que cada paciente pode fazer mais de um procedimento, logo, os dados não servem para contabilizar o número de pessoas que procuraram o SUS para diagnosticar ou tratar o câncer de mama.

Os dados do SIA-SUS também foram agrupados de acordo com o estágio, segundo as diretrizem encontradas no Observatório de Oncologia (https://observatoriodeoncologia.com.br).

Tais dados foram coletados por ano. Vale ressaltar que é possível que haja um atraso de até três meses no registro de procedimentos pelo sistema e não há um protocolo específico de registro de casos por estágio, o que também pode gerar registros em que o procedimento registrado não seja o mesmo que foi feito na paciente. Além disso, os dados se referem a data de faturamento do serviço de saúde, e não a data de realização do serviço de saúde.

Já os dados do SISCAN se referem ao número de pacientes que realizaram mamografias de rastreamento ou de diagnóstico pelo SUS. O sistema não diferencia o tipo de mamografia realizada pela paciente.

Os dados levantados no SIH-SUS não foram utilizados, pois com os dados disponíveis até o momento da apuração, não era possível medir o impacto da pandemia na mortalidade e nas internações.

Acesse a base de dados desta reportagem aqui

*Aline Gatto Boueri é repórter colaboradora, Maria Martha Bruno é diretora de conteúdo e Natália Leão é coordenadora de dados da Gênero e Número. Esta matéria foi realizada em parceria com o Instituto Avon.

leia

Pandemia derruba exames para diagnóstico de câncer de mama em 28% no SUS

abre-matéria-1

Em 2020, valor destinado pelo SUS  para procedimentos como biópsias caiu 26% em relação a 2019; mamografias tiveram redução de 40%. Médicos apontam redução de demanda e alertam que impacto maior entre pacientes ainda está por vir. Confira a 1ª reportagem do levantamento de dados inédito da GN em parceria  com o Instituto Avon 

Por Aline Gatto Boueri, Maria Martha Bruno e Natália Leão *

Emarço de 2020, quando o Brasil registrava seus primeiros casos de infecção por covid-19, a projetista de móveis e vendedora autônoma Luciane Grava de Oliveira, de 45 anos, percebeu um pequeno nódulo no seio esquerdo. 

Naquele mesmo mês, o Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (Inca) emitiu nota técnica em que recomendava que profissionais de saúde orientassem as pessoas a não procurar os serviços de saúde para rastreamento, mesmo que estivessem dentro da população alvo — no caso do câncer de mama, mulheres de 50 a 69 anos, que devem realizar mamografia a cada dois anos.

Em abril, Luciane notou que o nódulo havia aumentado de tamanho e buscou um posto de saúde de São Bernardo do Campo (SP) para agendar uma consulta com ginecologia. Ela só conseguiu estar com o especialista na segunda quinzena de maio. Na ocasião, foi encaminhada para a realização de uma ultrassonografia de mama, exame que conseguiu fazer em 2 de julho, quase dois meses após a consulta inicial. Duas semanas depois, Luciane também fez uma mamografia.

Enquanto Luciane realizava seus primeiros exames de diagnóstico, o Inca publicou uma nova nota técnica, em que recomendava o retorno de ações de rastreamento de câncer a partir de uma avaliação de riscos e benefícios em relação à situação de contágio pelo vírus Sars-CoV-2 em cada unidade federativa. 

Entre a última semana de julho e a última semana de agosto de 2020, Luciane foi novamente atendida pelo ginecologista e pelo mastologista. A projetista realizou uma biópsia do nódulo e recebeu seu diagnóstico na primeira semana de setembro, cinco meses depois do primeiro contato com o sistema público de saúde: câncer na mama esquerda.

Hoje Luciane faz acompanhamento depois de realizar sessões de quimioterapia e radioterapia, além de uma cirurgia de mastectomia com reconstrução da mama.

No estado de São Paulo, onde ela se trata, houve uma queda de 20% na quantidade de exames para diagnosticar câncer de mama em 2020 em comparação com o ano anterior. Os dados são do Sistema de Informações Ambulatoriais do Sistema Único de Saúde (SIA/SUS).

Exames de diagnóstico de câncer de mama caem 28%

Queda em 2020 foi acompanhada de redução de 26% na verba destinada

a estes procedimentos

recursos destinados

a exames diagnóstico

(milhões)

-26%

R$49

R$44

R$37

R$36

R$34

R$35

R$33

R$30

R$29

R$28

R$25

2010

2011

2012

2013

2014

2015

2016

2017

2018

2019

2020

1,1

1,2

1,2

1,2

1,3

1,4

1,4

1,4

1,5

1,6

1,7

-28%

quantidade de

procedimentos de diagnóstico

(milhões)

fonte SIA/SUS

Exames de diagnóstico de câncer de mama caem 28%

Queda em 2020 foi acompanhada de redução de 26% na verba destinada

a estes procedimentos

recursos destinados

a exames de diagnóstico

(milhões)

-26%

49

44

37

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2010

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1,4

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-28%

quantidade de

procedimentos

de diagnóstico

(milhões)

fonte SIA/SUS

Estados destinaram menos dinheiro a diagnósticos

São Paulo não é uma exceção. No primeiro ano da pandemia, o Brasil registrou queda de 28% na quantidade de procedimentos para diagnosticar câncer de mama, como a biópsia que Luciane realizou somente quatro meses depois do primeiro contato com o sistema público de saúde. 

Em 2019, as secretarias de Saúde de todas as unidades federativas aprovaram juntas R$ 49 milhões para pagamento de procedimentos de diagnóstico de câncer de mama. Em 2020, o valor destinado foi de R$ 36,5 milhões, queda de 26% em relação ao ano anterior ao início da pandemia.

Exames de diagnóstico de câncer de mama (por UF)

Bahia registrou a maior redução entre as seis unidades federativas analisadas; exames incluem biópsias e ultrassonografias

Redução dOS EXAMES DE diagnósticos em 2020

Nos estados analisados no levantamento

(valor em mil)

-24%

PA

33

25

149

-38%

BA

-20%

91

DF

10

8

609 mil

-20%

114

SP

-34%

RJ

76

489 mil

85

-18%

RS

70

2019

2020

fonte SIA/SUS

Exames de diagnóstico de câncer de mama

(por UF)

Bahia registrou a maior redução entre as seis unidades federativas analisadas; exames incluem biópsias e ultrassonografias

-38%

BA

149

91

2019

2020

-34%

RJ

114

76

-20%

SP

609 mil

489 mil

-20%

DF

10

8

-24%

PA

33

25

-18%

RS

85

70

fonte SIA/SUS

“Vai ser necessário ampliar a rede para enfrentar esse passivo que ficou para trás. Contratar mais gente, aumentar o acesso a diagnóstico e tratamento. Mas, se não houver este tipo de política, as pessoas vão morrer sem conseguir dar entrada no sistema, para tratar ou para descobrir se estão doentes”, avalia Diego Xavier, epidemiologista e doutor em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz).

Em dezembro de 2020, a Portaria n° 3.712 do Ministério da Saúde instituiu um incentivo financeiro excepcional de R$150 milhões para o custeio de ações de rastreamento e detecção precoce de câncer de mama e de colo de útero no Brasil em 2021. A medida foi tomada em consideração ao impacto da pandemia na demanda por diagnósticos, que pode afetar a fila para exames nos próximos anos.

Em 2019, as secretarias de Saúde de todas as unidades federativas aprovaram juntas R$ 49 milhões para pagamento de procedimentos de diagnóstico de câncer de mama. Em 2020, o valor destinado foi de R$ 36,5 milhões, queda de 26% em relação ao ano anterior ao início da pandemia

A distribuição dos recursos leva em consideração os Parâmetros Técnicos para o Rastreamento de Câncer de Mama, o desempenho de estados e municípios e a execução de ações para rastrear e diagnosticar o câncer de mama no ano de 2019. O envio do dinheiro também está condicionado à apresentação de planos de atenção e prevenção por parte das Secretarias de Saúde.

Até o fechamento dessa reportagem, o Ministério da Saúde não havia  respondido aos questionamentos sobre que critérios foram adotados para definir o valor do incentivo financeiro, que estados foram contemplados com os repasses e quanto desse valor foi destinado especificamente à detecção precoce do câncer de mama.

“A gente sabia que o câncer era uma comorbidade, então, pacientes que estavam em tratamento tiveram que pará-lo, e as que tinham que buscar médico por intercorrências do tratamento também não iam porque não encontravam lugar na emergência, que estava toda ocupada por covid. A gente só lidou com as comorbidades como prioridades que mereciam atenção especial em 2021”, lamenta Maira Caleffi, médica mastologista e presidente voluntária da Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama (Femama).

No 1º ano da pandemia, mamografias caem 40% no SUS

2020 interrompeu sequência de alta registrada desde 2014 no número de exames

valor em

milhões

1,7

2

2,1

2,6

2,8

3

1,8

2014

2015

2016

2017

2018

2019

2020

fonte Siscan

No 1º ano da pandemia, mamografias caem 40% no SUS

2020 interrompeu sequência de alta registrada desde 2014 no número de exames

valor em

milhões

1,7

2014

2

2015

2,1

2016

2,6

2017

2,8

2018

3

2019

1,8

2020

fonte Siscan

Mamografias tiveram redução de 40%

Em 2020, o número de pacientes que fizeram mamografias de diagnóstico de câncer de mama ou rastreamento da doença — procedimentos que não estão listados no SIA — também registrou queda em todo o país quando comparado a 2019. Dados do Sistema de Informação do Câncer (Siscan) mostram que em São Paulo a a queda no SUS foi de 38%, enquanto no Brasil inteiro a queda chegou a 40%. 

 A gente só lidou com as comorbidades como prioridades que mereciam atenção especial em 2021

Maira Caleffi, médica mastologista e presidente voluntária da Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama (Femama)

O principal motivo apontado por especialistas e pelas secretarias de Saúde consultadas para essa reportagem foi a reorganização dos serviços de saúde para atendimento dos casos de covid-19 e a menor procura por consultas na atenção primária durante os picos de infecção pelo Sars-CoV-2.

No entanto, o adiamento de ações de detecção precoce pode ter impacto nas chances de cura para o câncer de mama, principal causa de morte de mulheres com câncer no Brasil.  O diagnóstico a partir dos primeiros sinais de alerta e a realização de mamografias de rastreamento para identificar lesões precursoras de câncer ou a doença em seu estágio inicial podem ser decisivos para o sucesso de um tratamento.

“Quando a gente lida com câncer, as estratégias começam pela detecção precoce, que é o caso da ultrassonografia e da mamografia, o principal exame quando a gente pensa em rastreamento. Sem a porta de entrada da atenção primária, as pacientes não vão chegar à consulta, os exames não vão ser solicitados e agendados, e a gente não consegue ter os diagnósticos”, explica Viviane Rezende de Oliveira, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) – Regional Brasília e ginecologista oncológica no Hospital Universitário de Brasília (HUB-UnB).

