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Entrevista

Desinformação e violência nas redes mudam comportamento de jornalistas, mostra pesquisa

capa_reportagem

A pesquisa realizada pela Gênero e Número em parceria com a Repórteres sem Fronteiras apresenta dados, depoimentos e entrevistas em profundidade sobre os impactos e efeitos da desinformação e da violência no dia a dia de jornalistas mulheres e LGBT+

Por Vitória Régia da Silva*

Assim que a jornalista Vera Magalhães revelou, em 2020, que o presidente Jair Bolsonaro estava convocando atos antidemocráticos, passou a ser alvo do que ela viria a classificar como o  maior ataque de ódio na internet que já sofreu: “Nessa ocasião, vieram ameaças mais claras, com a publicação, por exemplo, de onde os meus filhos estudavam, nome da escola dos meus filhos, que eu tive de recorrer para que o Twitter tirasse aquela postagem porque colocava os meus filhos em risco”, relembrou durante entrevistra concedida para a pesquisa “O impacto da desinformação e da violência política na internet contra jornalistas, comunicadores mulheres e LGBT+” (acesse o site para baixar o relatório completo).

Em sintonia com os depoimentos de Magalhães,  92,5% das profissionais que responderam à pesquisa afirmaram que o fenômeno da desinformação é “muito grave” e que afeta o trabalho que realizam. Em 55% dos casos, afeta o trabalho diariamente, a vida profissional (55%) e a vida pessoal (45%).

Para a coordenadora de incidência da Repórteres sem Fronteiras, Bia Barbosa,  um aspecto que chama a atenção na pesquisa é a mudança do comportamento dos profissionais na internet, como reflexo da percepção que têm da violência. “Essa prática de violência é tão bem sucedida que resulta até mesmo na intimidação das profissionais que não sofreram diretamente o ataque, mas que por medo de sofrer já mudam seu comportamento”. Os dados  revelam que 85% mudaram o comportamento nas redes sociais nos últimos três anos para se proteger dos ataques, mesmo quem não sofreu violência online.

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Evento de lançamento acontece nesta terça, 18h30, com jornalistas e pesquisadoras

Barbosa pontua que muitas vezes a desinformação e a violência silenciam essas mulheres [e pessoas LGBT+], por isso houve a preocupação em entender se e como o  fenômeno da desinformação e da violência online contra jornalistas é uma nova forma de silenciamento e de censura. “Se na época da ditadura tínhamos a censura estatal, depois do Judiciário, ou dos próprios veículos de comunicação que censuravam seus profissionais, na era das redes sociais isso  se manifesta por meio das práticas de desinformação e violência contra esses grupos, com o silenciamento desses profissionais que deixam de apurar reportagens ou mudam seu comportamento nas redes por conta disso”.

Nas sete entrevistas em profundidade realizada pela Gênero e Número para a pesquisa, que contribuem para a análise do contexto junto aos dados coletados por meio de questionário online, foi recorrente o depoimento de jornalistas que dizem terem mais cautela com alguns tipos de pauta, ou mesmo evitá-las: “Eu continuo fazendo reportagem, mas algumas pautas eu abri mão porque ia ter que bater de frente com os mesmos poderes aqui em Santa Catarina e eu falei ‘bom não é o momento para isso'”, contou Schirlei Alves, repórter que em 2021 sofreu ataques de ódio por dois meses nas redes sociais após publicar reportagem sobre o caso Mariana Ferrer.

Perfil

A pesquisa coletou respostas de 237 participantes. A maioria (43%) se autoidentifica como mulher cisgênero, branca e sem filho.   A idade média é 33 anos. Os/as respondentes são, majoritariamente, profissionais bastante  qualificados, com ensino superior completo e pós-graduação, e atuando há mais de dez anos na profissão. Trabalham principalmente em capitais (78,8%) e têm renda superior a R$5,5 mil. A maioria atua como pessoa Jurídica, freelancer ou prestador/as de serviço. Além disso, quase metade dos respondentes, 48,9%, atua com mídia digital e 28,7%, em assessoria de imprensa.

Como essa violência impactou o seu trabalho?

Diminuí ou mudei a forma como utilizo as redes sociais

31%

Desenvolvi problemas relacionados à saúde mental

15%

Evito produzir sobre alguns assuntos

14%

Perdi o ânimo para realizar o meu trabalho

e ainda não o recuperei

10%

Tenho medo de recorrer a algumas fontes

de informação após o caso de violência

8%

Deixei de cobrir a área/ tema temporariamente

7%

Evito assinar ou creditar meu nome

6%

Fontes de informação se recusam

a conceder entrevistas

3%

Chefia passou a não incentivar que eu cubra

determinados temas

2%

Precisei me afastar do trabalho para me proteger

2%

Saí do meu emprego

2%

Perdi o emprego

1%

fonte pesquisa O impacto da desinformação e da violência política na internet contra jornalistas, comunicadoras e lgbt+

Como essa

violência impactou

o seu trabalho?

Diminuí ou mudei a forma como utilizo as

redes sociais

31%

Desenvolvi problemas relacionados à saúde mental

15%

Evito produzir sobre alguns assuntos

14%

Perdi o ânimo para realizar o meu trabalho

e ainda não o recuperei

10%

Tenho medo de recorrer a algumas fontes

de informação após o caso de violência

8%

Deixei de cobrir a área/ tema temporariamente

7%

Evito assinar ou creditar meu nome

6%

Fontes de informação se recusam

a conceder entrevistas

3%

Chefia passou a não incentivar que eu cubra

determinados temas

2%

Precisei me afastar do trabalho para me proteger

2%

Saí do meu emprego

2%

Perdi o emprego

1%

fonte pesquisa O impacto da desinformação e da violência política na internet contra jornalistas, comunicadoras e lgbt+

¼ precisou fechar as redes sociais

Os efeitos da violência e da desinformação sobre o dia a dia das jornalistas mulheres e LGBT+ são diversos. Entre as pessoas que já sofreram algum tipo de violência, 31% diminuíram ou mudaram a forma como utilizam as redes sociais em seu trabalho e 25% precisaram fechar as contas em redes sociais após os ataques. 

“Vira e mexe recebo ataques de ódio no Twitter porque eu não me silencio quando vejo transfobias acontecendo na imprensa”, conta o jornalista Caê Vasconcelos. “Então é bem comum não só eu receber ataques de ódio, mas eu sempre vejo [ataques]. Principalmente quando a gente fala de pessoas LGBT+, pessoas negras, mulheres, pessoas indígenas. São alvo de ataques de ódio na internet”, destaca.

A saúde mental também é fortemente impactada pela violência online. A pesquisa mostra que 15% desenvolveram algum tipo de problema mental durante o período e 10% reconheceram terem perdido o ânimo para realizar suas atividades profissionais. Magalhães conta que o episódio que levou o presidente a ir até uma rede de TV para a atacar pessoalmente a afetou muito de forma física e mental: “Tive até reações físicas, passei mal, então foi a vez mais violenta […] certamente cobra um preço em termos de saúde mental. Você se sente de fato fragilizada”.

Percepção do aumento da violência

Metade dos participantes do estudo afirmaram já terem sofrido algum tipo de violência devido à sua profissão, sendo que 41,9% são pessoas que se auto identificaram como sendo do gênero feminino. E a percepção da violência também tem gênero, já que entre as que afirmaram já terem presenciado alguma situação de violência online, o número salta para 81,4% – sendo 67,4% das vítimas mulheres.

A violência não para por aí. Para 36,8% das pessoas que reportaram terem sofrido algum tipo de agressão online, a ação motivou novos ataques e 67% das pessoas que testemunharam violência contra colegas ou conhecidos têm a percepção de que um episódio de violência resulta em novo.

A repórter Juliana Dal Piva, também entrevistada para a pesquisa, observa, a partir de 2013, a escalada da intimidação a jornalistas que cobrem política, e narra episódios que vivenciou e que lhe deixaram, em alguns períodos, temerosa inclusive de sair de casa, sendo o mais grave desses episódios a ameaça que sofreu por mensagem do advogado do presidente Jair Bolsonaro, Frederico Wassef. Dal Piva recorreu à justiça, contou também com apoio da classe de jornalistas, mas pondera que há um ataque diferente na sua direção, por ser mulher. “Se você olhar para o meu episódio mais grave, vários colegas jornalistas cobrem esse assunto que envolve o Bolsonaro, [Fabrício] Queiroz e companhia. Um deles recebeu nada [de ataque]. Tem um outro colega jornalista, homem que fez algumas matérias muito importantes do caso também, que é o Fábio Serapião, o repórter que revelou o relatório do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) lá em dezembro de 2018. Ele é o repórter que fez a matéria sobre os cheques da Michele [Bolsonaro], que ela recebeu do Queiroz. O Frederico não mandou essas mensagens para o Serapião, entende?”, analisa.

Entre os tipos de violência mais presentes, conteúdos com xingamentos ou palavras hostis aparecem em primeiro lugar (35,4%), seguido por ataque ao trabalho (34,1%), desqualificação do trabalho realizado (33,7%) e ataques misóginos ou com conotação sexual (19,4%).

“De uns tempos pra cá, especialmente eu acho que durante o governo Bolsonaro, a gente tem percebido, eu tenho percebido, até mesmo olhando a situação de colegas, que os ataques têm sido muito mais pessoais, voltados diretamente para o jornalista. E isso é uma forma de intimidar e de silenciar também o profissional. Especialmente quem trabalha como freelancer, como agora eu tô trabalhando”, conta a jornalista freelancer Shirlei Alves.

Qual foi o tipo de violência online sofrida?

Xingamentos ou

palavras hostis

35%

Ataque ao trabalho

que realizei

34%

Desqualificação do trabalho

34%

Ataque misógino ou

com conotação sexual

19%

Ameaças à reputação

profissional

16%

Ameaças à reputação

8%

Ameaças à integridade física

8%

Imagem (uso indevido

de fotos e/ou vídeos)

6%

Doxxing*

4%

Spoofing**

4%

Ameaças contra familiares

3%

Ameaças à identidade

de gênero

3%

Racismo

3%

Ameaças ou ataque

à orientação sexual

3%

* doxxing - divulgação de dados pessoais como endereço e telefone

** spoofing - ato de alguém deturpar ou se apropriar publicamente da identidade de outra pessoa

fonte pesquisa O impacto da desinformação e da violência política na internet contra jornalistas, comunicadoras e lgbt+

Qual foi o tipo de violência online sofrida?

Xingamentos ou

palavras hostis

35%

Ataque ao trabalho

que realizei

34%

Desqualificação

do trabalho

34%

Ataque misógino ou

com conotação sexual

19%

Ameaças à reputação

profissional

16%

Ameaças à reputação

8%

Ameaças à integridade

física

8%

Imagem (uso indevido

de fotos e/ou vídeos)

6%

Doxxing*

4%

Spoofing**

4%

Ameaças contra

familiares

3%

Ameaças à identidade

de gênero

3%

Racismo

3%

Ameaças ou ataque

à orientação sexual

3%

* doxxing - divulgação de dados pessoais como endereço e telefone

** spoofing - ato de alguém deturpar ou se apropriar publicamente da identidade de outra pessoa

fonte pesquisa O impacto da desinformação e da violência política na internet contra jornalistas, comunicadoras e lgbt+

Para Bia Barbosa, em um cenário de banalização da violência contra a mulher na internet, a desinformação e a violência política contra jornalistas impactam muito mais fortemente as comunicadoras mulheres do que homens. Ela observa que a  violência contra mulher e comunidade LGBT+ carrega na conotação sexual, foca na aparência física ou tenta diminuir a credibilidade , o que já são práticas da  sociedade. 

Segundo as respondentes da pesquisa, os agressores eram principalmente desconhecidos das vítimas (36,7%), 18,9% eram perfis públicos, 12,6% foram alvo de bots e 8,4% dos casos de agressões partiram de políticos. No último caso, o presidente da República, Jair Bolsonaro, aparece como o segundo perfil com maior percentual de casos observados, sendo indicado por 19,8% dos participantes como uma fonte dos ataques contra jornalistas, atrás apenas de representantes do Legislativo (21,9%), o que reforça como esse tipo de violência vem sendo naturalizada nas esferas do poder. 

“O Governo Bolsonaro usa a violência contra jornalistas e práticas de desinformação como estratégias de comunicação. Isso vem desde a campanha eleitoral e se institucionaliza como estratégia de política do Palácio do Planalto, seguindo o exemplo do Trump (EUA), que chamava todas as matérias que ele não concordava de fake news”, destaca Barbosa. “Vemos como esses ataques têm crescido e são associados à desinformação e alguns até ameaças e ofensas para atacar a credibilidade da imprensa”.

A desinformação é um dos eixos da pesquisa. Os outros dois eixos são “violência online” e “proteção e plataformas” Os principais efeitos relacionados à desinformação na relação sociedade e imprensa são a naturalização dos ataques a jornalistas (85,6%) e a descredibilização do trabalho da imprensa (81%), segundo as respondentes.

Entre os profissionais que já sofreram violência online, apenas 21,9% afirmaram que os ataques ocorreram em apenas um único lugar, o que mostra como a violência e o discurso de ódio se ampliam nas redes. A principal plataforma onde  jornalistas relatam ter sofrido ataques de violência é o Facebook (26,1%). Na sequência,Twitter (20,6%). A página do veículo onde a pessoa trabalha aparece em terceiro lugar, com 17,3% dos casos reportados.

A jornalista e cofundadora da Amazônia Real, Kátia Abreu, comenta que tem como política do veículo a não publicação de comentários preconceituosos. “A gente recebe muitos comentários racistas, comentários de pessoas descontentes com as reportagens, a gente não publica comentários misóginos, nem racistas, nem preconceituosos. A gente neutraliza, mas mesmo assim tem pessoas que ainda enviam muitos ataques via comentários, isso a gente recebe. E a gente não publica, a gente não vai divulgar de maneira nenhuma”, disse em entrevista a pesquisa. 

Onde ocorreu a violência online?

facebook

twitter

26%

20,7%

página do veículo

de comunicação

para o qual trabalho

instagram

14%

17%

whatsapp

12%

youtube

*alguns não responderam a esta questão ou responderam "outro"

3%

fonte pesquisa O impacto da desinformação e da violência política na internet contra jornalistas, comunicadoras e lgbt+

Onde ocorreu a violência online?

facebook

twitter

26%

20,7%

instagram

página do veículo de comunicação

para o qual trabalho

14%

whatsapp

17%

12%

*alguns não responderam a esta questão ou responderam "outro"

youtube

3%

fonte pesquisa O impacto da desinformação e da violência política na internet contra jornalistas, comunicadoras e lgbt+

Plataformas não respondem à altura da escalada de ataques

As plataformas ainda têm um longo caminho para oferecer suporte e respostas adequadas para implementação de mecanismos de proteção e legislação para fiscalizar e punir esses crimes. Segundo o estudo, mais de 1/4 das pessoas que sofreram alguma violação online (26%) não teve suas reclamações avaliadas como válidas pelas plataformas e 1,3% sequer conseguiu realizar uma denúncia na plataforma em que ela ocorreu.  Para 52,5% dos respondentes, deveria existir uma legislação específica mais dura para responsabilizar a produção e a disseminação de notícias falsas.

Como não existe uma solução única para acabar com a desinformação e discurso de ódio contra jornalistas mulheres e LGBT, a Gênero e Número e a Repórteres Sem Fronteiras trazem uma série de recomendações que apontam caminhos que passam pelos papéis do Estado, das plataformas e dos meios de comunicação. Todo o material está disponível gratuitamente, pode ser acesso online e também descarregado, em pdf, no site da pesquisa.

*Vitória Régia da Silva é editora-assistente da Gênero e Número

leia

“Eu continuo fazendo reportagem, mas tive que abrir mão de algumas pautas”, diz Schirlei Alves

capa_entrevistas3
Schirlei Alves é jornalista especializada em jornalismo investigativo e acumula ampla produção de reportagens sobre violência contra as mulheres. Atualmente é jornalista autônoma, colaborando como freelancer para diferentes veículos. É uma das 7 pessoas entrevistadas em profundidade para a pesquisa “O Impacto da Desinformação e da Violência Política na Internet contra jornalistas, Comunicadoras e Pessoas LGBT+”
Você pode falar sobre a sua formação, suas áreas de atuação como jornalista e comunicadora?

Schirlei Alves – Eu sou formada há 13 anos e atuei sempre, a maior parte do tempo, como repórter. Fui editora também. Trabalhei nos principais veículos de comunicação de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, então trabalhei no A Notícia, no Diário Catarinense, na Zero Hora, no Diário Gaúcho, fazia participações nas rádios também. CBN diário e Rádio Gaúcha, trabalhei muito com jornalismo que tem como ponto de partida os direitos humanos. Trabalhei muito com situações de segurança pública. Quando eu comecei, eu fui para o Canadá. Fiz o meu estágio em um jornal lá que é o The Epoch Times, trabalhei três meses nesse jornal. Quando eu retornei, comecei a trabalhar numa TV local, passei para rádio, trabalhei numa rádio e aí depois eu comecei nesses veículos de jornal impresso. A Notícias do Dia foi o último veículo tradicional que eu trabalhei como editora, e sai em setembro de 2020. Passei a trabalhar exclusivamente como freelancer. Eu tenho escrito para o Intercept, o Joio e o Trigo. Eu já fiz matérias para a BBC, Estadão, Portal Catarinas. Acho que é isso. E agora eu estou participando também de um projeto da Agência Lupa, que é distribuição de informação checada para uma rede de rádios comunitárias e universitárias, e continuo fazendo as minhas matérias. Basicamente é isso.

Você percebe que há uma naturalização do discurso de ódio no meio jornalístico? E se sim, de que maneira?

Schirlei –  Eu não mencionei antes que uma temática que eu trabalhei muito desde o início da minha carreira foi a violência contra a mulher, violência de gênero. Então esse sempre foi um assunto delicado de tratar mesmo dentro das Redações. Sempre tinha que ter uma justificativa, um super número para abordar o assunto. Sempre senti uma certa resistência. Vou dar um exemplo. Uma vez eu fui participar de um evento do Instituto Patrícia Galvão, em São Paulo, sobre cobertura de feminicídio. E aí aquela discussão foi muito importante para mim porque foi uma virada de chave. Isso já faz bastante tempo, a gente debatia o uso do termo “crime passional”, a gente usava muito. Jornalismo usava muito o termo “crime passional” e aí se entendeu que não cabia mais usar o “crime passional” que não fazia o menor sentido. O feminicídio, a Lei do Feminicídio, veio justamente acabar com essa ideia de passionalidade. E eu levei isso com uma certa empolgação para a Redação, pois eu imaginava que ia ser super bem aceita, e na verdade eu enfrentei várias resistências e tive que fazer um trabalho de um grande esforço exaustivo para explicar o porquê, né? Explicar tecnicamente por qual razão eu não deveria mais usar esse termo. Esse é um assunto que eu percebo que sempre tem um embate, provoca muito as emoções das pessoas. Eu fiz várias matérias investigativas, várias denúncias e obviamente isso incomoda pessoas e instituições. Então fui acostumada a ter que lidar com processo, mas era diferente porque o alvo eram os veículos.  A gente, repórter, tinha uma certa proteção. Tinha equipe jurídica do veículo para responder. E também havia uma escolha de “não quero que meu nome apareça na reportagem”. Às vezes a polícia abria uma investigação e te chamava pra prestar um depoimento. Mas de uns tempos pra cá, especialmente eu acho que durante o governo Bolsonaro, a gente tem percebido, eu tenho percebido, até mesmo olhando a situação dos colegas, que os ataques têm sido muito mais pessoais, voltados diretamente para o jornalista. E isso é uma forma de intimidar e de silenciar também o profissional. Especialmente quem trabalha como freelancer, como agora eu tô trabalhando. É algo que te deixa um pouco mais insegura.  Porque você não tem um veículo por trás de ti, e tu estás trabalhando sozinha. E claro que quando tu faz uma matéria para um veículo, aquele veículo também se responsabiliza, mas tu não faz parte daquele veículo. Depois do que aconteceu com a reportagem da Mariana [caso Mariana Ferrer, em que Schirlei realizou reportagem onde revelava a tese do “estupro culposo” e a humilhação vivenciada pela vítima diante da Justiça], por exemplo, todo o suporte jurídic, eu posso dizer que estou sendo bem atendida, mas quando tu vai fazer uma outra matéria, tu fica pensando duas vezes. Eu continuo fazendo reportagem, mas algumas pautas eu abri mão porque ia ter que bater de frente com os mesmos poderes aqui em Santa Catarina e eu falei “bom não é o momento para isso”. Orientei a pessoa que trouxe a denúncia para mim a procurar um outro jornalista. Talvez se fosse em um momento diferente eu teria coragem de pegar essas pautas e seguir fazendo o meu trabalho. Então acho que temos dois momentos distintos, eu pelo menos senti isso na minha carreira, essa diferença. 

E quanto a esses discursos de ódio proferidos contra mídia, contra jornalista, você consegue identificar mais ou menos o perfil de quem prefere? Quem são essas pessoas que fazem esse discurso? 

Schirlei – Eu não posso falar de um modo geral, mas a partir das experiências que eu vivi, posso dizer que eu recebi uma avalanche de mensagens de ódio e é um ataque muito rápido e muito articulado. As mensagens são todas muito parecidas, os compartilhamentos de postagens prontas, digamos assim, montadas, como uma arte, sabe? Elas são compartilhadas em massa por vários perfis e eu via muitos perfis falsos e muitos perfis também que já tinham um histórico [de ataque]. Se você olhasse o histórico daquele perfil, você via que era um histórico de ataques a outras pessoas por outras pautas, por outras situações também. 


Você avalia que o bolsonarismo tem alguma relação com isso? Assim como o governo do Bolsonaro e os discursos de ódio? 

Schirlei –  A gente tem visto situações em que o presidente incita esse discurso contra jornalistas. A gente vê o caso da Patrícia Campos Mello. Eu acho que encoraja as pessoas a reproduzirem esse tipo de discurso de ódio contra a imprensa. Era algo que já vinha acontecendo, não começou no governo Bolsonaro. Já era um movimento que vinha acontecendo, mas que se intensificou.

Você avalia que o contexto da pandemia escalou de alguma maneira a propagação de discursos de ódio? 

Schirlei –  Eu avalio que pode ter ajudado sim [a escalar]. Porque as pessoas estão muito mais presas à internet, conectadas ali. Mas eu acho que mexeu com os ânimos das pessoas também. Nunca é apenas uma coisa. Entendo que é um somatório de situações, mas eu acho que intensifica, eu acho que contribui, até porque estou trabalhando nesse projeto de checagem da Lupa, que citei anteriormente, e a gente percebe muita produção de informação falsa  relacionada à pandemia. Muita, muita, muita. Então a gente está o tempo inteiro tendo que verificar essas informações que são produzidas, fabricadas mesmo. Esse movimento de informação falsa ganhou um “plus”, digamos, com a pandemia. 

Às vezes a gente faz um trabalho muito de formiguinha e a indústria da desinformação parece ter muito mais braço para produzir. A gente, enquanto jornalista, tem que aprender a atingir o público em massa.

E como você percebe o fenômeno da desinformação e o impacto disso na sociedade e na prática do jornalismo? 

Schirlei –  É muito difícil tu fazer o teu trabalho e ter que ficar justificando. Eu percebo que as pessoas ficam muito no título, não leem a matéria. Às vezes fazemos um super trabalho jornalístico, pode ser algo que exigiu uma grande pesquisa, onde você fica meses trabalhando em cima de uma história, e aí quando você vai ver a repercussão, é uma repercussão tão rasa. Não é pela preocupação com a crítica, a crítica é importante, mas quando você percebe é bem Às vezes o questionamento até vem do que está dentro da matéria, ela leu a matéria, não apenas o título, mas não entendeu. Eu sinto que às vezes a gente faz um trabalho muito de formiguinha e que a indústria da desinformação parece ter muito mais braço para produzir. A gente, enquanto jornalista, tem que aprender a atingir o público em massa. A gente vê a desinformação chegando até as pessoas pelo WhatsApp, a gente tem que começar a chegar pelo WhatsApp também, com as nossas informações, com o que a gente apura. E a gente tem que fazer frente a isso, mas me parece realmente uma luta desigual. Eu percebi isso quando eu fui atacada porque os ataques começaram da noite para o dia e foi uma avalanche, era muita coisa, não tinha nem como monitorar tudo aquilo, sabe. E a informação não chega da mesma forma, não chega com a mesma potência, com a mesma força. Então, a gente tem que estudar esse fenômeno e encontrar caminhos para que o jornalismo consiga atingir mais pessoas, quebrar um pouco essa ideia de “esse monstro” que algumas pessoas fazem da imprensa, do jornalismo. A gente tem muitos trabalhos de jornalistas independentes que estão fazendo, acho, que uma terceira via, trazendo outro tipo de jornalismo, com posicionamento. Mas é isso, tem um público, tem um nicho que atinge. Então com esse trabalho da Lupa, por exemplo, do qual estou fazendo parte, estamos chegando a rádios comunitárias em lugares de “desertos de notícia”. Em muitas cidades, essas rádios são o único veículo da cidade. Isso tem um impacto. E esse lugar do impacto do jornalismo é muito importante. Outro dia eu fiz uma matéria para o O Joio e o Trigo sobre um programa do Governo Federal que não estava funcionando aqui em Santa Catarina porque o Governo Estadual tava exigindo uma nota eletrônica, sendo que eram produtores rurais que mal tinham acesso a internet, uma coisa tão simples de se resolver que ninguém estava resolvendo. Então a gente fez uma matéria, mostrou a situação e ele voltou a funcionar, as pessoas puderam tirar suas notas lá de papel, vender os seus produtos e a vida dessas pessoas que foi impactada, né? Então, eu fico tão feliz com esses resultados, sabe? Eu acho que sempre tem um impacto, por mais que a gente esteja aí na luta contra a desinformação, mas sempre pode ter impacto na vida de alguém, de uma comunidade, então isso é válido também. 

