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“Mulheres não são eleitas porque não são financiadas”, afirma Laisy Moriére11 min read

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Há mais de três décadas vivenciando a política, a atual secretária nacional de mulheres do PT, Laisy Moriére, não tem meias palavras. Ela avalia, com um olhar de quem conhece a máquina por dentro, o funcionamento partidário quando o assunto é gênero, e diz que não há como ampliar a representatividade feminina sem discutir continuamente as finanças do partido e uma reforma eleitoral mais ampla. Nesta terceira edição da Gênero e Número, Moriére traz à tona o machismo de cada dia no partido brasileiro que apresenta a menor diferença no número de homens e mulheres no Diretório Nacional.

 

Por Natália Mazotte*

GÊNERO E NÚMERO – Como foi seu início de trajetória na política e no PT?

 

Laisy Moriére – Quando entrei no PT, ainda era universitária, e minha entrada foi pelo movimento estudantil. No início dos anos 80, essa questão do feminismo já estava presente na atividade política. Já se discutia as diferenças de gênero. E, se olharmos a história do partido, sua formação vem muito do movimento sindical e das comunidades de base, e nessas espaços sempre houve muitas mulheres. No seu primeiro manifesto, o PT já tratava da representação das mulheres, já reconhecendo a opressão feminina.

Na maioria dos partidos, as mulheres não ocupam nem um quarto das comissões executivas e dos diretórios nacionais. O PT é hoje o que conta com mais mulheres em seu diretório nacional, chegando bem próximo à paridade de gênero nesse espaço. A que se deve essa forte presença feminina no partido?

 

Laisy – Na convenção do partido de 1991, as mulheres trouxeram a discussão das cotas afirmativas, propondo que fossem no mínimo 30% nas instâncias partidárias. Isso foi aprovado e elas passaram a estar mais presentes nas instâncias do partido. Mas isso não foi o suficiente. Em 2011, 20 anos depois que aprovamos a cota, aprovamos também a paridade, por isso que vemos hoje que, na direção atual do PT, as mulheres são praticamente metade dos membros. Essa direção é a primeira depois que a paridade foi colocada como uma questão de estatuto, junto com a cota de juventude e a cota racial. Estamos vendo pela primeira vez isso em um partido no Brasil. Mas a paridade é um número, e o número não é suficiente para dar às mulheres o poder de decisão e o protagonismo que elas devem ter. O machismo que permeia a sociedade brasileira também está no PT, não é por ser um partido de esquerda que deixa de ter machismo, ele pode ser mais brando ou menos evidente, mas está presente nas relações sociais internas do partido.

Apesar dessa preocupação interna do partido, o número de mulheres que disputaram pela legenda ainda se mantém bem próximo da margem mínima estabelecida por lei, de 30%. Em muitos casos, os partidos só cumprem essa cota com candidaturas fictícias, como mostramos em uma das reportagens dessa edição. Que ações o partido tem tomado para tentar ampliar esse número?

 

Laisy – Essa questão das candidatas é complexa. Os partidos políticos não investem para que as mulheres sejam, de fato, candidatas. E a lei não estabelece 30% para mulheres, o certo é dizer que não podemos ter mais de 70% de candidatos de um único sexo, isso a justiça eleitoral não permite mais. É outro jeito de falar e isso tem um efeito. Os partidos só começam a pensar nas mulheres em ano eleitoral. Chega o ano eleitoral e aí eu ouço ‘Laisy, precisamos de mais mulheres’. Ou seja, são mulheres pra formar chapas de homens. Se não tem 30%, diminui os homens, ué. A luta por essa mudança de percepção tem que ser cotidiana e não pode vir só em ano de eleição.

“São homens brancos e velhos que ocupam essas lideranças. Não há menos espaço, o que precisamos é brigar por esse espaço, isso cabe a nós”

Existem ações internas de capacitação ou articulação de mulheres?

 

Laisy – Damos formação política para as mulheres do PT, discutimos feminismo, discutimos opressão, para tentar avançar internamente. Promovemos seminários, encontros, reuniões para criar mecanismos para vencer a questão do machismo. Mas não há receita. A Argentina está passando por uma reforma eleitoral e as mulheres dos partidos de direita, centro e esquerda fizeram um acordo. Querem paridade nas cadeiras, senão nada mais na reforma vai caminhar, isso está em disputa por lá. Tem que ser nas cadeiras, que era a proposta das mulheres na última reforma política, tímida, com 10% de cadeiras, mas nem isso conseguimos aprovar, não conseguimos nos organizar pra isso.

Vendo os dados dessa eleição, a primeira desde que o financiamento de empresas às campanhas foi proibido, o financiamento do PT aos candidatos à vereança não foi tão equânime. Como essa questão é discutida internamente?

 

Laisy – As mulheres não são eleitas porque não são financiadas, a maior parte do financiamento sempre foi para os homens. Essa é a discussão que precisamos fazer, do financiamento, mas as mulheres não fazem, ou só fazem na época da eleição. Tem que ser uma discussão constante. É um processo de mudança de padrão de comportamento político, do partido e da sociedade. O que fazer para ter financiamento não é discutido pelas mulheres. Só em 2009 ficou aprovada a destinação de no mínimo 5% do fundo partidário para mulheres, é muito recente. Mas ainda é muito pouco. E isso foi aprovado, mas não foi regulamentado. Ficamos internamente brigando, os homens que coordenam as finanças partidárias e temos que sempre abrir diálogo e disputa política pelos recursos. Não é uma discussão fácil, mas precisa ser feita.

