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Eleições 2022

ARTIGO: Crise econômica pode determinar o voto das mulheres nas eleições de 2022

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Pesquisa realizada pelo Centro Feminista de Estudos e Assessoria (Cfemea) mostra que alta no supermercado e perda de poder aquisitivo são pontos importantes de descontentamento com governo Bolsonaro por mulheres que não se identificam como eleitoras de esquerda nem de direita

Por Priscilla Brito*

Em 2022, as mulheres representam 53% do eleitorado brasileiro. No universo de cerca de 150 milhões de eleitores elas são 8,5 milhões de eleitoras a mais do que os homens – número que pode definir a eleição. Mas como elas estão vendo o processo eleitoral? O Centro Feminista de Estudos e Assessoria (Cfemea)  realizou pesquisa qualitativa com mulheres de todo o país para tentar entender.

Conduzida pelo Instituto Locomotiva em maio deste ano, os grupos focais reuniram mulheres com mais de 18 anos pertencentes às classes B, C e D que não se identificam como “de esquerda” ou “de direita”. As falas ouvidas nos grupos focais apresentaram uma rejeição grande ao atual presidente, o que se relaciona com o resultado da pesquisa realizada pelo Instituto FSB – pesquisa divulgada em junho: 57% das mulheres avaliavam o governo como ruim ou péssimo contra 44% dos homens. A situação econômica parece ser um ponto-chave para elas se posicionarem neste pleito, apesar de serem historicamente o grupo social com maior índice de votos brancos e nulos.

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Nos grupos ouvidos, muitas que votaram em Bolsonaro em 2018 declararam estarem arrependidas. Afirmaram que votaram com a expectativa “do novo” e a ideia de que o país precisava de mudanças. Mas em 2022, o cenário é de dúvidas. Algumas se mostraram esperançosas com a possibilidade de o atual presidente deixar o poder, outras disseram se sentir frustradas pela falta de alternativa entre ele e Lula. Lula, aliás, foi lembrado como um presidente que fez muito pelo povo, apesar dos escândalos de corrupção.

O descontentamento com o atual governo para as mulheres ouvidas está diretamente relacionado à incapacidade de enfrentamento da crise econômica, ao descaso e o mau exemplo em relação ao cuidado à saúde durante a Pandemia da Covid-19, à postura do presidente, visto como pouco conciliador, com falas desrespeitosas e agressivas. E, para algumas, ao cerceamento das liberdades e a fragilidade da democracia.

Apesar das diferenças de perfil das mulheres que participaram da pesquisa, todas apresentaram uma preocupação em comum: as dificuldades financeiras e a queda da qualidade de vida. Há uma demanda por soluções concretas, mais do que posicionamentos ideológicos.

No contexto “Pós-Pandemia”, mesmo as mulheres que não foram impactadas diretamente pelo desemprego sofreram com consequências, como queda de clientela (no caso das autônomas) e diminuição da renda. Elas reclamam dos preços inflacionados nos supermercados e da perda do poder aquisitivo para compra de alimentos. São mulheres cuja renda é significativa no orçamento doméstico, quando não representa a sua totalidade. A informação dialoga com o dado de que as classes D e E perderam 15% de sua massa de poder aquisitivo — a soma da renda habitual do trabalho calculada pelo IBGE mais transferências, demais auxílios, Benefício de Prestação Continuada, Previdência e outras fontes, segundo pesquisa da Tendências Consultoria Integrada divulgada pelo jornal Folha de São Paulo.

Quem não perdeu o emprego ou teve diminuição de renda nos últimos anos, sente o impacto da crise econômica por causa da inflação e do aumento dos preços no geral. Os relatos revelam que com o mesmo rendimento elas não conseguem fazer nem metade do que faziam antes. Foi preciso cortar mais do que os “supérfluos”, inclusive no mercado, excluindo itens como carne vermelha, agora consumida no máximo mensalmente. A situação afeta diretamente a qualidade de vida e aumenta o estresse.

Mães solo: demanda por creches e restaurantes comunitários

Para as mulheres que participaram da pesquisa e que se identificaram como “mães solo” ou “mães solteiras”, o impacto financeiro é ainda mais profundo e se soma à falta de políticas públicas e de equipamentos como creches e restaurantes comunitários. No Brasil, são 14,6 milhões de “mães solo”. A demanda por creches apareceu em todos os grupos, não só para que elas sejam mais numerosas e próximas às casas, mas também para que funcionem em horário estendido. Hoje, 74% das crianças de até quatro anos não estão matriculadas em creches ou escolas de educação infantil, segundo o IBGE.

Sobre a experiência delas como mulheres, citaram as desigualdades no mercado de trabalho, as diferenças salariais e o assédio que enfrentam todos os dias. Elas sabem que recebem salários menores mesmo quando ocupam as mesmas posições que os homens, e sentem a discriminação pela possibilidade de serem mães ou por terem que dedicar parte do seu tempo às tarefas de cuidado. Em geral, elas se sentem menosprezadas e inferiorizadas diante dos homens nos ambientes de trabalho e dizem precisar provar sua competência diariamente.

E o mais interessante: não há lembrança de políticas públicas voltadas especificamente para as mulheres e, do ponto de vista dos direitos, só a Lei Maria da Penha foi citada espontaneamente.

Segundo o Instituto Locomotiva, houve dificuldade em definir o que seriam as políticas públicas para mulheres. A primeira associação que faziam era com “mulheres na política”, envolvendo a ocupação de cargos públicos, políticas afirmativas para candidaturas femininas, entre outras – tema do qual todas falaram e se mostraram favoráveis, embora não soubessem dizer que impacto teria de ter mais mulheres no poder. Somente após uma explicação básica é que exemplos como “Bolsa Família” apareceram e incentivaram discussões sobre como as mulheres são impactadas pela ausência de políticas de saúde, transporte e educação.

Além das demandas relacionadas às creches surgiram nos grupos propostas como carga horária de trabalho reduzida, horário estendido nos postos de saúde; transporte público mais eficiente e livre de assédio, com segurança pública para deslocamentos de casa até transporte; auxílio de maior valor nos momentos de crise; creches para as crianças.

As mulheres entendem a política a partir da vida concreta e cotidiana e estão atentas aos descasos, descuidos e falta de políticas de assistência durante as crises econômicas e sanitárias vividas nos últimos anos. 