Você percebe que há uma perda de confiança na mídia por parte da sociedade? Considerando a existência de diferentes tipos de mídias, a hegemônica, a local… 

Schirlei – Nos veículos em que eu trabalhei e que eram mais voltados ao público local, acho que as pessoas se identificam com o veículo. Quando elas têm uma história com o veículo, por exemplo. Trabalhei em rádio, então as pessoas parecem que são tuas amigas. Elas falam, elas ligam para a rádio, e como a tua voz entra na rádio todos os dias, as pessoas, ouvintes, sentem como se tu fosse parte da família. Acho que o impacto local é diferente do impacto de um veículo grande, nacional. São públicos diferentes, eu acho também. Mas como eu falei, isso é mesmo percepção, pois não estou estudando isso. Mas sabemos que existe essa movimentação de tentar descredibilizar [a imprensa], especialmente veículos grandes, de orientação às pessoas. Algo como “Ó, não assista tal emissora. Não leia tal jornal”, e isso acaba tendo impacto, mas às vezes quando chega com uma outra opção, “ó, dá uma olhada aqui”. Eu já fiz esse exercício de fazer essa proposta para alguns colegas ou pessoas da família, “ó, dá uma olhada nesse site, olha as notícias que eles tão produzindo, eu já escrevi para esse site. O trabalho deles é de tal forma, é consistente”. Ou “olha esse site aqui, esse pessoal ganhou um prêmio internacional, tem uma relevância, que tal dar uma olhadinha nesse nessa outra opção?”. Realmente o veículo local tem essa responsabilidade gigante nas mãos de chegar até as pessoas. Então penso que o caminho é encontrar estratégias para chegar [até a audiência] e dizer: “olha só, a gente está trazendo essa proposta aqui, o que você acha de acompanhar e ver o nosso trabalho”.

Como você acha que o poder público tem atuado nessa temática da liberdade de imprensa? 

Schirlei –  Nos últimos tempos, trabalhando em alguns veículos tradicionais, eu percebi mais influência do poder público nas decisões das pautas. Já acompanhei situações, e isso foi bem recente, onde ouvi “não, não vamos bater nesse nessa instituição porque a gente está tendo uma relação mais amigável”. Então eu percebi isso, aconteceu comigo de pautas serem barradas por  essa influência mais velada,  digamos assim, de patrocínio, enfim, de ter essa essa ligação com instituição pública. E claro, quando o poder público processa um jornalista, é uma forma de intimidar o trabalho dessa pessoa. Então eu acho que a gente tem visto mais ações judiciais movidas contra jornalistas, e eu acho que isso impacta, sim, no trabalho. Acho que isso mina um pouco o trabalho. Então de certa forma tem uma interferência, né? Eu estou também respondendo a processos, então é algo que te breca um pouco. Eu acho que barra um pouco a tua atuação. Às vezes até manifestações por meio de nota que trazem uma ideia, que movimenta uma ideia contrária ao trabalho do jornalista. Muitas vezes o fato de não se posicionar também, tem esse outro aspecto. Eu percebo que é muito difícil de conseguir um contraponto do poder público nos tempos atuais. É comum não conseguir entrevistar mais ninguém, é tudo por nota. Então também digo que isso de você não conseguir mais ter acesso ao poder público é bem prejudicial para o trabalho, para o exercício do trabalho do jornalista. Essa interferência [na liberdade de expressão] pode ocorrer de diversas formas. 

Nunca tive medo de ser jornalista, nunca tive medo, sempre fui muito corajosa, sempre fiz muitas matérias, denúncias, sabe, envolvendo diferentes instituições de poder, mas pela primeira vez eu me senti intimidada e senti que havia um movimento para me calar mesmo”

Você poderia falar sobre ataques que sofreu na internet, o teor, o nível, o conteúdo, principalmente nos últimos cinco anos?

Schirlei –  Antes do caso  Mariana Ferrer, eu não lembro de ter tido, de ter sofrido uma violência específica assim. Tiveram algumas situações pontuais, de algumas matérias, de ter manifestação nas redes sociais, de pessoas que não gostaram da reportagem. Mas eram coisas muito sutis. Nesse caso Mariana Ferrer foi bem violento, e eu de fato me senti vítima de uma a violência virtual. Foi uma avalanche, como já falei, de mensagens de ódio, de cunho misógino também, mensagens que questionavam  minha sanidade mental, o meu profissionalismo e insinuando várias coisas, como “ah, tu está sendo paga pra isso”. Foram diferentes formas de violência, até algumas mensagens com tom de ameaça, como “você merece uma bala na cabeça”, “o que é teu ta guardado”. Então são coisas que intimidam bastante porque é um volume muito grande, foi um volume muito grande, foram dois meses ininterruptos de mensagens todos os dias, me marcavam em post todos os dias. Vasculharam a minha vida, encontraram fotos minhas, vídeos, fizeram montagens, compartilharam meu endereço de e-mail e essas pessoas faziam convites para me atacarem. Era assim: “Ó, essa é a jornalista fulana de tal, essas são as redes dela, esse é o e-mail dela, vai lá, ataca ela”. Então tinha esse convite assim, e isso é muito assustador porque parece que não tem limite. Nos dias em que foi mais intenso, fiquei até com medo de sair de casa porque aqui em Florianópolis teve um ataque a um escritório, eu não sei muito bem o que aconteceu, mas acho que tacaram pedra, enfim, um escritório. Pensaram que era o escritório que defendia Mariana Ferrer e não era. Fiquei um tempo na casa da minha mãe por uma questão de segurança. Então foi muito intenso, foi algo inédito, que eu nunca tinha vivido, nunca imaginei que eu fosse viver na minha vida dessa forma. Nunca tive medo de ser jornalista, nunca tive medo, sempre fui muito corajosa, sempre fiz muitas matérias, denúncias, sabe, envolvendo diferentes instituições de poder, mas pela primeira vez eu me senti intimidada e senti que havia um movimento para me calar mesmo. E nesse caso específico eu acho que incomodou muito o fato de se discutir o que é consentimento. Acho que esse tema mexe muito, a gente está vendo agora o caso do Nego do Borel ali na Fazenda [programa A Fazenda], né? E eu acho que os argumentos são muito parecidos. Então havia um ódio muito grande contra Mariana e isso acabou se estendendo pra mim também. Porque já tinha uma rede articulada que atacava ela. Então essas pessoas acabaram me vendo como segundo alvo porque tinham pessoas que já vinham fazendo esses ataques. Essa foi a experiência mais drástica que eu tive, como eu falei, mudou minha forma de trabalhar, eu passei a assinar matérias com colegas, porque é uma forma também de dividir responsabilidade, uma forma de eu me sentir mais segura também. Eu não vou dizer que eu não tenho mais coragem, eu continuo, sim, sendo corajosa e fazendo os trabalhos, mas com muito mais certa cautela, sabe? Então, acho que isso impactou minha vida de diversas formas. Embora tenha tido um impacto muito positivo paras vítimas, com os desdobramentos de projetos de lei, de resolução do CNJ [Conselho Nacional de Justiça] para a proteção das vítimas de violência sexual. Fiquei muito feliz com esses desdobramentos. 

A gente publicou [a matéria] e começou a repercussão a crescer, a crescer, crescer: na sexta-feira eu dormi de um jeito e no sábado eu acordei de outro, completamente assustada com o que estava acontecendo, sem entender nada.

Você teve algum apoio e suporte jurídico nesse caso Mariana Ferrer? E você chegou a recorrer nas plataformas, nos meios digitais em que esses ataques aconteceram? 

Schirlei – O apoio jurídico eu recebi do Intercept, pela equipe jurídica deles. Então quanto a isso, foi desde o início apoio editorial, apoio jurídico, acho que quanto a isso não tive nenhum problema, foi bem tranquilo mesmo. O mais difícil é lidar emocionalmente mesmo com tudo isso. Houve uma articulação grande das redes, das instituições, a Repórteres sem Fronteiras foi uma que se manifestou, a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) foi, talvez, a primeira instituição que me deu apoio. E foi além da publicação de nota. Me ligavam todas as semanas para saber como é que eu estava, se eu precisava de alguma coisa, também me ofereceram suporte jurídico, mas aí como eu já tinha do Intercept não havia necessidade. Ainda assim recebi algumas orientações por telefone, com relação aos ataques nas redes. A Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas) também, o sindicato aqui dos jornalistas de Santa Catarina, foram muitas instituições assim que me deram esse suporte. A Artigo 19, com quem fiz várias reuniões. Foi muito legal isso. Só que o time das instituições não é o mesmo time da rede de ódio, sabe? Então, até falei isso em alguns eventos. Que a articulação seja mais rápida, e seja maior. Porque a rede de ódio é muito rápida, como eu já contei, foi da noite para o dia. Eu dormi de um jeito e acordei de outro. Eu lembro disso, do exato momento em que isso aconteceu. A gente publicou [a matéria] e começou a repercussão a crescer, a crescer, crescer: na sexta-feira eu dormi de um jeito e no sábado eu acordei de outro, completamente assustada com o que estava acontecendo, sem entender nada. Eu participei de uma reunião na ONU também, foi uma reunião virtual que reuniu várias instituições justamente para discutir sobre a proteção de jornalistas. Como que a gente vai agir a partir de agora? Porque além do meu caso, tiveram vários outros. Outras mulheres, principalmente. Foi um ano muito violento.  Eu até participei de um evento da Federação Nacional dos Jornalistas em que eu falei: “olha, vocês precisam muito olhar para o jornalista autônomo” porque a gente está tendo cada vez mais profissionais trabalhando por conta, a gente sabe que vaga em veículos está cada vez mais escassa. Faço parte de um  grupo  no WhatsApp, de jornalistas do Brasil inteiro, então a gente discute muito sobre a nossa profissão e eu vejo que tem muita gente trabalhando sozinho. E as instituições precisam olhar para esses jornalistas porque muitas investigações às vezes partem dessas pessoas. E aí como é que vai ser a proteção delas, né? Não só juridicamente, mas emocionalmente, de uma rede apoio, Para que a gente também sinta seguro de continuar fazendo o nosso trabalho.

Você acha que a questão de gênero, o fato de ser mulher ou  ser LGBT+, implica em algum tipo de violência específica no jornalismo? 

Schirlei – Com certeza. Mulheres e pessoas LGBTs são mais atacadas e vivenciam um ataque diferente porque vem com esse cunho misógino. As mensagens que eu recebi tinham isso “ah, sua vagabunda, sua puta, sua piranha”. Nada a ver com o material, com a reportagem, com o assunto. Tinha umas mensagens até que citavam o órgão genital feminino, então para que isso? E aí e essa coisa de questionar a tua capacidade profissional por ser mulher, eu sentia muito isso. “Ah, sua burra, ah, tu é louca”. Então esse discurso ele vem muito forte assim, é reproduzido há muitos anos. Hoje, com mais consciência, até eu consigo perceber, esse ataque de cunho misógino muito forte. E acompanhando outras colegas, em eventos em que elas também foram atacadas, foi tudo muito parecido. Passaram por situações muito parecidas de ter o seu profissionalismo questionado e muito nesse viés por ser mulher, a sua capacidade intelectual. É diferente dos ataques que acontecem com os homens. Eu acho que não tem muito esse viés da capacidade, né, essa coisa do da loucura “ah, porque você é louca”, enfim, acho que é muito forte isso. 

Eu percebi que o tema que abordei no caso Mariana Ferrer provocou muito a ira das pessoas, porque as mensagens traziam muito esse ódio, essa raiva de estar discutindo isso. Eu acho que pra mim ficou muito claro, olhando depois, fazendo um garimpo das mensagens que eu recebi, que o que incomodou foi a discussão sobre consentimento

E você acredita que o vínculo empregatício, o tamanho da empresa, o alcance da mídia e o tema que está sendo publicado influenciam na possibilidade de sofrer algum tipo de ataque? 

Schirlei – Sim. Quando é um veículo pequeno, com alcance menor, veículo local, o impacto dele vai ser menor porque ele vai chegar a menos pessoas, a um público específico. Agora se é um veículo que tem uma abrangência nacional, que tem um público maior ou que tem uma atuação maior nas redes sociais, o impacto vai ser maior, a visibilidade, a repercussão. O vínculo empregatício eu não sei…As pessoas que fazem esses ataques não têm muito essa percepção do vínculo. Eu percebi que o tema que abordei no caso Mariana Ferrer provocou muito a ira das pessoas, porque as mensagens traziam muito esse ódio, essa raiva de estar discutindo isso. Eu acho que pra mim ficou muito claro, olhando depois, fazendo um garimpo das mensagens que eu recebi, que o que incomodou foi a discussão sobre consentimento. “Como assim agora a gente vai discutir se pode transar com uma mulher bêbada? Não quero discutir isso. Por que você está trazendo essa discussão?”, e muita raiva à vítima.

Foram diferentes formas de violência, até algumas mensagens com tom de ameaça, como “você merece uma bala na cabeça”, “o que é teu ta guardado”. Então são coisas que intimidam bastante porque é um volume muito grande, foi um volume muito grande. Foram dois meses ininterruptos de mensagens todos os dias, me marcavam em post todos os dias
E para você a eleição do Bolsonaro como presidente afetou na violência e nos ataques contra jornalistas? 

Schirlei – Eu percebi esse movimento [de ataque] mais forte a partir das eleições de 2018 mesmo, entre colegas comecei a receber mensagens que eu não recebia antes, descredibilizando meu trabalho, trabalho de outros jornalistas. Foi algo que me surpreendeu, eu não imaginava que isso viria daquela forma, mas depois, a gente acompanhando, a gente percebeu que já era uma articulação que vinha acontecendo nos bastidores, antes mesmo de Bolsonaro, e se intensificou porque como ele também traz isso no discurso, acaba dando o aval para que as pessoas reproduzam esses discursos. Eu percebi algumas vezes que vinha um questionamento que não vinha antes, sem nem tentar ouvir ou dialogar. Algo muito sem diálogo, um ataque muito reproduzido, muito igual, as pessoas falarem as mesmas coisas, questionarem as mesmas coisas e eu tentar puxar para um diálogo, algo como “tá, então vamos conversar, vamos  trocar uma ideia”, mas esse diálogo não acontecia. Então eu senti que mudou um pouco isso. Às vezes eu faço uma matéria sobre direitos humanos, violência contra a mulher, e vêm questionar, mas não querem dialogar, não vêm com a intenção de diálogo, já vêm fazendo a crítica e não aceitam conversar. Eu sempre faço esse exercício: vou perder cinco minutos com a pessoa e vou tentar  estabelecer um diálogo, uma conversa. E não acontece. Nem evolui. Então é muito uma reprodução de um discurso que eu acho que as pessoas nem param pra pensar e refletir, tentar entender.

Sobre o período da pandemia, você avalia que afetou nessa violência contra jornalistas? 

Schirlei –  Difícil dizer isso. Mas avalio que a pandemia intensificou tudo, tudo, acho que todas as emoções estiveram à flor da pele, tudo ficou muito maior, todas as opiniões ficaram maiores, acho que as pessoas passaram mais tempo em casa e passaram mais a opinar nas redes sociais, a falar mais nas redes sociais, mas talvez o que elas falam nas redes sociais não falariam pessoalmente. E o que sabemos é que as pessoas têm consumido muito rede social. Muito, muito, muito. A gente olha os videozinhos do Instagram, todo mundo dançando a mesma musiquinha, todo mundo fazendo a mesma performance. Então, é algo que se reproduz muito e não se tem muita reflexão. Acho que a reflexão…está um pouco prejudicada. Precisa haver uma pesquisa pra gente afirmar qualquer coisa sobre isso, mas eu acredito que a pandemia intensificou tudo, inclusive essas redes de ódio.

“O meu [perfil] no Twitter eu também fechei depois dos ataques. E isso é algo que eu não sei explicar muito o porquê. Eu ainda preciso entender porque é algo emocional. Eu criei um bloqueio”

Atualmente você se sente segura exercendo a profissão de jornalista?

Schirlei – Eu me sinto menos segura do que eu já me senti há uns anos atrás. Eu nunca tive medo de nada, eu sempre fui muito muito corajosa e tudo o que vinha de pauta, que eu achava que tinha um ponto de atenção ali, que precisava investigar, eu sempre fui muito atrás.  Sempre fui muito de fuçar e de querer trazer as situações à tona, as denúncias, enfim. Agora eu acho que continuo sendo corajosa, mas é diferente. Acho que com mais cautela, com mais preocupação,como eu mencionei. Eu fiz um Instagram profissional, e eu recém tinha feito o perfil, sem pretensão nenhuma de me tornar influencer,  eu só queria compartilhar um pouco além da reportagem, trazer algumas informações sobre violência de gênero. E estava super legal assim. Muitas mulheres vinham procurar e tirar dúvida, e querendo saber mais, e eu fazendo essa ponte com  especialistas. “Ah, então eu vou trazer alguém pra falar sobre determinado tema”. Então eu estava nesse movimento, de trazer um pouco mais de informação pra quem me acompanha, pra quem já acompanha o meu trabalho. Mas depois do que aconteceu [dos ataques de ódio], eu perdi a vontade, fechei o perfil, não fiz mais, não produzi mais nenhum vídeo. Só compartilho algumas coisas que eu acho interessante, mas eu perdi a vontade de fazer. O meu [perfil no] Twitter eu também fechei. E isso é algo que eu não sei explicar muito o porquê. Eu ainda preciso entender porque é algo emocional. Eu criei um bloqueio, realmente mexeu demais comigo. Então quando eu olho para rede social, penso “ai, não quero”. Foi algo que mudou muito a minha forma de pensar, meu jeito de agir. Eu fechei as redes sociais e não sei quando que eu vou abrir de novo. Eu sei que essa é a intenção dessas pessoas também, de provocar esse desequilíbrio,  silenciar. Não é fácil ficar falando disso. Eu já pensei em parar [de falar]. Outro dia estava conversando com meu namorado, eu falei para ele “eu não vou mais dar entrevista, cheguei no meu limite, estou cansada”, mas eu sei da importância de falar sobre isso, sabe? Eu acho que é um dever também como jornalista falar e trazer essa perspectiva de quem vivenciou isso. Mas é emocionalmente desgastante. Eu participei de um evento em que uma pessoa falou algo como “mas quando a gente fala, a gente cura”. E eu acho que tem uma linha tênue, que entre a cura e tu reviver aquilo de novo, existe um sofrimento. E eu trabalhei muito com violência de gênero, violência contra a mulher, então eu passava isso do outro lado, de estar ouvindo a vítima que estava vivendo tudo aquilo de novo quando ela estava contando a história dela, então agora eu estou sentindo isso na pele. O quão difícil também é reviver, lembrar de tudo, pensar nisso tudo de novo, cada vez que a gente fala sobre o assunto. Para a gente encontrar caminhos, a gente precisa da pesquisa, do estudo, enfim, dessa articulação da rede, das instituições para pensar em alternativas para que o jornalismo continue acontecendo. 

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“Quem trabalha com informação sabe que ela é decisiva”, diz a cofundadora do Marco Zero, Carolina Monteiro

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Carolina Monteiro é jornalista, professora e cofundadora da Agência Marco Zero, a primeira agência de jornalismo investigativo de Pernambuco. Está há mais de duas décadas no jornalismo online. É uma das 7 pessoas entrevistadas em profundidade para a pesquisa “O Impacto da Desinformação e da Violência Política na Internet contra jornalistas, Comunicadoras e Pessoas LGBT+”.
Você pode falar sobre a sua formação, suas áreas de atuação como jornalista e comunicadora?

Carolina Monteiro – Eu me formei em jornalismo, em 1999, na Universidade Federal de Pernambuco e comecei a trabalhar nesse mesmo ano no Diário de Pernambuco. Eu era estagiária desde 1997, e em 1999, eu fui contratada no Diário, onde eu comecei a minha vida profissional, trabalhando primeiro como repórter, cobrindo a cidade, e depois eu fui chamada para fazer parte da equipe que ia criar o Pernambuco.com, que foi o primeiro portal de notícia e informação do Estado de Pernambuco. Fiquei no portal, primeiro como repórter, depois como editora-assistente e depois como editora. Em 2009, quis voltar a estudar. Fiz uma especialização em Design na UFPE[Universidade Federal de Pernambuco] e, na sequência, fiz mestrado e doutorado. E aí foi quando começou uma outra parte da minha carreira, que é a acadêmica. Fiquei no jornal e também na Academia. Em 2012, comecei a dar aula de jornalismo na Universidade Católica de Pernambuco, até que em 2015, pedi para sair do Diário de Pernambuco para aprofundar a minha vida acadêmica, assumir mais turmas, me dedicar mais e melhor à Universidade e também para criar o Marco Zero, que foi o primeiro site de jornalismo independente investigativo aqui do estado. A ideia foi apresentada a mim em 2014 por Sérgio Miguel, que era editor-executivo também do Diário de Pernambuco. Ele pediu para sair do jornal com essa ideia de criar a Marco Zero. Ele me chamou, e a gente convidou mais outros cinco, e fomos sete os fundadores da Marco Zero, que foi lançada em 2015. Hoje permaneço na Marco Zero e também sou diretora da escola de comunicação da [Universidade] Católica. 

Na sua percepção há uma naturalização do discurso de ódio no meio jornalístico? Se sim, como percebe que isso ocorre?

Carolina –  É impossível não perceber, pois na verdade basta você ligar a televisão ou basta você entrar no Twitter ou você assistir a alguma live do presidente para entender que há uma naturalização desse discurso sim, a proliferação dele também, e acima de tudo uma coisa que torna esse discurso oficial, entre aspas, né? Você tem a maior autoridade executiva do país diariamente xingando jornalistas, debochando de jornalistas, agredindo verbalmente jornalistas, e isso faz com que todo mundo, de uma certa forma, se sinta autorizado, se sinta permitido a fazer isso também. Então acho que há uma escalada, principalmente desde a campanha de 2018. Há tanto uma escalada quanto uma naturalização mesmo. 

E quanto ao contexto da pandemia, você acha que escalou de alguma maneira a propagação de discurso de ódio?

Carolina – Na forma como os seguidores do presidente atuam, qualquer coisa escalaria, principalmente discurso de ódio. Se não fosse a pandemia, seria qualquer outra questão porque o assunto, o motivo que desperta o ódio, não interessa na verdade, né? Interessa construir essa narrativa em que os jornalistas são os vilões, os jornalistas são inimigos do povo, são inimigos do atual governo financiados por grupos, por políticos ligados à esquerda, comunistas, marxistas, esquerdopatas, pedófilos etc, etc. Então qualquer tema levantaria esse discurso. Agora claro que uma pandemia como a que vivemos acirra também qualquer ânimo. Algo que mexe com vida e com morte, que mudou a vida de absolutamente todo mundo da noite para o dia. Tudo isso se torna combustível na escalada desse discurso, mas eu acho que qualquer tema que for colocado em discussão, com esse objetivo de praticamente criminalizar a atividade jornalística, vai acirrar sabe, vai tocar fogo ainda mais nesse paiol.

 

É muito chocante pra gente que um texto de WhatsApp mal escrito, cheio de erro de português, absurdo e beirando o nonsense, possa ser tido como verdade.

E quanto ao fenômeno da desinformação e seu impacto na sociedade, na sua prática de jornalismo, como você tem percebido isso?

Carolina –  Eu acho chocante, como todo mundo. A gente que trabalha com informação, que tem informação como matéria-prima do nosso trabalho, a gente sabe o quanto ela é importante, o quanto ela é decisiva. Na qualificação mesmo do debate público, a gente sabe o quanto ela é difícil de se obter, né? A gente sabe de todos os processos, de todos os métodos, de todas as técnicas do jornalismo para obter informação de qualidade, a gente sabe que informação de qualidade não é um produto fácil. A gente obtem uma informação apurada a partir de métodos e técnicas, porque o jornalista passa quatro anos na faculdade para começar a aprender a fazer isso, e é muito chocante pra gente que um texto de WhatsApp mal escrito, cheio de erro de português, absurdo e beirando o nonsense, possa ser tido como verdade. Porque quando você pega os casos clássicos, a “mamadeira de piroca”, “o chip que vai ser implantado se a pessoa tomar vacina”, quando você pega esse tipo de informação, a gente fica muito chocado que as pessoas acreditem, que as pessoas não desconfiem de que aquilo pode não fazer algum sentido, sabe? Como educadora, como professora, não posso deixar de pensar no quanto essas duas coisas estão conectadas. E quanto a desinformação prolifera e convence pessoas que têm um baixo nível educacional. E eu não estou falando um baixo nível educacional “ah porque são alunos de escola pública” não, nada disso não. São pessoas mal educadas no sentido formal e informal, e isso independe de classe social, de onde estudou, mas é um problema fundamentalmente da educação. Antes de ser um problema do jornalismo, eu acho que é um problema da educação, das pessoas não terem essa capacidade de discernir uma notícia falsa de uma notícia jornalística apurada. Esse problema que começa na educação e que termina afetando realmente a prática da comunicação em todas as suas formas.

Eu acho que o jornalismo está sendo mais provocado a ser também mais transparente, a divulgar as suas fontes de financiamento.

Como esse discurso do ódio e a desinformação mudaram o modo como se faz jornalismo? Como se escreve, como se pesquisa, como se divulga?

Carolina – Se em tudo na vida é preciso tentar encontrar um lado positivo, eu acho que esse cenário trouxe algo importante para o jornalismo: uma prática importante que vejo ser mais adotada pelo jornalismo independente, que é uma certa transparência dos processos de produção do jornalismo. Eu penso que faz parte da solução. Claro que essa não é uma solução simples, mas penso dessa forma: que, cada vez mais, faz parte da solução a gente abrir a caixa preta do jornalismo, sabe? Como é que o jornalismo é feito? Quais são as técnicas? Quais são os métodos? Como são os processos? Que caminho você percorreu para chegar a essa informação? Como é que ela foi checada? De onde veio essa informação? Abrir essa caixa preta faz toda a diferença, porque as pessoas que não são jornalistas podem até ter uma vaga ideia, mas talvez não tenham noção do processo jornalístico; elas veem as notícias serem reproduzidas na TV, no rádio, na internet, nas redes sociais e elas podem não saber muito bem qual é o processo da captação dessa informação, de checagem, de edição. Então é quando você pode colocar isso de uma forma transparente, quando você diz, por exemplo, quais são as suas fontes, os estudos, as pesquisas, quem você procurou, o que você perguntou. Por exemplo, a gente vê “até o final dessa edição fulano foi procurado e não se pronunciou”, mas eu acho isso muito pouco para justificar por que um governo, uma prefeitura, uma autoridade, uma pessoa investigada ou alguém, um personagem não quis falar. Então lá na Marco Zero, por exemplo, a gente tem uma prática de, nesses casos, a gente dizer quem foi que a gente procurou, com que antecedência a gente procurou, quantas vezes a gente tentou falar, quais foram as perguntas que a gente fez para a tal pessoa. Então um pouco mais de transparência vai fazer diferença, e sem falar obviamente no fact-checking que coloca ali todas as fontes, todo o processo que foi feito, todo o método que foi aplicado para checar aquela informação e explica por que ela não condiz com a realidade, e explica por que aquilo não é um fato, né? Eu acho que o jornalismo está sendo mais provocado a ser também mais transparente, a divulgar as suas fontes de financiamento. No ambiente da mídia independente isso é muito comum, na mídia tradicional isso ainda não acontece. Na Marco Zero, a gente publica anualmente um balanço com toda a receita, de onde vieram os nossos recursos, quem financiou, quanto a gente arrecadou, como isso foi aplicado. Isso vai contribuindo, mas não vai resolver o problema [da desinformação]. E outra coisa que eu acho que também importa, obviamente, de forma transversal, mas também muito importante, é a questão da diversidade que se discute tanto. O aumento da diversidade no jornalismo como uma forma realmente de trazer mais pluralidade para o debate, trazer mais visões de mundo para as coberturas, acho que isso é uma outra frente importante de atuação. 