Em 2020, o Distrito Federal registrou uma queda de 20% na quantidade de procedimentos de diagnóstico de câncer de mama aprovados para pagamento pela Secretaria de Saúde, segundo dados do SIA. Viviane acredita que, no primeiro momento, a estratégia de orientar a população a não procurar a atenção primária foi correta diante do risco de aumento nas infecções por covid-19. 

Ainda assim, a ginecologista oncológica do HUB-UnB alerta que a queda no número de procedimentos de diagnóstico durante a pandemia terá consequências que só serão completamente identificadas daqui a alguns anos. “Esse impacto a gente vai ver dentro de dois anos, quando começarmos a colher os frutos amargos dessa redução que a gente teve na assistência. Veremos mais pacientes com tumores mais avançados, o que leva a tratamentos maiores e mais caros para o SUS, com maior risco de reaparecimento desses tumores.”

Esse impacto a gente vai ver dentro de dois anos, quando começarmos a colher os frutos amargos dessa redução que a gente teve na assistência. Veremos mais pacientes com tumores mais avançados, o que leva a tratamentos maiores e mais caros para o SUS, com maior risco de reaparecimento desses tumores

Viviane Rezende de Oliveira, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) – Regional Brasília e ginecologista oncológica no Hospital Universitário de Brasília (HUB-UnB).

Exames de Diagnóstico de Câncer de Mama:

Queda em 2020 na comparação com 2019 no SUS

Biópsias e punções

Exames

de imagem

Retirada de nódulo ou fragmento suspeito

Ultrassonografia

Cintilografia

-18%

-27%

Marcação de lesão pré-cirúrgica

Exames laboratoriais

Análise de materiais (tecidos e células) coletados em cirurgias e biópsias

Com ajuda de ultrassonografia ou mamografia, localização de lesão que será removida em cirurgia

-18%

-28%

fonte SIA/SUS

Exames de Diagnóstico de Câncer de Mama: Queda em 2020 na comparação com 2019 no SUS

Exames de imagem

Ultrassonografia

Cintilografia

-27%

Localização de lesão

com exame de imagem

Marcação de lesão de mama pré

cirurcica não palpável associada

a mamografia ou ultrassonografia

-28%

Retirada de nódulo

suspeito por agulha

ou cirurgia

Punção de mama por agulha

Biópsia de nódulo de mama

-18%

Análise celular

e de tecidos

Citopatologia de mama

Anatomopatologia de mama

-18%

fonte SIA/SUS

Pacientes pagam por exames

A dificuldade de agendamento para consultas também levou pacientes a procurar o sistema privado para realização de exames e, só aí, buscar o SUS para iniciar o atendimento. Isso explica, em parte, que a quantidade de procedimentos de tratamento tenha se mantido estável em 2020 em todo o país, mesmo com a queda no número de procedimentos de diagnóstico.

“As pacientes estavam pagando para fazer biópsia, para conseguir o encaminhamento para especialistas. Na maioria das vezes, eram nódulos já palpáveis, não uma alteração na mamografia, ou seja, lesões ainda não palpáveis, que têm chance de cura muito maior”, conta Grasiela Benini, coordenadora do serviço de mastologia do Hospital Santa Marcelina (São Paulo), instituição filantrópica que atende também pacientes do SUS.

Segundo a mastologista, no serviço que ela coordena, “mais de metade das pacientes chegavam com estadiamento acima de 3, ou seja, tumor localmente avançado. Em muitas dessas pacientes a gente já fazia diagnóstico de metástase nos primeiros exames de estadiamento.”  

Pandemia reverteu tendência de crescimento

Além da queda em comparação com 2019, os dados do Siscan e do SIA mostram também uma reversão na tendência de aumento de procedimentos de diagnóstico e de mamografias de rastreamento que o Brasil registra desde 2013, primeiro ano completo após a sanção da Lei n° 12.732, conhecida como Lei dos 60 dias.

Sancionada pela ex-presidente Dilma Rousseff (PT), a lei determina que pacientes com neoplasia maligna têm direito a iniciar o tratamento no SUS no prazo máximo de 60 dias a partir da data em que for firmado o diagnóstico.

Mais de metade das pacientes chegavam com estadiamento acima de 3, ou seja, tumor localmente avançado. Em muitas dessas pacientes a gente já fazia diagnóstico de metástase nos primeiros exames de estadiamento  

Grasiela Benini, coordenadora do serviço de mastologia do Hospital Santa Marcelina (SP)

Em outubro de 2019, o vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB) sancionou outra lei para garantir a celeridade no diagnóstico e tratamento do câncer de mama. A Lei n° 13.896 dá o prazo máximo de 30 dias para realização de exames de diagnóstico em pacientes com suspeita de câncer. No caso de Luciane, essa lei nunca foi cumprida.

Nota metodológica

A reportagem usou dados do Sistema de Informações Ambulatoriais (SIA/SUS) e do Sistema de Informação do Câncer (Siscan) coletados entre os dias 04/05/2021 e 14/09/2021. Além disso, solicitamos ao Ministério da Saúde e às Secretarias Estaduais de Saúde de Pará, Bahia, Distrito Federal, Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul, via Lei de Acesso à Informação (LAI), dados referentes ao orçamento destinado ao diagnóstico e tratamento ao câncer de mama.

Os pedidos via LAI foram respondidos pelo Ministério da Saúde (via INCA) e por todas as Unidades da Federação, com exceção do Rio de Janeiro e de São Paulo. Entretanto, os dados não eram específicos apenas ao câncer de mama e consideravam tratamentos oncológicos em geral. Desta forma, não foram utilizados. 

Também enviamos às Secretarias de Saúde questionamentos via assessoria de imprensa sobre o cenário revelado pelos dados e o que estava sendo feito para revertê-lo. Somente São Paulo, Pará e Rio Grande do Sul responderam.

Após levantamento no SIA/SUS, os procedimentos ambulatoriais relacionados ao câncer de mama foram agrupados em duas categorias: tratamento e diagnóstico. A análise considerou somente o valor total e a quantidade de procedimentos aprovados para pagamento pelas Secretarias de Saúde. É importante destacar que cada paciente pode fazer mais de um procedimento, logo, os dados não servem para contabilizar o número de pessoas que procuraram o SUS para diagnosticar ou tratar o câncer de mama.

Já os dados do Siscan se referem ao número de pacientes que realizaram mamografias de rastreamento ou de diagnóstico pelo SUS. O sistema não diferencia o tipo de mamografia realizada pela paciente.

*Aline Gatto Boueri é repórter colaboradora, Maria Martha Bruno é diretora de conteúdo e Natália Leão é coordenadora de dados da Gênero e Número. Esta matéria foi realizada em parceria com o Instituto Avon.

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Gravidez na adolescência diminui, mas entre meninas negras a queda é de apenas 3,5% em três anos

gravidez

Meninas negras também chefiam mais lares e gastam quase três vezes mais tempo cuidando de outras pessoas do que as brancas. Para pesquisadora da Fiocruz, a discussão sobre economia do cuidado precisa levar em conta as condições socioeconômicas destas jovens

Por Agnes Sofia Guimarães*

Há alguns anos, na cidade de Santos, litoral da Baixada Santista, quatro grandes “Noites de Pizza” movimentam a cidade por uma boa causa: os eventos arrecadam dinheiro para a associação Projeto Menina Mãe, dedicada ao atendimento de gestantes adolescentes, a maior parte entre 15 e 17 anos.

A iniciativa, sem fins lucrativos, é conduzida há 14 anos pela Associação de Médicos de Santos. Em oficinas, jovens atendidas pelo projeto aprendem a viver a gestação como mais uma nova etapa de vida, em que podem socializar experiências que, muitas vezes, acabam sendo marcadas pelo abandono dos parceiros e por rejeição social diante de uma experiência considerada incomum à adolescência. 

“São meninas que, quando se encontram no projeto, acabam encontrando um compartilhamento de experiências que proporciona um olhar mais cuidadoso e autônomo sobre sua própria gestação, que, muitas vezes, é muito solitária”, ressalta a médica e atual coordenadora do Projeto Menina Mãe, Regina Aparecida Ribeiro Braghetto.

Levantamento recente da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) apontou uma queda de 37,2% de casos de gravidez na adolescência no país entre 2000 e 2019. Mesmo assim, os casos ainda são mais frequentes entre adolescentes negras de 10 a 17 anos. Análise da Gênero e Número a partir de dados do Sistema de Nascidos Vivos (Sinasc/DataSUS) mostra que, se a taxa geral de gravidez diminuiu, há uma diferença significativa quando se olha a identidade racial da gestante.

De 2018 a 2020, enquanto houve diminuição de 10% nos casos de  gravidez entre meninas brancas de 10 a 17 anos, entre meninas negras, a redução foi de apenas 3,55% nos maiores estados das cinco regiões do país: São Paulo (Sudeste), Rio Grande do Sul (Sul), Bahia (Nordeste), Pará (Norte) e Goiás (Centro-Oeste). Só em 2020, 62,74% das gestações de mães adolescentes eram de jovens negras, diante de 36,52% de gestações de jovens brancas, 0,38% de amarelas e 0,36% de indígenas.

“Infelizmente o que a gente tem visto no Brasil é que todas as políticas públicas para a população negra estão baseadas na punição, no encarceramento e na responsabilização dessas pessoas. É preciso mudar a lógica dessa política, sair da penalização para buscar um olhar de desenvolvimento”, adverte a pesquisadora da Fiocruz, Aline Martins.

Os dados brasileiros ainda estão acima da média latinoamericana. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), nascem 68,4 bebês de mães adolescentes no Brasil a cada mil meninas de 15 a 19 anos,  enquanto que, na América Latina, a média é de 65,5 nascimentos, e, no mundo, 46 mil a cada mil.

Mesmo assim, as políticas públicas para enfrentamento do problema esbarram no conservadorismo em relação a pautas de gênero e de educação sexual, conforme alertam especialistas, e ilustram decisões recentes sobre a autonomia do corpo das mulheres. No ano passado,  Damares Alves, ministra da  Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, defendeu a abstinência sexual como forma de prevenção da gravidez na adolescência e criticou a educação sexual nas escolas.

1Prancheta 98

Em seu livro “Gravidez na Adolescência: Entre Fatos e Estereótipos”, Aline Martins revela, a partir de levantamento de dados e de outros indicadores sociais sobre a gravidez na adolescência, mais do que um retrato estatístico sobre o fenômeno no país. Com os indicadores sociais, a autora buscou questionar estereótipos e negligências que chegam a impactar, inclusive, o desenho de políticas públicas para o acolhimento às gestantes mais jovens, como a ausência de mais indicadores para entender o contexto socioeconômico de adolescentes que se tornam mães. 

“A ausência de mais estudos é uma forma de estratégia porque, sem eles, não conseguimos dar visibilidade a como as coisas realmente são e, nesse contexto de conservadorismo sobre o corpo da mulher, não ter os dados fortalece uma opinião culpabilizadora e moralizante”, critica a pesquisadora.

Pensar sobre a gravidez na adolescência também implica olhar dados que revelam a sobrecarga de demandas domésticas a meninas que, por questões sociais e econômicas, assumem mais responsabilidades logo cedo – mesmo quando não se tornam mães.