O Cfemea destaca que para as participantes da pesquisa, não há lembranças de um governo que tenha feito melhorias na vida das mulheres. Para a organização é um reflexo claro da falta de representatividade feminina na política e de compromisso dos governos com as demandas das mulheres. Quando perguntadas sobre a influência que lideranças religiosas, maridos ou companheiros podem ter no seu voto, elas afirmaram que isso não é decisivo para a decisão na urna.

Para o Cfemea, ainda que as mulheres nem sempre relacionem aquilo que querem da política com o feminismo ou com um posicionamento de esquerda, a pesquisa mostra como as mulheres querem se ver representadas nos espaços de poder e estão atentas a quais candidaturas vão dialogar com as suas demandas cotidianas. Em meio à crise econômica e diante da falta de políticas públicas, elas querem projetos que mudem para valer a vida no país, garantindo emprego e uma vida digna para todo mundo.

*Priscilla Brito é do Centro Feminista de Estudos e Assessoria – CFEMEA, com a colaboração Schuma Schumaher, Natalia Mori, Eunice Borges e Luana Ferreira.
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Eleições 2022: Entre as pré-candidaturas LGBT+, mulheres trans são as mais articuladas e as que mais negociaram recursos

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Pesquisa ouviu 210 pré-candidatos/as em todo o Brasil;  entre os grupos raciais participantes, indígenas são os que menos negociaram com os partidos e que obtiveram menos recursos financeiros 

Por Gabriele Roza e Vitória Régia da Silva*

Pré-candidatas mulheres trans estão mais articuladas para as eleições de 2022 do que outros quadros que buscam vencer o pleito de outubro. Elas representam 30% das pré-candidaturas de mulheres LGBT+ e são as que mais formaram equipes de campanha (78% das mulheres trans já começaram) e mais negociaram recursos com partidos (72%). Os dados são do mapeamento de Pré-Candidaturas LGBT+, realizado pela organização #Vote LGBT, em parceria com a ABGLT e Victory Institute. O estudo, que encontrou 210 pré-candidaturas LGBT+ de diferentes espectros políticos e regiões do Brasil, entre abril e junho de 2022, foi  disponibilizado com exclusividade para a Gênero e Número.

Thabatta Pimenta (PSB), 30, primeira vereadora trans eleita do Rio Grande do Norte, na cidade de Carnaúba dos Dantas, e agora pré-candidata a Deputada Estadual, avalia que desde a última eleição mulheres trans estão mais organizadas. Apesar de ser de um município pequeno, de 8 mil habitantes, Thabatta se sente cada vez mais conectada com outras parlamentares trans e travestis. ”Temos uma Frente Nacional Transpolítica. Estamos engajadas, articuladas, todas juntas para que a gente ocupe cada vez mais esse lugar que é nosso por direito”, diz.

Os dados do mapeamento, analisados pela Gênero e Número, mostram que o entre  homens trans a movimentação ainda é menos intensa. Eles são 10% dos pré-candidatos homens LGBT+. somente 37% deles já negociaram recursos com os partidos e são 13% os que já negociaram algum recurso financeiro. Além disso, são os que menos conseguiram apoio político (38%) e menos formaram equipes de campanha (50%). 

Uma das primeiras dificuldades que o profissional da saúde e professor universitário Jhonatan Calel de Moura (PMB), 32, enfrentou para sua primeira candidatura para deputado estadual em Bela Vista, Roraima foi com o partido político. “Primeiro, eu não fiz a minha retificação de nome e nem fiz a minha retificação de gênero, eu só uso o nome social. Então, eu acabei entrando pelo partido com a classificação feminina, isso já machucou um pouco”. 

O pré-candidato explica que o partido começou a respeitar seu nome social, mas por ser um partido pequeno no estado é difícil negociar outros recursos, “uma dificuldade muito grande, mas eles estão buscando entender de fato a transexualidade e as questões LGBT+”. Para ele, o processo no partido está sendo uma ”desenrolada lenta”, mas aos poucos consegue mais espaço, “‘é um partido que apesar de eu nunca imaginar que iria me acolher, me acolheu bem”, enfatiza.

Quais recursos você já negociou com seu partido?

Quais recursos você já negociou com seu partido?

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Fonte Vote LGBT+

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Fonte Vote LGBT+

Jhonatan Calel reflete um dos achados da pesquisa. Pré-candidaturas LGBT+ na região Norte são as que mais relatam estar com dificuldades em conseguir recursos financeiros e outros recursos (como rede de apoio e equipe) entre todas regiões do país. Dentre os entrevistados que moram na região Norte, 94% informaram falta de recurso financeiro e 71% falta de outros recursos. Pré-candidatos do Nordeste estão em segundo lugar entre os que mais se queixam da falta desses recursos: 89% apontam falta de recursos financeiros e 70% afirmam falta de outros recursos. ”Aqui no estado de Roraima tudo é muito monopolizado, sempre são os mesmos, então quando entra novo é muito difícil ter uma visibilidade”, lamenta Jhonatan.

Quando foi candidata pela primeira vez, em 2016, Thabatta Pimenta se sentiu rejeitada e atacada pelos partidos políticos do seu município. Ela conta que em Carnaúba dos Dantas (RN)  os espectros políticos não são tão definidos, ”no interior do Rio Grande do Norte é mais nessa questão, os partidos se unem e é verde e vermelho”. Ela conseguiu a candidatura pelo PSDB e, apesar de não ter sido eleita no ano, foi bem votada com 320 votos. Em 2020, seguiu para a disputa pela vereança, quando foi eleita filiada ao PROS. 

A vereadora está otimista para o pleito eleitoral de 2022 e acredita que eleitores e eleitoras buscam renovação política. ”As pessoas querem renovar esses espaços com novas representações. Se a gente não tiver a juventude e as pessoas que representem essas minorias nesses lugares, vai ser sempre o mais do mesmo”. 

Perfil das pré-candidaturas

A pesquisa também analisa a distribuição de candidatos/as LGBTs por gênero, raça e orientação sexual por linha partidária. De acordo com o mapeamento, as pré-candidaturas, em sua maioria, se declaram como preta (86), como branca (76), como parda (44) e como indígena (4). Apesar da maioria das pré-candidaturas LGBT+ estarem presentes em partidos de esquerda (83%), entre as pré-candidaturas negras (pretos + pardos), 19% estão em partidos de centro e direita, em comparação com 14,5% das pré-candidaturas brancas e 0% das indígenas. Nas eleições de 2020, foi a primeira vez que candidaturas negras superaram a de brancos, mas isso não se reflete na eficácia eleitoral de pessoas negras, sejam LGBT+ ou não, que ainda não são a maior parte dos eleitos. 

