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Câmara dos Deputados terá menos homens brancos e mais mulheres brancas, negras e 1ª indígena em 20198 min read

Talíria Petrone (PSOL), uma das dez candidatas mais votadas do RJ e a única negra eleita deputada federal do Estado| Foto: Arquivo Pessoal

Câmara terá 50% mais mulheres no próximo ano do que as que elegeu em 2014, e entre elas estão muitas abertamente feministas, a primeira indígena a chegar ao Congresso Nacional e cinco mulheres pretas; PT e PSL, maiores bancadas eleitas, também são os partidos com mais mulheres.

Por Carolina de Assis, Marília Ferrari e Natalia Leão*

Um avanço para as mulheres na Câmara dos Deputados: em 2019, haverá 50% mais mulheres na casa do que havia em 2015. No pleito realizado neste domingo (07/10), foram eleitas 77 deputadas federais, 26 a mais do que em 2014. Aumentou o número de negras – de 10 para 13 – e de brancas – 41 para 63 -, e Roraima elegeu a primeira mulher indígena para o Congresso Nacional: Joenia Wapichana, da Rede.

Para que mais mulheres ocupem o espaço que lhes cabe na Câmara dos Deputados, menos homens precisam ser eleitos. E foi o que aconteceu neste domingo: 436 homens foram eleitos, enquanto em 2014 foram 462. Mas nem todos os grupos de homens perderam. Enquanto o número de deputados negros passou de 93 em 2014 para 113 em 2018, e dois deputados amarelos foram eleitos neste ano, o número de homens brancos eleitos para a Câmara caiu de 369 para 321.

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Clara Araújo, cientista política e professora da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), avalia que vários fatores contribuíram para este aumento no número de mulheres na Câmara. O primeiro deles é o fato de estas serem eleições “atípicas”, que ocorridas em meio a uma significativa mudança no quadro político brasileiro que vem se configurando nos últimos anos. Segundo ela, em todo o mundo, são em contextos de “guinada” política que as mulheres costumam avançar no Parlamento.

Outro fator é que as mulheres conquistaram em 2018 o direito de acessar proporcionalmente à sua representatividade no total de candidaturas os recursos eleitorais de seus partidos, como determinaram o STF (Supremo Tribunal Federal) e o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) na primeira metade deste ano. Junto com a lei de cotas, que determina o mínimo de 30% de candidatos de cada gênero nas listas de candidaturas proporcionais, “isso obriga os partidos a tentar priorizar de alguma forma mulheres que tenham mais chance [de serem eleitas] e a distribuir o financiamento. Temos vários estudos mostrando o efeito do dinheiro sobre as chances eleitorais”, disse ela à Gênero e Número.

O pleito de 2018 também trouxe com força o discurso de “fora todos”, o que levou a uma demanda por candidatas e candidatos “outsiders”, pessoas que até então estavam fora da política tradicional. Houve também o papel preponderante das redes sociais, especialmente do WhatsApp, como veículo de propaganda política nestas eleições e que exige recursos menores do que as campanhas que se baseavam no horário eleitoral televisivo, por exemplo.

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O PT (Partido dos Trabalhadores), que ficou com a maior bancada na Câmara, também foi o que mais elegeu mulheres: são 10 deputadas entre as 56 cadeiras que o partido conquistou. Em seguida vêm o PSL (Partido Social Liberal), do candidato presidencial Jair Bolsonaro, com nove mulheres e a segunda maior bancada na casa (52), e o PSDB, com 29 cadeiras, oito delas ocupadas por mulheres.

Se hoje temos uma popularização no Brasil, com certeza é do feminismo contra o fascismo, e isso teve resultado nas eleições.

Sâmia Bomfim, deputada federal eleita pelo PSOL/SP

A pesquisadora Araújo também aponta que essa configuração indica uma polarização entre as mulheres na Câmara dos Deputados na próxima legislatura. As esquerdas têm tradição em investir em candidaturas de mulheres e em elegê-las, e a novidade é o número significativo de mulheres em partidos de direita, como o PSL. A professora da UERJ rejeita “ideia de que as mulheres são essencialmente anticonservadoras”. “Pelo contrário”, disse Araújo.

“Uma das pautas dessas candidaturas [de direita] é a agenda conservadora. O discurso falso de que a esquerda desestabiliza a família, a misoginia… Em torno dessa composição moral acho que vai se dar o grande desafio, ao lado de outras agendas que também terão impactos sobre as mulheres, como a reforma trabalhista. Acho que vem uma agenda conservadora bem pesada nesse sentido”, afirmou.

Sem mudanças no Senado

Se as mulheres passaram de 9% para 15% na Câmara dos Deputados entre 2014 e 2018, no Senado elas continuam no patamar de 16% que estavam antes destas eleições. Em 2019, elas continuam sendo 13 dos 81 senadores. Entre elas, nenhuma preta, mas 11 brancas e duas pardas – uma delas, Eliziane Gama (PPS-MA) eleita neste domingo, enquanto a outra, Fátima Bezerra (PT-RN), foi eleita em 2014 e cumpre a partir de 2019 a segunda metade do mandato de oito anos. Entre os homens, há 15 negros (três pretos e 12 pardos) e 53 homens brancos.

A configuração do Senado ainda pode mudar depois do segundo turno das eleições: Bezerra e Antonio Anastasia (PSDB-MG) disputam o governo de seus Estados e estão no segundo turno da disputa. Caso vençam, assumem seus suplentes, e o Senado perde uma das duas mulheres pardas da casa e ganha mais dois homens brancos: Jean-Paul Terra Prates, primeiro suplente de Bezerra, e Alexandre Silveira, que substituiria Anastasia.

*Carolina de Assis é editora, Marília Ferrari é infografista e Natália Leão é analista de dados da Gênero e Número. Colaborou Vitória Régia da Silva, repórter da Gênero e Número.

Esta nota foi atualizada às 15:47 para incluir os comentários da pesquisadora Clara Araújo.

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