Apesar dessa presença massiva, as lideranças que aglutinam as tendências petistas – dissidentes de uma linha de pensamento majoritária dentro do partido – são, em sua maioria, masculinas – Lula, Humberto Costa, José Dirceu, Valter Pomar, Tarso Genro, Arlindo Chinaglia. Também vemos vários exemplos de mulheres proeminentes dentro do partido que deixaram a legenda: Marina Silva, Heloisa Helena, Luciana Genro, Luiza Erundina, Marta Suplicy. Há menos espaço para as lideranças femininas no partido?

 

Laisy – São homens brancos e velhos que ocupam essas lideranças. Não há menos espaço, o que precisamos é brigar por esse espaço, isso cabe a nós. Essas mulheres que deixaram o PT, deixaram por coisas específicas, e cada uma foi tratada internamente pelo partido de forma diferente. Não dá pra generalizar.

 

Mas você diria que houve um componente machista nesses casos, ou em alguns deles?

 

Laisy – Sim, houve uma questão de gênero, para algumas mais forte que pra outras. A disputa político-partidária é disputa de poder. E a relação entre homens e mulheres nessa briga pelo poder não deixa de existir. Mas as mulheres também precisam tomar consciência disso. Tem mulheres que são discriminadas, sofrem machismo e acham que é normal. As mulheres também reproduzem o machismo na vida política delas. Ter mais mulheres em cargos de poder pra fazer como os homens não adianta.

 

Percebo nas reuniões do PT que, mesmo tendo metade de mulheres, quando uma mulher se inscreve e começa a falar na reunião, os homens acham que é o momento deles conversarem. Eu particularmente paro de falar, e sei que irrito profundamente alguns deles

Dilma foi a primeira mulher a assumir a presidência no Brasil, foi reeleita nas urnas e logo depois sofreu um impeachment. Você acredita que houve sexismo no processo que culminou no afastamento da presidente?

 

Laisy – Sem dúvida. É difícil você ver na política, quando se está tratando de um homem, exaltarem atributos físicos ou da vida íntima. Mas quando é com as mulheres isso acontece o tempo todo. Vou pegar o exemplo da Marta [Suplicy]. Quando foi prefeita de São Paulo, saía na capa do Estadão e da Folha os pés dela, o sapato que ela tava usando, a saia que ela tava usando. Isso é o componente machista da política. A Dilma sofreu isso. Nenhum outro presidente na história do Brasil teve um adesivo que insinuava uma questão sexual, como o que foi o que fizeram da Dilma com as pernas abertas. O impeachment não foi só por isso, mas o sexismo contribuiu enormemente. Quem começou as manifestações em favor da Dilma foram as mulheres, de todas as classes sociais. As mulheres se sentiram também violentadas nesse processo.

 

Quais são, na sua opinião, os pontos críticos da desigualdade de gênero no Brasil? Você acredita que, durante os 13 anos em que se manteve no poder, o PT conseguiu encaminhar mudanças significativas nessa agenda?

 

 

Laisy – Precisamos ter mais mulheres na política e essa precisa ser uma bandeira de todo o tempo, precisa ser a bandeira das mulheres, se elas não estiverem nos lugares decisórios, vao ser sempre excluídas. O evento do PT lançar a Dilma à presidência e ela ganhar gerou entre as mulheres brasileiras, de todas as classes sociais, um sentimento de que elas têm capacidade e podem. Tem havido um despertar das mulheres. As jovens feministas hoje nas ruas têm muito a ver com esse despertar e acho que o PT contribuiu pra isso. Há políticas públicas para combate dessa desigualdade que foram encaminhadas por nós. Nunca na história o Brasil teve tantas ministras como no governo Dilma. Esse atual governo não tem mulheres e tem tentado destruir as políticas para mulheres, porque acha que tem um lugar pra elas que não é esse da disputa de poder.

Você já viveu ou testemunhou alguma situação de machismo dentro do partido, em que mulheres não tiveram voz ou foram desconsideradas em decisões relevantes?

 

Laisy – Já ouvi coisas de companheiros de partido como “não me venha com esse discurso feminista barato”, quando eu estava discutindo uma posição política. Não se tratava de feminismo naquele momento, mas foi a forma de rebaixar a minha posição. E isso é violência política. Mas é difícil lutar. Se você se posiciona toda vez que um companheiro faz uma piada machista sobre outra mulher, você fica rotulada de “a chata feminista que briga por tudo”, e aí eles param de te ouvir. É extremamente machista, mas é preciso levar na esportiva de vez em quando. Percebo nas reuniões do PT que, mesmo tendo metade de mulheres, quando uma mulher se inscreve e começa a falar na reunião, os homens acham que é o momento deles conversarem. Eu particularmente paro de falar, e sei que irrito profundamente alguns deles. Mas quando é um homem que está falando, todos estão calados prestando atenção. Na contagem do tempo de fala também vemos isso, quando é um homem falando essa contagem não é tão estrita. Eles acham que nossa fala não tem importância. E isso é cotidiano.

Natália Mazotte é jornalista e codiretora da Gênero e Número.

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