“Isso confirma nossa pesquisa de 2020, que candidaturas negras LGBTs estão mais em partidos de esquerda, o que acaba sendo bom para elas, porque são os partidos que distribuem mais dinheiro para essas candidaturas. Veremos se isso vai se manter nas eleições deste ano”, conta Evorah Cardoso, pesquisadora do #VoteLGBT. 

Perfil das pré-candidaturas LGBT+ em 2022

Pessoas LGBT+ negras são a maioria dos pré-candidatos/as

Identidade de gênero

Mulher cis

73

Homem cis

69

Mulher trans + Travesti

49

Homem trans

8

Não-binária/o/e

5

Transvestigenere

1

Outros

5

Cor/Raça

brancas

indígenas

negras

4

76

130

Orientação afetiva/sexual

Gay

67

Bissexual + Pansexual

62

Lésbica

42

Heterossexual

37

Assexual

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Outros

1

Estado

RR

AP

AM

PA

CE

MA

RN

PI

PB

AC

PE

TO

RO

AL

SE

BA

MT

DF

GO

MG

ES

MS

SP

RJ

PR

SC

RS

Partido e Orientação Política

68

PSOL

*PT

PSB

PDT

PCdoB

PCB

UP

54

23

18

9

Esquerda

7

174

6

6

REDE

*MDB

CIDADANIA

PSDB

PMB

PROS

REPUBLICANOS

SOLIDARIEDADE

PV

PMN

4

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Centro

2

34

2

1

União Brasil, PT e MDB são partidos com mais dinheiro do fundo eleitoral

(União Brasil não tem nenhuma pré-candidatura LGBT+ até o momento)

1

Direita

2

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1

1

PTB

PP

1

1

Fonte Vote LGBT+

Perfil das pré-candidaturas LGBT+ em 2022

Pessoas LGBT+ negras são a maioria dos pré-candidatos/as

Identidade de gênero

Mulher cis

73

Homem cis

69

Mulher trans + Travesti

49

Homem trans

8

Não-binária/o/e

5

Transvestigenere

1

Outros

5

Cor/Raça

negras

130

brancas

76

indígenas

4

Orientação afetiva/sexual

Gay

67

Bissexual + Pansexual

62

Lésbica

42

Heterossexual

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Estado

RR

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Partido e Orientação Política

Esquerda

174

Centro

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PSOL

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*PT

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PDT

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PCdoB

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REDE

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*MDB

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CIDADANIA

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REPUBLICANOS

União Brasil, PT e MDB são partidos com mais dinheiro do fundo eleitoral

(União Brasil não tem nenhuma pré-candidatura LGBT+ até o momento)

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SOLIDARIEDADE

1

PV

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PMN

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1

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Fonte Vote LGBT+

Já o gênero com o qual as pré-candidaturas se identificam são: mulher cis (73), homem cis (69), mulher trans (32), travesti (17), homem trans (8), não binária/o/e (5), transvestigenere não binárie (1) e outros (5). Chama a atenção no mapeamento  que pessoas trans sejam as que proporcionalmente estão mais presentes em partidos de centro e direita:  37% dos homens trans estão nesse espectro, seguidos por 34% das mulheres trans e  20% das pessoas não binárias. Já as mulheres cisgênero são 11%.  

“Para candidaturas LGBT+, quanto menor é a cidade, menor a possibilidade de escolha de qual partido sair porque são poucos os partidos políticos e há pouca diversidade política. Por isso, fazem uma escolha estratégica de por qual partido sair”, analisa Cardoso. 

Esse cenário não é novo. Em 2020, ano em que saltou o número de eleitos trans, mostramos em reportagem que quase 40% das 275 candidaturas trans nas eleições municipais de 2020 eram de partidos de direita, segundo levantamento da Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais). 

A análise dos dados da pesquisa evidencia também que pré-candidaturas de direita e centro negociaram mais com os partidos (72%) do que pré-candidaturas de esquerda (61%). Mas são os pré-candidates de esquerda que mais relataram ter iniciado rede de apoio como ação de campanha (51%) contra 33% que relatam terem iniciado do centro e da direita. 

Também chama a atenção quando analisamos a orientação afetiva/sexual dos mapeados que os homens gays sejam a maioria (67), seguidos de bissexuais (50), lésbicas (42), heterossexuais (37), pansexuais (12), assexual (1) e outros (1). Entre as pessoas heterossexuais [pessoas trans podem ser heterossexuais], 27% estão em partidos de centro e direita. 

Os cargos para os quais os mapeados LGBT+ estão se candidatando são, por ordem decrescente: Deputado Estadual (112), Deputado Federal (81), Deputado Distrital (11), Senador (4) e Governador (2).  Além disso, os 5 principais partidos políticos das pré-candidaturas são PSOL (66), PT (54), PSB (23), PDT (18) e  REDE (10).

Violência política: Indígenas, negros e pré-candidatos de esquerda são as principais vítimas

Proporcionalmente, entre os grupos raciais participantes da pesquisa (indígena, negro e branco), indígenas são os que menos negociaram com os partidos (75% dos indígenas), menos conseguiram recursos financeiros (75%) e apoio político junto às siglas  (75%).  Entre as principais dificuldades encontradas, pré-candidatas/os LGBT+ negros informaram falta de recursos financeiros (85%) e outros recursos (70%) proporcionalmente maior do que outros grupos raciais. 

Em relação à violência política, metade das pré-candidaturas LGBT+ indígenas relatou ser uma das principais dificuldades, contra 32% entre as negras e 26% entre as brancas. Mulheres cis (32%) e travestis (41%) também declararam ter mais dificuldade com a violência política. A pesquisa revela ainda que apenas 43% de pré-candidatos/as LGBT+ iniciaram  preparação emocional para a campanha.

A política partidária ainda é omissa nos casos de violência contra a população LGBT+, como apontam casos e dados. Alguns deles presentes na pesquisa “A Política LGBT+ Brasileira: entre potências e apagamentos“, do #VoteLGBT. Entre os representantes eleitos em 2020, 26% relataram ter sofrido violência por parte de pessoas da própria legenda. Além disso, 54% das candidaturas que sofreram violência buscaram ajuda do partido, mas em 56% dos casos os partidos não fizeram nada.