E você percebe que há uma perda de confiança da mídia por parte da sociedade? 

Carolina – Percebo. Acho que há uma crise de confiança geral. E percebo mais essa crise de confiança da chamada mídia tradicional, hegemônica, talvez por essa falta de transparência, talvez por ser uma mídia que não deixa claro sempre os seus princípios, e que muitas vezes não se posiciona. Então eu vejo que essa falta de posicionamento afeta a credibilidade porque esse mito da imparcialidade a gente já derrubou há muito tempo, certo? Eu acho que há uma crise de confiança geral, principalmente entre os mais jovens. E acho que essa crise afeta mais ainda a mídia tradicional. A mídia independente enfrenta outras desconfianças, sem dúvida. A desconfiança de que é uma mídia ativista, de que as questões ideológicas interferem na pauta, é uma desconfiança também de outra natureza, mas eu acho que por conta dessa transparência sobre a qual falei acima, termina carregando uma credibilidade maior. 

Como você acha que o poder público tem atuado nessa temática da liberdade de imprensa? 

Carolina –  No caso do Governo Federal, eu percebo um desserviço, uma prática contrária na verdade: bloquear jornalistas, xingar, destratar. Eu acho que o que eu vejo o Poder Público fazer na esfera federal, executiva federal, na verdade é um desserviço.

E você acha que o Legislativo vai na mesma linha, não se opõe, deixa-se levar?

Carolina – A gente tem uma composição no Congresso Nacional hoje favorável ao Governo Federal, então o PL das Fake News tem uma série de problemas. Faltou uma escuta mais ampliada da sociedade, dos jornalistas em geral. Eu vejo no Legislativo uma passividade, enquanto, do Executivo, percebo uma agressividade. 

Você já passou por alguma situação de violência que tenha sido em decorrência da sua profissão, pelo menos nos últimos cinco anos? 

Carolina – Não. Na minha história profissional, eu tive mais tempo sendo editora do que repórter. E repórteres estão de certa forma muito mais vulneráveis a qualquer tipo de violência decorrente da prática profissional. Então pessoalmente, tanto no Diário de Pernambuco, que foi o jornal em que eu trabalhei por 17 anos, que era mídia tradicional, quanto na Marco Zero, não vivenciei essas formas de violência, de ataque de ódio. Na Marco Zero eu tenho uma atuação que é muito de gestão, de governança e uma posição mais executiva.

E você conhece alguma mulher ou pessoa LGBT que tenha passado por isso? 

Carolina – Um aluno meu, homem gay, que estava fazendo uma cobertura no contexto da eleição de 2018 e foi agredido por ser homossexual, foi xingado. A pessoa passou na moto e deu um tapa nele, ele tava trabalhando cobertura e foi tratado dessa forma. Esse caso, de violência contra LGBT+, aconteceu no dia da eleição, no dia da eleição no segundo turno de 2018, ele estava trabalhando para um jornal local, estava fazendo a cobertura no local de votação e foi agredido, obviamente, por eleitores de Bolsonaro. Ele estava trabalhando, inclusive, de crachá, e foi agredido na saída de um local de votação. Esse caso repercutiu, outros veículos fizeram as matérias, mas foi o caso mais próximo que eu me lembro.

A crítica às mulheres não é sobre ser péssima jornalista ou ter feito mal o trabalho. A crítica vai sempre para as questões relacionadas a gênero e sexualidade. Isso é claro. Acontece com figuras públicas, não só jornalistas.

E você acha que há algum tipo de violência específica contra jornalistas, mulheres e LGBT+ que se diferencie de outras violências?

Carolina – Claro. Primeiro eu percebo que “automaticamente” o tom é diferente, o tom da agressividade é diferente. A crítica às mulheres não é sobre ser péssima jornalista ou ter feito mal o trabalho. A crítica vai sempre para as questões relacionadas a gênero e sexualidade. Isso é claro. Acontece com figuras públicas, não só jornalistas. Mas eu acho que todas as mulheres em todas as posições, de uma forma geral, são medidas e avaliadas ou criticadas por questões referentes ao seu gênero, e aí vêm os xingamentos “prostituta, puta, rapariga”. Ameaça de estupro. Tudo extremamente agressivo. “Você merece ser estuprada”. Sempre é muito maior a violência e tem um mecanismo por trás dessas agressões, que é sempre ir direto na questão do gênero e da sexualidade.

E você acredita que existe algum meio ou alguns meios mais eficazes de denúncias para casos de violência sofridas em decorrência da profissão? 

Carolina – Eu falo muito de forma empírica, porque eu nunca precisei usar nenhum desses sistemas, então eu não tenho muito como falar especificamente da eficácia. Mas eu acho que talvez fosse o caso de procurar todas as possibilidades possíveis, então acionar a plataforma no caso de violência através das redes sociais, procurar a polícia para fazer um boletim de ocorrência, procurar uma divulgação também do caso. A Marco Zero faz parte, assim como a Gênero e Número faz parte, da Ajor, a Associação de Jornalismo Digital, que nasceu há pouco tempo. Essa pauta é muito quente nas discussões da Ajor: de a gente ter uma rede mesmo de apoio, a gente ter contato com escritórios de advocacia e com coletivo de advocacia popular ou de especialistas que deem orientação. E principalmente existir essa rede. Acontece, já aconteceu durante a etapa de criação da Ajor, de algumas jornalistas de organizações participantes colocaram no grupo que estavam sofrendo algum tipo de ameaça, que estavam sofrendo algum tipo de violência, e a rede se juntar para fazer o que talvez seja o menos eficaz, mas eu acho que também é importante, que é uma nota de apoio, enfim, mas eu acho que tudo é válido, utilizar os recursos possíveis. Talvez em algum caso você obtenha alguma reparação, mas eu não sei se é simples, e desconfio que não seja.

E você acredita que o vínculo empregatício, o tamanho da empresa, o alcance da mídia e o tema que está sendo publicado influenciam na possibilidade de sofrer algum tipo de ataque? 

Carolina –  Afeta pro bem e pro mal. Quando você trabalha num jornal ou numa TV que está mais exposta por ter mais visibilidade, como a Folha de S. Paulo, a Globo, você termina sendo mais alvo, obviamente, mas ao mesmo tempo você tem todo o suporte legal. Você tem uma estrutura ali feita pra lhe proteger. Então o caso, por exemplo, de Patrícia Campos Mello, todo o suporte que tem a ela, apesar de isso não minimizar os impactos, apesar disso não tornar a violência contra ela mais leve, mas o suporte existe. Você tem o caso mais antigo da Elvira Lobato, que tem processos em vários lugares do Brasil contra ela por uma matéria das igrejas evangélicas. Esse atendimento jurídico é caro. Na Ajor, tem quem trabalhe com fact-checking, o Aos Fatos, fundado pela Tai Nalon. Ela sofre sofre muita violência, ela sofre muito ataque, ela sofre muito processo, ela sofre muita agressão, apesar de ser uma empresa jovem, pequena, mas pequena em comparação às outras, pois a natureza da atividade jornalística dela coloca ela mais em evidência. A Lupa, outra agência de fact-checking, também sofre muito isso. No caso da Lupa, tanto a Cristina Tardáguila quanto o Gilberto Scofield, que é gay, também sofrem muita violência por conta disso. 

E você acredita que a eleição de Jair Bolsonaro como presidente afetou nesse tipo de violência?

Carolina – Eu posso dizer que profissionalizou a violência contra jornalistas na internet, porque eu acho que antes era uma coisa de amadores, entre aspas, de leitoras e leitores insatisfeitos. Mas parece que a partir da eleição de Bolsonaro virou esquema realmente profissional, virou parte da estratégia política para a manutenção dos índices de popularidade e de apoio. Passa por isso, atacar jornalistas. Inclusive há até financiamento para esse tipo de ataque.

E quanto à pandemia, você percebe que também impactou de alguma forma na escalada da violência? 

Carolina – Vejo que acirrou alguns debates: o negacionismo, a questão da vacina. A pandemia acirrou alguns debates, mas qualquer debate público hoje no Brasil vai ser polarizado, qualquer debate público vai ser assim. Mas eu não consigo enxergar uma relação entre pandemia e o aumento da violência. No caso da eleição do Bolsonaro, sim, é óbvio. Aí é uma questão de profissionalização mesmo, como falei anteriormente.

Você atualmente se sente segura exercendo a profissão de jornalista? 

Carolina – Sim e não. É difícil na verdade ter uma resposta para essa pergunta. Eu me sinto também vulnerável, sabe? Acho que talvez essa seja a melhor forma melhor de eu descrever. Eu me sinto mais vulnerável do que eu me sentia há 20 anos, quando eu comecei na profissão. Nas redes sociais, eu me exponho muito pouco. Eu não tenho Twitter, eu acompanho o Twitter da Marco Zero, uso o Twitter da Marco Zero. Então eu tenho por princípio, e aí não é só por conta disso [da violência], é porque naturalmente eu sou uma pessoa discreta, mas eu tenho uma exposição muito pequena nas redes, onde grande parte dessa violência acontece. Eu não estou na rua, né? Pela Marco Zero, como eu já disse, eu estou numa posição de gestão, de liderança e executiva, então eu me sinto mais segura por essas circunstâncias. Por exemplo, o fato de eu ter aumentado essa preocupação com a minha exposição nas redes sociais já é uma repercussão, o fato de eu não querer, eu não me sentir à vontade para me expor tanto nas redes, já é fruto de um cenário, de um contexto, eu não faço isso somente porque eu sou uma pessoa discreta, é porque eu sou uma pessoa discreta e sou jornalista, sabe? Seria melhor que fosse apenas uma opção minha não querer me expor tanto. Mas acho que é isso, eu não me sinto insegura tanto pela natureza do cargo que eu ocupo, de executiva e gestão, mas eu me sinto vulnerável por ser mulher, por ser jornalista e por estar trabalhando no Brasil do século XXI.  

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“Quando eu escrevo sobre Venezuela, já me preparo para não ler comentários”, afirma Martha Raquel, dos Jornalistas Livres

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Martha Raquel é jornalista, repórter com experiência em cobertura internacional e integrante do coletivo de mídia Jornalistas Livres. É uma das 7 pessoas entrevistadas em profundidade para a pesquisa “O Impacto da Desinformação e da Violência Política na Internet contra jornalistas, Comunicadoras e Pessoas LGBT+”. 

Você pode falar sobre a sua formação, suas áreas de atuação como jornalista e comunicadora?

Martha Raquel –  Tenho 27 anos, nasci no interior de São Paulo, venho de uma família pobre, só fiz faculdade por conta do Prouni, então eu me formei em jornalismo pela PUC Campinas, morei em Campinas na época e estagiei na filial da Rede Globo lá, que é a EPTV Campinas. Também  numa agência  de publicidade, como revisora de texto. Logo que me formei, aquela fase em que a gente não sabe o que vai ser da vida porque precisa procurar emprego, eu acabei indo, pelos Jornalistas Livres, para Brasília, para cobrir o impeachment. Eu tinha 21 anos. Por conta dessa cobertura, o diretor de jornalismo da Rede TVT me ligou e me ofereceu um trabalho. Fiquei por três anos, primeiro como editora de texto, depois como repórter. E nesse tempo todo segui com os Jornalistas Livres. Mas eu já estava morando em São Paulo nessa época, eu voltei de Brasília direto pra São Paulo. Depois disso, recebi uma proposta de emprego para ir para Roraima, pelo Brasil de Fato. Fui como correspondente para escrever sobre a questão dos Yanomamis, sobre o garimpo, sobre a Venezuela também. Houve antes disso uma experiência importante: eu embarquei para a Bolívia para cobrir as eleições presidenciais lá, ainda pelo Jornalistas Livres. Não falava espanhol, nunca tinha saído do país sozinha, mas fui, em 2019. Lá eu recebi um convite para estar na Venezuela no mês seguinte, para participar de um congresso internacional de comunicações, como delegada internacional representando o Jornalistas Livres e também para participar de uma formação de jornalistas de toda a América Latina para a construção de uma rede latinoamericana de jornalismo independente. Em Roraima, comecei em fevereiro de 2020. Lá comecei a escrever sobre a questão de garimpo, sobre o MST lá em Roraima, sobre a questão indígena, sobre a relação da fronteira Brasil e Venezuela e aí estourou a pandemia. Passou a ser home office, período que fiquei em Salvador. Retornei apenas quando precisei ir para Venezuela para cobrir as eleições, em novembro de 2020. Então fui para lá pra cobrir as eleições parlamentares e depois acabei ficando em São Paulo de novo e continuei escrevendo sobre Roraima no Brasil de fato. Em julho de 2021, eu fui pra Venezuela mais uma vez para cobrir também um congresso dos povos do mundo, que marcava os 200 anos da batalha de Carabobo, e logo que eu voltei da Venezuela, saí do Brasil de fato e hoje eu trabalho na Secretaria de Comunicação do MST. Junto com os Jornalistas Livres, onde estou há seis anos.

Você percebe que há uma naturalização do discurso de ódio no meio jornalístico? E se sim, de que maneira?

Martha – Sim. Vou relatar três casos que me recordo. Escrever sobre a Venezuela é muito difícil no nosso país. Então toda vez que eu assino uma reportagem sobre a Venezuela, eu mostro o cenário porque a grande maioria dos veículos fala sobre a Venezuela sem estar no país. E nas minhas reportagens eu busco rebater o que eles falam. Então quando eu escrevo sobre a Venezuela, eu já me preparo para não ler comentários, que não são só de ódio à Venezuela, mas também a mim, como mulher. Então vai desde me mandar para Cuba, para a Venezuela, a procurar fotos minhas na Internet, comentar fotos minhas. Já me atacaram pela sexualidade, porque eu sou lésbica. Já aconteceu de eu bloquear comentários na reportagem. Um outro caso que recordo de viver esse ódio foi quando a [ex-presidente] Dilma estava no processo de ser afastada e eu fui fazer uma cobertura em Campinas. Ela teve um almoço em Campinas e, por ironia da vida, eu fui trabalhar com uma camiseta vermelha e eu apanhei, eu levei uma paulada na cabeça. Tem uma foto que é justamente o pau batendo na minha cabeça e os óculos voando. Isso porque uma mulher disse que eu não era jornalista, que eu era uma petista infiltrada, que eu queria ficar no lugar dos repórteres, que era mais próximo. E aí eu estou recebendo uma paulada na cabeça. Um mês antes eu havia feito um treinamento no exército de Campinas para jornalistas em situação de conflito. E quem acompanha o(a) presidente é o Exército. Então o tenente que estava acompanhando a Dilma me conhecia. Foi ele quem interveio, tirou a mulher e disse que eu poderia registrar um boletim de ocorrências. Eu acabei não registrando.

Na cobertura sobre o garimpo e a questão indígena, eu confesso que enquanto eu estive em Roraima no território eu não escrevi sobre o tema. Eu colhi muita informação, eu visitei os abrigos do exército, da ONU, eu conheci lideranças Yanomami, mas eu não escrevi, eu deixei para escrever depois que eu já estava fora do território

E em Roraima, já no governo Bolsonaro, fui cobrir um ato a favor de Jair Bolsonaro. Eu, mulher com cara de criança, porque eu tenho 27 anos, mas eu tenho cara de 18. Estava fotografando, entrevistando, gravando, e começaram a perguntar o meu nome. Começaram a interagir, eu tive que trancar todas as minhas redes sociais, tirar todas as minhas fotos, tanto que hoje minhas redes são todas trancadas, e começaram a me mapear pela cidade, porque Boa Vista é uma cidade muito bolsonarista. Então num dia normal para você ir no mercado você cruza com dez pessoas com camiseta do Bolsonaro. É um lugar muito difícil de se estar, sabe? Nesse dia eu nem terminei de cobrir o ato e fui embora antes, entrei no Uber e fui embora. Pedi pro Uber dar umas voltas porque fiquei com medo de alguém ter me seguido. Além disso, desses momentos mais pesados, na cobertura sobre o garimpo e a questão indígena, eu confesso que enquanto eu estive em Roraima no território eu não escrevi sobre o tema. Eu colhi muita informação, eu visitei os abrigos do exército, da ONU, eu conheci lideranças Yanomami, mas eu não escrevi, eu deixei para escrever depois que eu já estava fora do território. Por quê? Porque eu conheço jornalistas que já tiveram suas fotos circulando, que já foram jurados de morte. Eu tenho um amigo que é fotógrafo, que circulam imagens da filha dele, da esposa dele. Fiquei pouco mais de um mês em Roraima por causa da pandemia. Mas o plano era que se eu escrevesse alguma reportagem, eu não assinasse porque iam me achar com o meu nome, que que já não é tão comum. Eu não assinei reportagem nenhuma lá, e estando aqui já recebi pedidos de jornalistas que moram lá falando “olha, eu te dou todas as informações, eu te dou imagens, eu te dou tudo, mas eu não posso escrever sobre” e aí já publiquei reportagens que basicamente me deram prontas, eu só redigi o texto, mas toda a apuração estava feita porque as pessoas tinham medo de de publicar sobre isso. Então tiveram esses três momentos, essas três situações que eu acho que foram bem marcantes. 

Você vai publicar uma reportagem e você já se prepara para o que pode vir. Minhas redes sociais hoje estão todas trancadas. Meu Twitter é profissional. Eu no Twitter não publico nada além dos links das minhas reportagens

E no governo Bolsonaro isso piorou muito mais né? Porque é como se o presidente desse um aval pras pessoas atacarem as outras. Quando o presidente ataca, ele está dizendo que tudo bem atacar. E isso piorou muito, muito mesmo. Então esse caso, a primeira vez que aconteceu isso comigo foi nessa situação da [ex-presidente] Dilma. Eu já trabalhava com jornalismo há três, quatro anos e foi a primeira vez. E depois do governo Bolsonaro isso se intensificou. Então, é isso. Você vai publicar uma reportagem e você já se prepara para o que pode vir. Minhas redes sociais hoje são todas trancadas. Meu Twitter é profissional. Eu no Twitter não publico nada além dos links das minhas reportagens porque é isso: você não pode fazer um comentário que você é atacado, é ameaçada.

E quanto a esses discursos de ódio proferidos contra mídia, contra jornalista, partem de grupos? Quem são essas pessoas que fazem esses discursos? 

Martha – Olha, eu acho que questionar o jornalismo é importante e que todos fazem, mas há formas de se fazer isso. Tem grupos que fazem isso de forma ameaçadora, que fazem isso para intimidar, para silenciar e aí eu estou falando claramente dos bolsonaristas porque são pessoas que usam imagens de bandeira do Brasil, do [Sergio] Moro, do [Jair] Bolsonaro, mas são pessoas que não se identificam. Perfis que não parecem verdadeiros, o que é diferente por exemplo, de algumas redes como o TikTok. O TikTok é uma rede onde eu já fiz vídeos sobre a Venezuela quando estava lá no país. E lá também tem perfis bolsonaristas, mas os perfis são de pessoas. Dificilmente você vai ver uma foto com o desenho do Bolsonaro ou do Moro ou bandeira do Brasil. Muitas vezes a gente denuncia para as plataformas, mas continuam lá. Eu lembro de uma vez que eu fiz um vídeo e eu estava na casa de uma amiga, em Salvador. É uma casa grande, uma casa bonita e falavam que eu tinha invadido aquela casa porque eu era uma petista que queria pagar de rica. Então eles iam descobrir onde era aquela casa em Salvador.  Então, tudo isso vai te colocando numa autocensura também. Porque você fala, “estou aqui, eu estou na casa de uma amiga e eu vou colocar ela em risco também, além de me colocar em risco”. Você começa a se preocupar não só por você, mas pelas pessoas que estão à sua volta. E é isso, eu acho que sim, questionar a mídia é importante, mas que hoje em dia existe uma cultura de descredibilização da mídia. E é como se os jornalistas fossem apenas colunistas que emitem suas opiniões quando na verdade nós estamos trabalhando com dados. Nós estamos trabalhando com informações verdadeiras. Nós estamos trabalhando com análise. Então esse descrédito do jornalismo faz com que esses ataques fiquem muito mais fortes e direcionados porque eles acham que aquilo que você está falando é só meramente a sua opinião, então quem tem que ser combatido é você. Então está muito difícil ser jornalista.

As pessoas se sentiram mais motivadas a debater, mas não debater de uma forma saudável. Mas nessa forma de ataque, de ameaça, de intimidação, de tentar silenciar, e de certa forma conseguiram. Eu mesmo passei a me policiar muito mais.
Você avalia que o contexto da pandemia escalou de alguma maneira a propagação de discursos de ódio? 

Martha – Claro, com certeza, porque quando a gente começa com um presidente que minimiza tudo, quando você faz reportagens que denunciam o descaso com a pandemia, por exemplo, caem [as reportagens] novamente naquele lugar de acharem que é apenas a sua opinião. Como o presidente fala o que quer e não sofre nenhuma sanção, não tem consequência nenhuma pra ele, e ele impõe sigilo sobre a sua carteira de vacinação, chama de gripezinha [a covid], imita pessoas sem ar, um desrespeito total com as famílias…e quando esse tipo de coisa acontece e não tem nenhum tipo de consequência, passa um sentimento de que tudo bem, você pode fazer o que você quiser porque se o presidente está fazendo e não tem consequência para ele, por que vai ter pra você? E aí na pandemia as pessoas também ficaram muito mais online, e a internet dá essa sensação de que você pode falar o que você quiser do jeito que você quiser para quem você quiser. As pessoas se sentiram mais motivadas a debater, mas não debater de uma forma saudável. Mas nessa forma de ataque, de ameaça, de intimidação, de tentar silenciar, e de certa forma conseguiram. Eu mesmo passei a me policiar muito mais. Em rede social, eu adoro Twitter, mas eu não abro a minha boca, não falo nada. Publico os links das minhas reportagens e fim. Então eu acho muito pesado essa autocensura que a gente está tendo por conta dessas situações que foram agravadas, sim, durante a pandemia.

Você percebe que há uma perda de confiança na mídia por parte da sociedade? Considerando a existência de diferentes tipos de mídias.

Martha – Com certeza. Apesar de eu achar que hoje é uma descredibilização geral, quando você fala de mídia independente, por exemplo, é como se tratasse você como um grupo de amigos que brincam de fazer jornalismo. Então eu acredito, sim, que quando você fala de jornalismo independente, as pessoas tratem como só um coleguismo, como uma brincadeira, um passatempo, um hobby e não como jornalismo de verdade, mas é com fatos e dados que a gente vai se consolidando. O Jornalistas Livres já realizou coberturas incríveis e uma cobertura que eu me orgulho muito de ter feito foi essa da Bolívia que contei anteriormente. Porque chegou um momento em que eu era a única jornalista brasileira lá. Os jornalistas que foram ficaram para o domingo de votação e para segunda e eu acabei acompanhando todo o processo do Golpe porque eu já tinha me programado para ficar alguns dias a mais porque eu sabia que a apuração lá era com voto de papel e eu queria acompanhar toda a apuração porque também sabia que estavam tentando criar esse clima de fraude. Então é assim que a gente consegue se consolidar também e ganhar reconhecimento e ganhar credibilidade. Mas sim, no geral, a mídia independente é descredibilizada. A grande mídia também passa por isso. Então chamam a Folha de S. Paulo de esquerdista, o que não faz nenhum sentido, mas eu acho que quando se trata de mídia independente é muito pior o cenário. 

Então você acredita que há esse tratamento diferente para mídia independente e grande mídia,? Estaria isso relacionado a alguma questão específica?

Martha –  Eu acho que sim, e há a questão da formação. No Jornalistas Livres, para você fazer parte, você não precisa ter formação em jornalismo, por exemplo. Todo mundo pode ser um comunicador. Comunicação é uma coisa que a gente aprende na prática e não necessariamente dentro de uma faculdade, até porque o diploma de jornalismo hoje não é obrigatório. Muitas pessoas tentam descredibilizar esse trabalho, como “ah, você não sabe o que está fazendo, você não tem formação”. Eu mesma aprendi muito mais dentro do Jornalistas Livres do que na faculdade, sendo muito sincera. Eu aprendi na prática com repórteres incríveis que tinham 20, 30 anos de carreira e que me ensinaram muito. Comunicação é isso, não é só formação, não é só sala de aula, mas acho que isso também pode ser usado contra a gente.

Como você acha que o poder público tem atuado nessa temática da liberdade de imprensa? 

Martha – É complicado. Como não há uma boa regulamentação, o que eu posso dizer? Vou dar um exemplo: a Veja. Recebi recentemente uma proposta para trabalhar na Veja. Eu jamais trabalharia na Veja. A Veja cria um fato, ela não fala da onde veio aquela fonte, e ela coloca isso na capa da revista que vende no país inteiro. Isso não é questionado, isso não é cobrado. Então, claro que eu sou a favor da liberdade de expressão, mas eu acho que tem que ter ética, tem que ter responsabilidade. Hoje em dia eu sinto que nós estamos muito reféns também das redes sociais, e nas redes sociais a gente está jogando o jogo dos outros. A gente pode trabalhar o quanto a gente quiser, da melhor forma possível, que na hora que eles quiserem desligar o botãozinho, eles desligam e acabou. Então acho que é importante que os veículos também se fortaleçam em seus próprios sites e saiam da mão das grandes corporações. Nós tivemos recentemente um perfil do Instagram do Jornalistas Livres desativado de um dia para o outro, sem qualquer justificativa e quase perdemos esse perfil. Acho que já havia 620 mil seguidores. Conseguimos reaver a conta, mas não foi explicado até agora porque a conta foi tirada do ar e nós continuamos com o aviso de que ela pode ser retirada novamente a qualquer momento. Então, você vive à mercê de uma grande corporação que decide quando ela muda o interruptor e acaba com todo o seu trabalho. Para encerrar, sou a favor da liberdade de expressão, mas acho que é naquela linha do não mentir e não ofender. No momento em que você mente, você ofende e não é liberdade de expressão.

A gente sempre se reúne, conversa, checa com o advogado e aí toma as melhores medidas. Em casos mais graves acionamos também os parceiros porque a articulação é tudo.

Você contou alguma das suas experiências com os ataques de ódio, e eu queria saber se você teve apoio ou suporte nas situações que mencionou. 

