Mariana Belmont
A branquitude opera pela produção de territórios de exclusividade, que são construídos e explorados pelo mercado. A novidade é que agora comunidades são ainda mais assediadas com falácias de soluções verdes criadas por esse mercado. Essas soluções são sempre baseadas em lucro e recursos para empresas, nunca em melhoria e qualidade de vida do território e suas comunidades.
O estudo Em nome do clima: mapeamento crítico investiga projetos que se propõem a enfrentar as mudanças climáticas, ao mesmo tempo em que joga luz sobre temas como transição para energias renováveis – eólica e hidrogênio verde, por exemplo -, políticas de uso do solo e florestas e projeção do aumento da mineração de lítio no país. A pesquisa foi coordenada pela Fundação Rosa Luxemburgo, em parceria com o Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade (CPDA/UFRRJ).
Assine a nossa newsletter semanal
O estudo começa discutindo a transição energética através do mapeamento e da análise de projetos e políticas associadas às eólicas, hidrogênio verde e mineração no Brasil. Depois, apresenta as iniciativas de Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação florestal (REDD) na região amazônica. E destaca as certificadoras, as ONGs conservacionistas e as empresas que adquirem créditos de carbono.
Apesar do discurso “verde” apresentado pelas corporações responsáveis pelos projetos mapeados, o estudo identificou um aumento significativo na demanda por novos minerais considerados críticos e estratégicos para viabilizar a produção de equipamentos de alta tecnologia, como baterias, painéis solares, aerogeradores e carros elétricos.
O Estado não pode mais errar em eventos climáticos extremos
Na mineração de lítio, um dos componentes usados na bateria de carros elétricos, a taxa estimada de extração anual é de mais de 8.000% e, com isso, o Brasil vem se lançando na corrida pelo propagandeado “mineral do futuro”, em especial no estado de Minas Gerais, no Vale do Jequitinhonha.
Em 2022, o país removeu as restrições para exportação do lítio, que até então era de uso exclusivo do Estado, ocasionando o processo chamado de “extrativismo verde”, que traz graves consequências, como a destruição do meio ambiente e a expulsão de comunidades tradicionais.
Ainda nesse contexto, o trabalho revela que megaempreendimentos de energia eólica e mineração tornaram-se alvo de denúncias por comunidades afetadas e organizações sociais. Os impactos desses projetos, desde suas dimensões até os processos de instalação, privatização de territórios e efeitos na produção, consumo e exportação de energia, geram preocupações socioambientais.
Movimento Negro na Conferência do Clima da ONU
O fantasma do mercado de carbono no Brasil
O estudo também reflete práticas voltadas à compensação de carbono e “carbono neutro” num mercado voluntário, que se apresenta como uma forma de empresas e grandes corporações construírem narrativas sobre serem ambientalmente responsáveis e comprometidas com o combate às mudanças climáticas, sem precisar alterar suas práticas.
Um produto carbono neutro é aquele que busca compensar todas as emissões de gases de efeito estufa (GEE) associadas a ele, de forma a neutralizá-las. Essas compensações, em teoria, devem ocorrer por meio de projetos certificados e reconhecidos, que focam na redução de emissões ou até mesmo no sequestro ou remoção de CO₂.
Vale ressaltar que a regulação do mercado de carbono brasileiro tem sido um dos temas quentes atuais. O governo federal concluiu a proposta de regulamentação do mercado de carbono e espera a aprovação até a COP30, que acontecerá em Belém do Pará, em 2025. Mas o tema ainda é confuso e espinhoso, especialmente nos territórios com povos e comunidades tradicionais.
Nego Bispo e a verdade na COP28
É fundamental considerar não apenas as dimensões climáticas, mas também as relações sociais, de classe, raça e gênero envolvidas na produção e na distribuição da energia. Projetos como a Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação florestal (REDD) na Amazônia são analisados sob a ótica da financeirização da natureza, o que gera novas formas de acumulação de capital e perpetua o racismo ambiental, além de aumentar as desigualdades sociais.
A problemática das mudanças climáticas, mais que qualquer outro tema ambiental, tem dominado o debate internacional, de governos, empresas e instituições multilaterais, assim como de organizações e movimentos sociais. Mais do que suas causas, grande parte do debate gira em torno dos impactos e das possíveis soluções para seu enfrentamento, em particular estratégias políticas e tecnológicas para reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Mais práticas coloniais, pintadas de verde, sem nenhuma preocupação socioambiental ou com a população local.
Se o discurso das empresas, de organizações da sociedade civil alinhadas com o liberalismo climático, sobretudo quando o assunto é financiamento, e do governo seguir linhas confusas e não identificar violações de direitos, teremos um grande problema, maior do que sentir sessenta graus em um domingo no sudeste.
Não haverá nenhum mecanismo de compensação de carbono, mercado de carbono ou políticas internacionais que deem conta dos 450 anos de escravização da população negra no Brasil. Desse modo, as negociações sobre emergência climática precisam ser reparatórias e, mais que tudo, propor um novo pacto civilizatório, que garanta a existência da diversidade de gênero, raça, modos de vida, cidadania e humanidade.