Quais as principais dificuldades enfrentadas até agora?

como ler o gráfico

falta de recursos

financeiros

1

80%

40%

falta de

outros

recursos

Violência

política

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3

Administrar tempo

pessoal e/ou trabalho

indígenas

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85%

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Fonte Vote LGBT+

Quais as principais dificuldades enfrentadas até agora?

como ler o gráfico

falta de recursos

financeiros

1

80%

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outros

recursos

Violência

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Administrar tempo

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Fonte Vote LGBT+

Pré-candidatos de esquerda relataram sofrer mais violência política (33%) do que pré-candidatos de centro e da direita (14%). Para a pesquisadora do #VoteLGBT Evorah Cardoso, é possível que candidaturas de esquerda estejam mais informadas sobre violência política. ”A percepção própria de violência passa por um processo de aprendizado e reconhecimento do que é ser vítima de violência”, explica. Mas a pesquisadora acredita que pode existir também um grau de violência política ideológica.

”Os dados do TretaAqui.org [iniciativa de denúncias de violência política] mostravam que a maioria dos ataques partia da centro-direita e quem era mais atacado eram os políticos de esquerda. Então, acho que esse novo dado da nossa pesquisa revela esse embate político ideológico, de perseguição mesmo da esquerda”, avalia.

Distribuição de pré-candidaturas LGBT+

Pessoas trans são as que proporcionalmente estão mais presentes em partidos de centro e direita

esquerda

centro-direita

orientação

afetiva / sexual

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Transvestigenere

Outros

Fonte Vote LGBT+

Distribuição de pré-candidaturas LGBT+

Pessoas trans são as que proporcionalmente estão mais presentes em partidos de centro e direita

esquerda

centro-direita

orientação

afetiva / sexual

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Gay

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Fonte Vote LGBT+

Reforma eleitoral prejudica candidaturas LGBT+

É a primeira vez que é realizada no Brasil uma pesquisa com pré-candidaturas que se autodeclararam LGBT+. Evorah Cardoso explica que nas pesquisas anteriores a organização trabalhou com dados com classificação LGBT+ informada por terceiros. Para ela, a nova pesquisa consegue retratar de forma mais justa pré-candidaturas ao trazer a autodeclaração.

”É uma imensa vitória, sabemos que não estamos desrespeitando essas candidaturas no momento em que a gente fala sobre elas e as divulga. Isso foi fruto de um esforço, de uma ação coordenada, mas pra isso você precisa ter estrutura, financiamento e equipe’.

A nova reforma eleitoral instituída no ano passado trouxe mais uma urgência para a  realização da pesquisa. ”Passamos por uma reforma eleitoral catastrófica em termos da nossa possibilidade de estar nas urnas e sermos eleitos. A reforma eleitoral reduziu drasticamente a quantidade de candidaturas que cada partido pode lançar”, explica Evorah. 

As federações partidárias, novidade destas eleições, incentivam as fusões entre as siglas, já que há um número elevado de partidos políticos no país. As alianças, que devem durar no mínimo 4 anos, farão com que os partidos federados tenham ainda menos candidaturas para lançar, pois o novo número limite de candidaturas vale igualmente tanto para partidos não federados quanto para toda a Federação (o novo limite deverá ser dividido entre todos os partidos da Federação). Segundo levantamento do #VoteLGBT, os 8 partidos federados em 2022 foram responsáveis por 63% das 556 candidaturas LGBT+ de 2020 ( mapeadas pela sociedade civil).

Evorah explica que a mudança vai diminuir as chances dos LGBT+ concorrerem a um cargo político. Agora LGBT+ vão disputar vagas não apenas dentro de seu partido, mas também na federação, com outros partidos. ”Vimos um aumento das candidaturas LGBTs a cada pleito, mas não parece ser esse o caso nestas eleições”, aposta ela.  ”As lideranças partidárias não só vão poder continuar não transferindo recursos pras candidaturas LGBTs, como elas agora vão poder dizer quem é que tem o direito de estar na urna”.

A pesquisa também busca, nesse contexto, divulgar as pré-campanhas e incentivar eleitores a apoiá-las. ”Os partidos precisam perceber que elas têm capital político, que elas têm condições de ganhar. Teremos que lutar para que essas candidaturas estejam nas urnas para que a gente possa votar nelas”.

Em levantamento  recente do #VoteLGBT, 45% do público LGBT+ respondente afirmou não conhecer nenhuma pré-candidatura ainda, embora 88% tenham dito ter preferência por votar em LGBT+. A pesquisa foi feita  durante eventos da 26º edição da Parada LGBT de São Paulo, que reuniu 4 milhões de pessoas no último domingo (19), na Avenida Paulista.

*Gabriele Roza é repórter e colaboradora  e Vitória Régia da Silva é editora-assistente da Gênero e Número 

Esta reportagem foi  produzida com o apoio do #VoteLGBT

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Eleições 2022: Mães negras buscam mais espaço na política

abre dia das mães

Três pré-candidatas negras a deputada estadual falam sobre a necessidade de mais mães na política institucional   

Por Vitória Régia da Silva*

“Sou mãe solo, meu filho tem que estudar e a escola não é perto. Quando não estou, depois da escola ele vai para a casa do meu irmão. Em Goiânia, meu filho não vai no curso que ele ama, porque não tem quem levar, mesmo com o pai na cidade. Ele não dispõe de nenhum tempo para ajudar”. É entre estes corres que Lucilene Kalunga (PSB/GO), quilombola pré-candidata à deputada estadual, cava seu espaço na política. Por vezes, leva o menino com ela nas viagens pelo estado. Juntamente com outras mães negras, ela tentará em 2022 aumentar a representatividade de mulheres negras em espaços onde homens brancos predominam. 

Em Brasília, no centro do poder do país, o cenário não é menos difícil. Por falta de previsão legal para a licença-maternidade de deputadas, o painel eletrônico da Câmara dos Deputados simplesmente apontava ausência das parlamentares quando elas estavam exercendo o direito. Apenas em setembro de 2021 a licença-maternidade deixou de ser considerada como “falta” e passou a ser inserida nos painéis de votação.  