E, neste caso, dados da última edição da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que também há uma disparidade racial entre as responsabilidades domésticas de adolescentes. 

Infelizmente o que a gente tem visto no Brasil é que todas as políticas públicas para a população negra estão baseadas na punição, no encarceramento e na responsabilização dessas pessoas. É preciso mudar a lógica dessa política, sair da penalização para buscar um olhar de desenvolvimento”

Aline de Carvalho Martins, pesquisadora da Fiocruz

Das adolescentes de 14 a 17 anos que se apresentaram como as “chefes da família”,  75,7% são negras, e 24,3%, brancas. Em relação às horas dedicadas a cuidar de outras pessoas na casa ou de demandas domésticas, as meninas negras gastaram 72% do tempo, enquanto as brancas usaram 27,5% do tempo nestas atividades. 

A responsabilidade pelo domicílio pode indicar maternidade, compartilhamento de responsabilidades por menores e/ou adultos fragilizados, ou ser a principal fonte de renda do lar.

Na pesquisa da PNAD Contínua, o cuidado a outras crianças da casa, até 5 anos, também é um indicativo de sobrecarga de cuidados domésticos para meninas negras: elas compõem 75,32% das responsáveis pelos cuidados a outras crianças, enquanto 24,32% são brancas. 

tempo

Martins também destaca a importância de olhar para a gravidez na adolescência para entender como fatores socioeconômicos, enfrentados por jovens que têm mais responsabilidades domésticas, podem ajudar no debate, ainda incipiente, mas necessário, sobre a economia do cuidado.

“Diante da necessidade de proteção de membros frágeis, quer dizer, crianças, idosos, pessoas doentes, sempre são as mulheres que vão abrir mão dos seus sonhos, dos seus projetos. Então, quando a gente tem uma remuneração, o que chamamos de ‘economia do cuidado’, a gente permite suavizar esse processo, mas essa é uma discussão que, infelizmente, ainda está muito tímida, muito embrionária no Brasil”, diz a pesquisadora. 

Segundo ela, é preciso avançar nessa discussão “tanto como reprodução da força de trabalho quanto expressão de um trabalho que agrega à economia, mas não vem sendo remunerado, e uma possibilidade de compensação das mulheres”.

Para Regina Braghetto, o trabalho desenvolvido no projeto Menina Mãe aponta para esse sentido. As oficinas de artesanato, cozinha, entre outras atividades oferecidas para as adolescentes, ajudam as jovens mães a pensar sobre o futuro. Muitas vezes, elas encontram novas possibilidades para voltar para a escola ou uma renda que lhes garanta mais autonomia. 

“As políticas públicas até estão avançando, mas é preciso ter um olhar mais individualizado sobre as gestantes adolescentes, e fazê-las ver que elas têm direito, sim, a pensar em autonomia dos seus corpos e em empoderamento pela educação e pelo trabalho. Acho que esse é um dos nossos principais esforços. Não damos cesta básica: oferecemos a possibilidade de enxergar que elas podem fazer o que quiser”, conclui a médica. 

Nota metodológica 

Os dados recentes sobre gravidez na adolescência foram retirados no Sistema de Nascidos Vivos (Sinasc), considerando o período entre 2018 e 2020. Foram selecionados os estados das cinco regiões do país com maior contingente populacional: São Paulo (Sudeste), Rio Grande do Sul (Sul), Bahia (Nordeste), Pará (Norte) e Goiás (Centro-Oeste). 

Já os dados relacionados às condições socioeconômicas de jovens adolescentes em relação à carga horária doméstica foram analisados pela Gênero e Número a partir dos microdados da última edição anual da Pnad Contínua, dedicada a outras formas de trabalho, publicada no primeiro semestre de 2020 e utiliza, como base, entrevistas realizadas em 2019 pelo IBGE. 

Acesse a base de dados da reportagem aqui

*Agnes Sofia Guimarães é repórter da Gênero e Número

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Setembro Amarelo: Entre os adolescentes, são as meninas que mais sofrem com a saúde mental

210924_pearson2

Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) mostra que entre jovens de 13 a 17 anos, 26,5% das meninas disseram já ter sofrido bullying e  29,6% afirmaram sentir que a vida não merece ser vivida; DataSus revela que elas são 59% das vítimas de lesões autoprovocadas nesta faixa etária**

Por Agnes Sofia Guimarães e Victoria Sacagami*

De acordo com a Organização Mundial de Saúde, as condições de saúde mental são responsáveis por 16% da carga total de doenças e lesões em pessoas com idades entre 10 e 19 anos em todo o mundo. 

Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), indicam que para além dos índices sobre desempenho escolar, alimentação e atividades físicas, a saúde mental de jovens de 13 a 17 anos precisa de atenção. Principalmente as meninas, que estão sofrendo mais. 

Elas são também as principais vítimas de lesões autoprovocadas, 59% dos casos, como mostram as estatísticas do Sistema de Informações de Agravos de Notificação (SINAN), do DataSUS. Consideram-se lesões autoprovocadas quando os jovens provocam cortes e outros ferimentos em si próprios.

O relatório do IBGE e os dados do DataSUS são referentes a 2019, ano anterior à pandemia – que, sabemos, trouxe desafios diversos para nossos jovens.

Saúde mental na adolescência

Apesar de menos meninas dizerem que não têm amigos próximos, dados mostram situação mais preocupante entre elas

por gênero

meninas

meninos

não têm amigos

próximos

4.2%

3.8%

26.5%

19.5%

já foram vítimas

de bullying

27%

autopercepção

negativa

de saúde mental

8%

29.6%

13%

sentem que a vida não merece

ser vivida

39.8%

19.9%

sentiram que

ninguém

se preocupa

com eles/as

44.9%

54.6%

17.5%

sentiram-se

tristes

26.7%

sentiram-se

irritados/as,

nervosos/as ou

mal-humorados/as

59.8%

41.1%

sentiram-se muito

preocupados/as

com o dia a dia

por idade

13 - 17

16 - 17

anos

anos

sentiram-se muito

preocupados/as com o dia a dia

47.2%

56.8%

autopercepção negativa de saúde mental

16.9%

19.1%

não têm amigos

próximos

3.6%

4.8%

500

registros no SUS de autolesões

(cortes, por ex.) em meninos

e meninas de 12 a 17 anos

59%

entre meninas

fonte PeNSE/IBGE - 2019 E Sinan/SUS

Saúde mental

na adolescência

Apesar de menos meninas

dizerem que não têm

amigos próximos, dados

mostram situação mais

preocupante entre elas

por gênero

meninas

meninos

4.2%

3.8%

não têm amigos

próximos

26.5%

19.5%

já foram vítimas

de bullying

27%

8%

autopercepção

negativa

de saúde mental

29.6%

13%

sentem que a vida não merece

ser vivida

39.8%

19.9%

sentiram que

ninguém

se preocupa

com eles/as

44.9%

17.5%

sentiram-se

tristes

54.6%

26.7%

sentiram-se

irritados/as,

nervosos/as ou

mal-humorados/as

59.8%

41.1%

sentiram-se muito

preocupados/as

com o dia a dia

por idade

13 - 17

16 - 17

anos

anos

47.2%

56.8%

sentiram-se muito preocupados/as com o dia a dia

16.9%

19.1%

autopercepção negativa

de saúde mental

3.6%

4.8%

não têm amigos próximos

500

registros no SUS de autolesões (cortes, por ex.) em meninos

e meninas de 12 a 17 anos

59%

entre meninas

fonte

PeNSE/IBGE - 2019

E Sinan/SUS

Caso você esteja precisando de ajuda, procure serviços especializados como o CVV (Centro de Valorização da Vida) e os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) da sua cidade. O CVV funciona 24 horas por dia (inclusive aos feriados) pelo telefone 188, e também atende por e-mail, chat e pessoalmente.

Acesse a base de dados da reportagem aqui

*Agnes Sofia Guimarães é repórter e Victoria Sacagami é designer da Gênero e Número

* *Este conteúdo foi  produzido com o apoio da empresa de aprendizagem internacional Pearson.

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Pandemia derruba exames para diagnóstico de câncer de mama em 28% no SUS

abre-matéria-1

Em 2020, valor destinado pelo SUS  para procedimentos como biópsias caiu 26% em relação a 2019; mamografias tiveram redução de 40%. Médicos apontam redução de demanda e alertam que impacto maior entre pacientes ainda está por vir. Confira a 1ª reportagem do levantamento de dados inédito da GN em parceria  com o Instituto Avon 

Por Aline Gatto Boueri, Maria Martha Bruno e Natália Leão *

Emarço de 2020, quando o Brasil registrava seus primeiros casos de infecção por covid-19, a projetista de móveis e vendedora autônoma Luciane Grava de Oliveira, de 45 anos, percebeu um pequeno nódulo no seio esquerdo. 

Naquele mesmo mês, o Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (Inca) emitiu nota técnica em que recomendava que profissionais de saúde orientassem as pessoas a não procurar os serviços de saúde para rastreamento, mesmo que estivessem dentro da população alvo — no caso do câncer de mama, mulheres de 50 a 69 anos, que devem realizar mamografia a cada dois anos.

Em abril, Luciane notou que o nódulo havia aumentado de tamanho e buscou um posto de saúde de São Bernardo do Campo (SP) para agendar uma consulta com ginecologia. Ela só conseguiu estar com o especialista na segunda quinzena de maio. Na ocasião, foi encaminhada para a realização de uma ultrassonografia de mama, exame que conseguiu fazer em 2 de julho, quase dois meses após a consulta inicial. Duas semanas depois, Luciane também fez uma mamografia.

Enquanto Luciane realizava seus primeiros exames de diagnóstico, o Inca publicou uma nova nota técnica, em que recomendava o retorno de ações de rastreamento de câncer a partir de uma avaliação de riscos e benefícios em relação à situação de contágio pelo vírus Sars-CoV-2 em cada unidade federativa. 

Entre a última semana de julho e a última semana de agosto de 2020, Luciane foi novamente atendida pelo ginecologista e pelo mastologista. A projetista realizou uma biópsia do nódulo e recebeu seu diagnóstico na primeira semana de setembro, cinco meses depois do primeiro contato com o sistema público de saúde: câncer na mama esquerda.

Hoje Luciane faz acompanhamento depois de realizar sessões de quimioterapia e radioterapia, além de uma cirurgia de mastectomia com reconstrução da mama.

No estado de São Paulo, onde ela se trata, houve uma queda de 20% na quantidade de exames para diagnosticar câncer de mama em 2020 em comparação com o ano anterior. Os dados são do Sistema de Informações Ambulatoriais do Sistema Único de Saúde (SIA/SUS).