Martha – Sim, tive suporte. Houve uma situação que eu acabei não comentando antes. Eu fui cobrir uma ocupação de escola em São Paulo e acabei presa. E isso foi antes do início de 2019. Mas naquela época nós tivemos apoio dos advogados…Advogados pela democracia. E a partir daquele ano, quando aconteceram esses ataques de ódio, a gente sempre se reuniu no Jornalistas Livres para decidir se a gente quer oficializar ou não essa questão do boletim de ocorrência. Se a gente vai fechar perfil etc. Nós tivemos os jornalistas unidos também em casos de pessoas que tiveram seus dados divulgados em dossiês. Então, a gente sempre se reúne, conversa, checa com o advogado e aí toma as melhores medidas. Em casos mais graves acionamos também os parceiros porque a articulação é tudo. Até o momento, o nosso direcionamento tem sido para não assinar as reportagens ou trancar os comentários ou não marcar o perfil, por exemplo. Quando vai publicar alguma coisa no Instagram, não marca o meu perfil para que não cheguem até mim, entende? Ou eu tenho um segundo nome que às vezes eu assino para que não reconheçam o outro nome, então a gente vai desenvolvendo alguns mecanismos para fugir disso.

As situações que você viveu de alguma forma atingiram seus familiares?

Martha – Não, porque eu não tenho familiares nas redes sociais. Já é um cuidado que eu tenho. Não tenho absolutamente ninguém da família nas minhas redes sociais. Converso com a minha mãe por aplicativo de mensagem instantânea mesmo, a gente troca fotos por lá, mas em rede social não tenho absolutamente ninguém da família.

E você já chegou a pensar ou viu necessidade de procurar alguma ajuda especializada para lidar com alguma situação que tenha te impactado mais?

Martha –  Eu fui fazer um curso de jornalismo investigativo, mas eu sabia que tinha um módulo de segurança digital e emocional. Então eu fiz esse curso em 2021. Foram seis meses de curso, foi por um projeto da Unesco com a Universidade Internacional do Chile. E aí eu confesso que eu fui fazer esse curso mais por conta desse módulo, justamente para aprender mecanismos de segurança nas redes e mecanismo de segurança emocional. Porque não é só a parte técnica, você precisa ter cabeça para encarar tudo isso. Então muita gente já me perguntou se eu pensei em parar de escrever sobre esses assuntos e eu falei que eu não sei se eu teria coragem de escrever estando, nos territórios, distante de lá eu tenho [coragem], mas estando lá eu acho que eu não aguentaria essa bronca não. Porque é real ameaça, as pessoas falam: “olha eu sei a sua foto, eu sei a rua que você mora, eu sei aonde você vai onde são as suas reuniões de trabalho, o café que você costuma trabalhar”, então você fica com medo, ainda mais em Boa Vista, em Roraima, que é uma cidade muito pequena para ser uma capital. E por exemplo tem um café que é coworking. Então se eu trabalho num café é dali. Entendeu? Então você fica muito manjada na cidade. E isso dá medo. Então estando longe eu me sinto segura pra escrever, mas com esses cuidados.

A gente tem medo de andar na rua independente da nossa profissão, só por ser mulher. Sendo lésbica, duplamente, porque as lésbicas sofrem o tempo todo ameaças de estupro corretivo, dizem “que elas nunca experimentaram o homem certo”.

Você acha que a questão de gênero, o fato de ser mulher ou  ser LGBT+, implica em algum tipo de violência específica no jornalismo? 

Martha – Eu tenho uma ex-namorada que é jornalista também, lésbica e que ela tinha um blog sobre a Rússia. Ela deixou de atuar no jornalismo por conta das ameaças que ela sofria. Ela era uma lésbica não assumida e falavam que sabiam disso e que falariam para família dela se ela não parasse de escrever essas “coisas comunistas”. E aí ela simplesmente deixou. Hoje ela atua em outra área, ela trabalha com marketing, não tem mais o blog. E enfim. Saiu do jornalismo por conta desse medo mesmo. No caso dela foi uma questão de sexualidade mesmo porque usaram disso pra ameaçá-la, para intimidá-la, pra tentar silenciá-la e infelizmente conseguiram né? A gente já vive numa sociedade que é extremamente machista e misógina, em que ser mulher não é fácil. A gente tem medo de andar na rua independente da nossa profissão, só por ser mulher. Sendo lésbica, duplamente, porque as lésbicas sofrem o tempo todo ameaças de estupro corretivo, dizem “que elas nunca experimentaram o homem certo”. Então já é uma dupla violência aí e aí isso já te atinge na esfera pessoal. E quando isso te atinge também na esfera profissional é muito pesado. Então eu já vivi situações de lesfobia em trabalho também. E olha que eu só trabalhei em lugar de esquerda, é muito complicado e é uma coisa que mexe muito comigo, mexe muito porque toda a minha vivência também está pautada na minha sexualidade. Eu nunca escondi que eu sou lésbica, nunca chamei namorada de amiga, não vou me esconder, mas é sempre muito complicado porque é sempre viver essa agonia, essa angústia, é violência em dobro. Quando os bolsonaristas descobrem que você é lésbica, o discurso muda. Então já não é “você é burra, você é ignorante, você é vendida, você é comunista”. Uma coisa que já me falaram é que eu escrevia as minhas reportagens porque eu tinha inveja do pau dos caras, porque eu queria ter um pau e eu não tinha. Então era por isso que a minha amargura na hora de escrever uma reportagem, denunciar violências, era por conta disso. É uma violência muito pesada isso. 

Você já  precisou recorrer a alguma plataforma digital nesses casos em que você sofreu ataques? Se sim, teve retorno?

Martha – Eu já cheguei a denunciar para as redes sociais, mas nunca aconteceu nada [de resolução], então como eu tinha o controle das redes, das minhas pessoais ou das do Jornalistas Livres, eu mesmo apagava, eu mesmo bloqueava. Meu primeiro passo é sempre bloquear, mas as plataformas diziam que as denúncias não tinham violado nenhuma norma da comunidade. E você acha que existem meios eficazes de denúncia? Falam que são pessoas que analisam os conteúdos e eu acho que é impossível uma pessoa ver uma uma ameaça de estupro e falar que aquilo não viola. Então eu acho que primeiro tem que começar com uma regulamentação das mídias. Para que a gente não fique tanto na mão dessas plataformas. Não retiram comentários de ameaça, de ameaça contra a vida, então fazem o que  querem [as plataformas]. Acho que o sindicato [de jornalistas] tem um papel importantíssimo e, além disso, tem uma rede bem articulada para ajudar em possíveis denúncias. Então é como se você tivesse que estar o tempo todo preparada. O meu sonho é não precisar das redes sociais. Porque eu me sinto muito refém delas. Mas infelizmente precisamos. Principalmente na pandemia, quando todo mundo esteve online. 

 

 

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“Não deixo de trabalhar em ambiente hostil, mas me incomoda não poder me identificar como jornalista”, desabafa Juliana Dal Piva

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Juliana Dal Piva é jornalista, colunista do UOL e repórter especializada em jornalismo investigativo. É uma das 7 pessoas entrevistadas em profundidade para a pesquisa “O Impacto da Desinformação e da Violência Política na Internet contra jornalistas, Comunicadoras e Pessoas LGBT+”.
Você pode falar sobre a sua formação, suas áreas de atuação como jornalista e comunicadora?

Juliana Dal Piva – Sou jornalista formada pela Universidade Federal de Santa Catarina, me formei em 2009, sou catarinense, mas trabalho no Rio de Janeiro desde 2011. Eu já trabalhei na maioria dos veículos nacionais do Brasil, tenho mais esse perfil, só não trabalhei com televisão. O Globo foi o lugar onde eu trabalhei mais tempo, e acabei encontrando caminhos melhores para trabalhar lá em dois períodos diferentes, entre 2011 e 2013 e entre fim de 2017 e fim de 2021. Eu já trabalhei em sites, em jornais, em revista. Ajudei a fundar a Agência Lupa, que é uma agência de checagem de dados. Tenho uma característica de trabalhar com o jornalismo de investigação, questões políticas, questões sociais, questões de direitos humanos, questões criminais. Então eu fiz muitas coisas distintas nesse tempo desde que eu me formei. Acho que eu passei mais tempo trabalhando questões relacionadas a direitos humanos do período da ditadura militar, violações de direitos humanos na ditadura, investiguei muitos casos de mortes e desaparecidos políticos, estou produzindo um livro sobre isso também e me especializei em entrevistar militares. Entrevistei muitos deles e isso de certa forma me leva para o meu trabalho mais recente, que tem certos núcleos que são próximos ao governo do presidente Jair Bolsonaro, especificamente o que diz respeito a ele, a família dele e as implicações criminais de um caso que fala muito sobre a biografia dele, que é a história que envolve os gabinetes da família dele no tempo da Câmara dos Deputados e dos filhos.

Na sua percepção há uma naturalização do discurso de ódio no meio jornalístico? Se sim, como percebe que isso ocorre?

Juliana – Forte isso, porque essa afirmação é um pouco genérica, sabe? Eu acho que ao longo do tempo, pegando especificamente o exemplo do presidente Jair Bolsonaro, ocorreu sim um erro ao longo dos anos, de tratar declarações que ele dava sobre opiniões que ele tinha com relação à ditadura, não baseadas em fatos, também opiniões que ele tem sobre a escravidão e as consequências da escravidão e também sobre direitos das mulheres, direitos das minorias de um modo geral, como polêmica. Eu acho que num primeiro momento aquelas entrevistas que foram feitas em alguns programas de auditório e enfim, programas sobretudo televisão, tiveram esse caráter. Tratou ele como se fosse alguém que gerava polêmica, consequentemente audiência, e isso de alguma maneira acabava repercutindo na internet, de modo geral na imprensa, declarações, e aí ele se tornou conhecido a partir dessas declarações. Ele se tornou mais conhecido, ele ganhou relevância como o deputado que era polêmico. Não se colocou o peso de que qualquer discriminação é crime, seja de sexo, seja de raça, a nossa constituição garante igualdade perante tudo isso. Tiveram muitas declarações dele no sentido do racismo, inclusive foram alvo de processos do Supremo Tribunal Federal e o Supremo não o condenou, colocou ele dentro da imunidade parlamentar. Então, eu acho que essa responsabilidade é dividida. A imprensa tem essa responsabilidade no período anterior sobretudo ali antes de 2018, quando ele vem crescendo, a partir de 2010, 2011. Também naquela época tinha a questão da Comissão da Verdade, ele também usou essa imagem do defensor dos militares para cacifar no meio. Nada disso foi levado a sério criminalmente. Então eu acho que essa naturalização não é somente da imprensa, sabe?  Foi uma naturalização da sociedade durante um bom tempo e é uma discussão que está colocada agora com relação à imunidade parlamentar, porque eu vejo uma escalada. Começou com isso, com ele e com outras pessoas que faziam esse discurso também semelhante. E depois, conforme eles vão ganhando poder, o presidente ao ganhar a presidência, a eleição 2018 e os deputados e senadores que se elegeram junto com ele, esse discurso vai crescendo para várias manifestações antidemocráticas. Então os filhos do presidente também fizeram manifestações antidemocráticas, o Eduardo Bolsonaro já declarou mais uma vez sobre defender a volta de um AI-5 e sobre o Supremo Tribunal Federal, “que precisava de um cabo e de um soldado para ser fachado”. Então isso vem numa escalada. Quer dizer então eles podem, dentro da imunidade parlamentar, inclusive defender o fim do Estado democrático no Brasil? Impuseram limites em 2021 com relação à questão do deputado Daniel Silveira, mas o deputado Eduardo Bolsonaro não sofreu nenhuma consequência com relação a isso que disse. Hoje houve uma busca e apreensão no deputado Otoni de Paula, que é um outro apoiador, mas os filhos do presidente não sofrem essa mesma sanção. Então, mais do que a imprensa, acho que existe uma naturalização generalizada da sociedade, o que não exime a imprensa, não é que não tenha cometido erros nesse sentido ao longo do tempo. Eu mesma tive essas discussões internamente, mais de uma vez, em diferentes lugares onde eu trabalhei, eu questionei a maneira como a gente fazia, os títulos, a maneira como você coloca as declarações da pessoa. Eu também vejo nessa mesma esteira, por um lado, eles fazendo essas declarações incriminatórias e depois avançando para questão antidemocrática, e por outro lado também recentemente por causa da pandemia eles negam a ciência. É o mesmo grupo de pessoas que faz essas declarações e naquela época as pessoas queriam menosprezar, achar que não tinha consequência. Bom, agora na pandemia isso resultou efetivamente em morte, né? Não que não resultasse em violência, em discurso de ódio num contexto violento, mas agora ele resulta numa questão de saúde. Porque a cloroquina, ivermectina, essas mentiras que saem,  isso se tornou uma ferramenta política para eles e o Estado demorou, o Estado democrático demorou para reagir. A sociedade normalizou, a imprensa também demorou pra começar a não reproduzir o discurso simplesmente, para contrapor. Eu acho que esse processo vem sendo feito nos últimos dois, três anos, de maneira tímida. Agora que está um pouco mais difundido, mas ainda assim, para o que a gente está vivendo, é pouco.

Como você percebe o fenômeno da desinformação e o impacto na sociedade, na prática do jornalismo?

Juliana – Fazendo esse mesmo raciocínio, foi ficando cada vez mais agressivo. O ambiente já não era dos mais fáceis nessa época em que o Bolsonaro estava dando essas primeiras declarações nesses programas de auditório, ali por volta de 2011, mas aí vem 2013 e quando começam aquelas manifestações de rua, que começaram por causa da passagem de ônibus, tudo veio pra rua, entende? Movimentos de direita, de esquerda, movimentos antidemocrático. Então é difícil até hoje entender o que é que foi que escancarou naquela época. Agora com certeza foi a partir de junho de 2013 que nós, jornalistas, começamos a ter problemas para trabalhar na rua, para usar o crachá, para se identificar como jornalista. Até então eu não me recordo de ter que esconder o crachá, de estar em manifestação ou protesto ou trabalhando e precisar não me identificar como jornalista no meio da multidão para cobrir uma manifestação. Ou mesmo pra chegar em algum ambiente político. A gente sempre se identifica. Isso até ajudava. Mas a partir de então, ali dos protestos, daí começa a ficar complicado, começam a ter as primeiras agressões, primeiro da polícia, depois começam de grupos de manifestantes e isso vai escalando. Começa a se tornar comum na verdade que de vez em quando ocorram agressões físicas a jornalistas em manifestação, eu nunca fui alvo, mas eu também sempre chego super low profile, sem crachá. Antes de abordar alguém para entrevistar, eu já fico olhando ao redor, escolhendo onde é que eu vou. Eu cobri, por exemplo, a manifestação, o protesto quando a vereadora Marielle Franco morreu.

Foi a partir de junho de 2013 que nós, jornalistas, começamos a ter problemas para trabalhar na rua, para usar o crachá, para se identificar como jornalista. Até então eu não me recordo de ter que esconder o crachá, de estar em manifestação ou protesto ou trabalhando e precisar não me identificar como jornalista no meio da multidão para cobrir uma manifestação

Na frente da Cinelândia [no Rio de Janeiro] era um ambiente muito hostil à imprensa, uma comoção muito grande, mas havia ódio também ao trabalho da imprensa. A gente tinha colegas trabalhando junto em diferentes locais, mas não dava para a gente ficar o tempo todo junto porque era uma multidão e também o único jeito de a gente acompanhar tudo era estando em diferentes lugares. Eu sei que eu não me aproximei do núcleo central em nenhum momento porque eu não me senti segura pra fazer isso, eu ficava com medo mesmo da multidão, ficava com medo de precisar sair e não ter como ou mesmo, de sei lá, sabe… Então eu fui escolhendo pessoas aqui, ali, tentando identificar representatividade para entrevistar e fiz o que deu, mas me senti bastante insegura durante todo o momento. Passei por situações parecidas cobrindo manifestações do Bolsonaro, eu não quero equiparar, dizer que é igual, essa é uma coisa bem importante para mim, eu não quero dizer que é igual, mas eu preciso dizer que existe intolerância de uma maneira grave, generalizada na sociedade. E quando você vai cobrir também. Eu cobri também manifestação depois da facada que o presidente sofreu em Juiz de Fora. Fui aqui em Copacabana, numa manifestação que teve os filhos, o vice-presidente Mourão. Outro dia que também fui sem crachá, sem se aproximar do palco, meio que tateando onde dava pra ir. Nesse dia tinha bem menos gente que no dia dos protestos por Marielle. Eu tento trabalhar, não deixo de trabalhar porque o ambiente é hostil, mas me incomoda não poder me identificar como jornalista, me incomoda não saber se a gente vai ter efetivamente segurança da polícia para poder trabalhar, seja num lugar, seja no outro, e olha eu evito ter que cobrir manifestação de rua, por exemplo,  porque é inseguro, é onde talvez de tudo seja mais inseguro. E também a abordagem, sabe? Quanto mais grosseira a pessoa é comigo, mais simpática eu sou com ela. Porque aí assim a pessoa chega lá em cima, aí você vai contornando, dali a pouco ela começa a ficar com vergonha, em alguns casos, se ela tá sozinha, né? Eu já vi situações, é um limite muito pequeno pra você perder o controle e acontecer situações de linchamento como aconteceram com alguns colegas que dali um pouco vêm uns dez em cima, começam sabe, encurralar. Então eu tento fazer meu trabalho, mas não ignorar que essas coisas são complicadas e às vezes a gente vai perder o controle se você ficar assim, muito no meio do núcleo central. Falando de redes sociais, é outra escalada também de violência. Eu tenho Twitter acho que desde 2009, Facebook também, Instagram tenho, mas eu quase não usava, agora que eu estou usando mais. O Twitter também usava pouco, eu usava mais o Facebook antes. Já tinha episódios de linchamento desde a eleição de 2014, que eu me recorde, mas com certeza é do impeachment da Dilma [Rousseff] em diante que ganha uma velocidade esse tipo de episódio de linchamento virtual contra jornalistas. Já passei por isso, é um pouco assustador, porque eu diria que ninguém pode se dizer preparado para passar por uma situação dessa. Eu acho que de modo geral nem as empresas estão e nem elas nos preparam para encarar isso. Antigamente, como funcionava quando você fazia uma matéria que tinha muita repercussão e gente que não gostou: existia uma caixa de comentário do jornal, do site do jornal ou então ligavam para a Redação. Ligavam muito, ligavam para os telefones da Redação ou mandavam e-mail para os e-mails gerais que a gente tinha etc. Mas as redes sociais acabam criando proximidade para a gente falar com pessoas que a gente não conheceria, da mesma forma que viraram um muro de lamentação, e a pessoa vai te xingar se ela quiser. Começam a ter movimentos organizados, provavelmente automatizados, e aí vem escalando 2016. Tem a eleição que é a primeira eleição em que o Flávio Bolsonaro disputa a Prefeitura do Rio de Janeiro e também é a eleição do [Donald] Trump, nos Estados Unidos. Eu vejo que não estamos isolados no mundo em relação a isso, a essa violência na internet. Mas está acontecendo aqui também, de uma maneira cada vez mais agressiva. 

Você poderia falar sobre ataques que sofreu na internet, o teor, o nível, o conteúdo?

Juliana – Normalmente o conteúdo da matéria é ignorado. Na internet, sobretudo. Em geral o conteúdo da matéria é ignorado no ataque, quando é linchamento, com centenas, milhares de mensagens, como acontece no Twitter. Para nós, mulheres, é misógino, é ofensa. A pessoa ali tem pouco mais de 200 caracteres. O automático é uma palavra, né? Chamando de “vagabunda” ou “burra”, aí tem as desqualificações no sentido de você parecer novinha demais pra eles, então “estagiária” e variações disso; aí vêm os xingamentos que não são gênero, mas que também aparecem muito que é “jornazista”, “extrema imprensa”, “Globo lixo”, mesmo se você não é da empresa, entende? Eu acho muito engraçado “extrema imprensa”, o que é “extrema imprensa”? Teve uma vez que eu fiz uma matéria, entrevistei pessoas que tinham se arrependido de bater panela protestando contra a ex-presidente Dilma Rousseff e foi uma matéria que quando propuseram a pauta na reunião, eu pensei “nossa, não vou achar ninguém, ninguém vai ter coragem de admitir”. Em dois, três dias, achei umas cinco pessoas. Essa foi uma primeira matéria que teve um linchamento, xingamento.

Em geral o conteúdo da matéria é ignorado no ataque, quando é linchamento, com centenas, milhares de mensagens, como acontece no Twitter.

Alguém não gostou da matéria e em vez de refletir que em nenhum momento a matéria falava que era uma sensação generalizada, não estava afirmando que era a maioria das pessoas, não. Existem pessoas e um perfil dessas pessoas, sabe? E aí aquele Rodrigo Constantino fez uma coluna sugerindo que eu tinha inventado essas pessoas e acredito que devem ter replicado em  grupo de WhatsApp, de direita, essas coisas. E aí replica e começa a te xingar e aí vai. Me lembro que esse foi um episódio, mas esse é um episódio “só” de xingamento. Mas a coluna do Rodrigo Constantino saiu na Gazeta do Povo, eu fiquei com muita raiva daquilo, muito chateada, a minha vontade era de ligar lá “não é possível que vocês vão inventar que a gente inventou uma matéria que tem até foto das pessoas”. Então assim é desrespeitoso num nível gravíssimo. Você pode criticar a matéria, só não dizer que a gente inventou a história porque isso não é crítica, é uma acusação, é uma infração ética. Pouco depois disso, em 2019, fiz uma matéria sobre um filme da produtora Brasil Paralelo que falava sobre uma nova visão do Golpe Militar,  e aí é uma área que eu tenho especialidade, não só de cobertura como de formação profissional, meu mestrado foi nessa área, então eu tinha até curiosidade pra saber qual era, vamos dizer assim, a volta linguística, semântica, simbólica que eles iam dar para afirmar que não teve golpe. Assisti o filme e entendi que mesmo querendo impor uma narrativa de que não teve uma outra solução, de que o Brasil foi salvo, vamos dizer assim, salvo de um golpe comunista, pois o Brasil sofria e ia talvez sofrer uma ditadura comunista caso não tivesse ocorrido a ditadura militar, mas mesmo quando precisa justificar a mudança do governo, eles usam a palavra golpe e aí a pauta estava dada. Até os cara de direita estão falando que é golpe, então ok né? No dia seguinte dessa matéria boba, que fiz num fim de tarde, o Brasil Paralelo fez um tweet “chamando para xingar”. Porque ele não diz para xingar, mas eles me acusavam de não ter visto o filme, ter feito a matéria e vieram com essa coisa de “estagiária”, “redatora”, como se você fosse desqualificada para fazer a matéria. E aí sim foi um outro episódio, eu acho que eu fiquei uns dois dias sendo xingada na internet bastante. Foi ali que eu descobri os filtros do Twitter para não receber notificação de quem não tem foto, email. Eu recebia umas notificações automáticas, eu estava recebendo muita notificação, aí eu alterei isso, fechei minha rede, eu acho, e eu recebi uma primeira ameaça de morte. Assim, veio uma mensagem que dizia “você vai morrer” de um perfil não identificado. Foi a primeira vez que eu tive que me defrontar com isso mais diretamente na minha carreira. Você saber se é só alguém na internet pirado ou se é uma coisa que você tem que se preocupar, o que que você faz? Então eu acho que justamente por não ter experiência nenhuma com o ocorrido a gente tomou medidas muito tímidas e aí, por exemplo, eu avisei internamente, foi avisado internamente, foi comunicado na época para a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo), mas a gente não fez um registro formal pedindo investigação, sabe? Isso acabou não sendo feito e é um arrependimento que eu tenho de não ter feito isso, me incomoda bastante. Porque eu acho que assim, depois disso, eu carreguei para mim que essas coisas precisam ser levadas a sério e quando a gente não cobra a punição, a gente não cobra a responsabilidade de quem faz essas coisas. Eu fiquei meio baqueada emocionalmente naquele episódio, eu não conseguia muito bem falar sobre aquilo e eu não conseguia falar  sem me emocionar, sabe, e “mulher não pode chorar”. Então eu não dei entrevistas sobre aquilo, não quis participar de evento nenhum, passei um tempão mesmo recusando coisas de trabalho assim para aparecer, até porque eu não me sentia confortável, não me sentia bem. Eu foquei muito em trabalhar, eu já estava enfurnada nessa coisa do governo Bolsonaro e dessa situação do [Fabrício] Queiroz e achei que também era o jeito de me proteger naquele momento, me manter low profile. No meio disso estavam acontecendo aqueles episódios com a Patrícia Campos Mello e a Patrícia começou a falar mais abertamente sobre o fato de que ela tava passando por tudo aquilo, que outros colegas estavam passando por ameaças, ela citava a gente, homenageava a gente, aí eu comecei a entender que também não dava pra deixar a Patrícia sozinha na história. Eu comecei a me sentir um pouco mais confiante, daí eu retomei um pouco a vida mais normal em relação a trabalho, parei de me proteger, eu me senti confiante de novo para me expor um pouco mais profissionalmente. Eu acabei tendo um destaque importante com relação a isso, se tornou importante para a minha carreira. E eu hoje separo o que é xingamento e o que é ameaça. Sai do Globo no fim de 2020, e na pandemia a gente trabalhou muito em casa, eu principalmente por causa do trabalho, da prevenção do vírus, trabalhei mais em casa e fiz saídas mais pontuais, quando tinha muita necessidade, quando era para falar com alguém ou buscar alguma coisa, documento, mas de uma geral eu trabalhei mais em casa, então eu me senti mais segura, sabe. Fiz um monte de matéria importante. Acabei não precisando estar na rua, então era menos esse embate com relação à questão da minha segurança física. Na internet, eu já silencio gente me xingando, bloqueio quando vejo que não é uma crítica, quando eu vejo que é com xingamento, denuncio etc. E aí eu saí do Globo e comecei a trabalhar como colunista do Uol ainda em 2020.