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Um retrato das mães solo na pandemia

“Isso só aconteceu pela ação de deputadas como Talíria Petrone (PSOL/RJ), Áurea Carolina (PSOL/MG), Samia Bonfim (PSOL/SP), que passaram por constrangimentos públicos em ter que justificar suas ausências em votações, mesmo quando estavam de licença-maternidade. Como isso é possível? Ter visibilizado esse direito só em 2021! Ter mulheres mães na política significa combater estes absurdos”, destaca Fabiana Pinto, coordenadora de Incidência e Pesquisa do Instituto Marielle Franco.

Para Pinto, assim como entendemos que mulheres negras precisam estar em espaços de poder para termos políticas públicas qualificadas para este grupo demográfico, as mulheres que são mães também precisam estar representadas nesse espaço. “As mulheres que são mães já perderam demais, já se constrangeram demais. Não podem mais ser afastadas de espaços de tomada de decisão, não podem mais esperar que somente homens — ou mesmo mulheres não comprometidas — se envolvam com o direito das mães solo, das famílias com duas mães, de famílias com mães trans, enfim, famílias em toda a sua complexidade e diversidade”.

Às vésperas do Dia das Mães, a Gênero e Número ouviu três mães negras que são pré-candidatas à deputada estadual e que fazem parte do projeto Estamos Prontas, projeto de fortalecimento de candidaturas de mulheres negras em 2022, do Instituto Marielle Franco e do movimento Mulheres Negras Decidem. Elas falaram sobre a importância de ocuparem a política e os desafios que estão enfrentando no caminho. 

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Conheça as mães pré-candidatas:

Francimar Santos (PT/AM): Natural de Manaus, tem 55 anos e é uma mulher lésbica. Tem um filho de 35 anos e cria quatro netos, de sangue e de consideração. Vive na periferia de Manaus, numa ocupação (Bairro Monte das Oliveiras) fundada por uma freira, também mulher negra. Fundou a Associação de Moradores de sua comunidade, para a qual apresentou na Câmara local uma proposta de urbanização, de educação para mulheres e reforço escolar.  

Adriana Gerônimo Vieira Silva (PSOL/CE): É co-vereadora em Fortaleza. Assistente social, mora na Comunidade Lagamar, e cofundou a FavelAfro, cooperativa de mulheres periféricas da área. Integra o Grupo Jovens em Busca de Deus (JBD), a Frente de Luta por Moradia Digna, o Campo Popular do Plano Diretor e o Fórum Popular de Segurança Pública.

Lucilene Kalunga (PSB/GO): Tem 40 anos, um filho de 11, e se divide entre Goiânia e seu território, o Quilombo Kalunga, no município de Cavalcante, onde foi secretária Municipal de Igualdade Racial. Considerado o maior quilombo em extensão territorial do Brasil, Kalunga reúne três comunidades quilombolas com cerca de 600 famílias. Lucilene se organizou primeiro no Grupo de Mulheres Negras Malunga, que trabalha com saúde da mulher, anemia falciforme e saúde reprodutiva. Bacharel em Turismo, ela começou a trabalhar no Sebrae e liderou o processo de organização do seu território para gerar desenvolvimento econômico através do turismo.  

Confira os depoimentos a seguir: 

"Cidade e estados conduzidos por mães são menos desiguais, pois têm uma política integrada para toda família" |Foto: Adriana Gerônimo (PSOL)
“Cidade e estados conduzidos por mães são menos desiguais, pois têm uma política integrada para toda família” ,  conta Adriana Gerônimo (PSOL/CE) | Foto: Divulgação

Por que precisamos de mais mães na política?

Francimar Santos (PT/AM): Ser mãe é um ato político e uma forma democrática de fazer política. As mulheres que conquistaram o direito de ser mãe — ou optaram por não ser — são cobradas na família: as crianças estão na escola? Tomaram vacinas? Praticam esporte? Comeram? Enfim, todas essas perguntas são direcionadas às mães, ou às mulheres que de certa forma organizam a vida das crianças de sua família. E todas essas perguntas são de cunho político e têm a ver com direitos. E só quem vive o cotidiano na falta desses direitos sabe a dificuldade de organizar a vida das crianças, adolescentes e jovens.

As mães sabem fazer política, sabem defender o direito dos filhos, sabem avaliar o que é melhor para as crianças.  Então, se a mulher mãe sabe fazer tudo isso, com olhar humanizado, imaginem o que poderia fazer em defesa dos direitos das crianças e adolescentes? A mulher mãe é um ser político 24 horas por dia, mesmo não estando no parlamento. Por isso, a cada dia se faz necessário a presença da mulher, mãe ou não, na política partidária, na política da sociedade.  

Adriana Gerônimo Vieira Silva  (PSOL/CE): Precisamos de mais mães na política exatamente porque as mulheres que exercem a maternidade e são mães na periferia entendem os níveis diferenciados de violação de direito. As mães sabem o que é esperar na fila da creche para ter acesso a educação, sabem sair de relacionamentos abusivos, sabem que enquanto o filho está na creche podem encontrar um trabalho e gerar sua própria autonomia. São as mães da periferia, sobretudo, que sabem o que é a política de assistência social, porque são chefes de família e, muitas vezes, dependem dessas políticas de redistribuição de renda para sustentar seus filhos. 

É muito necessário que tenhamos cada vez mais mães na política, porque mulheres mães que ocupam o Executivo e o Legislativo conseguem construir cidades a partir de suas vivências muito mais integradas e sustentáveis. Cidade e estados conduzidos por mães são menos desiguais, pois têm uma política integrada para toda família.

Lucilene Kalunga (PSB/GO): Os serviços e espaços que nós mães acessamos, na maioria das vezes, são fruto de decisões de políticos, que às vezes não têm esse olhar para a maternidade. Então é importante que haja mães nos espaços de poder e decisão. Não é comum a gente ver espaços adequados para mulheres. Vimos, recentemente, o caso da prefeita [de Palmas, Cinthia Ribeiro (PSDB)], que foi mãe e que não teve direito à licença-maternidade. Na Assembleia Legislativa de Goiás, até pouco tempo atrás, não tinha banheiro feminino, o que mostra como ela foi pensada para ser um espaço masculino.Temos ainda muito que avançar. O político homem que chegou ao poder passou pelo ventre de uma mulher, mas isso não é suficiente para ele entender que esse espaço também é nosso. 

" Ser mãe é um ato político e uma forma democrática de fazer política", destataca Francimar Santos (PT/AM): | Foto: Divulgação
” Ser mãe é um ato político e uma forma democrática de fazer política”, destaca Francimar Santos (PT/AM): | Foto: Divulgação

Como tem sido sua experiência de maternidade na política?