Exames de diagnóstico de câncer de mama caem 28%

Queda em 2020 foi acompanhada de redução de 26% na verba destinada

a estes procedimentos

recursos destinados

a exames diagnóstico

(milhões)

-26%

R$49

R$44

R$37

R$36

R$34

R$35

R$33

R$30

R$29

R$28

R$25

2010

2011

2012

2013

2014

2015

2016

2017

2018

2019

2020

1,1

1,2

1,2

1,2

1,3

1,4

1,4

1,4

1,5

1,6

1,7

-28%

quantidade de

procedimentos de diagnóstico

(milhões)

fonte SIA/SUS

Exames de diagnóstico de câncer de mama caem 28%

Queda em 2020 foi acompanhada de redução de 26% na verba destinada

a estes procedimentos

recursos destinados

a exames de diagnóstico

(milhões)

-26%

49

44

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-28%

quantidade de

procedimentos

de diagnóstico

(milhões)

fonte SIA/SUS

Estados destinaram menos dinheiro a diagnósticos

São Paulo não é uma exceção. No primeiro ano da pandemia, o Brasil registrou queda de 28% na quantidade de procedimentos para diagnosticar câncer de mama, como a biópsia que Luciane realizou somente quatro meses depois do primeiro contato com o sistema público de saúde. 

Em 2019, as secretarias de Saúde de todas as unidades federativas aprovaram juntas R$ 49 milhões para pagamento de procedimentos de diagnóstico de câncer de mama. Em 2020, o valor destinado foi de R$ 36,5 milhões, queda de 26% em relação ao ano anterior ao início da pandemia.

Exames de diagnóstico de câncer de mama (por UF)

Bahia registrou a maior redução entre as seis unidades federativas analisadas; exames incluem biópsias e ultrassonografias

Redução dOS EXAMES DE diagnósticos em 2020

Nos estados analisados no levantamento

(valor em mil)

-24%

PA

33

25

149

-38%

BA

-20%

91

DF

10

8

609 mil

-20%

114

SP

-34%

RJ

76

489 mil

85

-18%

RS

70

2019

2020

fonte SIA/SUS

Exames de diagnóstico de câncer de mama

(por UF)

Bahia registrou a maior redução entre as seis unidades federativas analisadas; exames incluem biópsias e ultrassonografias

-38%

BA

149

91

2019

2020

-34%

RJ

114

76

-20%

SP

609 mil

489 mil

-20%

DF

10

8

-24%

PA

33

25

-18%

RS

85

70

fonte SIA/SUS

“Vai ser necessário ampliar a rede para enfrentar esse passivo que ficou para trás. Contratar mais gente, aumentar o acesso a diagnóstico e tratamento. Mas, se não houver este tipo de política, as pessoas vão morrer sem conseguir dar entrada no sistema, para tratar ou para descobrir se estão doentes”, avalia Diego Xavier, epidemiologista e doutor em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz).

Em dezembro de 2020, a Portaria n° 3.712 do Ministério da Saúde instituiu um incentivo financeiro excepcional de R$150 milhões para o custeio de ações de rastreamento e detecção precoce de câncer de mama e de colo de útero no Brasil em 2021. A medida foi tomada em consideração ao impacto da pandemia na demanda por diagnósticos, que pode afetar a fila para exames nos próximos anos.

Em 2019, as secretarias de Saúde de todas as unidades federativas aprovaram juntas R$ 49 milhões para pagamento de procedimentos de diagnóstico de câncer de mama. Em 2020, o valor destinado foi de R$ 36,5 milhões, queda de 26% em relação ao ano anterior ao início da pandemia

A distribuição dos recursos leva em consideração os Parâmetros Técnicos para o Rastreamento de Câncer de Mama, o desempenho de estados e municípios e a execução de ações para rastrear e diagnosticar o câncer de mama no ano de 2019. O envio do dinheiro também está condicionado à apresentação de planos de atenção e prevenção por parte das Secretarias de Saúde.

Até o fechamento dessa reportagem, o Ministério da Saúde não havia  respondido aos questionamentos sobre que critérios foram adotados para definir o valor do incentivo financeiro, que estados foram contemplados com os repasses e quanto desse valor foi destinado especificamente à detecção precoce do câncer de mama.

“A gente sabia que o câncer era uma comorbidade, então, pacientes que estavam em tratamento tiveram que pará-lo, e as que tinham que buscar médico por intercorrências do tratamento também não iam porque não encontravam lugar na emergência, que estava toda ocupada por covid. A gente só lidou com as comorbidades como prioridades que mereciam atenção especial em 2021”, lamenta Maira Caleffi, médica mastologista e presidente voluntária da Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama (Femama).

No 1º ano da pandemia, mamografias caem 40% no SUS

2020 interrompeu sequência de alta registrada desde 2014 no número de exames

valor em

milhões

1,7

2

2,1

2,6

2,8

3

1,8

2014

2015

2016

2017

2018

2019

2020

fonte Siscan

No 1º ano da pandemia, mamografias caem 40% no SUS

2020 interrompeu sequência de alta registrada desde 2014 no número de exames

valor em

milhões

1,7

2014

2

2015

2,1

2016

2,6

2017

2,8

2018

3

2019

1,8

2020

fonte Siscan

Mamografias tiveram redução de 40%

Em 2020, o número de pacientes que fizeram mamografias de diagnóstico de câncer de mama ou rastreamento da doença — procedimentos que não estão listados no SIA — também registrou queda em todo o país quando comparado a 2019. Dados do Sistema de Informação do Câncer (Siscan) mostram que em São Paulo a a queda no SUS foi de 38%, enquanto no Brasil inteiro a queda chegou a 40%. 

 A gente só lidou com as comorbidades como prioridades que mereciam atenção especial em 2021

Maira Caleffi, médica mastologista e presidente voluntária da Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama (Femama)

O principal motivo apontado por especialistas e pelas secretarias de Saúde consultadas para essa reportagem foi a reorganização dos serviços de saúde para atendimento dos casos de covid-19 e a menor procura por consultas na atenção primária durante os picos de infecção pelo Sars-CoV-2.

No entanto, o adiamento de ações de detecção precoce pode ter impacto nas chances de cura para o câncer de mama, principal causa de morte de mulheres com câncer no Brasil.  O diagnóstico a partir dos primeiros sinais de alerta e a realização de mamografias de rastreamento para identificar lesões precursoras de câncer ou a doença em seu estágio inicial podem ser decisivos para o sucesso de um tratamento.

“Quando a gente lida com câncer, as estratégias começam pela detecção precoce, que é o caso da ultrassonografia e da mamografia, o principal exame quando a gente pensa em rastreamento. Sem a porta de entrada da atenção primária, as pacientes não vão chegar à consulta, os exames não vão ser solicitados e agendados, e a gente não consegue ter os diagnósticos”, explica Viviane Rezende de Oliveira, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) – Regional Brasília e ginecologista oncológica no Hospital Universitário de Brasília (HUB-UnB).

Em 2020, o Distrito Federal registrou uma queda de 20% na quantidade de procedimentos de diagnóstico de câncer de mama aprovados para pagamento pela Secretaria de Saúde, segundo dados do SIA. Viviane acredita que, no primeiro momento, a estratégia de orientar a população a não procurar a atenção primária foi correta diante do risco de aumento nas infecções por covid-19. 

Ainda assim, a ginecologista oncológica do HUB-UnB alerta que a queda no número de procedimentos de diagnóstico durante a pandemia terá consequências que só serão completamente identificadas daqui a alguns anos. “Esse impacto a gente vai ver dentro de dois anos, quando começarmos a colher os frutos amargos dessa redução que a gente teve na assistência. Veremos mais pacientes com tumores mais avançados, o que leva a tratamentos maiores e mais caros para o SUS, com maior risco de reaparecimento desses tumores.”

Esse impacto a gente vai ver dentro de dois anos, quando começarmos a colher os frutos amargos dessa redução que a gente teve na assistência. Veremos mais pacientes com tumores mais avançados, o que leva a tratamentos maiores e mais caros para o SUS, com maior risco de reaparecimento desses tumores

Viviane Rezende de Oliveira, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) – Regional Brasília e ginecologista oncológica no Hospital Universitário de Brasília (HUB-UnB).

Exames de Diagnóstico de Câncer de Mama:

Queda em 2020 na comparação com 2019 no SUS

Biópsias e punções

Exames

de imagem

Retirada de nódulo ou fragmento suspeito

Ultrassonografia

Cintilografia

-18%

-27%

Marcação de lesão pré-cirúrgica

Exames laboratoriais

Análise de materiais (tecidos e células) coletados em cirurgias e biópsias

Com ajuda de ultrassonografia ou mamografia, localização de lesão que será removida em cirurgia

-18%

-28%

fonte SIA/SUS

Exames de Diagnóstico de Câncer de Mama: Queda em 2020 na comparação com 2019 no SUS

Exames de imagem

Ultrassonografia

Cintilografia

-27%

Localização de lesão

com exame de imagem

Marcação de lesão de mama pré

cirurcica não palpável associada

a mamografia ou ultrassonografia

-28%

Retirada de nódulo

suspeito por agulha

ou cirurgia

Punção de mama por agulha

Biópsia de nódulo de mama

-18%

Análise celular

e de tecidos

Citopatologia de mama

Anatomopatologia de mama

-18%

fonte SIA/SUS

Pacientes pagam por exames

A dificuldade de agendamento para consultas também levou pacientes a procurar o sistema privado para realização de exames e, só aí, buscar o SUS para iniciar o atendimento. Isso explica, em parte, que a quantidade de procedimentos de tratamento tenha se mantido estável em 2020 em todo o país, mesmo com a queda no número de procedimentos de diagnóstico.

“As pacientes estavam pagando para fazer biópsia, para conseguir o encaminhamento para especialistas. Na maioria das vezes, eram nódulos já palpáveis, não uma alteração na mamografia, ou seja, lesões ainda não palpáveis, que têm chance de cura muito maior”, conta Grasiela Benini, coordenadora do serviço de mastologia do Hospital Santa Marcelina (São Paulo), instituição filantrópica que atende também pacientes do SUS.

Segundo a mastologista, no serviço que ela coordena, “mais de metade das pacientes chegavam com estadiamento acima de 3, ou seja, tumor localmente avançado. Em muitas dessas pacientes a gente já fazia diagnóstico de metástase nos primeiros exames de estadiamento.”  

Pandemia reverteu tendência de crescimento

Além da queda em comparação com 2019, os dados do Siscan e do SIA mostram também uma reversão na tendência de aumento de procedimentos de diagnóstico e de mamografias de rastreamento que o Brasil registra desde 2013, primeiro ano completo após a sanção da Lei n° 12.732, conhecida como Lei dos 60 dias.

Sancionada pela ex-presidente Dilma Rousseff (PT), a lei determina que pacientes com neoplasia maligna têm direito a iniciar o tratamento no SUS no prazo máximo de 60 dias a partir da data em que for firmado o diagnóstico.

Mais de metade das pacientes chegavam com estadiamento acima de 3, ou seja, tumor localmente avançado. Em muitas dessas pacientes a gente já fazia diagnóstico de metástase nos primeiros exames de estadiamento  

Grasiela Benini, coordenadora do serviço de mastologia do Hospital Santa Marcelina (SP)

Em outubro de 2019, o vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB) sancionou outra lei para garantir a celeridade no diagnóstico e tratamento do câncer de mama. A Lei n° 13.896 dá o prazo máximo de 30 dias para realização de exames de diagnóstico em pacientes com suspeita de câncer. No caso de Luciane, essa lei nunca foi cumprida.