E então veio o Podcast… 

Juliana – A gente começou a programar o podcast “A Vida Secreta de Jair”, que recupera a biografia do presidente e o envolvimento criminal ali da história toda dos gabinetes, desse rolo que envolve um dos casos mais importantes para ele, e falo isso porque ele se irrita muito com essas questões, já falou para um jornalista, ao ser questionado sobre aspectos do caso, que a vontade dele era encher a boca da pessoa de porrada. É porque é muito intrínseco à família dele, é sobre ele e é sobre a família dele. É algo que incomoda e que preocupa e várias medidas foram feitas no Governo para proteger a família. Eu tentei reunir um pouco de toda essa história que é pública, que diz respeito ao processo, e também da minha atuação profissional investigando esse fato. O podcast foi publicado no dia 06 de julho. Mas teve a prévia da estreia do podcast, uma série de reportagens no dia anterior e, de novo, os xingamentos na internet. De modo geral, falando da minha rede, até que não houve tanto dessa vez. E aí eu quero também destacar algo que eu considero importante. Eles geralmente me xingam mais em outras matérias. Quando há matérias como esse caso eles não respondem, quando eu digo eles é sobre a família Bolsonaro de um modo geral, porque isso reverbera na rede deles, então aí as pessoas comentam também. Esses dias mesmo o Eduardo Bolsonaro veio criticar uma matéria que eu fiz sobre dados de valores que o Alan de Santos do [programa] Sexta Livre mandou para o exterior, e aí ele veio criticar essa matéria, eu respondi, ele printou o meu tweet, ele expôs a minha imagem, e aí eu respondi pra ele, respondi perguntando coisas que ele não tinha respondido no ano passado, além de responder à questão da crítica da matéria, porque não tinha fundamento. Então quando as matérias são específicas sobre esse assunto que envolve os gabinetes e o Queiroz e a ex-mulher do presidente e a Michele Bolsonaro, a atual primeira-dama em geral, a resposta não é direta para não reverberar dentro da própria rede deles. Eles deixam para atacar em outras matérias. Mas voltando ao que aconteceu no podcast, para concluir o trabalho do podcast, eu entrei em contato por e-mail com o Palácio do Planalto perguntando se eles queriam comentar o conteúdo das gravações, da ex-cunhada do presidente que tinha uma série de acusações com relação a ele, com relação à família. Chamei os advogados, diferentes advogados, porque o Flávio [Bolsonaro] tem um grupo de advogados que não vem ao caso, e o Bolsonaro tem especificamente um advogado que se apresenta como a pessoa que o representa, que é o Frederick Wassef e aí gravei entrevistas com essas pessoas para concluir o trabalho.

Quando há matérias como esse caso eles não respondem, quando eu digo eles é sobre a família Bolsonaro de um modo geral, porque isso reverbera na rede deles, então aí as pessoas comentam também

Gravei as entrevistas no dia 02 de julho. Foi normal, não teve nenhum grande estresse com ninguém. Passou uma semana, no dia 09 de julho, no último dia da publicação do material que foi a estreia do último episódio do podcast, que estreava 4h da manhã, fiz uma entrada ao vivo no canal do Uol ao meio-dia para comentar, explicar um pouco do que tinha no ar, de novidade, e horas depois, no fim da tarde, por volta de umas 18h, eu recebi uma mensagem do Wassef, em que ele fazia insinuações dizendo que se eu fizesse o trabalho que eu faço no Brasil na China, meu corpo poderia desaparecer. Dizia que eu sou uma inimiga da pátria, que eu estava querendo destruir a vida do presidente, a família, perguntava se eu estava feliz com isso, entre outras coisas, que é uma mensagem longa que tem um monte de coisas nesse sentido, paranoia comunista e uma clara ameaça à minha atuação profissional de certo modo. Também à minha integridade física. Ele não contestou em nenhum momento nenhuma informação que foi publicada.  A mensagem é gratuitamente um ataque a mim, não é nem a empresa, o Uol passa longe. Sou eu. Eu acho que no caso dele tem a ver com o fato de que eu me destaquei muito profissionalmente também nesse tempo, fiz muitas matérias que tiveram repercussão e implicação pro senador e para família e para o presidente, então ele conhece esse trabalho. Eu estava vendo um filme com meu marido em casa quando essa mensagem chegou, começando a tirar uma folga de todo trabalho pesado das semanas anteriores para concluir o podcast. E a minha primeira reação foi de choque. Comuniquei à chefia e à minha família também avaliei que tinha que avisar. Estava com meu marido na hora, então ele olhou e foi tomada a decisão de tornar público o que ele me mandou, por uma questão até de proteção, porque é difícil saber exatamente se a gente se preocupa. O que você faz durante isso, naquele momento, e ali eu acho que realmente era importante dizer que ele estava fazendo isso porque estava se sentindo confiante o suficiente para me mandar uma mensagem daquela. Eu vou saber o que ele vai fazer mais? Sei que tornar público que você é ameaçada é algo que é ruim. Não é bom. Era o que tinha que ser feito para tentar ter alguma proteção com relação à alguma coisa que pudesse ser feita contra mim, mas a exposição disso é algo que te marca como profissional. Eu não quero ser conhecida como a jornalista que foi ameaçada pelo Frederick Wassef. Eu tenho uma carreira, eu tenho um trabalho, então eu não quero que esse episódio me defina, mas infelizmente te marca. Quando você notícia, ele te marca bastante e é algo que é incômodo, não é bacana, nem um pouco, passar por isso. Até porque ele é uma pessoa extremamente difícil, então na medida em que a gente denunciou isso ele foi lá e me ofendeu ainda mais. Ele começou a inventar isso para algumas pessoas que começaram a procurar ele por a gente ter noticiado a ameaça e dizia que tinha sido “uma troca de mensagens, e que mandou isso numa troca de mensagens”. E não, não houve uma troca de mensagem, ele aquilo gratuitamente”. Eu estava em casa, com meu marido, não tinha uma matéria, não estava esperando o outro lado de nada e aí ele me ofendeu mais publicamente. Na cobertura da imprensa sobre isso, eu recebi muita solidariedade de entidades, instituições, colegas jornalistas e foi muito bacana saber disso, mas ao mesmo tempo algumas matérias que saíram , olha, terríveis. Eu vi uma que abriu o microfone pra ele falar dez minutos dizendo que eu tinha quebrado um off em uma determinada rádio. Deram o título pra ele dizer que era fake news a notícia da ameaça. A mensagem não foi enviada, então? É um absurdo. Fiquei chateada com isso também, me poupei de ler o resto. Hoje foi comigo, mas amanhã pode ser com qualquer um de vocês. Achei que as empresas [de jornalismo] não se manifestaram da maneira como deveriam, de modo geral. As demais empresas de jornalismo, além do Uol.

Quando há matérias como esse caso eles não respondem, quando eu digo eles é sobre a família Bolsonaro de um modo geral, porque isso reverbera na rede deles, então aí as pessoas comentam também

Acho que deveria ter tido uma repercussão mais parecida com o que aconteceu quando aconteceu com o Glenn Greenwald, por exemplo. Quando o Bolsonaro ameaçou o Glenn Greenwald de prisão, não foi a vida especificamente, foi de prisão. Então eu não sei se é porque eu sou mulher, mas enfim. Eu denunciei ele formalmente ao Ministério Público de São Paulo, apresentei ata notorial das mensagens que foram trocadas. Era o que me cabia, fazer a denúncia. É uma coisa que é custosa também ser feita. Não faço a menor ideia do que vai acontecer, mas eu achei que precisava ser registrado e a minha família também entendeu dessa maneira e eu fiz questão que isso fosse feito. Eu ainda estou aqui, pouco mais de um mês depois do que aconteceu, me recuperando das consequências desse episódio, não só da ameaça, mas da repercussão do podcast. Esta semana talvez tenha sido a primeira semana em que eu saí de casa sozinha sem compartilhar a minha localização com alguém. Nas primeiras semanas, nos primeiros quinze dias, eu praticamente não saí de casa. A gente teve que orientar aqui o porteiro, coisas como “não dê informações sobre a gente”. Se alguém perguntar, nos avise. Eu não quis botar a segurança, entendeu? Achei que ia chamar a atenção dos vizinhos. Dentro de casa eu relativamente me sinto segura. Mas eu com um certo medo de sair de dentro de casa nas primeiras semanas, não dá pra saber se tem perigo ou se não tem, sabe? Isso fica na sua cabeça, é estranho. Então nas primeiras semanas as poucas coisas que eu precisei fazer de trabalho eu compartilhava a minha localização com meu marido pra que ele soubesse sempre onde eu estava, quando eu precisava sair, embora tenha evitado ao máximo sair, saindo só para questões muito urgentes. Também me afastei do trabalho, tive que pegar uns dias de folga mesmo, sair, fui passar uns dias na casa da minha família. A minha família também sofreu retaliação de trabalho por causa do podcast, mas eu não quero detalhar muito. É assim, pressão pra cima de pessoas da minha família por causa do meu trabalho. Então eu lido com isso e vou tentando trabalhar, mas eu não me sinto 100%. Eu tenho dificuldade de me concentrar agora, tenho dificuldade de manter a concentração. E estou tentando lidar, tentando não me cobrar muito. Trabalho muito, eu gosto muito de trabalhar, eu gosto muito de ser jornalista, de trabalhar com a reportagem, mas isso tudo mexeu muito comigo e com a minha família. Embora eles tenham me apoiado muito a ir em frente, a seguir,  mas também tem uma preocupação, de continuar fazendo o trabalho que eu estava fazendo. Então eu estou um pouco num processo de entender os caminhos que eu vou seguir. O estado das coisas é esse. 


Você acha que a questão de gênero, o fato de ser mulher ou  ser LGBT+, implica em algum tipo de violência específica no jornalismo? 

Juliana – Eu acho que tem uma diferença sim na maneira como eles nos ofendem. De modo geral, os xingamentos que a gente recebe são xingamentos claramente com viés de gênero, pois é raro um homem ser chamado de vagabundo, mas é bem comum uma mulher ser chamada de vagabunda. Se olhar para o meu episódio mais grave, vários colegas jornalistas cobrem esse assunto que envolve o Bolsonaro, Queiroz e companhia. Um deles recebeu nada [de ataque], entendeu? E tem um outro colega jornalista, homem que fez algumas matérias muito importantes do caso também, que é o Fábio Serapião, da Folha de S. Paulo agora, mas antes ele trabalhava no Estadão e na [revista] Crusoé. Ele é o repórter que revelou o relatório do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) lá em dezembro de 2018. Ele é o repórter que fez a matéria sobre os cheques da Michele [Bolsonaro], que ela recebeu do Queiroz. O Frederick não mandou essas mensagens para o Serapião, entende? Mas ele se sentiu à vontade de mandar para mim. É difícil até saber o que passa na cabeça de uma pessoa para esse tipo de coisa. Quando eu tornei pública a ameaça, a Luísa Martins, do Valor [econômico] contou que foi constrangida por ele e forçada a entrar no carro para que ele reclamasse de uma matéria que ela tinha feito em Brasília tempos atrás. Então, eu acho que é diferente sim, tem muito machismo nos arredores do Bolsonaro e quando a gente passa o tempo assim, todo dia no Palácio, quando eu estive lá senti muito por ser mulher. Tem até mais jornalistas mulheres cobrindo o Palácio do Planalto, mas quando você olha o caso dessa história tem muito mais homens que cobrem do que mulheres e nenhum deles foi alvo de algo  como aconteceu comigo. Mas a Patrícia [Campos Mello] foi alvo de ameaças daquelas injúrias sexuais. Teve o caso da Vera Magalhães, que teve exposição de dados da família dela, além de xingamentos de modo geral. Com homens não é igual, dessa mesma maneira, sabe? E eu, quando eu andava no meio dos militares, desde quando eu cobria só repressão, mais a questão da repressão política, a violência na ditadura, sempre tinha e carrego essa sensação,  como se eles me tratassem como “aquela menina, aquela menininha ali que faz umas perguntas impertinentes, sabe?”. Porque muitas vezes menosprezam. Pelo menos quando o presidente tem várias pessoas ao redor. Tem o que é machista de te desprezar profissionalmente e aí quando você se destaca profissionalmente vai te atacar para te diminuir, eles não respondem especificamente as coisas que precisam ser respondidas por representantes públicos. Então, ou você não é competente, e aí “não vou te dar bola”, ou então você se excedeu e precisam te diminuir profissionalmente, então “eu te ataco, eu te ataco, e tento atacar a sua credibilidade”.

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“Vivi alguma violação de direitos em todas as empresas onde trabalhei”, diz Kátia Brasil, da Amazônia Real

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Kátia Brasil é jornalista, cofundadora e editora da Agência Amazônia Real. Está há mais de duas décadas na cobertura socioambiental com foco na Amazônia. É uma das 7 pessoas entrevistadas em profundidade para a pesquisa “O Impacto da Desinformação e da Violência Política na Internet contra jornalistas, Comunicadoras e Pessoas LGBT+”.
Você pode falar sobre a sua formação, suas áreas de atuação como jornalista e comunicadora?

Kátia Brasil – Nasci em Fortaleza e minha família mudou no início dos anos 70 para o Rio de Janeiro. Foi onde passei a maior parte da minha vida escolar. Fiz a Faculdade Hélio Alonso, uma faculdade particular. No início da carreira, eu tinha interesse em fazer cinema. Inclusive eu prestei dois vestibulares na Universidade Fluminense para fazer o curso de Cinema, mas não passei. Como também gostava da profissão jornalismo, tinha já ídolos, como o Zuenir Ventura, que sempre foi uma das minhas inspirações nessa questão de fazer grandes reportagens…As viagens que ele fez, pela Amazônia, inclusive. Fui para o jornalismo, mas eu ainda não tinha esse contexto de Amazônia na minha vida. Sou filha de uma família que foi liderada por mulheres sempre, mas o machismo sempre foi uma coisa de enfrentamento porque as mulheres, minha avó é um exemplo, sempre me incentivaram a estudar. Ela ficou viúva muito cedo, teve que cuidar dos filhos sozinha e minha mãe também separou do meu pai cedo e teve que criar os filhos sozinha com a ajuda da minha avó, então eu sempre tive na família essa liderança das mulheres. Mas mesmo assim o machismo sempre foi muito forte. Quando entrei para o jornalismo, tempos depois trabalhei em rádio, em revista e, quando eu me formei, em 1990, participei de uma seleção para a contratação de repórteres para um jornal que seria inaugurado em Roraima, na capital Boa Vista. Passei nessa seleção e mudei para lá. Foi aí que eu fui conhecer a Amazônia. As informações que eu tinha da Amazônia, basicamente, eram sobre o Chico Mendes, uma grande liderança que havia sido assassinado anos antes da minha viagem, em 1988. Então tinha essa referência e coisas que eu lia nos jornais eram basicamente sobre conflitos e a existência de várias populações indígenas. O primeiro jornal em que eu trabalhei era um jornal político que na verdade não era um jornal como eu gostaria de ter trabalhado, era um jornal vinculado a uma candidatura política do dono do jornal, que também fui conhecer lá. Era o Romero Jucá, e foi outra decepção que eu tive, pois era um jornal para comandar a parte toda de comunicação dessa candidatura política que acabou não vencendo, mas assim, a gente viu como se faz uma campanha eleitoral, no rincão. Foi bastante decepcionante para uma jovem jornalista como eu que estava iniciando a carreira. Mas nesse jornal eu conheci bons jornalistas, pessoas que me deram atenção.  Após nove meses, voltei pro Rio de Janeiro. Havia conhecido o Plínio Vicente, que era o correspondente do Estado de S. Paulo em Roraima e ele me ensinou a fazer correspondência. Acabei fazendo correspondência para o jornal O Globo lá em Boa Vista ainda. 1990 foi o ano em que o Governo Collor assumiu o poder e o Lula perdeu aquela eleição. O Rio de Janeiro estava numa estagnação, não havia emprego para jornalistas, a situação estava bem difícil para todo mundo e aí voltei, mas consegui uma vaga de correspondente do Globo em Roraima e fui pra lá. E aí começou a minha vida realmente como jornalista socioambiental, como é mais definido hoje. Fui conhecendo o que eu queria de fato, a Amazônia de verdade. As populações indígenas, as comunidades, as terras indígenas, e fui fazendo um trabalho que eu acho que é pioneiro em relação àquela região do Brasil. Porque apesar de estarmos na Amazônia e escrevendo daquele ponto, não se falava dos povos indígenas nos jornais. Ao contrário, o estado de Roraima é muito combativo em relação às demarcações de terras. Existe um racismo muito grande contra os povos indígenas, inclusive conflitos com mortes, esse processo todo de demarcação de território todo é muito tenso. Eu vivia na zona de perigo o tempo todo. Escrevi sobre muitos conflitos, acompanhei demarcação em territórios e tudo. Acompanhei muito essa questão de invasão, de garimpos ilegais, conflitos na fronteira com soldados militares e garimpeiros e ganhei um Prêmio Esso. Eu era recém-formada e ganhei esse prêmio justamente relatando o conflito que eu fui acompanhar na fronteira do Brasil com a Venezuela, da Guarda Nacional Venezuela. Fiquei lá em Boa Vista morando mais dois anos, trabalhei na TV Educativa, fui repórter de TV, e esse foi meu último trabalho lá. Mas sempre tive muito embates, com editores e diretores, menos na Gazeta. Já nos outros veículos eu enfrentava esse problema de matérias que não podiam sair porque não ia agradar o político tal ou matérias sobre meio ambiente que também não iam agradar os empresários, então a minha vida foi marcada por esses por essas questões de violação de direitos da liberdade de expressão e a própria ameaça ao jornalista. Em 1993, comecei a cobrir um crime, que foi a morte de um conselheiro da Ordem dos Advogados do Brasil, eu era da TV Educativa. A TV me deu muita liberdade para fazer a cobertura desse crime que envolvia um desembargador e os filhos dele, que eram da Polícia Militar, inclusive um era delegado. Houve muita comoção dessa morte, os conselheiros da ordem foram todos para Roraima fazer uma manifestação, o Governador não queria federalizar o caso, havia pressões do Governador e eu enfrentei muitos problemas. No final o desembargador me ameaçou de morte. Eu ainda fiquei um tempo lá administrando isso e acabou que eu conheci um jornalista da cobertura do massacre dos Ianomâmis que ocorreu em 1993. Eu disse para ele que eu tinha interesse em morar em Manaus, que eu não queria sair da Amazônia, ele falou para mim que se eu fosse para Manaus ele conseguiria uma vaga de correspondente no Estadão e foi assim que aconteceu, fui pra Manaus, fui ser a editora de economia do Jornal Amazonas em Tempo. A dona do jornal, que era Hermengarda Junqueira, sabia da minha situação de ameaça de morte, me ajudou bastante nessa transição e cheguei lá como correspondente do O Globo também. Depois deixei O Globo e entrei no Estadão. Fiquei sete anos como correspondente para o Estadão. No Amazonas eu fiquei uns dois anos, acabei tendo problemas com a direção do jornal porque comecei a fazer a investigação de uma questão de sonegação de impostos, empresas fantasmas da Zona Franca de Manaus com Usina de São Paulo. Então eu sempre estava no meio do perigo, fazendo material investigativo. Teve até um caso de um jornalista que estava me espionando, por incrível que pareça, porque ele era assessor de um vereador e esse vereador tinha dado uma entrevista para o Estadão. E houve uma espionagem do que eu estava fazendo, eu era editora de economia. Todas as empresas em que eu trabalhei, todas, eu tive alguma situação de violação de direitos. Todas, entendeu? A TV Educativa, por exemplo, para onde fui quando saí do Amazônia em Tempo. Na época quem era o Governador do Amazonas era o Amazonino Mendes, um cara totalmente truculento com jornalistas. Lá eu fiz uma matéria sobre prostituição infantil de criança, eu gerava matérias pra TV Cultura de São Paulo, e esse material que eu fiz sobre a violência sexual contra crianças desapareceu. A fita sumiu no dia em que ia ser enviada. Foi mais de um mês de trabalho andando de madrugada nas ruas atrás das crianças, acompanhando delegada, pessoal dos comissários, pessoal do Conselho Tutelar, indo nas periferias, atrás dos pais e mães que eu queria contar a história de algumas crianças. E no final todo o trabalho ficou fantástico. Quando foi gerar o material, a fita sumiu. Isso ocorreu em 1996. Inclusive esse foi o motivo que me fez não trabalhar mais em empresa local. Eu tenho trinta e um anos de profissão, sem contar os estágios. Mas assim como outras [jornalistas] entrevistadas para essa pesquisa, a minha vida sempre foi cheia de altos e baixos em relação às violações. É difícil, é difícil quem não tenha enfrentado, principalmente quem trabalha muito em campo, como eu, que trabalho numa região já caracterizada como uma região de conflitos, como é a Amazônia. 

Hoje estamos sendo muito atacadas e estamos na linha de frente dos grandes acontecimentos. Na nossa profissão,a maioria são mulheres, e essas jornalistas não estão nos postos de chefia nas redações, que é uma outra violação que a gente sofre

 
Você percebe que há uma naturalização do discurso de ódio no meio jornalístico? E se sim, de que maneira?

Kátia – Não sei se acontece em outros países, mas aqui a gente, jornalista, enfrenta rejeição. A gente tem, infelizmente, essa desqualificação do jornalista. Dizem que somos fofoqueiros, até no campo da literatura, no campo da telenovela, a gente é retratado como pessoas ou muito radicais ou pessoas que fazem fofoca. E sabemos que o nosso trabalho não é esse. A gente tem um trabalho diário de contar as histórias da sociedade, o que se passa na sociedade e no mundo. Nós somos, na verdade, personagens de mudanças, uma série de trajetórias social, política, econômica. Então a gente não é respeitado como deveríamos ser. É importante, principalmente, pesquisas como essa porque vai valorizar o nosso trabalho, porque é um trabalho muito difícil, é existencial a profissão de jornalista. Hoje estamos sendo muito atacadas e estamos na linha de frente dos grandes acontecimentos. Na nossa profissão,a maioria são mulheres, e essas jornalistas não estão nos postos de chefia nas redações, que é uma outra violação que a gente sofre, a desvalorização enquanto mulheres. Somos mandadas por homens, homens que ganham muito mais do que nós, mesmo quando estão no mesmo patamar de chefia ou no mesmo patamar de repórter, mas vemos ainda muitas de nós ganhando menos. Dentro das Redações também vemos uma série de violações contra as mulheres. Então eu acho que a primeira coisa que a gente precisa mudar nessa história é valorizar a profissão de jornalista e as jornalistas mulheres. Hoje estamos vivendo um momento em que a questão da diversidade está muito forte, mas por outro lado estamos também vivendo um momento em que as pessoas não têm mais vergonha de dizer que são racistas, que não gostam de preto, que não gostam de mulher feminista. Tem toda essa questão que nós estamos vivendo nesse momento e aí de repente a gente vê que a diversidade está nas propagandas, as grandes empresas estão se preocupando com a diversidade, estão incluindo, mas será que isso aí é uma temporada? Será que isso vai passar? Eu pergunto muito isso. A gente tá numa caixinha, mas eu não quero estar numa caixinha. Entendo que a diversidade é uma janela que não vai mais fechar. A gente está vivendo um momento de revolução, certo? Mas na verdade nós que somos ligadas ao movimento de mulheres e principalmente ao movimento antirracista, que combate o preconceito e o racismo, sabíamos que esse dia ia chegar. Demorou muito e ainda temos muitos problemas a enfrentar, muitos desafios, mas no jornalismo isso tem que entrar dentro das redações. O jornalismo, se você for avaliar, é uma profissão e as empresas também são preconceituosas. 

Você avalia que o bolsonarismo tem alguma relação com isso?

Kátia – O preconceito sempre existiu, o racismo sempre existiu, mas acho que era camuflado. Na minha vida eu tive que enfrentar isso e algumas vezes eu nem sabia que era racismo e enfrentei. Com a entrada do Bolsonaro a partir de 2018, a partir do momento em que ele ganha a eleição, isso se torna mais visível,  porque em todo o decorrer da carreira dele, ele sempre mostrou quem ele era, nunca negou que ele não gosta de pessoas pretas, que ele é racista, que ele não gosta de indígenas, que ele não ia apoiar nenhuma questão de demarcação de territórios, que ele ia colocar a população armada etc. E isso foi colocado na campanha dele, mas antes esse era já era discurso dele, ele sempre teve discurso de ódio, né? Nós tivemos aí um país envolvido em mais de vinte anos de ditadura militar e o Brasil não virou uma potência; se a ditadura fosse boa nós não estaríamos nessa situação que é agora né? Então nem eles generais querem comandar o Brasil atualmente, só um grupo ali que é ligado ao Bolsonaro que se mostra interessado em assumir o poder, mas a maioria não quer. Então assim, a gente tem que lutar contra isso, a gente tem que combater isso e é muito importante o jornalismo nesse sentido, esclarecer a sociedade o que está acontecendo de fato sem que as empresas sejam envolvidas politicamente com o poder, porque a gente sabe também que a imprensa teve muita responsabilidade na eleição do Bolsonaro. Criou uma política antipetista. A imprensa teve influência sobre isso, como tiveram também jornalistas que apoiaram a candidatura do Bolsonaro. Então a imprensa até hoje não fez sua mea culpa

E quanto ao contexto da pandemia, você acha que escalou de alguma maneira a propagação de discurso de ódio? Kátia –  Eu já falei essa frase algumas vezes, que considero super verdadeira. O grande problema da pandemia é a desinformação, a pandemia chegou no Brasil de forma totalmente distorcida. As pessoas achavam que a China era culpada, que a China inventou um vírus no laboratório. Houve problema com médicos logo no início [da pandemia no Brasil], todas as informações foram totalmente distorcidas com e por um Presidente da República que passou a  espalhar informações mentirosas. São mentirosas na verdade, para toda a população, principalmente para os eleitores dele. Então combater isso logo no início foi um desafio descomunal. Lá na Amazônia, por exemplo, como a gente trabalha com populações indígenas, elas começaram a receber essas informações totalmente descontroladas, desencontradas, era muita desinformação. Alguns resolveram fazer a quarentena por conta própria, fechar as aldeias, colocar barreiras e outros diziam que não, que o vírus nunca ia chegar lá. E nós fomos atacadas, eu e a Elaíze Farias [editora da Amazônia Real] por uma liderança que disse que a gente estava escrevendo fake news. Essa pessoa ficou uma hora no Facebook nos atacando, chamando a gente de bandida, de feia, dizendo que a gente pegava o dinheiro de ONG, que a gente ganhava milhões, que a gente mentia. Isso porque estávamos dizendo que o vírus estava se aproximando das aldeias e que já havia casos suspeitos, inclusive em populações isoladas. E vimos depois que a covid passou a ser a principal causa de morte de povos indígenas. É algo absurdo. Um genocídio terrível. Até hoje o governo Bolsonaro ainda não fez uma política especial para os povos indígenas no combate a covid. Por quê? Porque mesmo a vacinação não é para todos os povos né? Eles vacinam só pessoas que vivem nas aldeias, quem vive na região urbana não está sendo vacinado [informação dada em 2021, quando foi realizada a entrevista]. A não ser que consiga vacina pela a rede municipal, mas como um direito de indígena eles não conseguem porque o governo não reconhece os territórios que existem nas periferias.

A maior parte da população não lê nada, só fica no WhatsApp recebendo porcaria. Por causa disso, inclusive, nós aumentamos o nosso envio de notícias pelo WhatsApp, para enviar conteúdo para esse aplicativo 

 
E você percebe que há uma perda de confiança na mídia por parte da sociedade? 