Francimar Santos (PT/AM):  (risos) Uma maternidade muito difícil. É como o orçamento doméstico, onde temos que apertar as contas e sobreviver em meio a tantas desigualdades. Sabemos que nunca foi fácil para mulheres, mães, donas de casas, participarem desses espaços. Nós forçamos nossas entranhas e assim aguentamos o racismo, patriarcado, sexismo, homofóbica e o machismo dentro dos partidos. A mulher é vista apenas para cumprir tabelas, porém quando uma mulher preta, lésbica, ela se destaca e cria-se um mecanismo muito maior para invisibilizar a possibilidade de candidatura. Essa maternidade é como o primeiro filho: sonhamos com dias melhores e ele demora nascer.  

Adriana Gerônimo Vieira Silva (PSOL/CE): Minha experiência tem sido bem desafiadora. Ser mãe no parlamento é entender que, além da sobrecarga no cuidado da família, dos filhos e da casa, e trabalhar fora aumenta o desgaste, mental e corporal. É uma experiência desafiadora, mas também muito revolucionária. Sabemos como a ausência de mães na política afeta nossa existência. 

Se estivéssemos em maior número, teríamos uma outra forma de condução das políticas públicas. Os parlamentos estão em maioria com homens, que, por mais que sejam pais, não constroem a política a partir da experiência do cuidado com os filhos ou com a casa. Porque sabemos que a sociedade coloca isso nas costas das mães. Eu entendo que estou cumprindo uma tarefa de abrir caminhos para as próximas mulheres mães que ousarem entrar na política a encontrarem um campo mais seguro, honesto, mais transparente. E lutamos todo o dia para que o Estado brasileiro também consiga garantir nossa vida no exercício parlamentar de uma maneira mais livre, autônoma e segura. 

Lucilene Kalunga (PSB/GO): A minha experiência de ser pré-candidata e ser mãe está sendo bem complicada, porque saio e viajo muito toda semana. Sou secretária da Mulher do meu partido e articuladora política de uma região. Sou mãe solo, meu filho tem que estudar e a escola não é perto. Quando não estou, depois da escola ele vai para a casa do meu irmão. Quando não estou em Goiânia, meu filho não vai no curso que ele ama, porque não tem quem levar, mesmo com o pai na cidade, porque ele não dispõe de nenhum tempo para ajudar. E quando eu viajo, se não pode ficar com os tios, eu tenho que contratar pessoas para ficar com ele. Se é final de semana, eu levo ele comigo. Ele é super integrado às minhas atividades, tento sempre conciliar as demandas dele. Semana passada fiquei dias longe dele, é muita saudade, desgastante, cheio de desafios e dolorido, mas eu penso no amanhã que pode ser melhor para a gente, para outras mulheres e outras famílias. Estaremos abrindo espaço para as próximas que virão. 

Como venho de quilombo, nosso costume é cuidado coletivo. Sinto muita falta dessa rede de cuidados. Eu tenho uma rede com parentes e amigos que cuida, mas quando vou para meu quilombo, toda a comunidade cuida e acolhe. E na política é mais difícil ainda, somos julgadas o tempo inteiro.  

*Vitória Régia da Silva é editora-assistente da Gênero e Número

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Os 7 erros do debate público sobre aborto após declaração de Lula

Prancheta 16

O aborto é um tema das eleições 2022, fale Lula sobre ele ou não. Estará presente nas listas de distribuição do WhatsApp, será alvo de desinformação, estará nas redes sociais e em palanques. Não está sob tutela do campo progressista. Já é parte do jogo. 

Por Giulliana Bianconi e Sonia Côrrea*

Ao defender que o aborto no Brasil deveria ser encarado como uma questão de saúde pública e um direito das mulheres, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva sinalizou, na semana passada, que estava disposto a tratar do assunto na campanha eleitoral. A declaração está em sintonia com a movimentação política de países vizinhos e contribuiu para desobstruir o debate por aqui, sempre tratado como tabu em anos eleitorais. Mas provocou reações de imediato em todo o campo político. No momento em que o desafio é construir uma campanha capaz de derrotar nas urnas o projeto bolsonarista –  que faz do repúdio ao direito ao aborto uma de suas bandeiras – não faltaram análises como “Lula causou preocupação ao partido”, “Lula escorregou numa casca de banana”, “Lula cometeu um equívoco logo na largada”. Porém, a observação de décadas do debate sobre aborto no Brasil e na América Latina pelos movimentos de mulheres nos informa que essa relutância e advertências são ineficazes, pois não vão impedir a direita e o grupo antiaborto de tratarem desse tema de forma virulenta nas eleições. Listamos 7 erros observados nas conversações e análises que repercutiram na mídia e nas redes sociais na última semana.

1.
Insistir no mito de que conservadores são sempre contra o aborto legal

Existe uma parcela da sociedade conservadora no Brasil que, no final de 2018, afirmava ser contra qualquer tipo de aborto, segundo pesquisa Datafolha publicada no início de 2019. Eram 4 a cada 10 brasileiros/as. Ou: 41% da população. A pesquisa entrevistou 2,7 mil pessoas. Naquele mesmo janeiro de 2019, Sonia Corrêa e Angela Freitas abordaram em artigo como a opinião pública sobre o direito ao aborto tem oscilado ao longo dos anos e deve, por isso, ser analisada sempre à luz do contexto político. Assim, vamos os dados da mais recente pesquisa sobre “aborto” no Brasil, publicada em março de 2022 pelo Instituto Patrícia Galvão/ Locomotiva. O tamanho da amostra  e a metodologia são equiparáveis ao Datafolha de 2018: 2 mil pessoas entrevistadas e aplicação em praça nacional. Seus resultados informam que 64% consideram que o aborto deve ser discutido como uma questão de saúde pública e de direitos e 87% concordam que é direito da vítima de estupro decidir se quer ou não interromper a gravidez. Nesse grupo dos 64%, 60% são evangélicos. Ou seja, em contraste com análises e opiniões dos últimos dias, esses números nos dizem que há hoje no país um amplo espaço para se debater aborto como uma questão de saúde pública.  Não apenas porque, como já havia mostrado o Datafolha de 2018, 6 a cada 10 brasileiros/as são a favor do aborto legal em pelo menos algum caso, mas também a maioria considera legítimo o aborto em caso de estupro. Mesmo entre evangélicos existe o reconhecimento de que se trata de uma questão que vai muito além do debate religioso.