Nota metodológica

A reportagem usou dados do Sistema de Informações Ambulatoriais (SIA/SUS) e do Sistema de Informação do Câncer (Siscan) coletados entre os dias 04/05/2021 e 14/09/2021. Além disso, solicitamos ao Ministério da Saúde e às Secretarias Estaduais de Saúde de Pará, Bahia, Distrito Federal, Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul, via Lei de Acesso à Informação (LAI), dados referentes ao orçamento destinado ao diagnóstico e tratamento ao câncer de mama.

Os pedidos via LAI foram respondidos pelo Ministério da Saúde (via INCA) e por todas as Unidades da Federação, com exceção do Rio de Janeiro e de São Paulo. Entretanto, os dados não eram específicos apenas ao câncer de mama e consideravam tratamentos oncológicos em geral. Desta forma, não foram utilizados. 

Também enviamos às Secretarias de Saúde questionamentos via assessoria de imprensa sobre o cenário revelado pelos dados e o que estava sendo feito para revertê-lo. Somente São Paulo, Pará e Rio Grande do Sul responderam.

Após levantamento no SIA/SUS, os procedimentos ambulatoriais relacionados ao câncer de mama foram agrupados em duas categorias: tratamento e diagnóstico. A análise considerou somente o valor total e a quantidade de procedimentos aprovados para pagamento pelas Secretarias de Saúde. É importante destacar que cada paciente pode fazer mais de um procedimento, logo, os dados não servem para contabilizar o número de pessoas que procuraram o SUS para diagnosticar ou tratar o câncer de mama.

Já os dados do Siscan se referem ao número de pacientes que realizaram mamografias de rastreamento ou de diagnóstico pelo SUS. O sistema não diferencia o tipo de mamografia realizada pela paciente.

*Aline Gatto Boueri é repórter colaboradora, Maria Martha Bruno é diretora de conteúdo e Natália Leão é coordenadora de dados da Gênero e Número. Esta matéria foi realizada em parceria com o Instituto Avon.

leia

Depoimento: Como é tratar um câncer de mama no SUS em meio à pandemia

Luciane Grava nos estágios de tratamento do câncer de mama

Mãe solo, projetista e vendedora autônoma, Luciane Grava de Oliveira relata as etapas do diagnóstico e tratamento do câncer de mama no SUS durante a pandemia de covid-19

Por Luciane Grava de Oliveira*

No final de fevereiro de 2020, eu percebi um pequeno nódulo no seio. Naquele momento, não imaginei que pudesse ser câncer porque eu já tinha tido cistos, que depois desapareceram. Só que eu tenho um histórico. Minha mãe faleceu de câncer de útero aos 57 anos. Então eu imaginava que um dia eu poderia ter câncer também, eu só não achava que pudesse ser tão cedo, aos 43 anos. 

No final de março de 2020, eu senti que o nódulo estava diferente, que tinha aumentado. Foi então que eu procurei o posto de saúde para tentar agendar uma consulta. Primeiro eu liguei e falei que queria marcar com algum ginecologista. Me disseram que estavam sem agenda, porque estavam atendendo mais Covid mesmo. Nessa conversa, me pediram para deixar meu número de telefone, mas depois de duas semanas não haviam ligado. 

Decidi entrar em contato novamente e disse que havia tentado agendar uma consulta, mas não havia conseguido e o nódulo estava aumentando muito rápido. Foi aí que me orientaram a ir até o posto de saúde para passar pelo acolhimento, porque, segundo me informaram, não estavam agendando consultas ginecológicas. Após o atendimento com a enfermeira, no acolhimento, fui encaminhada a um ginecologista, que me atendeu somente na segunda quinzena de maio.

O ginecologista me pediu exames: mamografia e ultrassonografia, que eu só consegui fazer em julho. Voltei ao ginecologista no mesmo mês com o resultado dos exames. O médico não gostou muito dos resultados, mas até então não havia 100% de certeza de que era um tumor maligno. Nessa consulta, fui encaminhada para o mastologista e comecei o tratamento no Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher (CAISM) de São Bernardo do Campo (São Paulo).

O mastologista que me examinou foi bem verdadeiro. Falou que, pelo aspecto, tudo levava a crer que se tratava de um tumor maligno. Na hora foi assim: “Opa! Nossa, e agora?” Eu não chorei, fiquei meio aérea. Parecia que eu estava em outra dimensão.

2019

Outubro

promulgada

a Lei dos 30 dias,

que determina prazo máximo

para realização de exames

de diagnóstico em pacientes

com suspeita de câncer

OMS anuncia

pandemia de Covid-19

Luciane percebe nódulo no seio esquerdo

2020

JANEIRO

FEVEREIRO

MARÇO

Inca orienta pacientes

a não procurarem serviços

de rastreamento de câncer

1a consulta

com ginecologista

nódulo

aumenta de

tamanho

JUNHO

MAIO

ABRIL

agendamento

de consulta

ultrassonografia

e mamografia

diagnóstico de câncer de mama confirmado

1a consulta com

mastologista

2a consulta

com ginecologista

consulta com

oncologista

biópsia

AGOSTO

SETEMBRO

JULHO

2a consulta com

mastologista

1a série de

quimioterapia

sessão 1

Inca recomenda

retorno das ações de rastreamento

2a série de

quimioterapia

sessão 1

sessão

2

4

3

2

DEZEMBRO

NOVEMBRO

OUTUBRO

sessão

3

4

5

6

7

8

9

10

11

12

JANEIRO

FEVEREIRO

MARÇO

2021

cirurgia

mastectomia

e implante

radioterapia

JUNHO

MAIO

ABRIL

hormonioterapia

JULHO

AGOSTO

SETEMBRO

+5 ou 10 anos

2019

Outubro

promulgada

a Lei dos 30 dias,

que determina prazo máximo

para realização de exames

de diagnóstico em pacientes

com suspeita de câncer

OMS anuncia

pandemia de Covid-19

Luciane percebe nódulo no seio esquerdo

2020

JANEIRO

FEVEREIRO

MARÇO

Inca orienta pacientes

a não procurarem serviços

de rastreamento de câncer

1a consulta

com ginecologista

nódulo

aumenta de

tamanho

JUNHO

MAIO

ABRIL

agendamento

de consulta

ultrassonografia

e mamografia

diagnóstico de câncer de mama confirmado

1a consulta com

mastologista

2a consulta

com ginecologista

consulta com

oncologista

biópsia

AGOSTO

SETEMBRO

JULHO

2a consulta com

mastologista

1a série de

quimioterapia

sessão 1

Inca recomenda

retorno das ações de rastreamento

2a série de

quimioterapia

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a Lei dos 30 dias,

que determina prazo máximo

para realização de exames

de diagnóstico em pacientes

com suspeita de câncer

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OMS anuncia

pandemia de Covid-19

Inca orienta pacientes

a não procurarem serviços

de rastreamento de câncer

Luciane percebe

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INCA recomenda retorno das ações

de rastreamento

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e mamografia

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e implante

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set

+5 ou 10 anos

Durante todo o meu tratamento, não fui informada – mas também não procurei saber – sobre meus direitos como paciente com câncer. Também não sabia sobre a Lei dos 60 dias ou a Lei dos 30 dias. Eu não sabia quanto tempo passaria até começar o tratamento, e meu irmão chegou até a comentar comigo: “Lu, caso você não consiga (iniciar o tratamento rápido), a gente faz pela rede particular”.

Eu fiz a biópsia quando passei pelo mastologista, quando já tinha os resultados da ultrassonografia e da mamografia. Ele também pediu para eu realizar exames pré-operatórios, porque a ideia era me encaminhar para cirurgia. Em 4 de setembro eu recebi meu diagnóstico: neoplasia maligna de mama esquerda – Luminal B. 

O nódulo tinha evoluído muito rápido. Em quatro meses, havia passado de 2 cm para 7 cm. Fui então encaminhada para o oncologista, no Hospital das Clínicas de São Bernardo do Campo, e comecei a quimioterapia para reduzir o tamanho do tumor e tentar preservar a mama. Foram 16 sessões – a última em março de 2021.

Cerca de 15 dias depois da primeira sessão, comecei a perder o cabelo. Eu passava a mão e, primeiro, caíam alguns fios, mas depois começaram a cair maços de cabelo. Era uma sensação muito ruim, o couro cabeludo fica um pouco dolorido.

Eu tenho duas filhas, uma de 17 anos e outra de 14. Sou divorciada e o pai não assume nenhuma responsabilidade, eu sou a única cuidadora. Por elas, decidi não me deixar abater.

Uma amiga que me acompanhou durante todo o tratamento veio até minha casa um dia e, junto com as minhas duas filhas, cortou meu cabelo. Primeiro com a tesoura e depois com a máquina. Sei que para muitas mulheres esse é um momento difícil. Para a minha mãe foi a pior parte. Mas para mim não foi, eu até gostei do meu cabelo curtinho. Naquele momento eu pensei: “isso faz parte do meu tratamento, é pra minha cura, então se eu tiver que passar por isso, eu vou passar.”

Minha preocupação era minha imunidade cair e atrasar o protocolo das sessões de quimioterapia. Eu queria que passasse logo. Então procurei uma nutricionista por minha conta que ajudou muito a definir um cardápio, porque a alimentação é muito importante nesse período. 

O tratamento mexe muito com o emocional da gente também. Então eu fazia meditação e comecei a me poupar mais. Quando meu corpo pedia para descansar, eu descansava. Mas eu não deixei de fazer as coisas que eu fazia. Diminuí um pouco o ritmo, mas continuei trabalhando em casa.

Meu tipo de tumor, Luminal, não responde muito à quimioterapia. O nódulo diminuiu, mas tiveram que retirar toda a mama e, em seguida, fazer a cirurgia plástica. Me informaram que a intervenção cirúrgica deveria acontecer, no máximo, 60 dias após o término  do tratamento quimioterápico. Me disseram que, por conta da pandemia, poderia haver algum atraso e aquilo me deixou ansiosa, tive medo que o tumor voltasse a crescer. Afinal, minha cirurgia foi agendada exatamente 60 dias depois do fim da quimioterapia.

Depois da cirurgia, iniciei a radioterapia, que terminou em julho de 2021. Hoje eu faço acompanhamento com oncologista e mastologista e tomo uma medicação específica para o meu tipo de tumor. Já tomei as duas doses da vacina contra a Covid-19.

Foi difícil atravessar tudo isso em meio à pandemia. É um momento que a gente tem necessidade de acolhimento. A família queria estar junto, eu queria ver as pessoas, abraçar, e não podia. A minha vida era só médico e casa. Se uma pessoa que não é paciente oncológica precisa ter cuidados (durante a pandemia), os meus precisavam ser redobrados.

