Saída dos EUA da Convenção do Clima é revoltante, mas país sempre atrapalhou mais do que ajudou

EUA legitimam o comportamento de outros governos que já vinham buscando brechas para reduzir compromissos.

Imagem: Montagem com fotos Aaron Burden e Ricardo Gomez/ Unsplash; imagem de satélite da Faixa Petrolífera do Orinoco, Venezuela/ Google Maps

Mariana Belmont

Começamos 2026 caindo de cara no chão. BAM!

Senti que estava em um conto de fadas do descanso, com meus amigos na beira da piscina gastando o cartão de crédito como se não houvesse amanhã e, quando ocorreram os ataques imperialistas à Venezuela, dentro da nossa América Latina. Foi horrível, sinto dores no corpo até agora só de lembrar. Não vamos romantizar aqui a América Latina, meus queridos, falo com cautela sobre o assunto, apesar da raiva constante dos EUA.

A política estadunidense em relação ao petróleo venezuelano expõe uma lógica predatória que agrava ainda mais a crise climática global. A Venezuela detém as maiores reservas de petróleo comprovadas do mundo, e planos recentes dos Estados Unidos para recuperar e expandir sua exploração colocam em risco os compromissos de aquecimento abaixo de 1,5 °C – que já foi com Deus também.

Análises apontam que o aumento da produção venezuelana poderia consumir até 13% do orçamento global de carbono restante, justamente pelo alto conteúdo de carbono de seu petróleo pesado, um dos mais poluentes do planeta. Além disso, a intensificação da extração e uso desse óleo não só impulsiona emissões de CO₂, como acelera a liberação de metano e outros gases de efeito estufa por meio de queima e vazamentos, ampliando o impacto climático para além das fronteiras venezuelanas.

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Neste quadro, a insistência dos EUA no mote “drill, baby, drill” (“perfure, bebê, perfure”) em território alheio, descrita por críticos como uma forma de neocolonialismo energético que privilegia interesses corporativos sobre vidas e ecossistemas, representa uma face brutal da conexão entre poder geopolítico e destruição ambiental.

Os caras saíram correndo da Convenção do Clima – para surpresa de ninguém

A decisão dos EUA de se retirar da Convenção do Clima da ONU, o principal tratado multilateral para articular respostas globais ao aquecimento, representa o aprofundamento do retrocesso em curso do sistema climático internacional.

A saída dos EUA não deveria chocar ninguém, sinceramente. Pode indignar, pode irritar, pode gerar consequências graves, mas surpresa, definitivamente, não é. Trata-se menos de um rompante e mais da reafirmação de um comportamento conhecido: a conta é sobre petróleo e dinheiro. Nesse caso, o compromisso climático é assunto descartável.

Em um mundo já marcado por secas prolongadas, incêndios fora de controle, enchentes cada vez mais frequentes e ondas de calor recordes, Washington decidiu abandonar o principal espaço multilateral de coordenação climática. Não porque a crise tenha diminuído, mas porque ela passou a atrapalhar outros interesses. A mensagem é simples: o problema não importa o suficiente para o presidente do país que mais polui no mundo, e não é o suficiente para limitar poder, petróleo e margem de manobra geopolítica.

Na COP30, realizada em Belém, a ausência dos EUA foi sentida de forma quase protocolar. Todos lamentam, mas alguns sabem que o país sempre mais atrapalhou do que ajudou nos avanços nos trinta anos de Conferência.

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É caso menos indignação e mais aquele constrangimento diplomático típico de quem já esperava pouco. As negociações seguiram, os discursos foram feitos, os textos finais saíram, mas o vazio político deixado pelos EUA ajudou a produzir um acordo tímido, cheio de remendos e com a velha promessa de “avançar no diálogo”. Nada exatamente novo sob o sol.

O impacto mais concreto da saída americana aparece onde sempre aparece: no financiamento climático. Países em desenvolvimento seguem ouvindo discursos sobre responsabilidade compartilhada enquanto veem recursos minguarem, promessas serem adiadas e fundos ficarem aquém do mínimo necessário após anos para serem definidos na prática. A crise climática continua sendo tratada como problema coletivo na retórica e como custo alheio na prática.

Há também um efeito simbólico importante. Quando os EUA saem da Convenção, ajudam a normalizar a irresponsabilidade climática. 

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A debandada americana é obviamente uma má notícia, mais que isso, sinaliza para outros países com líderes de extrema direita que podem seguir com seu petróleo no topo e se retirarem dos espaços de discussão e decisões coletivas.

Os EUA não inauguram nada, apenas legitimam o comportamento de outros governos que já vinham buscando brechas para reduzir compromissos, flexibilizar metas ou empurrar decisões para frente.

A régua desce, o discurso endurece e a conta segue concentrada nos mesmos lugares de sempre.

Para o Sul Global, o cenário é conhecido: mais responsabilidades, menos recursos, maior exposição aos impactos climáticos, mais vulnerabilidade, mais mortes, mais perdas da biodiversidade, mais e mais desastres climáticos e políticos. Países que menos contribuíram para o aquecimento seguem sendo cobrados por “liderança”, “ambição” e “flexibilidade”. Seguem esperando.

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No fim das contas, a saída dos EUA da Convenção do Clima não anuncia o colapso do regime climático – ele já era frágil antes. O que ela faz é escancarar seus limites.

O problema nunca foi apenas técnico ou científico. Sempre foi político. E, enquanto a crise climática continuar sendo tratada como variável negociável diante de interesses econômicos imediatos, decisões como essa deixarão de ser exceção para se tornar regra. Não precisamos esperar que os estadunidenses se conscientizem, precisamos denunciar e pressionar todos os dias por responsabilização.

E, vale lembrar, são as pessoas mais vulnerabilizadas nos EUA e em todos os países, que já estão sofrendo os impactos. Mulheres, em especial mulheres negras e indígenas, populações negras, crianças, imigrantes, idosos e pobres do mundo inteiro, todos alvos de Trump e seus absurdos decisões para destruir o mundo. 

Este texto é uma coluna de opinião. As análises e posicionamentos aqui apresentados são de responsabilidade da autora ou do autor e não refletem, necessariamente, a posição editorial da Gênero e Número.

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Mariana Belmont

Mariana Belmont é jornalista, nascida em Parelheiros (extremo sul da cidade de São Paulo), trabalha com articulação e comunicação para políticas públicas. Atuou em cargos no governo sobre questões ambientais e de habitação na Prefeitura da cidade de São Paulo. Trabalhou como coordenadora de comunicação e articulação do Mosaico Bocaina de Áreas Protegidas pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Foi Superintendente de Programas e Diretora de Clima e Cidade no Instituto de Referência Negra Peregum. Foi colunista do UOL e agora escreve mensalmente para a Gênero e Número. Também é ativista, parte de movimentos ambientalistas e periféricos. Recentemente foi editora convidada da Revista "Diálogos Socioambientais: Racismo Ambiental" da Universidade Federal do ABCD. É organizadora do livro “Racismo Ambiental e Emergências Climáticas no Brasil” (Oralituras, 2023). Atualmente é Assessora sobre Clima e Racismo Ambiental de Geledés - Instituto da Mulher Negra.

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