Kátia – Sim, eu percebo. Já inclusive vi pessoas que têm grau de estudo alto e que dizem pra mim que não veem nada [na mídia]. Dizem  “não vejo, não leio mais nada, eu não eu não tenho mais paciência pra ler notícias, principalmente da pandemia”. A gente ouviu muito isso. As pessoas não têm mais paciência para assistir, ler e preferem receber notícias mentirosas pelo Facebook, mas eu digo “essas notícias que estão recebendo aí elas não são confiáveis, tem que saber da onde é a fonte, o que estão enviando pra você, porque você vai enviar uma notícia falsa”. Então, isso é muito perigoso. A maior parte da população não lê nada, só fica no WhatsApp recebendo porcaria. Por causa disso, inclusive, nós aumentamos o nosso envio de notícias pelo WhatsApp, para enviar conteúdo para esse aplicativo. Esse descrédito da mídia, o governo Bolsonaro trabalha pra isso o tempo todo, né? Quando ele não fortalece a comunicação e quando ele privilegia alguns veículos que o apoiam em detrimento de outros, ele enfraquece a imprensa. Porque a mídia brasileira tem essa questão específica de ter financiamento público. É uma coisa de legislação, relacionada à questão da concessão, tem essa questão da publicidade institucional que vai para os veículos comerciais de um modo geral. Nós que somos uma mídia independente, como a Amazônia Real, não recebe recursos públicos justamente para manter nossa liberdade de expressão e também garantir a segurança dos jornalistas. Porque quando os governos apoiam essas mídias eles também são cerceados, justamente por fazer reportagens que vão desagradar determinados políticos ou ao próprio Governador. Enfim, pra evitar esse tipo de violação a gente não recebe recurso público. Essa foi a decisão da Amazônia Real porque como nós, eu e a Elaíze, passamos muito tempo e já vivemos muito tempo nesse perigo, a gente não queria que a Amazônia Real fosse exposta a essa questão da segurança dessa forma.

Como você acha que o poder público tem atuado nessa temática da liberdade de imprensa?

Kátia – Eu não vejo nenhum movimento do [poder] Executivo. Vejo um movimento do Supremo Tribunal Federal em relação ao combate às fake news, que é um movimento muito importante. Vejo agora, com a CPI da Covid, esse movimento também de combate às fake news, mas eu vejo muito mais e cada vez cresce mais o apoio das organizações que defendem a liberdade de expressão, como a Repórteres Sem Fronteiras, Artigo 19, as próprias organizações que apoiam o jornalismo que são formadas por outros jornalistas, como a Abraji (Associação Brasileira de Jornalistas Investigativos), a Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas), a Ajor (Associação de Jornalistas Digitais). É todo o movimento da sociedade, mas as instituições do Executivo, do Legislativo e principalmente do Judiciário ainda devem muito ao setor da comunicação. Por exemplo: hoje o maior risco que nós temos não vem nem da política em si, do Executivo, vem do Judiciário porque se um político ou empresários se sentir prejudicado por alguma reportagem que a gente escreveu sobre eles ou, enfim, alguma coisa que tenha relacionado pessoas, empresas, alguma das matérias que fazemos, o que que eles fazem? Eles entram com a ação até em juizado de pequenas causas, e aí conseguem uma liminar rápido, para retirar o conteúdo. Isso é censura e isso nós enfrentamos recentemente com um parceiro nosso, que foi da Repórter Brasil. Eles publicaram uma matéria nossa no site deles e o juiz lá de Roraima concedeu a liminar para a funcionária da saúde que se sentiu prejudicada com a nossa matéria. E o juiz não leu o nosso conteúdo, se leu, não entendeu, não ouviu outra parte, ou seja, não deu direito à Repórter Brasil a ser ouvida e censurou a reportagem e mandou tirar o conteúdo do ar. Uma censura gravíssima. Isso já foi derrubado, os advogados conseguiram ingressar com recurso e o juiz derrubou, acabou arquivando o processo, mas nós estamos aguardando também o processo por causa do impacto que tem uma decisão como essa. A pessoa que é investigada inclusive agora já está sendo investigada até pela Polícia Federal. Então a gente tem muito impacto no conteúdo e é muito importante que essas parcerias com outras mídias aconteçam, principalmente para as mídias que estão no Norte do Brasil, principalmente na Amazônia. Vou te dar um exemplo. Em 2019, tivemos aquele fatídico dia do fogo. Foram madeireiros do Pará que se juntaram e anunciaram que madeireiros e fazendeiros ligados a Bolsonaro queriam chamar a atenção do Bolsonaro para a questão do combate ao Ibama e às ONGs. Então eles resolveram fazer o dia do fogo lá para queimar uma área e fizeram mesmo. Teve um jornalista da cidade de Novo Progresso, Adecio Piran, que é dono do jornal local de lá que escreveu uma matéria sobre o dia do fogo e foi super ameaçado. Foi ameaçado de morte, inclusive. Eu mesma comecei a escrever a matéria sobre a situação dele quando eu fui falar com as organizações, com a Fenaj e sindicatos. No início foi muito difícil apoiarem porque achavam que o jornalista tinha problemas na justiça, que ele tinha processos, e eu dizia “bom, vocês vão esperar matarem ele para soltar uma nota?”. Até o Ministério Público demorou para agir. Às vezes, esse jornalista, que é o comunicador da cidade, o radialista, às vezes é o único comunicador de uma cidade, é a única pessoa que transmite comunicação que faz notícia, que produz conteúdo numa cidade, e esse jornalista, ele é desclassificado até pelo sindicato dos jornalistas. Isso é uma coisa que eu questionei muito aos sindicalistas, a própria Fenaj eu questionei e depois eles soltaram uma nota e começaram a acompanhar o jornalista. Na nossa profissão há também uma desigualdade relacionada à região, relacionada também às mulheres e, principalmente, à questão LGBT+. Isso é uma dificuldade que existe, nós não somos vistos como iguais, nós somos vistos com muitas diferenças e preconceitos. Então esse caso do Adécio Piran foi uma questão que eu avaliei como um preconceito regional. Ele não é jornalista formado na faculdade, ele é comunicador, dono de jornal, mas ele estava ali sozinho, com ameaça de morte. Inclusive ele sofreu aquele tipo de assédio de as pessoas procurarem os patrocinadores do jornal e ameaçarem tirar o patrocínio. Ele recebeu ameaças veladas, em panfletos, telefonemas anônimos, recados ao ponto de ter que sair da cidade, foi para outro local, passou uma semana longe do trabalho por causa de segurança. E até hoje ninguém foi preso, ninguém foi responsabilizado. Então assim, no interior do Brasil isso é muito comum, é muito comum também quando assassinam jornalista, ou quando jornalista é agredido, acharem que é por outros motivos e não por motivos de violência contra a imprensa, contra jornalista. A mesma coisa com as mulheres, quando a mulher é vítima de assédios, quando ela é vítima de ameaças, às vezes acham em um primeiro momento que há uma coisa parcial, e que não é a violência em si, por causa da profissão. Isso é muito comum. Então é muito importante que as organizações, principalmente as que fazem pesquisa, busquem qualificar mais essa pesquisa no sentido de ouvir essas vozes que estão silenciadas.

Você poderia falar sobre eventuais violências que você possa ter passado em decorrência da profissão nos últimos cinco anos, na internet e fora dela?

Kátia – Na internet eu até já comentei para você que em 2020 sofri um ataque no Facebook, de uma liderança indígena de Manaus que ficou uma hora atacando, com muita misoginia. Vimos ali um viés bastante bolsonarista, havia ligação com pessoas relacionadas ao Ministério da Saúde. A gente viu que tinha meio que um acerto aí com pessoas ligadas ao governo que não ficaram satisfeitas com a reportagem que fizemos e que bateu muito nessa questão do Governo Federal não ter dado a informação correta para os povos indígenas, não ter apoiado, não ter informado e enviado equipamentos, todos aqueles equipamentos iniciais que precisavam enviar: álcool em gel, o sabão etc. A gente estava ali naquele momento na rota de fogo, contando o que estava acontecendo e relatando a situação da chegada da pandemia na Amazônia, nos povos indígenas e sendo atacadas. Foi bem difícil. A gente teve apoio jurídico e resolvemos a questão, mas foi um ataque terrível. Outro ataque que nós tivemos nas redes sociais foi também causado por pessoas que produzem desinformação. Foi gente ligada a esse movimento todo de fake news, de pegar fotos de nossas reportagens e dizer que era mentira ou inventar mentiras de umas fotos. Nós tivemos por exemplo uma foto que foi feita dentro do cemitério, de uma senhora que morreu de Covid e o caixão dela estava sendo levado por dois funcionários do cemitério, coveiros. Eram quatro coveiros. E uma pessoa pegou essa foto e espalhou pela internet dizendo que o caixão estava vazio. A Agência Lupa fez a checagem de fatos. Foi uma checagem que teve que ouvir inclusive um familiar da pessoa. É uma coisa absurda você ter que dizer que a pessoa morreu e que ali tinha um corpo. Chegamos a esse ponto extremo porque estavam dizendo que era mentira e os leitores que nos chamaram a atenção, os nossos eleitores que começaram a nos procurar ali pelo Facebook, pelas mensagens e dizer “olha, Amazônia Real, estão usando a foto das matérias de vocês, estão dizendo que é mentira”, e então a gente começou a soltar a nota no próprio Facebook. Foi quando houve a checagem de fatos da Agência Lupa. E foi fantástico. O trabalho das agências de checagem são superimportantes, a gente deve muito a esse setor de jornalismo porque são pessoas que trabalham e que sofrem também muitos ataques durante o trabalho para poder checar.

E quando aconteceu esses ataques vocês usaram algum suporte do Facebook? Ou chegaram a usar em outra rede? 

Kátia – Esses dois que eu relatei pra você foram no Facebook. No Instagram de vez em quando tem leitores que entram ali, mas é mais pra questionar. Na minha conta pessoal eu fiz um agradecimento. Eu sempre falo “todas, todos e todes” ou então coloco todos com x. Eu estava pedindo votos para uma campanha que eu estava participando, de prêmio de jornalista. Aí a pessoa escreveu “eu não vou votar em você por causa desse ‘todes’” aí, e eu disse “tudo bem, eu não preciso do seu voto pra ganhar nada”. 

Mas você chegou a recorrer à plataforma, ao Facebook?

Kátia – Não porque não tinha como o Facebook entrar nisso, porque era algo que já havia se espalhado, estava em outras redes, como o Twitter também. Então a gente preferiu, por orientação jurídica, fazer um texto no Facebook e passar para as outras redes. E também tivemos a checagem da Lupa. Então quando a gente teve a checagem da Lupa, a gente colocou em todas as redes também. Nós agimos bem rápido e isso foi muito importante, a rapidez com que a gente conseguiu localizar o problema. Inclusive a gente descobriu quem estava produzindo a notícia falsa. Havia inclusive deputados federais bolsonaristas replicando isso nas redes sociais, principalmente no Twitter. Quando a gente começou a republicar o conteúdo da Lupa, dizendo que aquilo era mentira, aí foi neutralizado. Mas assim, passaram alguns meses e essa foto voltou de novo a ser veiculada.

A gente recebe muitos comentários racistas, comentários de pessoas descontentes com as reportagens e a gente já tem uma norma dentro do Amazônia Real que é não publicar esses comentários, a gente não publica comentários misóginos, nem racistas, nem preconceituosos.

E você acredita que o vínculo empregatício, o tamanho da empresa, o alcance da mídia e o tema que está sendo publicado influenciam na possibilidade de sofrer algum tipo de ataque?

Kátia –  Sim, eu acho. Na verdade, primeiro o motivo do ataque é o conteúdo. Quando o conteúdo não agrada, quando o conteúdo é questionado, principalmente por políticos e pessoas que se sentem atacadas por alguma matéria que a gente faça, esse é o grande motivo [do ataque]. Por exemplo, se uma pessoa se sente insatisfeita ela vai usar aquele espaço que nós temos nos comentários para enviar seu comentário. A gente recebe muitos comentários racistas, comentários de pessoas descontentes com as reportagens e a gente já tem uma norma dentro do Amazônia Real que é não publicar esses comentários, a gente não publica comentários misóginos, nem racistas, nem preconceituosos. A gente não publica por norma nossa mesmo. A gente neutraliza, mas mesmo assim tem pessoas que ainda enviam muitos ataques via comentários, isso a gente recebe. E a gente não publica, a gente não vai divulgar de maneira nenhuma. Fora isso, recebemos os comentários normais que a gente responde, a gente responde também nas redes sociais, os eleitores. De um modo geral a gente acaba tendo uma audiência muito positiva. A questão da Amazônia interessa muito à população de um modo geral. A gente quer o debate, a gente precisa do debate independentemente da situação que nós estamos vivendo. A Amazônia Real já fazia debate, a gente já tem uma tradição, desde 2015, de fazer debates, de trazer o público para a gente discutir as questões da Amazônia. A gente faz oficinas, faz exposição de fotografia, justamente para a sociedade discutir o que acontece nessa região, e principalmente acompanhar essas transformações que estão acontecendo, tanto na floresta como nas populações tradicionais. Porque existe um ataque muito grande, principalmente do Governo atual, em relação à floresta. Então a gente tem obrigação, como jornalista, de fazer com que a sociedade discuta isso, debata de uma forma respeitosa em primeiro lugar e que esse debate leve alguma pelo menos à discussões que possam trazer um caminho mais positivo para o que nós fazemos em relação à Amazônia. O jornalismo é um serviço de sociedade, mas é um serviço para fazer a sociedade ter um olhar crítico dos temas que se aborda. Ninguém quer que se pense de uma maneira só, não é isso.A sociedade precisa ser crítica, mas ela precisa também ter meios de ter um debate pelo menos respeitoso, que as pessoas possam chegar em algum lugar. 

E para você a eleição do Bolsonaro como presidente afetou na violência e nos ataques contra jornalistas? 

Kátia – Afeta porque a gente escreve sobre os ataques. Quando o Bolsonaro foi eleito em 2018  nós recebemos comunicados de duas lideranças indígenas de etnias diferentes. Os  Pankararus, em Pernambuco, tiveram a escola e o posto de saúde incendiados. Nós escrevemos sobre esse acontecimento, foi uma coisa terrível porque foi um ataque de bolsonaristas contra essas lideranças, essas populações especificamente que estavam naquele momento lutando pelo reconhecimento e a expulsão de posseiros dos seus territórios. E na região do Mato Grosso do Sul a gente recebeu informações dos Guarani Kaiowá, que é uma comunidade indígena que vive ali na região do Mato Grosso que há muitos anos luta pela demarcação do seu território e também pela expulsão de fazendeiros de suas terras. Então eles vivem numa situação muito crítica de insegurança. Eles vivem na vulnerabilidade social e cultural, inclusive. Também relatamos que nos Guarani Kaiowá pistoleiros atiraram contra indígenas. Não ocorreu morte, mas muitos foram feridos, né? A gente acompanha essa comunidade e isso afeta a gente emocionalmente. Por isso que eu digo, nossa profissão é existencial porque mexe com a sua emoção. Depois começaram a surgir outras informações. Funcionários do Ibama foram atacados, carros do Ibama foram incendiados na região do Alto do Javari, que fica na fronteira com o Peru, aldeias indígenas também foram atingidas por tiros, outras etnias, como povos que vivem na região do sul do Amazonas também foram alvos de tiros e aí começaram ataques contra outros povos do Maranhão, assassinatos, assassinatos em Rondônia. Então a gente começou a relatar uma tensão muito grande dos povos indígenas mesmo, de uma situação de ataque geral. Todo dia alguém ligando e dizendo “olha, madeireiro me ameaçou” “olha, o fazendeiro está ameaçando”. Ocorreu a morte no Pará e a gente relatando tudo isso. Nós estávamos, antes da pandemia, muito centralizados no acompanhamento dos defensores da Amazônia porque começou a realmente ter haver muitos relatos. Com relação ao jornalista naquele momento não havia. O primeiro caso de relato de ameaça de morte de jornalista que eu recebi foi justamente esse caso do Adécio Piran, que eu relatei anteriormente.

Ainda sobre o período da pandemia, você acha que ela afetou nessa violência contra jornalista? 

Kátia –  Na pandemia, como eu te falei, ficou mais difícil para o jornalista. Primeiro que a maioria está trabalhando em casa, em home office, são poucas as redações que estão com todo mundo trabalhando. Eu não sei, essa situação de escrever, relatar o que está acontecendo, também é difícil porque a gente está escrevendo sobre pessoas que estão doentes ou morreram. Então assim, o dia a dia nosso ficou muito difícil. No caso da Amazônia Real a gente pediu ajuda da Repórteres Sem Fronteiras para ter um apoio psicológico com terapias para os nossos profissionais porque chegou um momento em que ninguém estava mais aguentando. Então começamos a ter conversas, começamos a trabalhar o autocuidado de todo mundo, a nossa reunião de pauta não ficou tão fechada, a gente começou a abrir para ouvir como estava sendo, porque era sempre alguém relatando que tinha algum parente doente ou algum parente havia morrido. Então a gente mudou muito a nossa forma de trabalhar para poder acolher todos da equipe, todo mundo trabalhando em casa. A gente teve em Manaus dois picos da pandemia muito sérios né. Em dois mil e vinte e no início de 2021, com a falta de oxigênio. Isso mexeu muito com a emoção de todo mundo. Além dos ataques contra o nosso trabalho, a gente teve esse ataque judicial que eu falei pra você. Já foi naturalizado e pessoas que não se sentem confortáveis com as matérias dizem que vão ameaçar. A gente vai tentando neutralizar isso da forma como a gente pode, procurando apoio jurídico, pedindo orientação ao advogado, mas dentro da Amazônia Real, fora esses ataques que eu falei pra você, nenhum jornalista relatou alguma coisa mais grave. 

É muito importante você receber informações precisas, corretas e principalmente verdadeiras. A gente precisa criar esse senso crítico na nossa sociedade e isso é o papel do jornalista, então eu não tenho medo nenhum de ser jornalista.

E você se sente segura exercendo a profissão de jornalista? 

Kátia – Olha, eu me sinto segura no momento em que eu sei que o meu trabalho é feito com muita profundidade. Sou uma pessoa muito criteriosa, tenho um trabalho grande na apuração dos fatos, isso é algo que marca muito o trabalho desses anos todos da Amazônia Real. Eu não tenho medo nenhum do trabalho que eu faço. Aliás, o trabalho que eu faço é um trabalho de gratidão porque eu acredito que a nossa sociedade tem que ser bem informada, precisa, isso é tão importante como respirar ou beber água. É muito importante você receber informações precisas, corretas e principalmente verdadeiras. A gente precisa criar esse senso crítico na nossa sociedade e isso é o papel do jornalista, então eu não tenho medo nenhum de ser jornalista, ao contrário, isso me dá muita coragem, eu sou muito satisfeita pela profissão que eu escolhi. O meu objetivo inclusive é ensinar, é passar meu conhecimento para outros jornalistas, principalmente os jovens que estão chegando na profissão e querem fazer esse jornalismo socioambiental que é o que a gente faz hoje, então eu não tenho medo, essa palavra não existe no meu vocabulário.

Caso você queira falar alguma coisa que eu não te perguntei, que você considere importante… 

Kátia –  Eu gostaria sim de falar só um pouco mais sobre a questão da violência contra as mulheres jornalistas e uma questão sobre as pessoas LGBT+. Nós estamos em movimento de inclusão dentro da Amazônia Real, principalmente de pessoas LGBT+. A gente já tem um trabalho, que é uma oficina interna de diversidade, na nossa redação. Vamos pedir, inclusive, o apoio da Énois, que é uma escola de jornalismo que trabalha nessa temática. Queremos fazer nosso próprio Código de Ética dentro da redação para irmos além, e não apenas escrever conteúdos para essa população, mas também ter as pessoas dentro da nossa Redação. Nós já temos, mas a gente quer mais, a gente tem uma redação que tem muitas pessoas indígenas, a gente tem mais de trinta mulheres trabalhando. Temos uma equipe de mais de cinquenta colaboradores e temos a maioria mulheres, inclusive mulheres, mulheres negras, mas a gente quer avançar mais. A gente sempre cobre eventos relacionado ao movimento das mulheres, eu sou mulher feminista, então eu tenho participação em organizações que lutam pela defesa da mulher, como o Fórum Permanente das Mulheres de Manaus. Eu sou uma das fundadoras da Partida, organização que trabalha a defesa das mulheres na política. Participei também de outras organizações que também apoiam a questão do combate a violência contra as mulheres. É um trabalho muito importante hoje na nossa sociedade porque por mais que a gente ouça relatos, questões que envolvem a violência contra a mulher, a violência, isso sim, cresceu muito durante a pandemia. Eu vi esse crescimento, percebi isso junto com a minha colega, a Paula, do site As Catarinas, de Santa Catarina, e a Paula me ligou, me perguntou que parceria nós poderíamos fazer. Isso foi por volta de março de 2020. Falei para Paula que a gente precisava fazer um monitoramento da violência contra a mulher porque a situação estava gravíssima. Criamos uma série chamada “Um vírus e duas guerras”, que são duas guerras, uma contra a Covid e outra contra a violência, o feminicídio. Reunimos na sequência cinco mídias e no total foram sete mídias que participaram desse monitoramento. Fizemos durante todo o ano de 2020.

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“Quando recebo ataque de ódio, peço pra denunciarem. Prefiro não ler os comentários”, afirma Caê Vasconcelos

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Caê Vasconcelos é jornalista, homen trans, autor do livro Transresistência: Pessoas Trans no Mercado de Trabalho e foi uma das 7 pessoas entrevistadas em profundidade para a pesquisa “O Impacto da Desinformação e da Violência Política na Internet contra jornalistas, Comunicadoras e Pessoas LGBT+”. 
Fale um pouco sobre você, sua formação, suas áreas de atuação enquanto jornalista, enquanto comunicador.

Caê Vasconcelos – Sou jornalista de formação, bissexual, fã de Harry Potter e odiador de Jake Rolling né? Acho que não dá pra não ser as duas coisas. Me formei em 2017. Digo que eu entrei um pouquinho tarde porque a galera entra com 18, 19 anos. Eu fui entrar com quase 23 porque eu não sabia direito o que queria fazer e eu sempre achei que o jornalismo não estava dentro da minha realidade de pessoa crescida e que vivia até dois anos atrás numa periferia da Zona Norte [de SP], né? Eu sou daqui da Vila Nova Cachoeirinha, que é um dos bairros aqui da Zona Norte de São Paulo. Com muito orgulho, graças ao Prouni consegui me formar e acho que não dá pra falar do jornalista sem falar do Caê homem trans. Foi o meu TCC – trabalho de conclusão de curso – que me ajudou a entrar no mercado de trabalho. Foi um livro sobre pessoas trans no mercado de trabalho que também me ajudou a começar a me reconhecer como homem trans. Então quando eu entrevistei os meninos, comecei a me reconhecer mais nesse lugar e aí no mesmo ano, em 2017, eu entrei e comecei a escrever para Agência Mural. Também comecei a colaborar para A Ponte. Na Ponte Jornalismo, eu fiquei por quatro anos, dois anos como repórter colaborador. Os últimos dois anos eu fiquei como equipe fixa, como repórter principal da Ponte. Saí em abril de 2021 porque pandemia, transição de gênero, não estava mais aguentando cobrir segurança pública. Voltei a escrever para A Mural, cobrir a minha região, mas eu voltei com o olhar de ser repórter especial LGBT+. E trabalhei assim, muito a editoria LGBT nesse período. Acho que desde lá do meu TCC eu já entendi que eu queria fazer um jornalismo focado em direitos humanos focado na minha população. Porque eu acho que até hoje o jornalismo não cobre muito bem [essa área], principalmente quando a gente fala de mídia tradicional. Mas a mídia independente também não consegue cobrir todas as lacunas. Agora eu estou num novo desafio, de ser assessor de imprensa, trabalhando como assessor de imprensa na Companhia das Letras.

Na sua percepção há uma naturalização do discurso de ódio no meio jornalístico? Se sim, como percebe que isso ocorre?

Caê – Ocorre. Primeiro, não dá pra gente ser imparcial, não existe isso. Todo jornalismo é parcial. O título que a gente escolhe numa reportagem já tem um viés. Então acho que quando a gente é jornalista que não esconde as suas posições políticas, e acho que tudo é política no fim das contas, a gente é muito mais facilmente alvo de ataques de ódio nas redes sociais. Vira e mexe recebo ataques de ódio no Twitter porque eu não me silencio quando vejo transfobias acontecendo na imprensa. Então eu sempre gosto de pontuar, e quando um homem trans fala sobre menstruação, por exemplo, incomoda muito, né? Incomoda as pessoas que são eleitoras dessa pessoa que tá na presidência, incomoda vertentes do feminismo que são radicais e excluem corpos trans. Então é bem comum não só eu receber ataques de ódio, mas eu sempre vejo [ataques]. Principalmente quando a gente fala de pessoas LGBT+, pessoas negras, mulheres, pessoas indígenas. São alvo de ataques de ódio na internet. Eu trabalhei muito tempo com segurança pública e nunca aconteceu de eu sofrer alguma ameaça, mesmo cobrindo protestos. Mas colegas meus na Ponte Jornalismo foram casos bem emblemáticos principalmente. Tem o Serginho [Sergio Silva], que ficou cego em 2013, após a manifestação em que tomou um tiro [de borracha], e o Daniel [Daniel Arroyo], que tomou um tiro de bala de borracha na perna. Acho que não só nesse governo atual, mas a profissão jornalista sempre foi perigosa. Porque quando a gente mostra ali o jornalismo de verdade, traz o lado que normalmente a sociedade hétero branca rica não quer que a gente mostre, a gente acaba virando alvo. Quando a gente resolve falar sobre crianças trans, sobre pessoas trans, não só no e pessoas LGBTs, não só no sentido da morte e da violência, a gente afronta muito esse sistema. Então infelizmente é bem comum [ser alvo de ataque].

Ele [Jair Bolsonaro] sempre foi essa pessoa, sempre foi racista, machista, LGBTfóbico, elitista e tudo mais, mas com certeza está mais inflamado agora. Eu, enquanto homem trans, quando eu tento apontar transfobia, vem essa galera dizendo que não, que “isso” não é transfobia, e que “tudo pra vocês é isso agora”.


E você percebe que há alguma relação entre o governo Bolsonaro e os discursos de ódio? 