Fiquei isolada durante todo o tratamento. O que eu mais queria era o contato físico com outras pessoas, mas não podia. Então ir aos hospitais, colher sangue, passar por consultas médicas e realizar o tratamento eram momentos bons, quando eu trocava experiências com outras pacientes. Fiz amigas e amigos que levarei para o resto da minha vida.

Sempre pensei: “isso não vai me vencer. Vou fazer as quimioterapias, vou fazer a cirurgia, vou fazer radioterapia e vou seguir em frente”. Em setembro de 2021 completo 45 anos, um dia antes do aniversário de um ano do início do meu tratamento.

*em depoimento a Aline Gatto Boueri

leia

Setembro Amarelo: Pessoas negras são 57% das vítimas de autolesão entre LGBTs+

Depressão, suicidio

Dados também mostram que conflito entre gerações é a causa mais apontada para esse tipo de violência; psicólogo alerta que estas ações precisam ser enxergadas como respostas a situações cotidianas e que profissionais de saúde ainda não sabem como lidar com elas

Por Agnes Sofia Guimarães*

Ao pensar em sua trajetória acadêmica, Paulo Navasconi levou em conta uma vida marcada pelo luto, ou pelo convívio com a morte. Aos 12 anos, descobriu o suicídio do avô, até então um segredo bem guardado pela família. Durante a adolescência, também tentou tirar a própria vida – momento em que notou a dificuldade dos profissionais de saúde que o atenderam para registrar sua tentativa no prontuário de atendimento. 

Vindo de uma família interracial do Paraná, Paulo encontrou, no mestrado, uma literatura acadêmica sobre suicídio no Brasil em que o fenômeno não era apresentado com indicadores de raça, classe econômica e sexualidade.

Foi a partir daí que o psicólogo, hoje doutorando em Subjetividade e Práticas pela Universidade Estadual do Maringá (PR), passou a pesquisar de que forma a interseccionalidade podia contribuir para lançar luz sobre jovens negros e LGBT+, vítimas até então invisibilizadas, mas que podem estar entre as maiores estatísticas de suicídio no Brasil. O estudo resultou no livro “Vida, Adoecimento e Suicídio – Racismo na Produção do Conhecimento sobre Jovens Negros/AS LGBTTIS” (Editora Letramento, 2019). 

Segundo o Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), em 2020, houve 12.080 suicídios no Brasil, a maior parte registrada entre homens negros, de 30 a 59 anos. Foram 2.576 casos, isto é, 21,3% do total. No entanto, ao olhar para esses dados, não encontramos indicadores de orientação sexual e de identidade de gênero – ecos da falta de literatura acadêmica sobre o tema.

O Sistema de Agravos de Notificação de Violência (Sinan), por sua vez, apresenta dados atualizados até 2019 de violências autoprovocadas, e com recortes de identidade sexual e de gênero. 

De acordo com levantamento feito pela Gênero e Número no Sinan, em 2019, conflitos geracionais foram os motivos mais apresentados por gays, lésbicas, bissexuais e população trans (travestis, homens e mulheres trans) para autolesões. Das 2.093 ocorrências de autolesão registradas entre a população LGBT+, 1.436 apresentam informações sobre os motivos que levaram a elas. Dessas, 282 (20%) correspondem a conflitos geracionais (ou embates entre gerações mais novas e mais velhas), enquanto 17,82% correspondem a autolesões motivadas por situações de sexismo e 16% a situações de lgbtfobia. 

Os dados também revelam que 57% da população LGBT+ com ocorrências de violência autoprovocada são pessoas negras. A faixa etária que se destaca, em todos os grupos, é a de jovens de 18 a 29 anos, que representam cerca de 37% dos casos. Mulheres negras lésbicas registram 16,24% dos casos de autolesão, seguidas por homens negros gays (15,61%) e trans (15,45%).

Violências autoprovocadas respondem, principalmente, a fatores geracionais, sexistas e lgbtfóbicos

Pessoas LGBT+ destacam que maior motivação (20% dos casos) foi o conflito geracional

gays

lésbicas

bissexuais

trans

20%

LGBTFOBIA

Conflito

geracional

Sexismo

0

fonte SINAN / 2019

Violências autoprovocadas respondem, principalmente, a fatores geracionais, sexistas e lgbtfóbicos

Pessoas LGBT+ destacam que maior motivação (20% dos casos) foi o conflito geracional

Conflito

geracional

Sexismo

LGBTFOBIA

gays

bissexuais

trans

lésbicas

20%

0

fonte SINAN / 2019

No entanto, alerta Navasconi, situações de autolesão não podem ser observadas como tentativas de suicídio, mas respostas a violências cotidianas que devem ser contextualizadas de acordo com as especificidades sociais, de raça e de gênero que atravessam a população LGBT+.

“Podemos encontrar uma ritualização de práticas que na verdade são uma forma de pedido de socorro a diversas violências que a população LGBT+ enfrenta no dia a dia. Aqui, a autolesão não deve ser confundida com uma tentativa de suicídio, mas como um indicativo de problemas que deveriam ser lidos com mais atenção quando falamos em saúde mental, como a falta de acesso a diversos direitos básicos”, explica o psicólogo.

A campanha Setembro Amarelo, de conscientização pela prevenção do suicídio, já faz parte do calendário nacional, mas, em nível federal, encontra dificuldades para ações direcionadas à população LGBT+.  A situação acaba sendo agravada com a falta de investimentos em atenção básica. No ano passado, por exemplo, o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos não fez nenhum gasto direto para essa parcela da população, apesar dos cerca de R$ 800 mil empenhados.

A invisiblidade de suicídios entre jovens negros LGBT+ não acontece apenas em estudos acadêmicos. A partir de 2014, o Ministério da Saúde passou a incluir os quesitos orientação sexual e identidade de gênero nos sistemas de informação do SUS, mas nem todos os bancos de dados apresentam o registro desses casos.

Pessoas negras representam 57% dos casos de violência autoprovocada entre os LGBTs+

Em meio a subnotificações, mulheres negras lésbicas apresentam as maiores ocorrências*

NEGROS

BRANCOS

AMARELOS

INDÍGENAS

400

350

No Brasil, há o registro de violências autoprovocadas de 315 lésbicas negras em 2019

300

250

200

150

100

50

0

lésbicas

gayS

trans

biSSEXUAIS

*Dados computados a partir de ocorrências com registro de raça das vítimas

fonte SINAn / 2019

Pessoas negras representam 57% dos casos de violência autoprovocada entre os LGBTs+

Em meio a subnotificações, mulheres negras lésbicas apresentam as maiores ocorrências*

NEGROS

BRANCOS

AMARELOS

INDÍGENAS

400

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gayS

lésbicas

No Brasil, há o registro de

violências autoprovocadas de

315 lésbicas negras em 2019

biSSEXUAIS

trans

*Dados computados a partir de ocorrências com registro de raça das vítimas

fonte SINAn / 2019

Efeito da pandemia

Para a população LGBT+, a pandemia tornou tudo ainda mais delicado. Pesquisadora em Campinas (SP), Marcela**, de 23 anos, voltou a morar com os pais  em uma cidade menor do interior de São Paulo quando as atividades acadêmicas passaram para o formato virtual. Desde então, ela convive com crises de ansiedade e de exaustão com a sobrecarga doméstica.

 “Como mulher, a pandemia certamente influenciou na qualidade de meu trabalho. Tenho que passar horas do meu dia fazendo serviços domésticos e cuidando de crianças que não são minhas porque minha família demanda isso de mim. Como resultado, estou exausta e não consigo ser tão produtiva no trabalho como era antes”, conta. 

Bissexual e em um relacionamento com um homem, Marcela também sente um silenciamento e apagamento da sua sexualidade entre seus familiares, o que, para ela, acentua conflitos e a faz reviver antigas feridas todos os dias:

“O fato de voltar a morar com minha família de origem na pandemia certamente limitou minha sexualidade e minha individualidade. Passei a ter que me justificar e dar satisfação novamente aos meus pais, o que dificulta minha expressão sexual. Além disso, fui novamente exposta ao ambiente abusivo e tóxico no qual cresci, sofrendo abuso psicológico e financeiro”. 

Já para o professor de ensino fundamental na rede pública de São Paulo Jair Custódio, o cuidado com a saúde mental é um desafio permanente. Homem gay, negro e cis, ele acredita que a idade também o levou a ter dificuldades para encontrar ajuda profissional. E sente que o atravessamento entre o racismo e a homossexualidade contribui para que leve uma vida afetiva solitária, inclusive em contextos familiares: 

“Sempre entendi o ser um homem gay como uma questão de identidade, portanto, minhas escolhas sempre levam em conta isso, e não é uma condição que possa ser transformada. Mas o fator ‘ser negro’ também geralmante incorre em outras posturas violentas, como posturas retrógradas de familiares e a objetificação do meu corpo negro”, conta o professor de 55 anos. 

Segundo o psicólogo Paulo Navasconi, a pandemia evidenciou um distanciamento entre profissionais de saúde e a população LGBT+ | Foto: Arquivo Pessoal
Segundo o psicólogo Paulo Navasconi, a pandemia evidenciou um distanciamento entre profissionais de saúde e a população LGBT+ | Foto: Arquivo Pessoal

Tudo, acredita o atendente de telemarketing Marcelo Castro, é fruto da falta de informação. Aos 23 anos, ele, que é um homem negro e trans, conta com ajuda psicológica desde que passou por seu processo de transição. De Altinópolis, em Minas Gerais, mudou-se para Uberlândia, uma cidade mais desenvolvida no Triângulo Mineiro, e onde, segundo ele, foi mais fácil encontrar ajuda – inclusive na pandemia. 

“Acredito que hoje a maior barreira com profissionais de saúde seja a falta de informação. Eu comecei a minha transição em uma cidade pequena, mas tive ajuda psicológica desde o início, só que contando com a sorte de profissionais que estavam dispostos a aprender o que eu estava vivendo. Hoje sou atendido por profissionais que já lidam melhor com essas questões e percebo a diferença de um atendimento mais especializado”, reflete. 

Desafio para profissionais de saúde

Durante a pandemia e diante da diminuição de recursos públicos para políticas específicas de atenção às pessoas  LGBT+, entidades da sociedade civil buscaram formas de monitorar e ajudar esta parte da população mais vulnerável. 

A pesquisa online “Diagnóstico LGBT+ na pandemia”, realizada entre 28 de abril e 15 de maio de 2020, pelo coletivo #VoteLGBT, ouviu pessoas declaradamente LGBT+ sobre suas preocupações com a pandemia. Em primeiro lugar ficou a questão da saúde mental, que incluía problemas como ansiedade, depressão e crise de pânico, com 42,72% das mais de 9.500 respostas. Depois vinham as novas regras de convívio, com 16,58%; solidão, com 11,7%; e falta de renda, com 10,62%. No ano passado, a pesquisa do coletivo com a população LGBT+ revelou que pessoas transgênero são as mais vulneráveis aos impactos do isolamento social.

No geral, observa Paulo Navasconi,  a pandemia evidenciou um distanciamento entre profissionais de saúde e a população LGBT+. 