2.

Buscar a validação de partidos e líderes políticos sobre a declaração de Lula

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Assim que a declaração dada pelo ex-presidente Lula começou a repercutir durante evento presencial em São Paulo, na semana passada, a grande imprensa foi buscar declarações de líderes políticos e religiosos contrários ao direito ao aborto. Essa opção, como se sabe, é como uma profecia auto-cumprida e essas vozes disseram o que já se sabia que iam dizer. A opção de ouvir líderes partidários do campo de esquerda, como outras vozes que poderiam validar ou não a declaração de Lula, também pode ser lida como um equívoco, pois como se sabe as cúpulas partidárias, mesmo à esquerda, são ainda pouco comprometidas com as pautas da igualdade de gênero. Se não há empenho dessas lideranças em defender nem mesmo a ampliação do número mulheres no exercício da política, exigindo que o TSE ainda investigue fraude e o descumprimento de leis criadas com esse propósito, o que leva a crer que tratariam com conhecimento e a urgência necessária a questão do direito ao aborto? A tentativa de parlamentares e partidos de invalidar neste momento o debate puxado por Lula é um reflexo não da opinião da sociedade, necessariamente, mas dos próprios partidos, que operam numa lógica estritamente instrumental: importa menos o projeto e mais a quantidade de votos que avaliam que discursos e pautas podem mobilizar de imediato. Esquecem de um ponto fundamental: o assunto aborto não está sob a tutela da esquerda ou do campo progressista e poderá irromper a qualquer momento no debate eleitoral, sob qualquer viés, em tom de ataque, estando validado ou não. 

3.
Usar eleições anteriores como “lição” para evitar debate sobre aborto

Prancheta 1 cópia 4

Na primeira eleição direta pós-ditadura militar, em 1989, o Conselho dos Direitos da Mulher, então presidido por Jacqueline Pitanguy, convocou os presidenciáveis para um debate no qual  foram inquiridos quanto a suas posições sobre o aborto, que oscilaram do repúdio à defesa da legalização. A pergunta nem causou escândalo nem foi recusada por ninguém. Esse debate razoável não impediu, contudo, que a “maldição do aborto” fosse usada por Fernando Collor contra Lula no famoso debate da Globo. O ataque, por sua vez, também não impediu que Lula, quando eleito presidente, criasse, no seu primeiro mandato, uma comissão para discutir a descriminalização do aborto no Brasil. O debate sobre aborto, mesmo que interditado ao longo dos anos, está presente nas disputas políticas desde a redemocratização, mas já há anos muito se fala sobre 2010, como um momento emblemático da disputa de narrativa.

É verdade que na reta final das eleições de 2010 a então candidata Dilma Rousseff precisou fazer um corpo a corpo junto a igrejas e a evangélicos após José Serra usar durante a campanha declarações dela sobre o direito ao aborto. O contexto político era bem diferente de hoje e não havia uma base governista e um presidente se opondo abertamente aos direitos reprodutivos das mulheres no Planalto, mas naquele ano Dilma Rousseff venceu as eleições mesmo que a maioria de suas declarações sobre aborto, desde 2007, tenha sido no sentido da descriminalização. “Abortar não é fácil para mulher alguma. Duvido que alguém se sinta confortável em fazer um aborto. Agora, isso não pode ser justificativa para que não haja a legalização. O aborto é uma questão de saúde pública. Há uma quantidade enorme de mulheres brasileiras que morre porque tenta abortar em condições precárias”. Era esse o discurso de Rousseff em 2009. Não foi esse tipo de declaração que a impediu de se viabilizar candidata no ano seguinte, o que mostra que antes de ser antagonizado na campanha pelo opositor José Serra, o tema não foi posto como crítico pelos partidos, pelo eleitorado. Como não houve um debate amplo no país naquele momento, Serra passou a tratar do assunto sistematicamente para inflar bases religiosas. A mídia seguiu tratando como “questão polêmica” e se limitou a isso. Essa é a maior lição sobre 2010. A de que o debate público amplo é imprescindível, na mídia e além dela, para que o tema não seja capturado por um discurso doutrinário desconectado da realidade das mulheres no Brasil, onde 1 a cada 5 já realizou um aborto até os 40 anos. Naquele ano, Dilma recuou no tom, mas seguiu afirmando durante a campanha que o assunto era questão de saúde pública.  O ex-presidente Lula sinalizou à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil que aquele próximo governo seguiria sendo de abertura à Igreja Católica, em carta. José Serra, que afirmava ser contra o direito ao aborto, não foi eleito. A pauta não definiu as eleições, portanto.

4.

Desconsiderar que a descriminalização nos países vizinhos pode impactar o debate eleitoral no Brasil

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Nos últimos cinco anos, a chamada Maré Verde se tornou a marca do debate sobre direito ao aborto na América Latina. O movimento puxado pelas feministas argentinas, principalmente pela Campanha pelo Aborto Legal, Seguro e Gratuito, criada em 2005, se espraiou pela região. Os processos recentes são interessantes para olhar a correlação entre direito ao aborto e eleições. Na Argentina, em 2018, durante o governo de Mauricio Macri – alinhado à direita –  uma proposta de reforma legal foi aprovada pela Câmara, mas derrotada pelo Senado. Em 2019, a proposta alcançou pela segunda vez o Congresso. Era ano de eleições. A dois meses do pleito, o peronista Alberto Fernández declarou: “Eu tenho a decisão política [de descriminalizar o aborto]. Eu tenho a decisão política porque não quero mais que nenhuma mulher morra”. Foi um dia de pânico no mercado financeiro, com dólar nas alturas. Fernández venceu as eleições, mostrando que o pânico não era exatamente do eleitorado. Era, mais uma vez, uma reação orquestrada em torno da “maldição do aborto” por estruturas e atores conservadores. Em dezembro de 2020, a Lei de Interrupção Voluntária da Gravidez foi aprovada na Argentina.