Caê – Cem por cento. Eu me formei pouco antes de ele ser eleito, então como jornalista não consegui vivenciar muito como era ser jornalista antes desse governo, mas de 2018 pra cá tem esse avanço do bolsonarismo e as pessoas não têm mais vergonha de dizer o que elas pensam na Internet. Não sei se pessoalmente todas essas pessoas teriam coragem de falar o que elas falam. Quando eu recebo ataques de ódio, peço para as pessoas denunciarem porque normalmente eu prefiro, para a minha saúde mental, não ler os comentários. O Twitter, o Instagram, qualquer rede social, não entende como ataque de ódio. Mas quando a gente tem uma tirinha, por exemplo, que fala sobre o racismo, e é uma tirinha antirracista, pode ser censurada porque aí, para as plataformas, infringe. Como pode funcionar assim? O ataque de ódio não [infringe], mas a publicação explicitamente política sim. Acho que a gente, LGBT+, sempre teve voz, mas as redes sociais amplificam isso, então 2018 também penso que é bem emblemático, pois Bolsonaro é eleito, mas também temos, por exemplo, a Erica Malunguinho [deputada estadual por São Paulo] chegando ali, então acho que está tudo mais quente, a briga está mais mais visível, e com certeza o bolsonarismo aumentou muito o ataque de ódio. Eu lembro que 2018 foi muito difícil, né? Porque eu já estava trabalhando na Ponte na época e a Ponte representava tudo que o bolsonarismo odeia, né? Esse presidente, desde deputado, ele pode falar o que ele queria. Tem uma entrevista que acho um absurdo não ter tido nenhuma consequência para ele, pois além de assediar o Elliot Page [ator transgênero canadense] naquela entrevista, ainda se mostrou extremamente LGBTfóbico. Os eleitores dele não podem dizer que foram enganados. Ele sempre foi essa pessoa, sempre foi racista, machista, LGBTfóbico, elitista e tudo mais, mas com certeza está mais inflamado agora. Eu, enquanto homem trans, quando eu tento apontar transfobia, vem essa galera dizendo que não, que “isso” não é transfobia, e que “tudo pra vocês é isso agora”. Então é muito difícil, pois a gente vivenciando na nossa pele e pessoas que não fazem parte da nossa vivência tentando definir o que é e não é [preconceito]. Eu já pensei várias vezes em parar de usar o Twitter como plataforma de luta, mas tem um exemplo recente de por que continuo. Recentemente teve o veto do governo Bolsonaro para a distribuição de absorventes [para estudantes de baixa renda e pessoas em situação de rua] e a mídia inteira, 80% da mídia, eu diria, errou nas matérias. Falavam que eram mulheres e meninas em situação de vulnerabilidade, esquecendo que as pessoas trans masculinas também são atingidas pela pobreza menstrual. O G1 fez um título absurdo falando “absorvente feminino” e eu fiquei naquele dia, o dia inteiro, tuitando, criticando tudo o que saia de errado na mídia. No fim do dia o G1 corrigiu a matéria e me falaram “ó a gente viu suas críticas e arrumou a matéria”. Então ao mesmo tempo que a gente percebe que está fazendo uma mudança nas redes sociais, a gente sabe que é isso, se eu faço um tweet desse, por exemplo, eu já silencio [as notificações] porque eu sei que vai ter ataque de ódio e eu não quero ler. Então eu acho que essas pessoas tentam afastar a gente desse lugar, né? Que agora a gente está conseguindo ser ouvido, está conseguindo ampliar as nossas lutas e é uma resistência diária fazer esse trabalho, que já pensei várias vezes em não fazer mais. Tentar me preservar um pouco mais, mas também eu fico pensando muito no futuro. Eu não quero que as crianças trans cresçam num mundo que ainda é extremamente transfóbico. Então a gente tem que às vezes ser essa linha de frente mesmo que toda sexta-feira eu tenha que falar muito sobre isso na terapia com meu psicólogo.

Eu fiz um tweet criticando o Fantástico. Na manhã seguinte, um perfil bolsonarista pegou esse print e postou no Instagram e eu recebi mais de mil replays de ódio, assim, automático 

Você acredita que o contexto da pandemia acabou escalonando de alguma forma a propagação desse discurso de ódio? 

Caê – Com certeza. Quando a gente viu o próprio presidente negando essa pandemia…um genocídio extremamente bem calculado pelo governo, que não comprou a vacina na hora certa, que falava que não tinha que usar máscara, que ele não usava máscara. Eles odeiam a ciência, mas quando a gente trans explica que o gênero não está na genitália, que o gênero é uma questão de como a gente se identifica na sociedade, eles já querem falar que a gente é negacionista, que estamos negando a ciência, a biologia. Distorcem um discurso que não tem nada a ver com negacionismo, pois a gente fala de identidade de gênero. Houve uma vez em que eu fiz um tweet, depois de o Fantástico fazer uma matéria sobre pobreza menstrual, antes da questão do veto bolsonarista, e na matéria eles falavam o tempo inteiro que a menstruação é uma coisa do corpo feminino. Eu fiz um tweet criticando o Fantástico. Na manhã seguinte, um perfil bolsonarista pegou esse print e postou no Instagram e eu recebi mais de mil replays de ódio, assim, automático. Centenas de pessoas entraram e responderam esse meu tweet com vários ataques de ódio e a maioria falava sobre isso, negacionismo, que eu estava negando a biologia, que sim, existe o corpo feminino e o corpo masculino. Parece que a gente está errando em alguma coisa e eles estão certos porque mil pessoas de uma vez te falando aquilo gera uma confusão mesmo, você fica até meio confuso, mas é o que eles tentam sempre, inverter a lógica. Até hoje é muito forte a “mamadeira de piroca”. As pessoas acreditam nisso, acreditam numa ideologia de gênero, a nossa sociedade sempre foi heteronormativa e sempre existiram pessoas LGBTs, mas bolsonaristas acham que se a gente falar de gênero para crianças, todo mundo vai acordar LGBT+ no dia seguinte. Fazendo tanta fake news com a pandemia, percebo que aumentou bastante esse discurso de ódio. 

A respeito do fenômeno de fake news, como você avalia que está impactando a prática do jornalismo hoje?

Caê – Na nossa credibilidade. Porque essas pessoas são muito ligeiras. Na Internet, Marília Mendonça morreu, não deu nem uma hora já estavam com fake news que o piloto teria tomado a vacina e passado mal. Eles conseguem fazer print das pessoas falando coisas que elas não falaram. Fico imaginando quantas pessoas não trabalham para tudo isso. Eles são muito rápidos. Acontece algo e daqui a pouco já tem tweet errado, matéria que nunca existiu, print com logomarca de qualquer jornal. O jornalismo, quando é bem feito, tem apuração, muitas vezes tem documento, tem pesquisa. Mas aparece uma fake news e parece que o que a gente faz não é lido porque as pessoas já não sabem mais o que é verdade, o que que é mentira. O que acaba tendo mais credibilidade hoje em dia ainda é a televisão, ainda é o jornal impresso. As pessoas mais velhas têm dificuldade de acreditar [no digital]. Lembro quando eu trabalhava na Ponte e ia entrevistar uma galera mais humilde que no final perguntava em qual canal que ia passar, sabe? Eu falava ‘é um site’ e entrava no site, mostrava. Mas ainda tem muito isso, essa percepção de que o jornalismo só acontece na TV. E aí o que deveria viralizar aqui é o nosso trabalho, que é acho que o maior avanço do jornalismo vem disso. Dos jornalistas independentes e nativos digitais. A partir desse jornalismo, a grande mídia começou a perceber “putz, a gente está errando muito também na nossa cobertura”. Acho que o maior desafio pra gente é que perdemos a credibilidade porque eles [a audiência] acham que tudo que vem da internet no jornalismo não é verdade.

Pegando o gancho com essa questão da credibilidade, há uma perda de confiança generalizada na mídia por parte da sociedade e você acredita que isso tem a ver ou ocorre de forma diferente a depender dos tipos de mídia?

Caê –  Eu acho que, generalizando, sim. Muitas pessoas não confiam mais [na mídia]. Eu tenho muitos amigos trans que não confiam em jornais como a Folha de S. Paulo, que tem texto de opinião que não deveria ser opinião, né? Porque racismo e LGBTfobia são crimes, mas saíram [os textos] com esses vieses de opinião e a Folha publicou. E aí muita gente, mesmo progressista, pensa “um jornal que está dando voz para alguém que é extremamente transfóbico, extremamente racista, por que isso está acontecendo em 2021?”. A mídia deveria ter essa autocrítica e pensar que a liberdade de expressão tem um limite. Por que dá espaço para defenderem o Maurício [Maurício Souza, jogador de vôlei], por exemplo, que é um cara extremamente, abertamente LGBTfóbico. E se a pessoa que vai escrever consegue ser transfóbica nesse texto de opinião, por que que a gente vai publicar no site? Por que a gente vai dar esse espaço no jornal? Tem que ter esse olhar também. Quando sair qualquer matéria super bem apurada da Folha [de S. Paulo] em relação a covid, muita gente não vai querer ler porque está chateada por conta daquela matéria. Com razão né? Acho que quando a gente faz parte de uma minoria, a gente sabe o quanto dói ver essas pessoas tendo espaço numa Folha de S. Paulo, sendo que a gente sabe que é difícil para qualquer pessoa LGBT+ emplacar uma matéria positiva dentro de um jornal como esse. Precisa ter essa meia culpa também da imprensa, mas não arrisco dizer qual [tipo de mídia] que tem mais credibilidade ou menos credibilidade [junto à audiência]. Depende muito do viés [político], não? Acho que hoje nem o Danilo Gentili defende mais o Bolsonaro, né? Então eu não sei em quem essas pessoas confiam. Não sei se é na Jovem Pan, que traz ainda esse viés [ultraconservador]. Esse curso que a mídia tomou não é liberdade de expressão. A gente tem que entender que são coisas muito diferentes, que não dá mais para o jornalismo tolerar essas coisas [preconceitos].

Acho que a gente nunca precisou tirar nenhuma matéria do ar, mas já recebemos vários processos. Na época em que eu estava na Ponte, processos da Polícia Militar, de policiais civis. Qualquer policial que a gente fizesse matéria, eles processavam. Ficavam ofendidos com o conteúdo da matéria

E como você percebe a atuação do poder público no trato de questões relacionadas à liberdade de imprensa?

Caê – Nossa, eu cheguei a fazer algumas matérias e acho que é muito difícil. Principalmente essa experiência que eu tive na Ponte Jornalismo. Lá a gente já teve várias censuras, não tem outra palavra. Acho que a gente nunca precisou tirar nenhuma matéria do ar, mas já recebemos vários processos. Na época em que eu estava na Ponte, processos da Polícia Militar, de policiais civis. Qualquer policial que a gente fizesse matéria, eles processavam. Ficavam ofendidos com o conteúdo da matéria. Eu lembro muito de um caso que eu acabei fazendo a matéria depois, e acho que a Ponte que começou com essa esse olhar de contar esses casos de prisões injustas. Depois os outros veículos começaram também, até que hoje no Fantástico tem um quadro sobre isso. Mas lá em 2018, mais ou menos, a Bárbara Quirino [dançarina e coreógrafa presa e condenada após reconhecimento falso] foi o primeiro caso emblemático que a gente trouxe na Ponte. E na mesma época teve a prisão de três meninos. Dois irmãos e um outro, que foram presos porque eles foram reconhecidos pelos olhos e a Ponte tentou entrevistar os meninos assim que eles foram presos. Pra gente entrevistar alguém na prisão tem que fazer todo um trâmite, pedir autorização para a Secretaria de Administração Penitenciária. E nesse caso eles negaram porque entenderam que não era de relevância pública ter essa matéria. E por que que não era né? Porque a vítima que acusou injustamente esses três meninos foi uma juíza. Para eles é interessante mesmo que a sociedade saiba que a juíza colocou três pessoas inocentes na cadeia? A gente teve essa ordem judicial negada. Depois, tentamos de novo, com uma outra abordagem, e deu certo. Depois dessa negativa, a matéria aconteceu em 2020, um pouco antes da pandemia. A gente conseguiu ir lá presencialmente, fizemos um vídeo, mas a Justiça não autorizou que a gente mostrasse o rosto dos meninos nem seus nomes. Então a gente percebe quando a gente está trazendo o jornalismo relevante, a gente mostrando três pessoas presas desde 2018. Eu acho que infelizmente não vai ter uma reversão do caso deles porque a vítima é uma juíza, então dói muito para a Justiça reconhecer que um deles pode errar, que também a justiça também pode errar e ter olhares enviesados. Nem preciso dizer que eles são jovens negros e periféricos. Quando a gente vê o Sikêra Júnior, o Datena né…a quantidade de violações de direitos humanos que tem nesses programas policialescos. Esse tipo de programa continua funcionando e tem uma audiência assustadoramente grande. Eu cheguei a fazer algumas matérias sobre o Sikêra Júnior, com essa questão do CPF cancelado [ele dança com uma réplica de CPF que traz uma tarja “cancelado” quando noticia morte de pessoas envolvidas ou suspeitas de crimes], ouvindo o pessoal da Artigo 19, que é uma ONG que luta para difundir o que que é liberdade de expressão. E é absurdo como existem dois pesos e duas medidas. Então é isso, se o jornalismo está falando que sim, tem que matar o jovem negro na periferia, para justiça não tem problema, né? Então entendo que uma das maiores dificuldades na Ponte era isso né? Dificilmente a gente conseguia entrar em presídio, conseguia ouvir alguém do sistema de justiça porque normalmente era uma nota, quando havia uma nota…Eu lembro que a Secretaria de Segurança Pública aqui de São Paulo ficou meses sem me responder porque eu fazia as matérias que eram mais críticas.

Conte sobre situações que você considera como eventuais formas de violência que você pode ter sofrido em decorrência da sua atuação como jornalista.

Caê  – Antes da transição, quando eu ia em delegacia, por exemplo, mesmo que não tenha havido nenhuma agressão física nem verbal, não falavam tanto comigo porque eu estava cobrindo ali por um veículo independente. Mas se chegava alguém de alguma emissora de TV, o delegado falava. Isso era muito comum. A gente insistia, às vezes conseguia pegar algumas aspas. Lembro de um caso que me marcou muito antes da transição, que enxergo que foi uma lesbofobia, mas também já era um tanto de transfobia, que foi quando eu fui, em 2019, lá pra Ribeirão Preto [interior de São Paulo] cobrir uma audiência do caso da Luana Barbosa [morta após espancamento de policiais militares]. Luana foi morta por parecer um homem, né? Os policiais não têm vergonha de falar isso, que eles abordaram a Luana e acabou acontecendo “tudo” porque ela “parecia um homem”. Então eles repetiam isso várias vezes durante a audiência que eu presenciei. Nessa audiência, a gente foi, a Ponte e o Alma Preta, à convite da Dina Alves, que é uma das maiores juristas que a gente tem, advogada que defende a família da Luana e ela convidou a gente para cobrir. O caso ficou parado durante muito tempo, e essa seria a primeira audiência para decidir se iria para o júri popular ou não. Primeiro, impediram a de entrar. O juiz entendeu que não tinha porque ter imprensa lá. Então a Dina Alves dialogou e falou “eu convidei, os repórteres vieram de São Paulo, quero que eles entrem sim”. Entramos. Éramos eu, uma repórter do [site] Alma Preta e os grupos LGBT+, principalmente de mulheres lésbicas. Mas eu era a única pessoa na época não feminilizada do rolê. A gente tem que falar nas matérias sempre o que eles [os suspeitos] e o advogado falavam para o juiz, e era isso ali:  “porque abordaram ela achando que era um homem”, e eles olhavam pra mim. Então eu senti muito isso. Me apresentei com meu nome morto no gênero feminino, mas pra eles eu estava ali querendo ser um homem. Então foi muito violento aquele dia, eu fiquei muito mal durante toda a audiência e Ribeirão Preto é uma cidade extremamente violenta, que a polícia ali manda e desmanda e eu estava numa cidade que não era minha. Lembro que uma galera ficou fora do fórum, que eles falaram “tem uns carros passando aqui toda hora a gente não sabe o que é, se é polícia ou não”. Acabou a audiência, a repórter do Alma Preta voltou para São Paulo e dormi na casa da tia de uma amiga e no outro dia fui para audiência de novo. Me senti muito mal e com muito medo “sei lá do que que poderia acontecer”. Acho que foi a primeira vez na pauta que eu me senti assim, com medo por ser uma pessoa LGBT. Depois, como a minha transição aconteceu já na pandemia, acho que eu não vivenciei muito desses momentos desde então. Mas lá no começo de 2019, quando teve a posse da Erica Malunguinho, eu cheguei na Alesp (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo) para usar  o banheiro e não me deixaram entrar no banheiro do gênero que eu me reconhecia, e eu fui barrado na hora de entrar. E eu fiquei pensando “nossa, se eles vão ter uma pessoa trans aqui como parlamentar e têm essa ideia errada de estarem barrando pessoas no banheiro…”. Então naquele dia eu fui embora depois que isso aconteceu e entrevistei a Érica por telefone. Infelizmente a gente sofre em todas as interações sociais. Mas se eu estou indo entrevistar a mãe de um jovem que acabou de ser morto pela polícia, eu não vou ficar bravo se ela me chamar no feminino. Mas se eu estou lidando com as forças de segurança pública, eu quero que elas me respeitem como eu estou me apresentando, como Caê, que me chame desse jeito e me chame no masculino. Além disso, houve também um caso em que eu acabei virando matéria na Ponte. Eu faço acompanhamento endocrinológico a cada dois, três meses, por conta da aplicação de hormônio, e o meu médico não tinha agenda em março, abril e eu precisei ir na clínica que ele atendia anteriormente, onde me falaram que tudo bem, que eu poderia passar lá que a médica tinha tudo no sistema. Quando eu cheguei, ela negou a consulta, e dois dias antes eu tinha feito uma matéria ouvindo uma advogada que estava auxiliando uma mulher trans. Perguntei se essa advogada topava ir comigo na delegacia para que eu abrisse um boletim de ocorrência porque aquilo foi uma transfobia e não dá para a gente silenciar. A delegada só faltou rir da minha cara quando eu falei que isso era transfobia. Se eu não estivesse com a advogada, naquele dia eu teria saído sem o BO. Isso porque a gente foi na DECRAD né? Que é a delegacia que, teoricamente, está pronta para atender casos de racismo e de LGBTfobia. Mas deu pra perceber nitidamente que eles também não estão preparados, como qualquer outro lugar. Então acho que é sempre difícil lidar com o sistema de justiça.Com certeza foi arquivado [o caso] porque até hoje, seis, sete meses depois, eu não fui chamado na delegacia. Mas eu quis também abrir esse BO para a médica médica perceber que ela errou. A justiça não vai estar a nosso favor, mas eu também decidi que enquanto jornalista não poderia não abrir esse BO. Se eu silenciasse, ela continuaria negando consultas para outros meninos.

Você já sofreu algum tipo de ataque diretamente por ser jornalista?

Caê – Por incrível que pareça, nunca recebi ataque direto por ser jornalista, acho que a questão é mais por ser um homem trans que é jornalista e usa as redes sociais para falar também. O que acontece, vira e mexe, é que tem uma foto minha sendo usada em algum grupo de ódio, com legendas “escrotas”. Isso já aconteceu umas três ou quatro vezes. Então eu peço para quem viu fazer a denúncia. Porque, como já disse, eu prefiro nem acessar esse conteúdo. A gente sempre falava [na Ponte]: não vamos olhar o Facebook da Ponte. Parecia que a gente abria o esgoto quando olhava os comentários nas matérias. Era absurdo, mas não era diretamente ao repórter. Falavam que a Ponte é financiada pelo PCC porque fala da polícia. Criou-se uma ideia que se fala mal da polícia, com certeza é o PCC que apoia. É uma coisa muito louca. Mas diretamente, pra mim, não teve isso. Eu acho que o que incomoda muito, no Twitter principalmente, é quem tem o selo verificado. Então se você é uma pessoa que faz parte de uma minoria [verificada] por direito, seja uma pessoa negra mulher, uma pessoa LGBT, uma pessoa indígena, se você tem um selo verificado, ficam muito mais ofendidos. Acho que [fere] o ego do homem hétero cis branco. Principalmente se for mais da direita, inflama muito quando eles veem que as redes sociais podem reconhecer que temos perfis relevantes. Então os ataques de hoje têm a ver com isso também, selinho de verificação. No dia em que eu critiquei a matéria do Fantástico foi bem pesado. Eu só consegui esse selinho por ser jornalista.
Teve uma outra vez também que eu recebi ataque de ódio na condição de entrevistado. O pessoal do Yahoo me entrevistou assim que eu fiz a minha cirurgia [mastectomia] porque eles queriam fazer uma matéria sobre cirurgias de pessoas trans na rede particular, entender como funcionava. E eu sabia que eu ia receber ataque de ódio, mas eu falei porque é muito relevante. É uma dúvida de muitos meninos trans, então, ok, pode por minha foto. Foi a foto principal da matéria. Não olhei os comentários, mas me contaram, e eu nunca vi comentários tão baixos, tão transfóbicos, tão absurdos. O Yahoo conseguiu destaque no Twitter e o meu peitoral ficou em destaque. Isso atingiu muito o ego do homem cis hétero branco. Várias pessoas denunciaram o comentário e o Twitter falou que não violava os direitos. Nos reconhecem como uma conta relevante, mas quando a gente sofre ataque de ódio, precisa ter essa esse outro lado também. “O que vocês vão fazer?” Banir essa conta? Como que a gente consegue se proteger pra não sair dessa plataforma?”. Já fechei as minhas redes sociais, mas eu fiquei uma hora somente com as redes fechadas, mas é isso que eles querem. Querem que a gente saia das redes sociais, assustar a gente. Nunca se sabe do que essas pessoas são capazes. Mas tem que ser um ato de resistência diária. Saber que a gente vai postar aquele conteúdo e vai receber algum ataque de ódio.

Já aconteceu algum tipo de ataque relacionado a alguma reportagem sua na Ponte?

Caê – Sou fã de Harry Potter e J.K Rolliwng era a minha escritora favorita, mas a vi proferindo tanto ódio, ela dizer que é errado dizer “pessoas que menstruam”, que antes tinham um outro nome referindo que homens trans, pessoas trans masculinas, também são mulheres. Eu pedi para escrever um artigo sobre isso na Ponte. Porque acho que ninguém melhor do que eu, que sou homem trans, jornalista, fã de Harry Potter, para escrever sobre isso. E naquele artigo chegaram comentários de gente muito brava, afinal eu explicava ponto a ponto porque a Rolling foi transfóbica. Eu dei 10 dicas para não ser transfóbico e além de bolsonaristas tiveram as feministas radicais atacando. Por exemplo, negar ficar [se relacionar] com uma pessoa trans por conta da genitália dela, sim, é transfobia. Então quando a gente fala sobre isso, as pessoas ficam muito bravas. Eu lembro que nessa matéria houve ataques e comentários sobre isso. Houve uma época em que a Ponte fazia muita matéria sobre os grupos que proliferam ódio nas redes, para contar como funcionava, como era a lógica deles. Marielle [Franco, vereadora assassinada em 2018] era muito mencionada nesses grupos. Por quê? Porque a figura da Marielle é incrível, a direita odeia. Uma mulher negra favelada bissexual que nunca silenciou. Já cheguei a escrever matéria que não assinei, por exemplo, sobre aquela mulher que fala que é ex-feminista, a Sara Winter. Escrevi sobre como ela odeia a população LGBT. Eu falei “ok, gente, eu apuro, mas não quero assinar”. A única matéria da minha carreira que eu não assinei porque sei que ela adora atacar pessoas LGBT+ e a matéria era sobre isso. Pensei: ela vai pesquisar o meu nome, vai ver que eu sou um homem trans, prefiro já evitar sofrer qualquer ataque. Mas acabou que foi uma matéria que não teve repercussão. Mas eu prefiro evitar por quê? Bem, se quando eu não falo sobre esse assunto pode dar ruim [sic], então eu prefiro evitar [quando falo sobre]. Mas às vezes, numa reunião de pauta, se há uma matéria para fazer  sobre alguma célula nazista em algum lugar, me passam todas as outras matérias do dia e deixam essa para o repórter cis hétero, né? Porque se ele for sofrer um ataque de ódio, não vai ser relacionado a quem ele é. Pode ser qualquer outra coisa. Então havia esse cuidado na hora de definir as pautas.

Lembro também que quando o Bolsonaro foi eleito [presidente], fizemos uma reunião presencial na Ponte, no dia seguinte, pois toda segunda-feira tinha reunião. E a gente pensava “o que vai ser da gente agora?”. Pensávamos “ele pode fechar o nosso jornal”. Porque eu vou continuar falando das questões LGBTs, e aquela foi uma época bem tensa, aquela eleição dele, mas também a gente viu na época que era ali para a gente resistir, né? Acho que mais do que nunca, esse tipo de jornalismo era e ainda é necessário. A gente percebe que ainda vai demorar uns anos para a Ponte não precisar mais existir.

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“A violência contra mulheres jornalistas é modus operandi do bolsonarismo”, afirma Vera Magalhães

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Vera Magalhães é jornalista, colunista no jornal O Globo e especializada na cobertura de poder desde 1993. É também âncora do “Roda Viva”, na TV Cultura, e comentarista na rádio CBN. É uma das 7 pessoas entrevistadas em profundidade para a pesquisa “O Impacto da Desinformação e da Violência Política na Internet contra jornalistas, Comunicadoras e Pessoas LGBT+”
Você percebe que há uma naturalização do discurso de ódio no meio jornalístico? Se sim, de que maneira?

Vera Magalhães: Eu sinto que há essa naturalização do discurso de ódio em relação aos jornalistas e acaba gerando também nos jornalistas, principalmente nas jornalistas, uma postura reativa muitas vezes. Então a gente acaba também reagindo a isso porque ninguém consegue ser impactado por tantas mensagens de ódio e passar indiferente. Ao longo de muitos anos sendo alvo desse tipo de tática, eu acabei desenvolvendo algumas estratégias também para lidar com esses ataques: coloquei todos os filtros nas minhas redes sociais. Então eu não recebo a maioria dos comentários, eu não entro nas mensagens pra ler os comentários, eu só vejo o que chega como menção no caso do Twitter ou as mensagens das pessoas que têm suas contas verificadas. Eu procuro me esquivar um pouco, mas se por acaso eu faço um exercício de num post mais polêmico ou um post que remete a uma coluna mais polêmica, dar uma olhada, é impressionante. As pessoas realmente naturalizaram dirigir ofensas a jornalistas e principalmente a mulheres. Muitas pessoas usam avatares falsos e nomes falsos, mas muitas colocam sua própria cara, a cara dos filhos ali, fotos com a família e põem seus verdadeiros nomes e se acham no direito de proferir às vezes até ameaças além das ofensas mais absurdas. Então existe sim [discurso de ódio no jornalismo], não tenho a menor dúvida de que sim.

Você percebe que há alguma relação entre o bolsonarismo e o próprio governo Bolsonaro com esses discursos de ódio? 