“Tivemos muitos aprendizados com o isolamento social, sobretudo sobre o impacto que a pandemia teve em pessoas que, muitas vezes, não têm sua orientação sexual ou identidade de gênero aceita pela família. Mas, novamente, ainda encontramos muitos desafios para que profissionais de saúde possam lidar com essas situações de forma mais contextualizada e que, principalmente, ajudem a notificar situações extremas para entender melhor como ajudar”, lamenta. 

Acesse a base de dados da reportagem aqui 

*Agnes Sofia Guimarães é repórter da Gênero e Número

**Nome fictício para preservar a identidade da entrevistada 

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Após pressão da sociedade civil, Congresso garante lactantes no grupo prioritário de vacinação contra a covid-19

Mãe de gêmeos se vacina contra a covid em Vitória da Conquista (BA) | Foto: Arquivo pessoal

Em meio à desorganização do Programa Nacional de Imunização, lactantes só haviam conseguido garantir vacinação em 9 estados

Por Maria Martha Bruno e Marília Ferrari *

Com o Programa Nacional de Imunização (PNI) absolutamente heterogêneo em todo o país, com cada estado e município decidindo suas próprias regras, por causa da escassez de vacinas contra a covid-19, lactantes também não têm tido acesso uniformizado à vacinação no território nacional. Mapeamento da Gênero e Número mostra que, até hoje, elas só tinham vacinação assegurada, independentemente da idade,  em nove estados, ainda que a decisão final fosse dos municípios.

As decisões de cada estado passam ainda pela idade de filhos e filhas e pela comorbidade das mães. No Rio Grande do Norte, por exemplo, só podem ser vacinadas mães com bebês de até 12 meses. Já em São Paulo, apenas as lactantes com comorbidades estão nos grupos prioritários e podem receber a vacina com qualquer idade. 

Até 7 de julho, 115.589 puérperas haviam sido vacinadas com a primeira dose e 4.815 com ambas as doses em todo o país, segundo dados do painel de vacinação do Ministério da Saúde. Vale ressaltar, no entanto, que nem todas as puérperas são lactantes, visto que nem todas amamentam os filhos.

Lactantes e a vacinação contra covid-19

Decisão do Congresso vai estender a prioridade às mulheres que estão amamentando para todo o país

RR

AP

AM

PA

CE

MA

RN

PB

PI

AC

PE

TO

AL

RO

SE

BA

MT

DF

GO

9

estados em que lactantes já estão na fila de prioridade de vacinação

MG

MS

ES

SP

RJ

PR

Em SP, apenas lactantes com comorbidades

SC

RS

fonte Secretarias estaduais de Saúde

Lactantes e a vacinação contra covid-19

Decisão do Congresso vai estender a prioridade às mulheres que estão amamentando para todo o país

9

estados em que lactantes já estão na fila de prioridade de vacinação

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Em SP, apenas lactantes com comorbidades

fonte Secretarias estaduais de Saúde

Equidade na vacinação 

Projeto de lei do Senador Jean Paul Prates (PT-RN), aprovado por unanimidade no Senado, foi aprovado também na Câmara de Deputados nesta quinta-feira (8) em regime de urgência. O texto coloca lactantes como parte do grupo prioritário no PNI, juntamente com gestantes e puérperas. Estes dois grupos já têm vacinação garantida por todos os estados, apesar da suspensão do uso da Astrazeneca para gestantes desde maio. 

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O principal argumento da vacinação de lactantes é a proteção  2×1: algumas pesquisas já mostraram que anticorpos que atuam contra a Covid-19 podem ser transmitidos através do leite materno. A proteção vacinal, portanto, se estenderia aos filhos e filhas pequenos, que, pela idade, não podem lançar mão de estratégias comuns de proteção, como o uso de máscaras. Por outro lado, ao contrário de grávidas e puérperas, não há evidências de que lactantes estejam mais vulneráveis à covid-19. Outros argumentos incluem a redução das mortes maternas, o incentivo à amamentação prolongada e mesmo a proteção das lactantes que voltaram a trabalhar.

Vacinação de puérperas por estado

Nem todas são lactantes, mas dados mostram que vacinação está mais avançada para puérperas em estados onde lactantes estão no grupo prioritário

Número de

puérperas

vacinadas*

As cores representam

as regiões

O tamanho de cada estado é a % de puérperas vacinadas

22 mil

MG

no

menor

maior

20 mil

ne

co

sp

sul

2,8%

em RR

55,4%

no MT

18 mil

16 mil

14 mil

BA

12 mil

RJ

PR

10 mil

RS

8 mil

PE

PA

6 mil

GO

MT

SP tem 92 mil puérperas mas não disponibilizou dados da vacinação do grupo

MA

SC

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4 mil

RN

AM

RO

2 mil

PB

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DF

CE

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PI

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AL

RR

SP

AP

1 mil

2 mil

10 mil

20 mil

100 mil

Número de puérperas

(registros de nascimento entre maio e junho de 2021)

* vacinadas com primeira dose e dose única

dados referentes ao dia 07/07/2021

fonte Portal da Transparência do Registro Civil/ Ministério da Saúde

Título

Subtítulo

Vacinação de puérperas por estado

Nem todas são lactantes, mas dados mostram que vacinação está mais avançada para puérperas em estados onde lactantes estão no grupo prioritário

As cores representam

as regiões

O tamanho de cada estado é a % de puérperas vacinadas

menor

maior

no

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co

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sul

2,8%

em RR

55,4%

no MT

Número de

puérperas

vacinadas*

22 mil

MG

20 mil

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SP tem 92 mil puérperas mas não disponibilizou dados da vacinação do grupo

2 mil

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100 mil

Número de puérperas

(registros de nascimento entre maio e junho de 2021)

* vacinadas com primeira dose e dose única

dados referentes ao dia 07/07/2021

fonte Portal da Transparência do Registro Civil/ Ministério da Saúde

A mobilização pela inclusão das lactantes surgiu na sociedade civil, impulsionada, há pouco mais de um mês, pelo grupo Lactantes pela Vacina, criado na Bahia. O movimento é nacional e tem grupos em todos os estados, menos Roraima. Uma das coordenadoras, Julia Maia, afirma que a equidade racial no acesso à vacina também é pauta central do movimento, que tem grupo de trabalho de mães negras e atua na divulgação de informação sobre a vacinação:

“No início fomos até acusadas de ser um movimento de blogueiras, de mães elitizadas querendo furar fila. Mas o grupo tem mães solo, mães negras. Fizemos parcerias com órgãos gestores e agentes comunitários para que a informação da vacina circulasse também em grupos de WhastApp. A abordagem interseccional é fundamental e nossas práticas têm que estar alinhadas a isso”.

No país, há cerca de 11 milhões de mães solo, sendo que quase 8 milhões são mulheres negras. Entre elas, nada menos que 63% estão abaixo da linha da pobreza, condição que prejudica também a amamentação, etapa fundamental no crescimento das crianças e da relação das mães com os filhos.  

* Maria Martha Bruno é diretora de conteúdo e Marília Ferrari é diretora de arte da Gênero e Número

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“Falsa praticidade” mantém ultraprocessados na casa dos brasileiros enquanto mortes por doenças relacionadas só aumentam

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Brasil registra anualmente cerca de 300 mil mortes prematuras por doenças relacionadas ao consumo exagerado de açúcar, gordura e sódio; educação alimentar e políticas públicas são caminhos para mudança

Por Lola Ferreira*

Virou até meme nas redes sociais o prazer de beber um “refri gelado” num dia quente de verão ou só para desestressar. Outro refrigerante ganhou até apelido carinhoso dos consumidores no Twitter. Essa aproximação das marcas com o público tem um efeito positivo para o marketing, mas no país em que cerca de 12 mil pessoas adoecem gravemente anualmente por ingerirem, em excesso, bebidas açucaradas, o tema faz questionar até que ponto o lobby da indústria dos alimentos ultraprocessados pode chegar. Essa segunda reportagem sobre alimentação é um desdobramento das análises para o estudo “Cenários e possibilidades da pandemia desigual em gênero e raça no Brasil”, realizado pela Gênero e Número em parceria com o Instituto Ibirapitanga.

A ONG ACT – Promoção da Saúde foi quem divulgou o dado alarmante relacionando bebidas açucaradas (chás prontos com adição de açúcar, refrigerantes e bebidas de frutas) e mortes de brasileiros, num estudo que reuniu pesquisadores também da Argentina, El Salvador e Trinidad e Tobago. De acordo com a pesquisa, cerca de 1,8 milhão de adultos brasileiros ficam doentes todos os anos por conta do consumo dessas bebidas, sendo a maioria (aproximadamente 1,4 milhão) com diabetes tipo 2. 

Mas além dos refrigerantes e sucos prontos com excesso de açúcar, temos salgadinhos, biscoitos, macarrão instantâneo e toda a sorte de alimentos ultraprocessados entrando mais na casa dos brasileiros durante a pandemia de covid-19. Pesquisa do Datafolha encomendada pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) mostra que, entre outubro de 2019 e junho de 2020, subiu de 9% para 16% o número de pessoas entre 45 e 55 anos que consomem esses alimentos.

“Tem toda a questão da facilidade do consumo: são produtos prontos para aquecer ou comer. E muitos são veiculados como saudáveis. Essas falsas facilidades interferem na vida das pessoas e nas escolhas alimentares. E são aspectos importantes que os consumidores consideram na hora de escolherem seus alimentos. E na pandemia tem um outro ponto, de ver esses alimentos como comida-conforto, porque são ultrapalatáveis, com sabor acentuado”, avalia Laís Amaral, nutricionista e especialista do programa de Alimentação Saudável do Idec.

Mas, afinal, qual o problema? O verdadeiro valor nutricional, porque esse tipo de alimento ultraprocessado não é comida de verdade. De maneira direta, são alimentos que não conseguiríamos reproduzir em casa, devido à alta quantidade de substâncias químicas e nutrientes críticos (açúcar, gordura e sódio) que há entre os ingredientes. Sem contar corantes, edulcorantes, emulsificantes, estabilizantes e muitos outros “antes” que permitem aumentar o prazo de validade — e deixá-los mais gostosos, claro. 

[+] Leia também: Supermercados têm ano dourado durante a pandemia em meio à insegurança alimentar e incertezas para trabalhadoras

E são esses tais nutrientes críticos (de novo: açúcar, gordura e sódio) que estão diretamente relacionados ao que a literatura médica chama de DCNT: doenças crônicas não-transmissíveis, entre elas, hipertensão, diabetes, problemas cardiovasculares e até alguns tipos de câncer. Somente em 2019, cerca de 300 mil pessoas morreram prematuramente no Brasil por conta de DCNTs, o maior índice em cinco anos. A maioria são homens e negros, e a solução para este problema não passa somente por saber dos riscos desses tipos de alimentos, mas envolve políticas públicas e lobby da indústria alimentícia.

Negros e homens são principais vítimas de mortes prematuras causadas por doenças crônicas não transmissíveis no Brasil

Hipertensão, diabetes, doenças renais e doenças cardíacas estão inclusas; alimentação inadequada contribui para ocorrências

Homens

Mulheres

ESCALA

!