Já no Chile, onde qualquer tipo de aborto era proibido até 2017, a então presidente Michelle Bachelet foi pessoalmente ao Congresso apresentar o projeto de Lei que deixou para trás a criminalização absoluta, herdada da Era Pinochet, para fazer uma reforma parcial da lei naquele ano. Desde então, o debate avançou e em março deste ano foi inserida no texto da nova Constituição chilena a descriminalização total do aborto. O artigo que será votado com toda a Constituição em plebiscito no país em 04 de setembro vai além, inclusive, dos argumentos da saúde pública: “Todas as pessoas são titulares de direitos sexuais e direitos reprodutivos. Estes incluem, entre outros, o direito de decidir livremente, de forma autônoma e informada sobre o próprio corpo, sobre o exercício da sexualidade, reprodução, prazer e contracepção”. Até agora, o país conta com “as três causales”, ou as três situações, como no Brasil, em que a lei prevê o direito de a mulher interromper a gravidez. Na Colômbia, o aborto foi descriminalizado até a 24ª semana, neste 2022, também ano eleitoral. Todos esses exemplos indicam um caminho possível para a política latino-americana e seus líderes democráticos. É argumento para o Brasil de 2022.

5.

Ficar no senso comum que “falar sobre acesso ao aborto no Brasil em 2022 significa dar votos a Bolsonaro”

Esse senso comum pode ser substituído pela seguinte afirmação: falar sobre aborto de forma rasa e superficial pode beneficiar o grupo antiaborto, portanto, o grupo bolsonarista.

O debate sobre aborto não é um tiro no pé. A decisão de ignorar a pauta e, dessa forma, permitir que seja utilizado pela direita quando for conveniente atribuir aos seus oponentes a imagem de “abortistas” e “genocidas de inocentes” é que se trata de um grande erro. O aborto é um tema das eleições 2022, fale Lula sobre ele ou não –  e se a mídia e outros atores da sociedade assumirem o compromisso de fazer esse debate com seriedade desde agora estarão contribuindo para que o eleitorado esteja mais informado e inserido na pauta quando surgirem os argumentos e ataques que têm a religião como pano de fundo.

Além disso, a leitura de que “falar em aborto no debate eleitoral significa dar votos a Bolsonaro” é reducionista no contexto em que o Brasil tem algumas outras urgências além de garantir vida digna às mulheres: durante o Governo Bolsonaro o Amazonas atingiu dois dos piores picos de queimadas desde que foi iniciada a medição, refletindo a política de desmatamento em curso no país. A pandemia, e sua ineficiente gestão federal no Brasil, agravou também a crise econômica e o Brasil voltou ao mapa da fome. Em 2021, eram pelo menos 19 milhões em situação de insegurança alimentar grave. O agravamento da fome não é apenas no Brasil, como mostrou a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), mas no Brasil a insegurança alimentar e a fome são resultados também da falta de investimento na agricultura em oposição às políticas que beneficiam agronegócio, como vêm apontando especialistas e pesquisas sobre segurança alimentar. A inflação nos alimentos fez o tomate aumentar 94,5% em 12 meses e o café, 65%. Mesmo quem não está passando fome está sentindo fortemente a crise. Por que os/as brasileiras/as escolheriam seu próximo presidente apenas pelo debate sobre direitos reprodutivos?

6.

Argumentar a favor do direito ao aborto condenando o uso do Misoprostol

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Mesmo entre as analistas, jornalistas e formadores/as de opinião que concordavam ser importante o ex-presidente Lula abordar publicamente a importância do acesso ao aborto legal na rede pública pelas brasileiras, houve argumentos que precisam ser revistos e analisados à luz da realidade da saúde pública. A condenação do uso de fármacos como o Misoprostol vai na contramão das recomendações e métodos já validados pela Organização Mundial da Saúde. Há pelo menos 10 anos a ciência já repercute que o uso do misoprostol reduz em até ⅓ complicações de cirurgias abortivas. As versões falsificadas vendidas em camelôs no Brasil colocam as mulheres em risco, não há dúvida, assim como o uso do medicamento sem a garantia de assistência médica, o que em caso de qualquer complicação pode ser fatal. Mas o uso do Misoprostol que segue os protocolos já estabelecidos pela OMS seguido da garantia de assistência médica é procedimento já da saúde pública. O aborto farmacológico, na fórmula que combina Misprostol e Mifepristona, é hoje o método oferecido pelos sistemas de saúde na maioria dos países em que o aborto é legal, como é o caso do Uruguai, México [Cidade do México], EUA e França, entre outros. Na Argentina, o governo adquiriu, em 2021, primeiro ano pós-descriminalização, 110.550 tratamentos de Misoprostol. Lá o Ministério da Saúde comunica sem tabus como o aborto com comprimidos  deve ser realizado e já solicitou a aprovação do uso da Mifespristona.

7.

Insistir no debate sobre aborto sem usar dados públicos

Se há algum consenso relacionado ao aborto no Brasil é que esse debate nunca se massificou ou foi tratado como questão de saúde pública de forma contínua. Porém, todos os dias mulheres abortam clandestinamente no país, a despeito do que pensam e falam líderes religiosos e políticos antiaborto. A afirmação do ex-presidente Lula sobre mulheres pobres estarem mais vulneráveis às complicações do aborto e correrem risco de vida já foi provada em pesquisas qualitativas e quantitativas. Não que precisasse, por ser óbvio. Mas os dados públicos vão além disso. Mostram que mulheres de todas as religiões abortam. Mostram que muitas vezes elas já são mães e querem interromper uma segunda, terceira ou quarta gravidez indesejada. Mostram que o aborto seguro pode reduzir custos para o sistema público de saúde. Ao olhar para os dados relacionados ao aborto no país – e na América Latina e em países desenvolvidos – se torna evidente que existe produção suficiente para se realizar um debate contínuo e embasado que possa evidenciar que insistir na criminalização não faz nenhum sentido do ponto de vista da gestão da saúde pública, da gestão de recursos, além de ir na contramão das políticas de equidade de gênero. Neste momento o debate não é necessariamente sobre a descriminalização total do aborto no Brasil em 2022, mas sobre a urgência de desobstruir essa conversa a partir do acúmulo existente nos bancos de dados e nas avaliações feitas das políticas de saúde da mulher. E uma vez que o assunto estiver na mesa, nos holofotes, e não engavetado, qualquer candidato/a pode falar sobre o acesso ao aborto, sobre a diferença entre o acesso das mulheres ricas e pobres, sem que isso gere comoção ou seja entendido como munição para os que se opõem ao direito de as mulheres viverem dignamente.

* Giulliana Bianconi é codiretora da Gênero e Número.
* Sonia Corrêa é co-coordenadora da Sexuality Policy Watch.

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