Vera: Existe, existe. Essa ascensão da direita, depois se mostrou uma extrema direita, que vem ali de uns anos antes da eleição de 2018 sendo construída nas redes sociais por meio dessa promoção do Jair Bolsonaro como mito [sinaliza com as mãos o gesto de aspas], como um herói. Isso galvanizou a eleição dele de alguma maneira, e já era toda uma narrativa construída com algumas premissas: o antipetismo, o anti-establishment, e dentro desse discurso anti-establishment, a oposição à imprensa, à imprensa profissional também já era um dos pilares. Ele deu uma moderada nisso durante a eleição, até se apresentou em algumas entrevistas, nos primeiros debates antes da facada, mas aí veio a facada, começou essa narrativa a ganhar proporções ainda maiores com o argumento de que ele quase morreu e Deus o salvou e etc. E aí ele procurou realmente se dissociar da imprensa, não foi mais a debates, não foi mais a entrevistas e passou a privilegiar a sua comunicação direta com essas massas já bastante radicalizadas. Então da campanha pra cá isso foi uma escalada contínua e o presidente começou a fazer todo um discurso anti-imprensa, dizer que não ia mais assinar jornais, que não dava mais entrevistas para jornais, a falar direto no cercadinho com aqueles seus seguidores mais radicalizados. E isso foi crescendo e a violência também foi crescendo. Era ainda início de 2020, portanto antes da pandemia, quando eu divulguei no Estadão que ele estava pessoalmente convocando para atos que tinham como mote o fechamento do Congresso, o fechamento do Supremo, que aconteceriam no dia 15 de março de 2020. Pois bem, o presidente foi para a TV, dentro do Palácio [do Planalto], foi para as redes sociais me xingar, dizer que não era da minha laia, dizer que eu havia mentido. Ele próprio. Sempre houve, por parte dos poderosos, a tentativa de estigmatizar a imprensa, mas algo tão violento e personalizado na pessoa física de alguns jornalistas, principalmente mulheres, é modus operandi típico do bolsonarismo e personificado pelo presidente Jair Bolsonaro. 

O modelo de negócio do jornalismo está em discussão no mundo inteiro porque as pessoas passaram a achar que elas não precisam pagar por informação, mas nesses momentos em que a vida depende de informação, aí a imprensa cresce. 

 
Você acredita que há uma perda de confiança na mídia por parte da sociedade? E  considerando os diferentes tipos de mídia também? 

Vera – Eu acho que isso tem momentos e momentos em que vai e volta. Eu acho que houve e há uma perda, não só de confiança, mas principalmente as pessoas estão deixando de ler jornais, por exemplo, achando que podem se informar diretamente pelas redes sociais. Há uma desconexão muitas vezes entre a imprensa e o público, mas em momentos de gravidade como o da pandemia, você tem um movimento de volta, as pessoas fizeram um movimento de volta aos meios de comunicação tradicional, então as TVs abertas viram a sua audiência subir, as TVs a cabo noticiosas também experimentaram recordes de audiência, todos os jornais tiveram nesse período da pandemia os seus próprios recordes de audiência na internet, até crescimento em venda de assinaturas. Então na hora em que “o bicho pega” e que a sua vida depende da informação, eu vejo que a imprensa ganha musculatura, ganha relevância e volta a angariar público. Aí eu acho que cabe a nós, como jornalistas, como imprensa profissional, termos um meio de manter esse público que voltou com a pandemia, mantê-lo por meio de informação de qualidade, de informação segura, checada, compromisso com essa informação, responsabilidade na hora de publicar. O modelo de negócio do jornalismo está em discussão no mundo inteiro porque as pessoas passaram a achar que elas não precisam pagar por informação, mas nesses momentos em que a vida depende de informação, aí a imprensa cresce. 

E quanto ao contexto da pandemia, você  avalia que escalou de alguma maneira a propagação de discurso de ódio? 

Vera – De discurso de ódio, de fake news, de negacionismo, de desinformação, foi um terreno fértil para tudo isso, mas também foi um desenho fértil para isso que eu falei anteriormente, de reafirmação do papel da imprensa, foi quando se criou por exemplo o consórcio de veículos de imprensa. O governo [federal] ameaçou deixar de dar informação essencial, primordial, que eram os dados da pandemia. Começou a rever esses dados e deixar de divulgá-los com a assiduidade que vinham sendo divulgados. Muito rapidamente a imprensa se juntou num consórcio e a informação do consórcio de veículos de imprensa passou a ser a mais usada, a mais confiável para saber o estágio da pandemia, o número de mortos, número de casos, de contágios, de internações. Então foi um outro lado da moeda. percebo que cresceu a relevância da imprensa, mas claro, até impulsionado pelo presidente, pelo seu entorno, pela maneira como ele geriu de forma absolutamente irresponsável a pandemia, a desinformação cresceu muito e isso teve impacto na nossa resposta muito ruim e no número de mortes muito elevado que o Brasil tem.

E quanto ao poder público, como você percebe a atuação nas questões relacionadas à liberdade de imprensa?

Vera – De uma maneira muito ruim porque até isso o bolsonarismo conseguiu deturpar, que é o conceito de liberdade de imprensa e de liberdade de expressão. Passou a usar as redes sociais e até alguns supostos veículos, mas que na verdade são blogs a serviço do bolsonarismo, inclusive já comprovadamente pagos com recursos públicos ou com recursos de empresários bolsonaristas para propagar a desinformação, as fake news, os discurso de ódio e ameaças a instituições, como se isso estivesse abrigado pelo guarda-chuva da liberdade de expressão, quando liberdade de expressão não significa liberdade para o cometimento de crimes, crimes que estão previstos no código, estão previstos aí em todo o ordenamento jurídico brasileiro. Então sob a alegação de que defende a liberdade de expressão na verdade o que o Governo quer é revogar todas as leis que sejam no sentido de inibir cometimento de crimes cibernéticos, de crimes contra a honra de propagação de discurso de ódio, de propagação de desinformação, inclusive agora tentando mexer no Marco Civil da Internet. É um uso absolutamente equivocado do conceito de liberdade de imprensa ou de expressão ou de opinião. 

Os veículos para os quais eu trabalho e trabalhava sempre foram muito presentes, inclusive colocando o jurídico à minha disposição, me defendendo em notas, em matérias, etc, reafirmando as reportagens, mas cobra o preço [o ataque de ódio], certamente cobra um preço em termos de saúde mental. Você se sente de fato fragilizado. 

Você já sofreu algum tipo de violência, algum tipo de ataque na internet? E acredita que  geralmente os ataques estão mais relacionados ao tema da matéria ou a você?

Vera – Bom, muitos ataques. Eu já sofria ataques desde antes do bolsonarismo, também sofri ataques daqueles blogs mais ligados ao PT na época do Mensalão, depois na época da Lava Jato, do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, pelo fato de estar em veículos que cobriram de uma maneira bastante crítica também os governos do PT, aliás, quaisquer governos porque esse é o papel da imprensa. Então eu era associada a um antipetismo nessa época e havia já críticas e essas críticas já eram de conotação muito pessoal, eram pouco ligadas às reportagens, muito ligadas ao fato de “ah, o marido dela trabalha não sei onde, ah ela é casada com não sei quem”, esse tipo de ataque misógino, machista que mira no pessoal, mas isso era algo difundido na blogosfera e em veículos, mas nunca personificada na figura do presidente da República, nem o Lula e nem a Dilma, e isso faz a diferença porque isso autoriza o espalhamento do ataque e a elevação do tom muitas vezes. Então com o Jair Bolsonaro, que eu critico desde antes dele ser eleito, desde a eleição, ele sempre assume, ele e os filhos, o ataque. Ele posta, ele te marca. E quando te marca, vem uma matilha pra cima de você, marcar a sua arroba. É um apito para virem para cima de você e aí sempre dessa forma misógina, dessa forma querendo te associar a um ou a outro partido. Até de petista eu fui chamada pelos bolsonaristas. O ápice, realmente o momento de maior ataque, foi esse em que eu contei que o Bolsonaro estava convocando para atos antidemocráticos, aos quais depois ele até compareceu, corroborando a minha matéria, mas ninguém desmentia a matéria, era sempre um ataque muito violento a mim. Nessa ocasião, vieram ameaças mais claras com a publicação, por exemplo, de onde os meus filhos estudavam, nome da escola dos meus filhos, que eu tive de recorrer para que o Twitter tirasse aquela postagem porque colocava os meus filhos em risco. Então foi a vez em que eu senti essa violência de uma forma mais exacerbada, o presidente ir pra uma rede de TV para me atacar pessoalmente. Tive até reações físicas, passei mal, então foi a vez mais violenta, foi em fevereiro de 2020. Isso ajuda a gente a desenvolver um certo couro grosso, você vai pra cima, você não se intimida. Os veículos para os quais eu trabalho e trabalhava sempre foram muito presentes, inclusive colocando o jurídico à minha disposição, me defendendo em notas, em matérias, etc, reafirmando as reportagens, mas cobra o preço [o ataque de ódio], certamente cobra um preço em termos de saúde mental. Você se sente de fato fragilizado. 

Você comentou que recorreu sobre uma informação específica no Twitter, mas você costuma recorrer sempre? Como lida com isso nas redes sociais? 

Vera – Quando é ameaça ou quando se apoderam na minha foto pra abrir perfil fake ou do meu nome, ou quando associam alguma produção minha à desinformação eu geralmente tento reportar [às plataformas] para que seja derrubado porque eu acho que se a gente deixar propagar a desinformação, é algo que vai ficar para sempre ali e vai ser relacionado ao seu nome. Então sim. Mas às vezes em que eu precisei de acompanhamento jurídico mais sistemático foi nesse caso que contei anteriormente, e também num processo de stalkeamento que eu sofri de uma figura bolsonarista que tem espaço nos meios de comunicação e que passou a me stalkear com frequência. Esse eu processei, mas não é algo recorrente. Analiso quando passa dos limites, quando extrapola e peço para as plataformas removerem ou eu aciono um advogado que trabalha comigo para tomar as providências na justiça.

É insuficiente a maneira como as plataformas respondem a esse estado de coisas. Acho que cada vez mais a gente tem que brigar para que as plataformas não se portem somente como plataformas mesmo, mas sim como produtoras de conteúdo porque é isso que elas são.

Como são as respostas das plataformas? Elas costumam acatar? 

Vera – Varia. Nesse caso da escola dos meus filhos, eles foram muito rápidos, o Twitter retirou a postagem do ar, assim como retirou uma outra postagem que era ameaçadora, dessa mesma época, que agora eu não me recordo exatamente o teor, mas muitas vezes, quando é discurso de ódio ou quando é desinformação e você reporta, eles vêm com uma resposta genérica de que aquilo não ofende a política da plataforma, que eles analisaram e avaliaram que não ofende a política da plataforma. Mesmo durante o curso da pandemia, coisas que não eram ligadas diretamente a mim, que eram desinformações nítidas, mentiras, que eu reportava, muitas vezes veio essa resposta. Eu acho que é insuficiente a maneira como as plataformas respondem a esse estado de coisas, sabe? E eu acho que cada vez mais a gente tem que brigar pra que as plataformas não se portem somente como plataformas mesmo, na linha do “Ah, o conteúdo está lá e a gente não tem nada a ver com isso”, mas sim como produtoras de conteúdo porque é isso que elas são, elas podem não estar produzindo, mas o que todos os usuários estão produzindo de conteúdo é revertido para as plataformas na forma de monetização e há, sim, que ter responsabilidade solidária pelo que vai ali, ainda mais no curso de uma emergência sanitária. Então eu vejo que a pandemia teve vários ensinamentos e um deles é reforçar essa impressão que eu já tinha de que cada vez mais as redes sociais têm que trabalhar como produtoras de conteúdo e não só plataformas estanques, que estão ali e que não têm nada a ver com aquilo. É uma longa batalha no Brasil e no exterior, mas ainda é insuficiente essa resposta. 

Você percebe que há algum tipo de violência específica contra jornalistas mulheres e pessoas LGBT+? E o que que você acha que diferencia essa violência das demais? 

Vera Com certeza existe, é uma violência de gênero muito clara porque eles avaliam que a mulher é mais frágil, que a mulher vai se intimidar e vai recuar diante desse tipo de ataque violento, mas eu percebo que o efeito tem sido o contrário, hoje em dia quem está na linha de frente da denúncia dos abusos, dos arbítrios do governo, do autoritarismo do presidente, dos absurdos cometidos durante a pandemia, são as jornalistas mulheres, são elas as que têm feito o trabalho mais relevante de denúncia, posso citar várias: Patrícia Campos Mello, Miriam Leitão, Constança Rezende. Tem aí uma lista grande de mulheres que estão na linha de frente e que não recuaram um milímetro diante desses ataques que são muito violentos. No caso da Patrícia Campos Mello, um deputado foi para uma tribuna acusá-la de prostituição para obter informação. Ela tá processando, já ganhou em várias instâncias do deputado Eduardo Bolsonaro, de outros, ela processa inclusive o presidente Jair Bolsonaro e ela tem tudo para ganhar [a entrevista foi concedida antes da decisão da Justiça de condenar o presidente Jair Bolsonaro por danos morais] porque ela foi submetida a um linchamento virtual com ameaças inclusive físicas. A Folha de São Paulo teve de colocar um segurança pra cuidar dela. É muito sério isso e é violência de gênero nitidamente. Ultimamente há alguns levantamentos que quando um jornalista e uma jornalista assinam juntos uma matéria, o ataque vai todo para mulher, como aconteceu recentemente com uma série da repórter Juliana Dal Piva que assinava com um colega e a medição dos ataques a um e a outro nas redes sociais era uma coisa totalmente desproporcional. Os ataques a ela eram muito maiores, as menções ao nome dela eram muito maiores. Geralmente tem um apagamento da mulher, mas nesse momento o apagamento é do homem e sobra tudo para a mulher. Eu acredito que com os LGBT+ seja a mesma coisa, não estou na pele deles, não consigo opinar, mas eu vejo muito discurso homofóbico quando o jornalista em questão é LGBT+, então eu acho que é equivalente. 

E você acredita que o vínculo empregatício, o tamanho da empresa, o alcance da mídia e o tema que está sendo publicado influenciam na possibilidade de sofrer algum tipo de ataque? 

Vera – Nesse caso, eu precisaria de mais dados para opinar, porque eu tenho trabalhado em veículos da grande imprensa há muito tempo, então eu não sei como isso se dá com os veículos da imprensa alternativa. Eu acredito que seja mais violento e que a dificuldade de reagir seja maior, justamente porque não tem tanto espaço, porque não tem tanta estrutura, porque não tem tanto dinheiro. No caso da grande imprensa, os ataques são grandes justamente porque elas têm um grande poder de atingir público, então quando o governo Jair Bolsonaro mira, por exemplo, do grupo Globo, ele faz porque ele sabe que é um grupo que fala com uma grande parcela ainda da sociedade brasileira e que estigmatizar esse grupo é um projeto político também, um projeto de poder. Assim como já foi do PT no passado, nisso os dois têm o mesmo alvo. Então eu não sei qual é a realidade dos veículos alternativos, precisaria ter alguém mais bem posicionado para falar sobre isso do que eu.

 

Eu não tenho nenhuma vocação para querer ser mártir ou Joana D’Arc do jornalismo, eu tenho a minha vida e eu pretendo continuar a vivê-la por muito tempo, mas eu também não deixo esse tipo de pensamento me paralisar

Atualmente você se sente segura exercendo a profissão de jornalista?

Vera – Eu procuro não pensar muito nisso não, a minha família, os meus amigos que não são jornalistas, eu vejo uma preocupação crescente deles com isso, algo como “ah, não sai sozinha; ah, eles sabem onde você trabalha; ah não publique nada que relacione com a sua vida pessoal”. Eu recebo muitos conselhos nesse sentido, principalmente de quem não é jornalista, mas eu fico pensando que se a gente enveredar por aí a gente já não vive numa democracia. Se os jornalistas tiverem que começar a tomar esse tipo de cuidado, ou as empresas jornalísticas tiverem de tomar esse cuidado com os seus profissionais, é porque realmente a gravidade da nossa situação é brutal. Eu não tenho nenhuma vocação para querer ser mártir ou Joana D’Arc do jornalismo, eu tenho a minha vida e eu pretendo continuar a vivê-la por muito tempo, mas eu também não deixo esse tipo de pensamento me paralisar porque se você começar por aí, você vai começar a cometer alto censura obrigatoriamente e, diante do descalabro que a gente vive, com um governo que assiste quase 600 mil mortes e continua falando atrocidades em relação à pandemia, um governo que ameaça as eleições, que ameaça as instituições, que ameaça não cumprir ordem judicial, você calar ou tentar algum tipo de neutralidade diante de situações como essa significa você se omitir e faltar com o seu dever jornalístico. Então eu prefiro deixar essa história de medo fora da minha cabeça, nos momentos em que eu não estou trabalhando tentar espairecer para também não ficar ali sobrecarregada com esse estado de coisas, mas continuar fazendo o meu trabalho com a coragem que eu acho que eu tenho que fazer. 

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“O ataque permanente a nós, mulheres negras, é porque é aqui que o racismo se faz todos os dias”, afirma socióloga Vilma Reis

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Referência do pensamento feminista negro brasileiro, ela destaca o papel de mulheres negras na luta contra o racismo e diz que seu protagonismo as tornam o principal alvo da violência contra movimentos sociais

Por Vitória Régia da Silva*

A socióloga Vilma Reis, 52 anos, é uma das mais importantes intelectuais e militantes do pensamento feminista e negro no Brasil de hoje. Nascida em Salvador, é professora e doutoranda em Estudos Étnicos Africanos da Universidade Federal da Bahia (UFBA).
Foi ouvidora-geral da Defensoria Pública da Bahia por dois mandatos e chegou a ser pré-candidata do PT à Prefeitura de Salvador em 2020.

Em entrevista à Gênero e Número, ela fala sobre as demandas e estratégias das mulheres negras no enfrentamento do machismo e do racismo e de como são elas que estão na linha de frente dessa luta.

“ É nesse confronto cotidiano que os ataques racistas vêm para cima da gente, porque colocamos o nosso black para cima, o turbante, a conta de orixá no pescoço e vamos para a universidade. Eles tentam nos asfixiar o tempo inteiro e, quando não conseguem mais tirar qualquer chance de nos impedir e boicotar no mundo do trabalho, na ida ao shopping, nós criamos nossos próprios espaços”, destaca.

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Confira a entrevista a seguir:

1- As mulheres negras estão na linha de frente do combate ao machismo e ao racismo. O que é e quais os impactos do que você chama de “racismo à brasileira” nessa luta ?

Nós vivemos no Brasil uma organização do enfrentamento a esse racismo, que é o racismo de marca, não um racismo de origem. Portanto, se joga muito a situação das pessoas. A primeira coisa é que nós estamos no enfrentamento do racismo e na sustentação de nossas comunidades. E muitas vezes estamos sozinhas nessa luta. O principal ponto sobre o racismo à brasileira é que não tem outros grupos efetivamente se importando com o racismo. E nós precisamos que as pessoas brancas, que se anunciam como antirracistas, se envolvam na luta. Nos levantamos por cada mulher e cada menina, por cada senhora idosa, rezadeira e parteira, por cada mulher que toma conta do mercado e que garante a nossa sobrevivência e que garantiu nossa chegada com dignidade até 2022. 

2- E as mulheres negras sempre estiveram ali, Vilma?

Com 15 anos de idade entrei no movimento em defesa da escola pública, na minha escola, e acompanhei a luta de todas as minhas companheiras aqui na Bahia e no Brasil. Podemos olhar o exemplo de organizações como o Coletivo Nzinga desde 1982, com Lélia Gonzalez no Rio de Janeiro, com Beth Viana e com todas aquelas mulheres que colaram mesmo na luta.  Quando a gente olha outras experiências da ONG Criola, do Maria Mulher, no Rio Grande do Sul, do Observatório e de todas as lutas organizadas por todas outras companheiras no Recife, em Pernambuco. 

Todas essas lutas são lideradas e trazidas até este ano de 2022 por mulheres negras. O que tem de mais contundente no enfrentamento ao racismo nesse país, mesmo quando você olha para a história dos blocos afros e às vezes não enxerga imediatamente as mulheres? As mulheres estão ali construindo enfrentamento. A gente pode voltar a Palmares; onde a gente for são as mulheres negras no enfrentamento. Eu falo da experiência do candomblé e das irmandade porque imagine o que é em plena escravização e brutalidade colonial, mulheres se juntarem nesse país inteiro para fazer irmandade para comprar a liberdade de outras pessoas, mulheres e homens. A gente ainda precisa colocar essa história em tela. É preciso contar sobre nossa subjetividade e formas altamente sofisticadas que nós erguemos por liberdade. 

3- Em um ano eleitoral, você vê o combate ao machismo e ao racismo no centro das discussões e nos programas de governo dos candidatos?

Eu me junto a Sueli Carneiro e Grada Kilomba ao dizer “É nós, por nós” e  nós precisamos ser prioridade na agenda política do país e nos colocarmos como prioridade. Para os partidos políticos, seja esquerda ou direita, será impossível não tratar da agenda racial e de gênero no país. E não tratar dessa agenda é estar de mãos dadas com o facismo. Para a gente não tem recuo, só se for para impulsionar o caminho da luta. Não é possível depois de tudo o que passamos não se posicionar nessas eleições. As eleições de 2022 são decisivas para o país enquanto projeto de nação.  Não é possível fazer política sem as mulheres negras e indígenas, o que tentarem fazer sem nós, é atraso e colonização atualizada.

4- No Brasil, as mulheres negras são as maiores vítimas de injúria racial segundo dados das secretarias de segurança pública. Por que avalia que as ofensas racistas são destinadas mais a elas?

As questões levantadas tanto por Lélia Gonzalez quanto por Luiza Bairros, sendo que Luiza fez o texto “Nossos Feminismos Revisitados”, de 1995, e mais recentemente, quase 30 anos depois, com a vinda de Ângela Davis ao Brasil, que disse que “Quando uma mulher negra se move, toda sociedade se move com ela”, esse ataque permanente a nós mulheres negras é porque é aqui que o racismo se faz e se refaz todos os dias. Somos o grupo que confrontamos com os racistas. Na hora de defender nossos territórios, a vida dos nossos e nossas vidas, não temos vacilo. E a nossa presença cria uma reação secular do estupro colonial ao quarto de empregada. Nós botamos a verdade dos racistas no meio da rua. Por isso, claro que somos o grupo que o racismo quer destruir. É nesse confronto cotidiano que os ataques racistas vêm para cima da gente, porque colocamos o nosso black para cima, o turbante, a conta de orixá no pescoço e vamos para a universidade. Eles tentam nos asfixiar o tempo inteiro e, quando não conseguem mais tirar qualquer chance de nos impedir e boicotar no mundo do trabalho, na ida ao shopping, nós criamos nossos próprios espaços. Nós que pensamos, desafiamos e qualificamos a democracia brasileira e, inclusive, o campo dos direitos humanos.

5- Na sua avaliação, quais são as estratégias para luta política na promoção e garantia dos direitos das mulheres negras?

Tem vários movimentos acontecendo. A primeira coisa é uma luta contundente para parar a matança em nossas comunidades. Entre muitas das lideranças que organizam esse movimento no Brasil inteiro, somos nós as mulheres, dos movimentos “Mães de maio”, “Mães de Manguinho” e  “Mães do Cabula”, entre tantos outros. Enquanto eu era ouvidora geral da Defensoria Pública da Bahia, em 2017, pela primeira vez nós recebemos o Movimento Internacional de mães e familiares vítimas do terror de Estado. E ali eu pude vivenciar uma experiência de ver quando a gente fala que são as mulheres negras que estão à frente da luta, ali é um retrato muito contundente dessa forma de organizar a luta pela nossa sobrevivência e resistência. 

No outro aspecto, ao mesmo tempo, os jovens e as jovens que sobrevivem a essa guerra racial, a essa matança, a luta das mulheres que continuam no trabalho doméstico, que são diaristas… E nos quilombos ou em outras formas de agricultura familiar, a luta que nossas companheiras têm feito para que suas filhas alcancem uma outra vida que elas não tiveram. Principalmente, a conquista de um espaço  no mundo do trabalho e na universidade. Isso me toca profundamente porque a luta da minha geração, que tem 50 anos, é que nossas filhas e sobrinhas não enfrentem o horror do trabalho doméstico sem direitos. 

 Na hora de defender nossos territórios, a vida dos nossos e nossas vidas, não temos vacilo. E a nossa presença cria uma reação secular do estupro colonial ao quarto de empregada. Nós botamos a verdade dos racistas no meio da rua. Por isso, claro que somos o grupo que o racismo quer destruir. É nesse confronto cotidiano que os ataques racistas vêm para cima da gente, porque colocamos o nosso black para cima, o turbante, a conta de orixá no pescoço e vamos para a universidade.

6- Quais os desafios?

Temos uma batalha pela frente, de enfrentar o cinismo das gestões públicas nos municípios e nos governos dos Estados, assim como do Governo Federal. Para garantir o direito ao trabalho dessa nova geração que experimentou a realidade das universidades, mas que para um imenso número de homens e mulheres negros, nunca experimentaram ter qualquer direito no serviço público e adentrar o mercado de trabalho. O serviço público no Brasil ainda é extremamente branco e concentrado na classe média. As mulheres negras tiveram que enfrentar professores e gestores que não queriam cotas raciais, a mídia corporativa e uma verdadeira guerra contra cotas. Precisamos que o sistema público funcione porque nós só temos esse. 

7- Como o antirracismo pode ajudar nesse sentido?

É muito importante que as pessoas se metam no meio dessa guerra racial contra nós. E além disso, tem uma questão objetiva para quem não sabe como se engajar na luta antirracista. No mundo do trabalho, por exemplo, você tem que sentir um  estranhamento se chega em um espaço de poder e não tem nenhuma pessoa negra, especialmente com toda força do protagonismo político das mulheres negras. É preciso estranhar. Eu sou uma mulher negra que todos os dias acessa lugares de poder, não foi um lugar comum ser ouvidora geral da Bahia, estou falando de lugares de poder. Se você vai fazer uma seleção, é preciso se preocupar com o enfrentamento ao racismo e ao patriarcado. Deve ser um compromisso. 

Outro ponto é irmos para o embate público. O que Luiza Trajano fez com o programa de trainee da Magazine Luiza foi mexer com a estrutura racista do mercado de trabalho. Esse é um convite que fazemos às pessoas que querem ter uma postura antirracista. Trajano não imaginava a profundidade da coisa, mas os ataques que sofreu mostraram que precisamos aprofundar nas políticas de ações afirmativas. Não deixar brecha para fraudadores em concursos, que estão roubando de forma criminosa as oportunidades de mulheres negras e homens negros. E ainda precisamos questionar a  estrutura racista. Não é sobre pessoas, mas uma estrutura que é materializada pelo silêncio e covardia de pessoas brancas que não se pronunciam. Esse é um debate intenso sobre o comportamento dos brancos do Brasil. 

*Vitória Régia da Silva é repórter da Gênero e Número

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