0 – 100 mil

100 mil

brancos

negros

85.387

82.691

82.992

82.982

82.004

81.374

82.248

80.257

65.995

65.013

64.208

64.107

64.313

63.968

62.617

61.262

53.542

50 mil

49.605

40.932

38.905

0

2019

2020

2017

2018

2016

ESCALA

!

0 – 1.000

1.000

amarelos

780

758

753

692

564

566

537

529

500

483

indígenas

376

333

312

310

259

276

256

198

228

193

0

2016

2017

2018

2019

2020

fonte Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM)

*dados de 2020 vão até julho

Negros e homens são principais vítimas de mortes prematuras causadas por doenças crônicas não transmissíveis no Brasil

Hipertensão, diabetes, doenças renais e doenças cardíacas estão inclusas; alimentação inadequada contribui para ocorrências

Homens

Mulheres

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0 – 100 mil

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fonte Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM)

*dados de 2020 vão até julho

Lobby

Saber a influência dos alimentos ultraprocessados em DCNTs e nas mortes decorrentes delas não faz com que o governo brasileiro e as agências reguladoras deixem de se curvar à indústria alimentícia. Pesquisadores, nutricionistas e ativistas pelo direito à alimentação saudável ouvidos pela Gênero e Número são taxativos: a publicidade e o lobby da indústria são determinantes para que o consumo seja tão alto num país com tantas mortes . E a publicidade não é só a propaganda na TV. Rótulos, consumo por celebridades, uso de personagens infantis nas embalagens, etc, contribuem para que esses alimentos dominem as prateleiras e geladeiras dos lares brasileiros 

Bebidas açucaradas, como refrigerante, são responsáveis por mais de 1,8 milhão de casos de diabetes por ano | Foto: Agência Senado
Bebidas açucaradas, como refrigerante, são responsáveis por mais de 1,8 milhão de casos de diabetes por ano | Foto: Agência Senado

[+] Leia também: Domésticas envelhecem e desemprego e precarização aumentam entre mulheres jovens

Em 23 de julho de 2020, a titular do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), Tereza Cristina, fez uma videoconferência com a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia). A pauta era “Revisão do Guia Alimentar da População Brasileira. Menos de dois meses depois, o Mapa enviou ao Ministério da Saúde (MS) uma nota técnica pedindo a revisão do Guia. 

Atualizado em 2014 pelo MS, o documento orienta as melhores formas de alimentação saudável, prioriza comidas naturais e aponta os riscos dos ultraprocessados e as relações com as DCNT. O Mapa, depois dessa reunião com a Abia, afirmou que o texto é incoerente, confunde a população e “um dos piores do mundo”, sem nenhuma prova. 

Este sinal da força do lobby da indústria alimentícia foi tão forte que gerou reação internacional. Cientistas estrangeiros enviaram uma carta ao Mapa reforçando a falta de argumentos científicos embasados e muitas críticas infundadas direcionadas ao Guia. Houve também ofensiva das organizações da sociedade civil que discutem alimentação saudável, com mais cartas enviadas ao ministério rechaçando o ataque ao Guia. Desde então, a discussão está parada no MS. 

Depois disso, a última batalha entre a alimentação saudável e a indústria alimentícia foi sobre a nova rotulagem de alimentos. O modelo baseado em evidências científicas e proposto pela sociedade civil era o de rotulagem triangular na frente das embalagens, com informação explícita do excesso de nutrientes críticos. Mas depois de muitas conversas, com lobby forte da indústria dentro da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), foi aprovado o modelo de “lupa”: um retângulo que avisa a quantidade excessiva dos nutrientes críticos. Mas não há evidência científica que seja o ideal, e há problemas com a fonte pequena e pouco espaço ocupado.

Possibilidade de mudanças

Essa resistência do Brasil em expor o que realmente há por trás dos alimentos ultraprocessados vai na contramão de alguns países da América Latina. No Chile, por exemplo, houve uma redução de cerca de 24% no consumo de bebidas açucaradas nas casas após o país adotar um pacote de medidas que inclui aumento de tributação, rotulagem adequada e restrição à publicidade. Os dados foram divulgados também pelo Idec a partir de um estudo coordenado pelo Instituto de Nutrição e Tecnologia de Alimentos da Universidade do Chile.

[+] Leia também: Segunda categoria mais beneficiada pelo Auxílio Emergencial, trabalho doméstico perde 1,5 milhão de postos de trabalho

Paula Johns, diretora geral da ACT – Promoção da Saúde, ONG que integra a Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável, explica que o lobby da indústria alimentícia é forte porque tem muito dinheiro envolvido. De fato: em 2020, por exemplo, o setor de alimentos e bebidas aumentou em 3,3% suas vendas reais.

“O poder econômico é muito grande, até porque o preço desses produtos é artificialmente barato. Não incorporam no preço final os reais custos desse consumo. Um biscoito você compra por R$ 1,50, que é um preço superbarato e atinge os grupos populacionais mais vulneráveis: aquela pessoa que fica horas no transporte público, cercada da facilidade de aquisição desse produto, seja por preço ou disponibilidade. O preço não paga o preço final para a sociedade, que são as doenças. É o barato que sai caro”, afirma Johns.  

 O preço não paga o preço final para a sociedade, que são as doenças. É o barato que sai caro.

Uma outra forma da indústria se fazer presente, de acordo com Johns, é por ações de filantropia altamente divulgadas. O que se intensificou no período de pandemia. O Congresso, inclusive, aprovou a lei 14.016/2020, que fala sobre “o combate ao desperdício de alimentos e a doação de excedentes de alimentos para o consumo humano”. Mas o debate sobre o texto do projeto não ouviu a sociedade civil. Em um dos artigos, o texto traz que as empresas ou estabelecimentos que doarem os alimentos só serão processados na esfera penal “se comprovado, no momento da primeira entrega, ainda que esta não seja feita ao consumidor final, o dolo específico de causar danos à saúde de outrem”. Nenhuma linha sobre insatisfação com o produto ou a qualidade (ainda que dentro da data de validade). 

“Claro que quem tem fome tem que comer. Mas as políticas de acesso à alimentação deveriam ser, como vinham sendo construídas nos últimos anos, com base na produção local, uma nutrição com qualidade. Não é qualquer coisa para encher barriga”, avalia Paula Johns. 

Gênero, raça e classe

A professora Luciane Bresciani Salaroli é coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Nutrição e Saúde da Universidade Federal do Espírito Santo e responsável pelo Grupo de Pesquisa em Epidemiologia, Saúde e Nutrição (GEMNUT/Ufes). Na pesquisa, Salaroli e colegas focam em epidemiologia nutricional e como os consumos alimentares se refletem na vida dos grupos pesquisados.  

Ela avalia que, além de políticas públicas, as famílias brasileiras precisam de uma reestruturação, uma aproximação com os alimentos de verdade e o hábito de cozinhar. Considerando os determinantes sociais, como passar muitas horas em função do trabalho, e econômicos, como pouco poder de compra, a organização é o melhor caminho individual para tirar os ultraprocessados da vida. 

“Quando a mulher vai para o mercado de trabalho e volta para casa, se a família não tiver dividido essa função, ela vai escolher preparar comida mais rápida, porque já tem um acúmulo de funções. A família deveria se reestruturar para todo mundo cozinhar e melhorar os hábitos alimentares: saber se organizar em casa, ir a feiras… Isso mudaria um pouco esse cenário”, avalia Salaroli. 

Monica Cattafesta, doutoranda em Saúde Coletiva na Ufes, faz parte também do GEMNUT. Para ela, as habilidades culinárias são importantes para fugir dos ultraprocessados e melhorar a qualidade da alimentação, mas não podem ser o único caminho.

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“Habilidade culinária é saber fazer arroz, usar panela de pressão, saber preparar um molho, grelhar uma carne, higienizar uma salada. São habilidades para autonomia e fundamental para todos. Mas isso não pode ser responsabilidade individual, querer que todos tenham o mesmo acesso”, analisa Cattafesta. E completa: “Ir a uma feira orgânica tem a ver com deslocamento, dinheiro, tempo gasto. O ambiente e a política têm de tratar dessas questões também.” 

Arroz e feijão: atualmente caros, são os melhores exemplos de "comidas de verdade" | Foto: Celso Pupo Rodrigues / Pixabay
Arroz e feijão: atualmente caros, são os melhores exemplos de “comidas de verdade” | Foto: Celso Pupo Rodrigues / Pixabay

Paula Johns, da ACT, avalia que uma das formas de tornar esse acesso a produtos naturais mais justo, considerando as desigualdades do Brasil, é tornar a concorrência mais leal.

“Por mais que o orgânico tenha mais valor agregado, acaba tendo menor escala, cadeias de distribuição mais curtas. O produtor capina na mão, não usa veneno, tem mais tempo de mão de obra. Como concorre em relação a preço, se em vez de capinar o outro pode jogar veneno?” 

A mudança do consumo não depende só da vontade do consumidor final, mas do ambiente alimentar em que ele está inserido: se não é favorável a uma alimentação saudável, por vários determinantes, não é saber que o orgânico é bom ou saber fazer arroz que vai mudar o cenário. 

 A comida no futuro

Uma das organizações da sociedade civil que busca fazer a diferença nas políticas públicas no nível municipal é a Comida do Amanhã. A organização luta por uma “transição para sistemas alimentares saudáveis e sustentáveis”, para mudar o entendimento atual que temos sobre comida e também atuar em prol de mudanças estruturais.

Entre os próximos projetos do Comida do Amanhã estão uma articulação com prefeituras e uma ação direcionada a crianças, para valorizarem a comida de verdade.

“Nosso trabalho é trazer o máximo de informações para mudar o pensamento, mas não glamourizar: comida de verdade é arroz com feijão. Mas a gente também sabe que nesse momento está caro, sabemos que comer macarrão instantâneo é mais barato. Por que isso acontece? Por que não garantimos estoque de alimentos? Não pode colocar a responsabilidade no indivíduo e tirar do Estado”, avalia Monica Guerra, fundadora e diretora da organização. 

Para Guerra, a mudança estrutural e sistêmica necessária para mudar os hábitos alimentares e torná-los mais sustentáveis começa a nível local, principalmente em uma época em que o diálogo com o governo federal está difícil: “A alimentação é um direito constitucional. E se é constitucional, é papel do Estado garantir essa alimentação”. 

A diretora do Comida do Amanhã faz coro com outros pesquisadores e ativistas do tema.

“Não podemos individualizar o vilão. A pessoa não é culpada de estar comendo errado, de não ter três horas por dia para cozinhar quinoa para a família. É um desafio sistêmico e estruturante. A nossa narrativa é trazer os benefícios da alimentação local, e fazemos de várias formas. Trazemos histórias para mostrar o quanto é diversa, rica e preciosa a biodiversidade que pode ter no no prato. Quanto mais biodiverso, mais nutritivo e resiliente para a natureza.”

*Lola Ferreira é repórter da Gênero e Número.

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